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domingo, 26 de abril de 2026

A lenda de Remo e Rómulo – uma história de fundação

 

Na sala de projeções, a protagonista é a estátua da loba que alimentou os gémeos humanos e que, por isso, fratricídios à parte, explica a fundação de Roma, para a generalidade dos entendidos, o berço da civilização ocidental, tal como a concebemos hoje.
Bom, antes ainda existiram os gregos, mas esses não eram exatamente uma nação, nem um império.
A loba de metal escuro era também a narradora da sua própria existência, porque uma estatua residente do alto da praça principal, ela a original, as outras espalhadas pelas capitais da europa, como lembranças dos descendentes da fundação, vivem no filme a vida dos que as cercam e uma delas confessava que tinha assistido a duas guerras e a uma ditadura.
Ou teria sido a criança loura que fugiu aos pais no museu e que descobriu a original loba a amamentar as crianças, que libertou a lenda e espalhou a boa nova da fundação do nosso mundo. por todo o continente?
Na sala de projeções da feira de arte de Roterdão, as projeções eram muitas e não ficamos para o fim da história porque havia um pavilhão de catorze mil metros quadrados de imagens para processar.
Hoje a europa inteira e uma parte do mundo que alinha com os princípios da fundação, que amamenta os novos filhos da liberdade criativa, juntou-se a nós no Ahoy para a feira de arte de Roterdão e para o unseen photo festival.
No subúrbio muito étnico da cidade, vive o ahoy, longe e pouco acessível a partir do metro, como se quisesse afirmar a independência do lugar, porque afinal uma feira e um centro de exposições tem de ser um lugar do mundo e não um repositório de etnias distantes.
A art rotterdam é, primeiro que tudo, uma feira de arte, um lugar de marchands e artistas, portanto um lugar exclusivo para quem quer comprar e vender, mas apesar do capital não ser, por definição, democrático, na sociedade do capital pode-se ser apenas remediado e ter acesso universal à cultura e aos criadores.
E, para quem ainda não percebeu, este bem a ficar escasso, é tão valioso que preferia nunca ter de me recordar dele.
E a Europa está viva e vive da diversidade, nos apelidos dos artistas, nas cores das telas e na estética da criação.
E na feira de arte de Roterdão mostram-se os consagrados e os miúdos que saem das escolas de arte,
Os consagrados, porventura vassalos dos colecionadores e do capital, centram-se na forma, formas que ficam bem nas paredes de grande formato, margens de contornos definidos, porque quem paga gosta de arte descodificada que possa partilhar com os amigos.
E, enquanto os consagrados se centram na forma, os miúdos expressam-se sem qualquer respeito pela forma nem pelos contornos definidos. Nem pela descodificação da arte, nem pelas paredes dos amigos.
Privilegiam as instalações não conformes, os vídeos e expressões de arte conceptual e os prospects ( como por aqui são conhecidos os juniores) dão tudo pela força da mensagem, têm receio do fim do mundo e abraçam as causas dos avós, da diversidade ao primado da experimentação.
E a arte dos miúdos partilha uma europa de influências exteriores, como as memórias do artista pop judeu iraniano emigrado na América que regressa a Tasckent para uma festa de aniversario, num vídeo de de cores frias e luzes cruas, ou sofrimento com a demência dos avós em fotografias de grande formato - estes jovens artistas vestem-se como os avós, há nas suas roupas um revivalismo da contestação e das grandes causas que não revêm nos pais -
A saída, na fila do bengaleiro, a fauna de seguidores dos prospects comentava a instalação de balões sensoriais a quem os visitantes se podiam abraçar vestidos numa versão artística de um aparelho de vigilância cardíaca, e dizia um deles, demasiado curto nas suas vestes de Pierrot, que as sensações não eram a cena dele, como nerd e artista em período de formação da sua estética e personalidade próprias.
E, no fim, perdeu o ticket para levantar o casaco no bengaleiro e também a compostura.



Meia hora mais tarde, na zona oeste  encontramo-nos com as memorias recentes do grande porto da cidade, os armazéns já foram abandonados pela azafama dos grandes barcos e dos contentores de mercadorias mas ainda não foram adotados pela urbe e, nesse limbo emocional, o armazém 9f de Delisplein, nos confortes da cidade, em despique entre os armazéns abandonados por um porto cujos guindastes se veem ao longe, cada vez mais perto da foz e do mar, alberga mais uma feira na semana de todas as feiras, e a Haute Photogarafie emerge em luzes quentes, grandes formatos e no único leilão silencioso de fotografias a preto e branco alguma vez presenciado, todas deixam as suas ofertas escritas numa lista de papel ao lado de cada foto e, hopefully, aumenta o numero de linhas e o valor a adjudicar pela obra.
O holandês da porta congratulou-se com a nossa pulseira rosa e assegurou-nos que esta é a melhor exposição de toda a semana de arte mas nem por isso o leilão silencioso despertou da letargia.
E apesar de não ter conseguido ultrapassar o preconceito de que a fotografia não deve ser comprada, havia um brilho especial naquela sala forrada de mundos reais e na fotografia de autor as novidades vêm do leste da europa, mais uma tendência estética da diversidade criativa da europa, e que prova que eles já tinham uma vida própria antes de serem o pasto da guerra e da barbárie 
Ca fora, os ventos do estuário continuam gélidos e transportam os odores da terra de ninguém por entre a amálgama de barracões inúteis e as novas instalações de arte pós industrial, uma nova antecâmera dos novos criadores, provavelmente um novo futuro da urbe.
O uber man palitava ininterruptamente os dentes, indiferente às metamorfoses prometidas, apesar do mercedes preto.
E nós terminamos o dia a ver a noite cair na cidade, pela janela do Melly na companhia de Marilyn Nance e Donna Kukama, a comer gelados de citrinos no restaurante Oliva, e a agradecer os sorrisos e a hospitalidade dos anfitriões desta cidade que se consideram filhos de um deus menor e por isso não escondem o entusiasmo de nos terem como visitas.
Sempre num inglês irrepreensível 
Obrigado, cidadão de Roterdão desde que nasceste,  por teres interrompido o teu jantar ainda a tempo de nos desejares um bom apetite, um spargetti al dente e um tinto de veludo.
É extraordinária a humildade da excelência.
É sempre assim




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