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domingo, 3 de maio de 2015

O príncipe das marés


A maré está baixa.
Baixa significa desencontro com o mar.
A neblina prolonga o vazio do fim de tarde.
Baixa, vazio.
O príncipe das marés é uma história de tumultos que se esvaem ao longo da narrativa em segredos revelados, paixões em lume brando, paisagens que vão diluindo o significado das cumplicidades comuns que alimentaram um passado.
É dele que me lembro quando vejo o mar desaparecer da terra.
A maré baixa é sinónimo de um mar que não reage, que se esfuma no horizonte cinzento revela vidas paradas.
Mas confere dignidade aos derrotados, não como num campo de batalha, mas como um cemitério de soldados desconhecidos
Por detrás das vidraças, embaciadas da humidade que não se dilui porque não há vento, encontra-se refletida a imagem do professor do Solstad em "o pudor e a dignidade", que se confunde com as sombras do treinador de rugby que desiste de um amor especial.
Adulto e adúltero.
Nos dias mais importantes das suas vidas, ambos com um pouco mais de cinquenta anos, decidem ancorar-se na sua rotina diária, em obediência conjugal ligeiramente alcoólica e amargurada.
A maré já não baixa.
Olhando da praia, os vultos das histórias não resistem às primeiras ondas de regresso do mar.
As areias secas perdem terreno e eliminam as pegadas da última maré vazia.
Com o regresso do mar, acredito que o príncipe das marés tem, afinal, uma vida dupla e regressará sempre para reconquistar o futuro que lhe resta, seja em que campo de batalha for.
Numa tarde de nevoeiro...