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sábado, 12 de dezembro de 2015

Improvável


Olha, NZ, neo nazi – e soltou um riso alarve, apontando para a caravana estacionada no parque, do lado de fora do vidro.
E com o riso, soltou os dentes apodrecidos e despertou a atenção de quem se satisfaria apenas com um café, tomado tranquilamente ao balcão
Afinal NZ era provavelmente uma afirmação de identidade do proprietário da caravana, cuja matrícula bem podia ser oriunda da Nova Zelândia.
Mas o espécime com raízes jamaicanas e um sotaque de Alcântara pretendia certamente verbalizar a sua irreverência estética numa frase com o mesmo impacto visual.
Mas não conseguiu, acentuando apenas o aspeto de fora de época de Belém em vésperas de Natal.
Em frente, tão lá fora como cá dentro, jazia o terminal de barcos, vazio de fechado, que gemia de ruídos metálicos, provocados pelo batelão solitário que se contorcia de dores.
Nada convencional para um Sábado de manhã cheio de Sol e de temperatura amena.
O NZ e todos os outros caravanistas abriam as suas esplanadas próprias e almoçavam com vista para o rio.
E o batelão gemia contra os ferros.
E apenas alguns transeuntes se exercitavam pela beira-rio fora, procurando sem êxito manter as rotinas de um fim-de-semana de Sol junto à água.
E importante não esquecer um grupo de polacos que prolongavam hoje as preces de uma primavera em Varsóvia.
Se não fosse o silêncio e o vazio inesperado desta manhã, nunca teria reparado no barbudo de tranças frisadas que tresandava disparate, nem nos caravanistas que tinham aqui chegado da NZ e que almoçavam com os pés em cima do rio, nem nos pescadores de rio que, ao contrário do que seria convencional numa manhã de Inverno, pescavam ao Sol, sem impermeáveis que os protegessem dos, mais que prováveis, vento e chuva.
O rádio do bar de Verão, anunciava trânsito intenso no Martim Moniz, na Avenida da Liberdade, na Avenida Fontes Pereira de Melo, na…
Afinal de contas, não há nada de não convencional neste silêncio dos solitários.
Por convenção é Inverno, logo chove, logo ninguém passeia no rio.
Por convenção é Natal que, por convenção, desperta uma fúria de presentes, avassaladora.
Logo, a cidade virou-se para as avenidas e desprezou o rio.
Mesmo que o rio nos tenha brindado com um azul de alegria e primavera, mesmo que o céu tenha despejado sol sobre as margens
Afinal de contas, não podia ser mais convencional o silêncio dos inocentes.
Se eu tivesse perguntado ao barbudo – mas não perguntei – o que ele achava de menos convencional na paisagem da manhã, talvez ele me tivesse respondido que é a forma como nós, portugueses, procuramos contribuir para o aquecimento global, uma atitude verdadeiramente irreverente em fim-de-semana de convenção do clima.

O presidente francês, o novo mago do clima, teria certamente reprovado o barbudo jamaicano, por aquilo que ele disse e por que aquilo que ele podia ter pensado.