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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Quarto Crescente


Vou molhar os pés a Algés
E o garrafão de água é para dar de beber aos peixes?
Não... é para o radiador
Calor, muito calor logo pela manhã e na tasca da estrada de Benfica jorram minis sobre o balcão de pedra que já não reflete o brilho dos olhos do Idalécio, que é o nome fictício do mãos de ferro que segura a mini como se o amanhã se fosse diluir na miragem que espreitava lá fora, como se o elétrico nunca tivesse abandonado o local.
O Juvenal, o nome fictício do taberneiro, de careca oleada e um longo farrapo de cabelo muito preto, forrado de brilhantina que separa a testa da lustrosa clareira que lhe cobre a extremidade superior, atarefava-se entre o barril e a máquina do café, simulando um abraço incontido à diversidade do bairro que desaguava naquela esquina, coberta de uma sombra que não aliviava o sufoco da manhã precoce.
E não paravam de entrar os veraneantes do bairro, de pernas do género palito peludo, cobertos de natas, sapatos de vela que nunca tinham visto o mar, calções com muitos bolsos e tão vincados que a natureza lhes teria franzido o sobrolho.
Cerveja, café, cerveja, café
E três sandes de presunto, e o Juvenal levantou os olhos, ajeitou o cabelo na testa, e desfez-se num sorriso redentor, enquanto os transeuntes do bairro se petrificavam de surpresa.
Momento mágico, cinematográfico, quando o realizador diz “corta”.
Silêncio e um olhar prolongado, minucioso e profundo que atingiu os estrangeiros, como um raio fulminante
Sandes?
E a malta interrompeu as especulações do tempo, as previsões do jogo do Benfica
Uns segundos apenas.
E depois riram-se muito.
E no fim continuaram a discutir as probabilidades do Benfica.
Enquanto o Juvenal corria para as traseiras de carcaças na mão, não fossem os estrangeiros desistir, por intimidação.
Só o homem do garrafão (lembram-se do Idalécio) insistia “vou molhar os pés a Algés”, e agitava o garrafão de água mineral.
Na segunda dentada da primeira sandes de presunto, o primeiro estrangeiro respondeu, olhando para o espaço vazio, situado exatamente entre o barril de cerveja e a máquina do café:
- Eu vou para o Bugio e não levo garrafão!
Novo silêncio, outro olhar certeiro, braços suspensos no ar com as minis na mão e, por fim uma risota coletiva, desdenhosa e triunfal.
- E hoje é noite de lua cheia! – Respondeu o Idalécio

E assim foi oficialmente aberta a silly season no bairro de Benfica.