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sábado, 21 de novembro de 2009


Um Outono em New York
Glamour na cidade


Atravessar Queens ao anoitecer num táxi amarelo de preço fixo, não sendo uma experiência aterradora, lembra-nos, com um cerrado sotaque porto-riquenho do taxista pendurado ao telemóvel (sabe-se lá com quem), que abraçámos o último e derradeiro grito da Babilónia terrestre, um trânsito que invade os bairros residenciais de casas pré-fabricadas, todas plantadas em minúsculos jardins, sem sombras de vivalma sob os candeeiros, triunfalmente perfilados às portas altivas, reflexos de imponência que não sobrevive às ombreiras, e este mar de faróis de camiões que trovejam ruídos angustiados, indiferentes ao deserto das bermas e dos passeios (quantas horas mais já passaram nesta invisível fronteira?), das ruas que se atrevem a desembocar nas auto-estradas que só tem um rumo, um destino desejado: Manhattan!
E, tão repentinamente como o cinema nos liberta sem dor de um subúrbio triste e submerso na melancolia de um manto de escuridão, que se advinha (será pressentimento?), emerge na colina rolante de asfalto, uma enorme planície de escuro e, ao longe e tão perto, os picos de luz da ilha mágica (porque será que na ilha se caminha para o centro?), as pontes e o túnel e finalmente sem surpresas (porque lhe conhecemos os sons, os neons e os cheiros....e os fumos que nascem do chão, mesmo sem garantias de termos vivido o sonho americano) penetramos no âmago de língua que já suspeitávamos ser a versão laica (pagã e prosaica) da Arca de Noé, sem vergonha da apregoada falta de pedrigree e tradição, laivos de alguma juventude inquieta, o elogio permanente ao absoluto exagero, uma miscelânea apoteótica de enclaves étnicos, que serão a garantia da futura existência de História na Metrópole.
Também quem cá chega não procura a História, naquele sentido tão estrito, como as pedras com centenas de anos de idade, não se defrauda perante o aço, o vidro, o ferro fundido (e a madeira dos subúrbios, é preciso não esquecer!) e jamais perde a tentação de espreitar pelas janelas do táxi, pescoço torcido à procura do topo dos edifícios, experiências repetidas no meio da rua, pescoço que se estica como se as torres fossem esbeltas mulheres de.....75 metros para cima! E sem pudor juvenil, as olhamos de admiração no primeiro dia, no último dia, muitos anos depois, sempre!
Ela pasma-nos, deixa-nos pavonear nas suas ruas, onde tudo parece pequeno e fácil (estamos sempre nas mesmas ruas, nos mesmos números) mas é imenso e universal, não nos deixando dar nas vistas, porque devora qualquer pretensa celebridade, engole todas as peneiras na selva de gente, luz e no puro gozo dos sentidos!




Os cânticos de uma raça

No Domingo de manhã, na Abyssinian Baptist Church, uma comunidade procura reencontrar-se aos braços de um coro em Godspell, protegidos por um ritual bem treinado que lhes reforça as crenças, um reverendo que aprendeu a comunicar para dentro e para os ilustres visitantes, com uma mística regeneração de fervorosos combates pelos direitos cívicos e uma piedosa crença num Deus que proclama a imaterialidade incolor.
Um Harlém de Domingo de manhã revela-nos uma tolerância, uma organização que não vislumbramos nos neóns das películas revisitadas por décadas de guetto, mas mantém a altivez coloquial que não deixa dúvidas de que somos ilustres visitas, apenas!
Os velhos decanos dominam a plateia numa pose sublime e aquela cerimónia, sobrevive para além das vozes fantásticas, e coloca-se num contraponto à desordem das ruas que, mesmo ao Domingo de manhã, se imagina nos dez quarteirões abaixo, que exige cedências, alguns equívocos no discurso do reverendo, na exaltação que entorna por vezes contundentes criticas à justiça dos homens, apelos ao renascimento pacífico das comunidades protegidas, em troca da fé!
Mas não deixa de ser uma emoção especial enfrentar os fantasmas que povoam este bairro, sentir pequenos arrepios com a fama tão cultivada e que sinceramente não entendemos se a larga Lenox Avenue apenas torna difusa ou engrandece na sua largura, no seu epíteto, conjugação de sinfonias de seres que não nos ligam mas que na sua presença, em nosso redor, nos afirmam nos olhares que não nos cruzam, para além da indiferença, que somos toleradas visitas, apenas!


Outono 2002