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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O outro lado da História: A Rainha Ginga e os Holandeses Voadores



Em 1985, era apenas um rapaz conterrâneo, apenas uns vinte lugares mais dotado que eu, capaz de conquistar um segundo prémio entre os aprendizes de feitiçaria.
Trinta anos depois, este conterrâneo descomprometido, um cidadão dos quatro lugares da história alterou, num único livro, toda a nossa perceção da História, aprendida com o fervor de um crente nos compêndios juvenis do Estado Novo.
E não é a Rainha Ginga – ostracizada pela História de Portugal - a maior das surpresas, porque já sabíamos que ela vendia escravos para os engenhos do Brasil. Mas o que duvidávamos era que a escravatura na fonte não fosse uma questão de pele, antes um castigo ou o destino dos derrotados das batalhas.
Angola e Brasil, portugueses a soldo dos espanhóis e os libertadores flamengos.
O mesmo percurso do escritor que provou que havia muito mais povos do que os conquistadores e que os impérios se construíam, conquistavam e destruíam principalmente com os mestiços: cristãos convertidos em muçulmanos, ciganos, índios, piratas, os aventureiros e os desaventurados
E que o Santo Ofício era uma espécie de macaco que, aflito por ver um peixe, sem e braços e pernas, mergulhado na água lodosa do rio, muito aflito o quis ajudar e assim o tirou da água, e muito contente ficou quando o viu saltar de alegria nas margens do rio.
Entre outras, e menos inocentes barbaridades.
Mas assistir ao renascimento dos Holandeses como os libertadores da opressão católica, no Pernambuco ou em Luanda, um povo descontraído, liberal e que não recusava abrigo a ninguém

(para além de albergar no grande seio da companhia da Índias, todos os piratas que fossem bravos e temíveis)

deixou a minha juvenil crença de que os maus da fita eram os espanhóis, muito abalada!
A imagem do padre português (aliás assado, à revelia, na fogueira de Lisboa) ao regresso à sua Olinda natal em cinzas, após a conquista dos Holandeses, ladeado pelos ciganos fugidos de Angola que lhe afirmavam, perante tal destruição, “cheira a cinzas e cheira a fome, mas já não cheira a medo” (mais ou menos assim) foi fulminante.
Apesar de tudo, a Rainha Ginga é mais um livro que morre nas mãos de um tipo de mente aberta, em pouco mais de um fim-de-semana!
E depois, há sempre formas de retemperar o nosso orgulho ferido.

E no Sábado á tarde fui a procura dos fortes do Império, plantados à beira-mar!