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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

<Krakow, 7:30h da manhã

O amanhecer de uma luz oblíqua, as cores amareladas do Outono, ou da estepe, uma neblina que nunca morre, e escorre como uma flanela de cor difusa, dos topos das árvores, dos arbustos silenciosos, um abanar de orelhas à relva imaculada do jardim que cerca a cidade, daqueles que cheiram a bons velhos tempos, turvas mas persistentes recordações de qualquer, e de todas as infâncias, com passos apressados, só se conhece juventude altiva sim, enquanto os velhos se escondem no passado, talvez demasiados no alcova matinal, quem saberá porquê!
Krakow, 7:30 h da manhã de uma terra diferente e distante, mas que se revela a todo o momento, em todas as esquinas na incapacidade de comunicar sem ferir, desprendimento metálico de uma mesma multidão que desemboca na estação central, que juraríamos pertencer, sem qualquer especificidade relevante, a uma sub urbanidade despojada, estremunhada e triste, não fosse aquela sensação que me persegue sempre, as imagens estereotipadas do Leste profundo, militância e deselegância, despojo absoluto do conforto material do austero socialismo, vigente algures no tempo, na memória definitivamente implantado!
Atormentado pela dúvida, seria preconceito, reflexo condicionado, ou as diferenças não se esgotam na língua, nos autocarros ainda fumarentos que pululam no largo da estação, os quiosques que se estendem por uma feira ambulante que reflecte os primórdios do capitalismo, tão diferentes (mas tão iguais) das nossas feiras do CD e da cassete pirata, mas continua a parecer diferente, será do sotaque ou da memória que me turva o discernir?

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Krakow 17,30h e o regresso à civilização redentora

Reentrar no anel relvado da cidade histórica é recolher ao casulo da civilização redentora, qual cadinho de uma longa e profícua História da Europa Central, quase incólume aos desvarios de algumas décadas, sem importância histórica que abale a confiança na monumentalidade, no bom gosto e no conforto do âmbar que faz luzir a cristandade de um povo, reflectido nas inúmeras igrejas que se vergam para o céu, que combatem as sombras de um fim de tarde precoce, com fé, confiança nas luzes, e com a longa meditação ao pôr-do-sol, debaixo das torres superlativas que reinam nesta sensacional praça, dito mercado central, aleluia!
O céu vermelho de verão, de fim de dia, de uma temperatura que não se usa mas que desperta uma multidão de seres para as ruas, esplanadas, a grande praça e o infindável castelo de Wavel, todos o veneram, qual remendado, reconstruído e acrescentado como a devassa que se imagina terem sido os tempos de invasões, conquistas e saques, um corredor permanente de vilões que se adivinha, porque todas as reconstruções são jovens de poucas, muito poucas centenas de anos, numa urbe com mais mil!
Mas ninguém se importa, porque hoje o Vístula estava sereno, sentia-se espreitado pela imponência das muralhas em guarda no cimo do monte, uma certa altivez merecida, de quem viveu com a juventude do Papa e se adicionou capital europeia da cultura, há tão pouco, poucos anos!
E agora, o esplendor do católico neste baluarte da Europa Central, novidade e moda, impõe-se numa profusão de templos, onde se confunde (e assume) a militância libertadora e a fé redentora que relega o bairro judeu para um quase subúrbio boémio e noctívago, onde por agora não há mais de cem judeus, sete sinagogas e um cemitério (por entre as árvores no meio de uma cidade buliçosa, muito barulho que se ouve, estranha calma que sobrevoa o local e o ruído que deixa de incomodar, se esvai pelos raios de Sol que penetram nos jazigos hebraicos, poucos com menos de sessenta anos de morte).
Vinda de Leste, a noite revela uma luz mortiça, felizmente aqui o néon nunca chegou a ser moda, nem antes nem agora, uma poesia que se esconde como morcegos da claridade, que nos lembra Kundera (porque será, também aqui?), que nos revela o culto da sabedoria nos pátios da Universidade, juventude que renasce um novo mundo, uma velha civilização e obviamente uma sobranceria tão eslava que ainda não incomoda e já não estranha!


Cracóvia 2004