Aterrámos com um sol tão envergonhado que gelava só de pensar na noite que havia de chegar.
Roterdão vive a semana da conexão ou a forma como a arte nos vai fazer experimentar ( e jamais explicar) o que significa estar ligado, num mundo pautado pelo movimento, tensão e pela fragmentação
E nas primeiras horas de um país plano e sem interrupções, havia símbolos de conexão espelhados nos sorrisos e na jovialidade dos holandeses, um temperamento descontraído de quem sabe que a generalidade das coisas funciona, e a ausência de ansiedade facilita o empreendedorismo, a circulação entre lugares e a alegria de viver.
A cave explica o odor underground do espaço, podes entrar e podes comprar desde que sejam os meus quadros, assim me incentivava a primeira debutante desta vernissage coletiva de seres coloridos, habitantes de um antigo arquivo, agora desordenado por esta galeria nómada de artistas que partilhavam os seus conceitos de ligação, algumas visões tão experimentais que não se explicavam por si mesmos.
Algumas elas subiam as escadas apressadas para o ginásio dos pisos superiores, enquanto alguns outros mecenas subiam a escada da cave com esporádicas obras dos artistas coloridos e extravagantes que vendiam as suas criações, todas a menos de quinhentos euros e de formato não maior que 30 × 40
A loura de meia idade do SUV preto entrou e saiu enquanto eu esperava pelo tesla que me haveria de levar para onde guerra haveria de invadir o parque dos museus, perguntou se podia estacionar em cima do passeio, ah afinal não és de cá, será que se notava assim tanto e a loura sorriu, ainda estás à espera do tesla, sim mas já vem e eu juro que ela quase nos deu boleia para fora dali, enquanto a chuva caia sob a forma de uma neve liquida, de certeza que já vem perguntava a loura, e ria, nada destoava nela da loucura criativa da cave undergound e da extravagância artística daqueles seres que pareciam saídos de uma festa de finalistas da escola de arte numa década longínqua.
E a loura foi se embora sem arte nas mãos no seu suv preto e acenou nos com alguma nostalgia minha, reconheço, especialmente depois de perceber que o libanês do tesla, subia a rua de marcha atras para não ter de contornar o quarteirão gelado e periférico.
Mas na noite gelada de Roterdão toda a gente interage e sorri seja em holandês, seja em tradução simultânea, a conexão é tão importante para eles que não há barreiras de linguagem.
Bem, o libanês do tesla sorria, mas nós não entendemos grande coisa para além da satisfação dele por ser um perito em atalhos.
E despejou nos no meio de uma guerra armazenada em contentores e torres de vigia que transformaram a noite no parque dos museus numa alegoria provocatória à melhor forma de aprender a amar as bombas, com imagens explícitas a partir de contentores ferrugentos e sirenes que se acionavam com o impacto das explosões e o zumbido das balas.
Mais do que visual, uma experiência muito sensorial.
Mas os holandeses não paravam de sorrir, mesmo debaixo da ameaça de mais uma chuva de neve liquida ou uma qualquer bomba perdida de uma qualquer guerra alheia.
Opa significa avô em holandês e Opa é restaurante dos avós de todos os que se ligaram a este local, e há uma parede cheia de lembranças que ajudam a aperfeiçoar os sabores do jantar, e aquele ali no meio é o meu pai, explicou o louro e esguio holandês que parecia mesmo preocupado com a nossa opinião e bem-estar e agradeceu muito a nossa conta arredondada, afinal de contas povos felizes não cobram serviço.
E os avós todos, sorriram da parede abaixo!



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