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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A linha Verde


Hoje tirei folga e parti em peregrinação pelos locais mais improváveis, na senda da linha verde.
António Augusto Aguiar,15
Calçada de Arroios, 39
Campo Grande, 185
E a Alameda e o cinema Império, a Praça do Chile e o Jardim Constantino
A pé, tantos anos depois, é uma cidade diferente, de uma forma que chega a ser confrangedora, porque é diferente e, também aqui, recanto imutável de gerações emigrantes do seu próprio país, se sente a invasão do mundo e a exclusão dos residentes nos subúrbios deste pedaço de cidade central, a nossa exclusão, que sempre nos considerámos lisboetas.
No bairro de Arroios, aos mesmos velhos (que são obviamente outros) que sobem e descem as calçadas e as escadinhas, juntam-se as consequências da História que transformaram as redondezas da Almirante Reis num espaço de etnias difusas.
A descolonização, o êxodo dos povos subsarianos  a globalização, o mercado único, a queda do muro de Berlim, a crise económica, tudo se espelha nas ruas da velha cidade residencial, sem vista para o rio nem o glamour do centro da cidade.
E os rituais adaptam-se, como as portas se fecham e os negócios se transformam, como um bazar de emoções fortes entornadas para o passeio, como os alguidares de água suja e detergente muito usado, e os dejectos animais que se advinham vaguear pela noite escura de lampiões com desenho da era do petróleo.
Nada parecido com a pacata vizinhança de aldeia de província do mini mercado A Pérola dos Açores (na Rua Ponta Delgada, pois claro)
Na esquina do alfarrabista vive um cabeleireiro, mais abaixo um estabelecimento de depilação completa de porta aberta e clientes à vista.Não vi a padaria, já não há lojas de ferragens e, na inclinada Calçada de Arroios, emerge uma novíssima agência de viagens, de vidros espelhados e reclamo modernista
Nos jardins sobram sem abrigo de todas as nacionalidades europeias, pronúncias com sotaque e os idosos sem voz, mas também esplanadas e jardins infantis, cartazes de propaganda eleitoral e grandes, largas e frondosas sombras, porque nenhuma revolução cortou as árvores do jardim (nem as raízes de uns dedos de conversa entre as compras e a lida da casa).
Apenas os cheiros e a sujidade das ruas diferem, aparentemente.
Mas não há crianças nos jardins, talvez por causa das companhias incómodas que, por ali se instalam, nos bancos de jardim ou simplesmente porque não há crianças no bairro.
Mas há parques infantis.E o maior hospital de crianças da cidade.
Mas sente-se e respira-se um bairro, nas redondezas da Almirante Reis, diferente é certo, mais confuso e multi cultural  diria mesmo que, nalguns momentos, nalgumas esquinas, se reinventaram as origens árabes, apenas bazares, olhares suspeitos e nacionalidades indecifráveis.
Quando o tempo salta sem quotidiano e se constrói de visitas muito esporádicas, sentimos decididamente o seu efeito erosivo, a certeza de que afinal as vidas e os locais mudam muito mais rapidamente do que o hábito nos permite ver.


Campo Grande, 185 desfaz-se em ruínas, (porra!) enquanto gruas desfazem o jardim do Campo Grande, o lago seco e sem barcos, sem árvores e sem esplanada e, uns metros acima, renasceu o burburinho de novos estudantes, novos espaços universitários da era 2000 e os caloiros humilham-se nesta manhã muito abafada de Setembro às mãos dos veteranos.
No Campo Grande, duzentos e tal
Em Entrecampos, no que resta do Jardim do Campo Grande.
Na Alameda…


Felizmente permanece reluzente a António Augusto Aguiar,15.
Seria triste que a minha origem se tivesse desfeito com o tempo!

Afinal nem tudo mudou!