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sábado, 29 de julho de 2017

A anatomia do Império


















“A alma do conhecimento não conhece fronteiras”
O iluminismo árabe contrariava a idade das trevas, que reinava a Norte.
Nas madrastas e nas bibliotecas reuniam-se estudiosos oriundos de todas as partes do Mediterrâneo que partilhavam escritos e conhecimentos.
Medicina, filosofia, astronomia e estudos religiosos
Traduziam-se os clássicos da Antiguidade Grega e procurava-se a verdade entre Islâmicos, Cristãos e Judeus, conscientes da sua origem comum.
Nos mercados não se trocavam apenas produtos, mas igualmente ideias.
E provavelmente criavam-se os mitos, oriundos de todos os confins do império, cobertos pelas vestes brancas que apelavam aos silêncios do deserto.
(os Almóadas usavam ostensivamente a religião para legitimar um projeto político)
Do Sul, vinha o ouro que lhes permitia cunhar moeda para o mundo inteiro, uma atividade tão lucrativa quanto evangelizadora porque continham mensagens claras “não é aceite que alguém professe uma religião que não o islão”.
Não havia fronteiras naturais que desfizessem em pó o poder de quem sabe manipular o ouro.
E, nestes tempos, os impérios construíam-se de Sul para Norte, como se o Sul representasse as profundezas da terra o Norte do Atlas e do Mediterrâneo os verdes prados deste florescente jardim berbere.
Não havia justiça sem monarca, monarca sem exército, exército sem impostos, impostos sem riqueza, riqueza sem justiça, a grande roda da exuberância do império.
E apesar dos momentos sublimes da História dos povos não terem normalmente finais felizes ou prosperidade infinita, há elementos comuns que explicam a supremacia das culturas.
Pragmatismo, uma grande curiosidade pelos mundos diferentes e uma roda que os alimenta.
Curiosidade não necessariamente confundida com tolerância, e a gestão habilidosa destas subtilezas é provavelmente uma das poucas heranças berberes que perdura na sociedade do Marrocos moderno.
(pressuposto muito arriscado mas em dá muito jeito acreditar)
Os Almóadas caíram em 1269, tal como a utopia de uma civilização com uma origem religiosa comum.
Duzentos anos depois, o Renascimento cristão apoderou-se dos clássicos e a norte do Mediterrâneo ergueu-se uma nova fronteira religiosa.
Marraquexe tornava-se numa capital pequena e intermitente.
Vista de cima, a Jemaa El Fna – a assembleia dos mortos – até parece que a História não mudou.
Mas, à medida que o entardecer se torna mais compacto, entendemos que o conceito de diversidade mudou de sentido.

Mas não deixa de ser místico.