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domingo, 17 de janeiro de 2016

A cruz gamada



No templo hindu, de pés descalços e mosaicos frios de uma Delhi revestida por um manto de nevoeiro, a história de todas as religiões havia de nos ser contada por um Sikh de turbante vermelho e barriga balofa, pernas de pato e muito dado ao senso comum.
Começou por afiançar-nos que ninguém conhece nenhuma religião, porque esta – todas elas – é um mar.
E enquanto os nossos pés enregelavam, e nós pouco mais éramos capazes de interpretar a não ser o famoso Shiva, o Sikh assegurava-nos que havia pelo menos um milhão de Deuses Hindus e que o mar deles era ainda maior que o dos outros.
E continuávamos a perguntar a nós próprios porque é que não nos explicava o significado da cruz gamada, o único elemento gráfico que se sobrepunha aos Deuses da Criação, do Desenvolvimento e da Morte.
No fundo, o ciclo da vida. E o Deus da Morte apenas garante que todos nós criamos espaço para que outros nasçam.
E o Sikh depressa se entusiasmou com a sua ideia súbita de que a religião era uma invenção dos homens e que noventa por cento dos crentes apenas acreditava por temor do castigo.
Enquanto as correntes de ar percorriam os alpendres deste templo aberto eu relembrava-me do significado da cruz gamada sinistrógica, a original em que cada um dos cantos significava o mundo dos Deuses, o mundo dos homens, o mundo dos animais e o mundo inferior.
Isto apesar de um Hinduista não necessitar de ser sequer crente.
Mas o Sikh simplificou a História com a ideia de mar, apenas omitindo o facto de que o mar, apesar de grande, é finito.
E conduziu-nos a Shiva – seria o Kali? - , julgo que referindo ao Deus da morte, afinal de contas, a mãe de todas as batalhas.
E enquanto me perguntava de quantos Deuses se faz um tempo e contava pelo menos cinco, alguém me lembrava que, para estas religiões a cruz gamada invertida trás infelicidade, evoca forças obscuras e surge normalmente associada a práticas de feitiçaria.
Os tristemente célebres barretes negros, que ousaram inverter a cruz, tinham aprendido técnicas de magia tântrica e de xamanismo com uma ordem de monges tibetanos e despertaram as trevas no Ocidente.
No fundo o Sikh até tinha razão: os homens são uma espécie muito perigosa.
E enquanto ele se atrapalhava com a utilidade do KamaSutra ( e explicava que Kama era um Deus e não uma cama), aprendia perplexo que o conceito de virgem mãe não é um mito ou uma utopia, mas uma verdade científica.
Obviamente que ninguém lhe explicou que o conceito cientifico de virgem mãe implicava alguma espécie de contacto físico e uma complexa história de um espermatozóide endiabrado.
À saída do templo, havia vendedores de postais, bandeiras, óculos de sol e selos da república.
E eu expliquei-lhes que o Hinduísmo era um mar.
E eles riram-se, dentes muitos brancos numa pele muito escura!








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