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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Charles, Oh Dear!





Sentado na relva gasta de Primrose Hill, tão pequena quanto a pequena sereia, oh quão londres és baixinha, lembrei-me do desabafo do boring charles dalguns anos atrás acerca do destino da sua real cidade, reclamando o direito de indignação pela transfiguração da old City e do que a seguir se adivinhava.
E até percebo o pobre Carlos. A densidade dos guindastes não para de crescer e, só quando nos afastamos um pouco (uns poucos metros para cima), nos damos conta da fúria devoradora do vidro e do betão que procura, numa corrida desenfreada contra o tempo, apagar o tijolo vermelho e a tradição vitoriana da capital do império.
Antes que alguém os obrigue a parar!
E nunca a cidade esteve tão vibrante, nunca a libra esteve tão forte, nunca a economia esteve tão próspera, mas esta visão dos guindastes que povoam a paisagem como antenas gigantes, a vulgarização, vista dos céus, dos símbolos da história da cidade, agora cercada por símbolos de novo poder fálico (ah, pobre charles, a torre fálica acabou com a tua esperança) deixa transparecer (de uma forma muito ténue, reconheço, mas na relva de Primrose as ideias até ganham uma forma verde) alguns sintomas de bolha.
E, algumas horas mais tarde, quando o Ben Slow nos transporta para as entranhas da Shoreditch acossada, Charles e Ben intersectam-se no desconforto, a realeza e o artista radical procuram cercar o poder financeiro que avança no seu vidro resplandecente como um titanic sem respeito pelos icebergs.
Bom, uma imagem um bocadinho figurada demais, talvez
Mas a sensação (da qual rapidamente me esqueceria, não fossem as notas no livro azul, porque está sempre a acontecer tanta coisa, por aqui, na ilha mágica que, a cada minuto, um novo deslumbre derruba todos os sinais de apreensão) de que um dia estes tipos começam a navegar sozinhos pelo Atlântico fora, numa reinterpretação anglo-saxónica da jangada de Saramago.
(daí a metáfora do titanic e dos icebergs)
E ficam tão ridiculamente ricos, que deixa de lhes dar prazer a companhia do resto da pobre (e relativamente deprimida Europa)
E lembro-me que a paz dos últimos setenta anos, no sacrossanto espaço ocidental europeu se tem feito de equilíbrios, de túneis da Mancha (é verdade, não previ o rebentamento do túnel quando a jangada se libertar da placa europeia, mas libertando-se deixaria de haver acusações de quem tem a responsabilidade de o guardar o que, só por si, é uma ideia idiota porque o túnel fez-se para ligar e não para filtrar) …e de solidariedade!
Afinal fiquei contente por ter tomado notas no livrinho azul e não estou nada arrependido de ter gozado de todas as borlas exóticas do novo capitalismo inglês
Afinal em que ficamos?

Charles, oh Charles!

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