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sábado, 8 de novembro de 2014

Baldios, 29 anos

Por mais que se pretenda esquecer, Berlim é o fogo cruzado sobre a sensibilidade de quem detesta sentir-se preso ao transitório, apenas mais uma face do definitivo, temperado de esporádicos complexos de culpa.
Mas, junto àquele gélido muro, a inspiração esvai-se por entre complicados projetos de fuga que se enlaçam nos arames farpados, apenas disfarçados pela arte subterrânea, sinistro doping de sentimentos sem horizonte.
Ali tudo perde a racionalidade suprema do bom europeu intimamente marginal; o inexplicável estende-se pelos longos baldios sem sentido, que se esforçam por alargar os horizontes por cima do muro, de onde o romance desapareceu há muito e apenas as imagens soltas dos postais a preto e branco nos fazem sentir as trovoadas de esperança, sobretudo de desespero e frustração!
E naquela tarde de Agosto, a trovoada e a chuva foram as únicas manifestações possíveis de semelhança entre os dois mundos, separados por alguns metros, suficientes para impedir a reconstrução de ruas bloqueadas a meio, cujas linhas de elétrico comprovam que Berlim já foi Berlim.
Por isso parto e fujo atrás da minha terra, do meu mundo, porque aqui os baldios são tudo o que resta da vontade de acreditar num mundo livre. E nem as violas solitárias à beira do tráfego intenso, músicas das quais apenas ficou a melodia, me fazem esquecer a indiferença mal simulada dos rostos que me rodeiam, sobretudo porque aquela cruz, submersa por muitas outras, me garantia que mais um homem sem rosto ali morrera em Dezembro.
Aqui, todos já deixaram de se sentir ameaçados, de tão ameaçados que estão; é decididamente o princípio do fim de um sonho, inundado de palavras e atos bem aceites, como o ser revolucionário na Europa é incrivelmente vulgar, e cultivar a solidariedade apenas um mito nas mentes de uma terceira vaga esclarecida, confortável entre muros baldios ou apenas numa cabana refúgio montanhoso do Bom Selvagem.
Como diria o poeta, a liberdade não se inventa, descobre-se!