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domingo, 1 de maio de 2016

Familiar


Naquela manhã de Sol tímido e ventos circulares, havia sinais de uma vizinhança comprometida com o local e hábitos repetitivos que atravessavam as ruas do bairro.
No café da esquina, impressiona o espaço vazio das manhãs precoces, um lugar de alimentação asséptica e madeiras enceradas, sem cheiros e sem ruídos, mais de seis janelas que procuram absorver os insuficientes raios de Sol que não chegam a iluminar as penumbras escondidas debaixo dos parapeitos de madeira e da montra frigorífica.
E, ao fundo, na grande mesa redonda, senta-se um velho doente que carrega o peso de duas muletas desengonçadas que permanece silencioso.
Curvado nele mesmo, queimando o tempo que sobra (e sobra tanto) até, finalmente se arrastar até à porta e atravessar a esquina na diagonal, assegurando assim que percorre o caminho mais longo para os contornos do bairro, para lá das ruas pitorescas e das bancas do mercado diário que povoa a rua de Portobello.
E não se deteve junto à porta 208, um spot famoso de um filme de gente jovem e fulgurante, nem mesmo quando um casal proveniente de latitudes exóticas estacou, surpreso, no passeio de quadrados cinzentos e soltou, em uníssono, um grito de emoção incontida.
Tão estridente que assustaria a rua, mas não o velho curvado, desengonçado pelas muletas que o arrastavam, passeio fora, até desaparecer, sem que ninguém tenha percebido por onde.


Na paragem do 70, um vulto sobe sem dificuldade para o autocarro e, sem pressas, convence o motorista a deixá-lo entrar.
Sem esforço e sem pressa como se o tempo estivesse parado, como se o mundo tivesse deixado de girar sobre si próprio.
Lá dentro, restabelece-se o movimento e os seus gestos revelam uma conversa desconexa e sem destino. Não sobram dúvidas, para quem o observa de fora das janelas, que os passageiros não parecem entender qual o seu lugar na conversa.
Baixam a cabeça e envergonham o pescoço. O frio ajuda a esconder as suas expressões nos cachecóis e as mãos nos bolsos.
O vulto não se conforma na sua misticidade, na ausência de género predominante e no seu estatuto itinerante, e fala consigo próprio, perante a vergonha dos passageiros que viajam sós, mas que vivem nas suas próprias casas e se sentem parte de uma vizinhança habitual.
Ele também se sente, é por ali que circula enquanto a noite não regressa.
E depois, o narrador pergunta mas ele não responde porque eu não sou dali, depois, ninguém sabe.
Donde vem, para onde vai e quando voltará a atravessar-se no seu caminho, no autocarro, no pub ou no supermercado
E enquanto o 70 curvava à esquerda, sentindo que lhe faltava um andar para ser um meio de transporte credível, os transeuntes asseguravam-me que era uma mulher, mendiga e com conversas que incomodam o bairro. Àquela hora da manhã, um bairro de gente idosa.
7 minutos depois, nós entramos no 7, um autocarro em que não falta nada, nem os dois andares nem os ruídos metálicos dos cartões de acesso a acenderem a luz verde do dispositivo amarelo, todos os passageiros estão regulares, e só depois, as portas se encerram.


E, subitamente, deixei de ser narrador, senti-me em movimento e envolvido pela indiferença conhecedora dos passageiros que não me encaravam, porque sabiam que eu não era dali.
Nem a velhinha que ocupava a cadeira, junto ao corredor, da segunda fila, lado direito, de cabelo muito branco, um olhar hirto, com uma solenidade, daquelas que só se vê de bandeirinha na mão, nos desfiles da coroação ou nos casamentos dos príncipes, e que exibia sobre o peito, e sem pestanejar, um crachá redondo “Free Palestine”.
Nos contornos do bairro, circulavam agora para trás a uma velocidade variável, conforme o trânsito fluía para a frente, as utopias dos arquitetos do após guerra, que redesenharam a cidade com um rigor geométrico e um espírito reformista, suportados na crença humanista do espaço urbano como o centro da esfera social.
Utopia, porque duas gerações depois, os espaços comunitários se encontram vazios, plantados de verde e de uma velhice triste e solitária.
No primeiro andar do 7, entendo que todos os bairros têm os seus contornos, mas existem tantos bairros que depressa os edifícios comunitários desaparecem e voltam a aparecer muitos quarteirões mais tarde, entre as novas modernidades e as ruas vestidas de diversidade étnica.


Entre o 7 e o 70, entre o frio circular e a porta 208, a rua agitou-se por instantes tão breves que não chegaram a criar romaria nem burburinho.
Mas o suficiente para os carros voltarem a circular num sentido familiar (para o narrador, bem entendido), para os condutores saírem dos carros pelo lado errado e para as faces rosadas, de quem se expôs breves minutos ao Sol, varrerem a rua de uma súbita jovialidade, própria de quem sabe que a vida ainda pode ser longa.
E o meu olhar, que apenas se tinha detido sobre os seres que se esforçavam por esgotar o tempo, rebobinou as memórias recentes e descobriu, a caminho do espaço cerebral que se dedica ao subconsciente, e descobriu o jovem rosto oriental da empregada de bar que controlava (diligentemente) a caixa, e o ruivo de barba em crescimento que limpava os vidros e se equivocava com a ordem em que devia servir o café, numa lógica de pequeno-almoço meridional.


E eu aproveitei esta onda de otimismo para espreitar as estrelas do espetáculo que se debruçam sobre a janela, certo que são apenas figuras pintadas em janelas inexistentes, mas o suficiente para não ultrapassar a ténue linha que separa a curiosidade do voyeurismo.
E os nimbos e o céu azul empurravam agora as nuvens negras da manhã precoce.
E, ao ritmo do Sol em crescendo, desvaneciam-se os sinais de uma vizinhança comprometida com o local e hábitos repetitivos que atravessavam as ruas do bairro.
Misturavam-se as raízes.
E enquanto me acomodava, no lado contrário do assento do primeiro andar do 7, sorri sem sobressalto quando me senti ultrapassado por um Maserati cinzento de matrícula 07.


A diferença estava no zero e na cor.
Distâncias e estado de espírito.
E varreu-se, subitamente, a nostalgia de uma distância intransponível, que me havia assolado naquela manhã precoce do bairro de Notting Hill.

A luz do dia sempre ajuda a encurtar as distâncias e a crescer as raízes para onde houver familiaridade.