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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Não há regimes perfeitos - parte 1



Em Braço de Prata, chovia copiosamente no recinto da fábrica e os muros desfaziam-se de areia amarela com as investidas de água furiosa.
Só o Vhils me olhava fixamente por detrás do vidro infestado de gotas de água que cresciam como uma epidemia incontrolável.
De água, lama, cinzento, caminhos afundados em mares revoltos, terrenos abandonados à tempestade a uma profunda crise de identidade.
Só Vhils me olhava fixamente, a forte personalidade do muro frontal enfrentava a erva que crescia como uma barba verde que o envolvia mas que lhe preservava a essência.
Vi muitas imagens que chapinhavam nos lagos circundantes, sempre acreditei que a chuva era um manancial de imagens, mas era eu próprio que me afogava sem orientação porque as quedas de água impediam que eu voltasse às margens.
Perdi a inauguração mas não a exposição que jazia agora entre aguarelas e pincéis, entre risos e gritos de crianças que desafiavam o teatro de marionetes, um eco persistente de gotas de chuva que pingavam nos baldes sem cor, espalhados nos corredores de mosaico antigo, um mosaico de fábrica, portas de madeira com vidros quadrados e maçanetas metálicas, portas de fábrica, vidros de fábrica e claraboias que ampliariam o sol mas ameaçavam de chuva, no soalho de madeira gasta que resiste nas salas com nomes mas sem portas (espaços que não se reclamam seus)


Atravessei o espaço silencioso, uma vez e outra ainda, para ter a certeza de ser notado, porque não há pior associação do que ser clandestino num dia de tempestade e num local fantasmagórico.
Não fossem os risos das crianças que, afinal de contas, nunca apareceram, nem elas nem as marionetas.
Mas o café era real e as madeiras do balcão eram de um tempo novo, inspiravam conforto por detrás das vidraças que (só podiam estar) que se deixavam embaciar, primeiro nas pontas, depois sobre as laterais absolutamente simétricas das pequenas vidraças quadradas, e afinal havia alguém que lia um livro sob a janela e de bule de chá no centro de mesa.
E voltei a percorrer os lagos circundantes e as quedas de água que eliminavam a identidade dos terrenos da fábrica e, encharcado na pele e na alma, deixei o Vihls partir.
(Atravessei a cidade que era apenas um manto de água que me cobria e me arrastava, estrada fora)
Chovia copiosamente, e eu lembrava-me que o tempo continuava instável , enquanto os para-brisas se esfregavam ruidosamente na minha frente e no vidro encharcado, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, soando a uma enlameada alternância de poder.


E atravessei as Amoreiras na direção de Campo de Ourique.
No bairro dos vizinhos e das mercearias, as árvores extravagantes da rua do elétrico serviam de cortina ao céu cinzento e reduziam o branco da calçada portuguesa a um véu encardido que afogava os restos da luz do dia.
Do lado de dentro da montra, as paredes estavam pintadas de cores fortes, a iluminação era cuidada e pontual e nas paredes, cuidadosamente espaçadas, brilhavam as imagens de uma cor inconfundível, em contraste com a tarde escura, a luz mágica dos finais de dia indianos.
Do lado de dentro da montra, as vinte imagens de grande formato, do fotógrafo da jovem afegã, dos gurus sábios, das cidades azuis, dos rios sagrados, dos comboios mágicos, das multidões de olhos muito abertos, das poeiras alaranjadas.
Para lá do vidro, num silêncio equívoco, num ambiente quase asséptico, havia vinte janelas insonorizadas viradas para a maior anarquia do mundo, desenhadas por um tal de McCurry.
Recordo-me particularmente daquelas duas imagens de um metro e sessenta por um metro, um amanhecer glorioso e aéreo da estação ferroviária de Agra e a mulher e o filho por detrás do vidro embaciado do automóvel, a mulher de mão estendida e o menino de olhos muito abertos, apostando também eles que poderiam viver da caridade na sobrelotada Mumbai.
Chovia a potes lá fora, lá fora na rua do elétrico em Campo de Ourique, lá fora na janela da galeria silenciosa e asséptica.  Desviei o meu olhar extasiado e estarrecido da imagem e espreitei, entre um corredor de imagens, para a rua esperando ver a mulher a espreitar para a galeria, vinda detrás das árvores, pisando o véu encardido que afogava os restos da luz do dia.
Mas ela não estava lá.

Estranho o silêncio que emanava da sala perante tanta intensidade, como se a maioria do desespero tivesse saltado do quadro para o chão alcatifado da galeria das paredes amarelas.