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sábado, 4 de agosto de 2012

Trastevere ou a embriaguez das noites de Roma


Lambretas aceleram entre o trânsito impossível e uma multidão que não tem pressa de regressar a casa
Também não apetece porque a temperatura de corpo humano com febre ligeira serve de suave casulo para a brisa inexistente que se sobrevoa o Tibre em voo rasante
Em Trastevere a noite faz se de ruelas estreitas de uma cidade alem rio diferente com sentido e vida próprias, cheiros que denunciam existências suadas, roupas interiores expostas, sem pudor, nos estendais das traseiras mal iluminadas, tascas de bancos corridos cheias de memórias de aspeto autêntico e cheiros de comida mediterrânica
Santa Maria Trastevere, a praça e a igreja são apenas um prelúdio medieval que nos convida a embrenhar pelo bairro adentro - quanto mais recôndito o canto, melhor - porque cada esquina é um microcosmo tingido de cores próprias, existências diferentes e seres de texturas especiais
Os comedores de fogo que pululam na praça convidam-nos a experimentar o bairro
Sem sofisticação nem ruínas milenares em emersão constante, apenas vida incontida num bairro que não conheceu (nunca) imperadores e que nasceu na era das trevas (ou da penumbra, conforme as vivências)
E por isso mesmo é um local mais familiar porque os personagens podiam pertencer a uma qualquer fita de cinema do sul da europa, com uma ausência total de fantasmas adoradores de deuses pagãos
Católico, apostólico e romano
É assim Trastevere numa noite de verão abrasador nas margens do Tibre
Embrenhamo-nos com os vapores do limoncello a pairar à volta das nossas cabeças, no arraial à beira rio e as referências (turvas) ao nosso mundo - mediterrâneo e europa do sul - são reconfortantes
Num dialeto esmagadoramente italiano, incha-se o ego machista no tiro aos pratos, lê-se as cartas numa tenda de mil e uma cartomantes, bebem-se caipirinhas e mojitos, disputam-se acesos campeonatos de matraquilhos, vendem-se bugigangas dignas de uma feira.
Debruçados sobre a ilha Tiberina – regressam os vestígios de Roma antiga – atravessamos pontes para a ilha do cinema, mais referências latinas em múltiplos jardins cinema
E, de repente, apetece-me ser cinéfilo,
Lambretas aceleram entre o trânsito impossível e somos nós que não temos pressa de regressar a casa
Trastevere, ou a embriaguez da noite de Roma!