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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A tribo do surf desceu à praia do Baleal



Os fatos pendurados nas varandas revelam que o campeonato do mundo de surf esgotou as camas com vista para o areal
Os ninjas forrados de preto passeiam as pranchas debaixo do braço, no parque de estacionamento, no alcatrão e no areal, ziguezagueando como pequenos tubarões em terra firme (sim, há tubarões pretos na costa), precipitando-se no mar moderadamente ondulado, tímido e retraído pela impetuosidade da horda e pelo entusiasmo redentor de centenas de seguidores do Deus das ondas.
Atrás das dunas, a ausência de vestiário justifica cenas de nudismo informal e descontraído, porque os fatos estão molhados e os automóveis dão uma falsa sensação de proteção perante olhares fortuitos, mas involuntários.
Entre o preto e o cor de pele há resquícios de flower power na frente ocidental, esfolados na Ford Transit de matrícula britânica que desperta dos buracos de ferrugem, portas abertas de correr, e a certeza de que conheceu os Beatles, ainda novos, e muitos anos pela estrada fora.
Mas à medida que rolamos no asfalto abrasivo em direção à ilha – que tecnicamente é uma península – torna-se evidente que esta multidão, em forma de fauna, é muito mais difícil de definir do que se imaginava.
No estacionamento pejado de caravanas século vinte, a roupa estendida é apenas mais um obstáculo para as centenas pranchas que entopem as escadas do areal, e que se impacientam perante uma legião de voyeurs, esses manequins de revista social e roupas de marcas sonantes e cheiro a maresia.
Estes seguidores sem prancha, tal como os campeões, exibem-se perante fotógrafos, televisões e multidões.
Ao meu lado, por detrás dos vidros protetores de um veículo familiar e moderno, uma morena consulta o iPAD com um jeito profissional e não sorri nos segundos que cruzaram os nossos olhares e embrenha-se num casulo de quem não está à espera de ninguém. Eu apostava que ela é namorada de surfista do século vinte e um, cabelo escorrido, fato novo e prancha a brilhar, nada o género dos dois que se atravessam à frente da grelha do meu automóvel de luxo (afinal de contas qual é o teu papel?), ressequidos e desgrenhados de tanto mar, areia e chuveiro de praia sem champô nem amaciador.
Espero um cheiro de profunda maresia tomada ao vento, mas o cheiro a frango assado é a única memória que o meu olfato guarda do momento em que abri a porta do veículo.
Animais de vocação universal, mais apreciados quando assados do que quando vivos, relembram-nos que dificilmente há peixe neste mar infestado de pranchas e tubarões pretos, apesar das esforçadas tentativas dos esporádicos pescadores de cana, que vão petrificando nas rochas salientes e desajeitadas nas baías do Baleal.
Mas no mar cheira a vento, maresia e imensidão em tarde de maré vazia, que se estende para norte até o horizonte se fechar em persianas de neblina, impossíveis de perfurar sem camaras de alto zoom.
Os pescadores de linha estarão afinal à pesca de surfistas?
A travessia para a ilha sobre uma passadeira de cimento, areal a ocidente e a oriente, é a melhor aproximação possível ao monte St. Michel nacional, com um infundado receio de que as marés nos persigam e varram o areal, os automóveis, os mirones e os surfistas.



Em dia de campeonato mundial de surf não há ondas nem marés indomáveis, mas o ambiente na falsa ilha mantém o glamour bretão de um qualquer início de século vinte, especialmente porque a estalagem, a casa das marés, é um nome tendencioso, porque desperta memórias cinéfilas, um casal de estrangeiros com os pés descalços e calças de bainhas arregaçadas debruçadas na esplanada com vista para a muralha arruinada e para as ermidas que evocam as reminiscências piscatórias locais (antes da invasão dos tubarões pretos de pés descalços).
Insistimos em transgredir pelo sentido proibido atravessado nas traseiras da ilha e o risco compensou.
Pássaros, ondas a sério e uma visão única de uma das últimas fronteiras do Império: Berlengas e o seu farol civilizacional, umas milhas a Ocidente do mar, revelam-nos que ainda somos uma potência marítima, bem para além dos limites e das amarras da mãe-terra.
Enquanto me lambuzava com o vento batido sobre as ondas, com o repentino orgulho nacionalista e atlântico e com uma vista sobre o horizonte recortado na rocha, nas verdadeiras ilhas para estômagos fortes, apercebo-me que se aproxima, saído de um quintal, de uma marquise de casa térrea e alugada, um suíço continental de brinco na orelha, chapéu de coco verde na cabeça, calções aos quadrados e prancha rosa choque.
Indiferente à paisagem e às nossas arrebatadoras vocações!

Malditos!