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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Antiguidade em estado (im) puro – Mercados de Trajano


Oásis de silêncio nas traseiras do fórum imperial, numa manhã de calor abrasador em que as memórias sobrevivem na solidão dos passos perdidos, das pedras renascidas das mãos dos arqueólogos.
Sem multidões, as paredes intactas do mercado contam-nos a História sem pressas, interferências com sotaque ou contadores de histórias profissionais: só nós e a perceção sensorial do passado, salpicado, quase de forma não intencional, por peças genuínas, recém-descobertas no subsolo intocado do mercado e fórum de Trajano.
Bustos, estátuas, colunas e lápides, sem ordem precisa mas com significados próprios.
Silêncio e memória!
Provavelmente porque aqui não houve imersão em banhos de sangue nem superproduções, nem mesmo gladiadores em discurso direto
Apenas mercadores e comércio, uma vertente pouco heroica e pouco convencional da antiguidade romana
“The most exciting city-center roman ruins”, segundo os colunistas da atualidade
Deambulando pelos corredores, subindo e descendo escadarias corroídas pelo tempo, abraçando as vistas desafogadas do fórum, a partir das varandas milenares e vagueando o olhar pela serenidade deste lugar, simplesmente sentado numa qualquer pedra com uma profunda perspetiva histórica…
Tal como a visão se habitua gradualmente â escuridão, os espaços redescobrem-se à custa de olhos estremunhados.
Primeiro temos a visão do espaço grandioso e milenar; depois apercebemo-nos das peças expostas com o orgulho de uma descoberta recente; subitamente, entendemos que novas artes se intrometem no nosso angulo de visão – duvidamos, antiguidade desconhecida ou modernidade consentida - sublimam e realçam a envolvente e, finalmente, absorvemos as intenções dos artistas e a sua cumplicidade criativa com os arqueólogos.


Novos olhares e interpretações contemporâneas da Antiguidade, os novos tons da modernidade romana, são uma forma diferente de elevar a Antiguidade ao estatuto de arte contemporânea
Segundo o manifesto do artista, compara o passado, o presente e o futuro olhando para simples utensílios como copos, pratos, garrafas


“…Objetos simples obedecem a um ritmo lento, quase geológico…”
O artista confronta a arqueologia romana com a arqueologia do futuro
E o espaço renasce por ele mesmo, numa visão deliciosamente não convencional dos monumentos romanos
É como se a Antiguidade pudesse ser viva, soubesse dialogar com o presente numa milagrosa inversão do paradigma absoluto (do passado) da cidade, aquele que apelava à reconstrução devoradora em camadas sobre as (à custa das) ruínas (sobre ela própria)
Aqui, nada se constrói à custa de nada
Nada se cria nem se destrói, tudo se funde com a solenidade de um Templo submerso em Deusas fotográficas que espreitam das paredes numa descoberta surpreendente da intemporalidade do espírito (e da criação) humanos.
Meio-dia, nas traseiras do Fórum Romano!