Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Bairro X


Efémero bairro X
Apenas o urinol do centro da praça não se impressiona com as perspetivas de modernidade que se avizinham
Ou não.
Cochicham os novos ocupantes dos espaços devolutos que o universo de fábricas abandonadas está
(vendido)
(por vender)
(à venda)
Vinte e cinco
Trinta
Milhões
Tal como o bairro, vagas promessas, sem métricas muito precisas.
Indiferentes às promessas do bairro X, os habitantes (tal como o urinol da praça) destilam o calor na cerveja gelada, recorrem-se dos espaços sem vista, deambulam de sombra em sombra, enfrentam a arte urbana com um desdém de quem já assistiu ao rio roubar-lhes o bairro, a indústria sonegar-lhes o orgulho, a encosta traseira construir-se em torres de um modernismo social de pós-guerra e sugar-lhes os habitantes, e portanto, o direito de ser bairro e espaço social.
Mais do que desdém, imunidade.
Por isso, neste Domingo à tarde de calor, os sobreviventes circulam sem precauções nem sobressaltos por esta zona de fronteira.




No bairro X (que confina com Z, a nova modernidade a oriente, e a ocidente com um plano diretor municipal confuso e desorientado) confluem os restos do industrialismo urbano, os novos fenómenos de irreverência artística, a cerveja artesanal, os últimos camiões TIR, um porto moribundo e as torres fantasma do terminal de cereais.
“Estás sujo!” – e o companheiro, de riso tonto e pose infantil, acena com a cabeça e acrescenta eloquência ao guardador de histórias, o chefe do bairro que antes se dedicava a assustar os incautos forasteiros que por ali se atreviam a espreitar.
De imperial na mesa e despojos no prato.
Com a fama do bairro.
Agora, tal como os baleeiros dos mares profundos e violentos dos Açores, dedica-se ao turismo.
“As fotografias servem para nos recordarmos” – e outro ria – “por isso estás sujo, e ninguém te bate, limpa-te lá fora, estamos aqui para ajudar, não é?”
Como as baleias, diria.
Também eles (nós) não nos (a eles) devolverão o direito ao seu espaço social, eles que pairam no seu efémero infinito.
Deixa-os sujar
Dá-lhes de beber, até que a voz lhes doa.





A olhar o rio a M, o Pedro, o Válter, o José Luís, a Rita, a Leonor e, pelo menos, mais vinte e um e os amigos, deliberam sem consenso, se a modernidade se faz construindo ou recuperando memórias.
A M insiste em afirmar que o que tem que ser, tem de ser, se levam os posters para casa é porque apreciam a arte e, afinal de contas, a criação é de todos.
A M não tem mais de vinte e cinco anos, mas tem o mesmo olhar para o rio do que o velho corsário do bairro X, do que as fachadas que derramam as lágrimas do tempo, do que os bairros que elevaram as colinas a uma modernidade minimalista e do que a industria que alimentou as colónias.
Aqui, a noção de tempo é como a penúltima letra do alfabeto, tão efémera quanto infinita.
Transversal entre gerações.
Agradeço ao corsário as sombras fortes que dão cor ao bairro X, mas ele olha distraidamente para leste fingindo não perceber que já se constroem trincheiras a dois quarteirões da praça do urinol público, para lá de Braço de Prata,
O companheiro de riso tonto e pose infantil, esbraceja para oeste e eu julgo que ele me adotou como a ultima baleia dos mares ocidentais.
Mas o imediato do corsário nem deu pela minha partida, apenas saúda o facto de, para oeste, não se vislumbrar nada de novo.

X de Xabregas, provavelmente a última fronteira.