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domingo, 27 de julho de 2014

Mostar - A cidade mártir



Bombardeada pelos Croatas em 93, Mostar é a prova de que não há inocentes na idiota guerra das Balcãs
Para além do pedaço de cidade reconstruída, pedra a pedra, pelas consciências pesadas das pombas europeias e do folclore do turismo multicultural, nada mais bate certo neste puzzle civilizacional.
Apesar de ter sido, e ter vivido, como fronteira dos impérios, durante séculos e, segundo rezam as crónicas, habituaram-se a viver em harmonia, igrejas e mesquitas, hoje, vinte anos depois da guerra as comunidades vivem vidas separadas, uma paz podre que se esconde por detrás do grande bazar que é a zona antiga da cidade, cheio de mercadoria sem origem definida, mas definitivamente oriental e com contornos turcos, a prova de que a cidade velha de Mostar não tem vida própria, nem comum.
À custa das contas públicas, pouco mas dispendioso Estado que, em Mostar, duplicou o seu aparelho para servir de forma distinta a comunidade muçulmana bósnia e católica croata.
Não se respira por isso naqueles becos de pedras bicudas e gastas, aquele clima de harmonia que a reconstrução da ponte pretendeu recriar.
As margens do rio estão pejadas de musculados mergulhadores profissionais que transformaram uma festa anual, num espectáculo que corre a todas as horas, haja no chapéu que passa de mão em mão, pelo menos sete euros, oferecidos por turistas que gostam de emoções fortes, protagonizadas por exóticos locais.
A margem norte do rio, enche-se de homens musculados de tronco nu que despejam cervejas na barraca de madeira que se debruça sobre a corrente que empurra o orgulho para o mar, para lá da fronteira com a vizinha Croácia.
Quando lhes perguntam – e um jovem jornalista americano perguntou, numa reportagem que não tem dois anos – qual a razão da guerra, eles não sabem, não respondem ou não querem saber.
O jovem muçulmano (seria muçulmano? Seriam os vendedores das lojas do bazar mesmo bósnios?) que controlava as entradas na (minúscula) mesquita principal incentivou a criança a subir ao minarete sem pagar e depois, estendendo a mão, colocou o dedo na boca e afirmou “não digam nada lá fora, menos quatro markas no preço, vale certamente duas markas de gorjeta”.
Achei pois que não valia a pena perguntar-lhe qual a razão da paz, pois ele talvez fosse incapaz de saber.
Mas nas vielas da margem norte, mais longe do bazar, rodeado por pequenos riachos, pontes de pedra e hotéis simples e familiares, senti que este local poderia (poderá?) ter sido (vir a ser) especial.
Se os balcânicos conseguirem superar esta geração sem se meterem em trabalhos.
Oiço um estrondo nas minhas costas e recuo assustado. Vinha do lado da ponte, mas afinal era apenas mais um musculado que se tinha lançado à água.

Sete euros depois!