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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A vida debaixo da ponte


O arco de ferro forjado que flanqueia a entrada bem podia dar-nos as boas vindas à fábrica de Lisboa com uma exultante exclamação de que o “Trabalho Liberta”, não fossem as sinistras conotações que nos despertam as memórias do desenfreado século vinte.
Assim, este promissor arco que pendura as ombreiras do portão que nunca se fecha, perde fulgor e significado histórico, com um simplório e descritivo LX Factory. Falta-lhe a alma que merece um local de culto!
Tropeçamos na calçada revestida de irregulares pedras pretas e submergimos neste ambiente underground chic que, afinal de contas, tem uma vida muito própria em horário laboral.
Entre estruturas corroídas pelo tempo e pelo abandono de décadas, espreitamos pelas portas abertas e pelas janelas sem estores e descobrimos um mundo experimental e de cuidado design, gente que espreita para uma população maioritariamente Apple Lover, artes que se confundem com ateliers de bricolagem e de atividades de tempos livres, luzes que são focos e que destacam os detalhes, o branco interior contra o exterior encardido, triste, escuro e industrial que ninguém ousa retocar.
Por instantes julguei que o arco de ferro forjado me tinha teletransportado para as luzes frias de um fim de tarde precoce da Europa do Norte do requinte e das formas funcionais.
Mas não. As travessas esconsas, pejadas de automóveis não (mal) estacionados estorvam as obras de arte urbana que escorrem das paredes em tons de pastel e complicam a osmose da reflexão na arte, a tecnologia e o verde da terceira vaga de Toffler, os grandes espaços e criação nórdica e recordam-me que estou em Alcântara, entre o rio e a encosta, cercado de becos e coberto pela ponte.
Mas debaixo da ponte a fábrica renasce na era pós industrial, incorporando as influências genéticas do bairro popular que a cerca.
“Alegria no trabalho”. Afinal de contas, uma atenção mais cuidada revela-nos que, os inspiradores deste espaço, querem mesmo que ele se torne um local de culto. Não no arco de ferro forjado mas bem mais alto no depósito de água, entre a fábrica e a ponte.
Alegria no Trabalho. Também tem conotações, mas tudo tem um preço e um depósito a verter alegria das alturas dá uma alma especial ao local.
Aventuro-me, “no único edifício que tem quatro andares, e sobe ao segundo andar e a exposição está nos corredores”.
Não era no segundo, era no terceiro. Ou então era no segundo e o prédio só tem três, porque o zero não conta. Complexidades de índole industrial.
Procuro a única escadaria disponível. Não tem rececionista, nem segurança, nem caixas do correio, nem hall de entrada. Apenas alguns cacifos debaixo do segundo lanço de escada. Estamos num novo conceito, sem mordomias nem preconceitos.
Subo, a medo, as escadas sombrias, como se estivesse a trespassar espaço restrito e proibido. Cruzo-me com elevadores industriais de ferro que não funcionam e com artefactos, que eu diria serem máquinas originais de um qualquer passado.
Espero a qualquer momento ser barrado por alguém mas ninguém te liga. Meninas de caneca (de latão) de café na mão, paquetes com grandes embrulhos, rapazes de óculos de aros grossos, juventude de diversas idades.
E tu sobes, vão de escada em vão de escada, e entras nos corredores, enormes corredores do comprimento do edifício de quatro (ou três) andares, e espreitas para dentro das salas, todas de porta aberta, uma porta e uma claraboia, uma empresa, e ouves vozes que falam ao telefone numa língua chamada esperanto.
E ninguém te liga, porque não há segredos nem ameaças que incomodem estes espaços imaculados, sofisticados mas funcionais e ninguém te pergunta porque rondas por ali porque, se o fazes, deves ter alguma razão para isso!
Descontraído, informal, redentor e com vocação universalista
E fui subindo. E fui perdendo a vergonha. E fui espreitando “ um olho no burro e outro no cigano”, as fotografias dos premiados coladas na parede, e a porta ao lado aberta, a mesma Apple, os mesmos rostos concentrados e a arte que emana destes espaços absolutamente funcionais, que contrasta com os temas de desespero e pobreza, na parede do lado de fora.
Apenas um tema em comum: “Dar a volta” é o tema da exposição, tanto dentro de portas como no corredor.
Desço devagar. Começo a habituar-me à era pós industrial: pouca preocupação com os exteriores e com o impacto da primeira imagem, concentração total na essência dos interiores!
E ainda me dizem boa-tarde!
Volto para a calçada tortuosa de pedra gasta e os sons da noite começam a apoderar-se deste lugar numa metamorfose esperada. Os carros vão abandonando o local e as sombras escapam-se dos faróis que incidem nos cartazes rasgados, nos grafitis que contrariam o cinzento e que realçam a luz do fim de tarde.
Na livraria fumegava-se como antigamente. Não, ainda mais que antigamente porque a malta acendia os cigarros quando entrava pela porta dentro. A dona fumegava atrás do balcão. As mortalhas espalhavam-se na mesa de uns estudantes, entre restos de torradas e sebentas escolares. Um velho pegava num livro e sentava-se na mesa do bar, apenas para fumar um cigarro.
Afinal de contas, ainda resistem espaços pré industriais na fábrica de Lisboa.
Saio combalido para a rua, sem ter conseguido furar o nevoeiro e identificar novos talentos literários e sou atraiçoado pela bexiga.
Nova descoberta das muito latinas latrinas fabris, com lavatório de pedra e portas de madeira de fecho debilitado.
Decididamente porco e pré-histórico, como a transição do dia para a noite.
No largo do Calvário – a praça mais intermodal da Lisboa pré- Expo - a fauna é mais terrena e o movimento é fervilhante, pessoas que correm atrás dos autocarros, dos elétricos, miúdos que vem da escolha, no topo da colina e para lá da ponte, velhotas de bengala que descem á rua, operários e trabalhadores do comércio que se atropelam nos passeios demasiado estreitos, num microcosmo de seres que se separam longamente das suas sombras de princípio de noite.
Este contraste dos dois (quatro) mundos – o dia e a noite, o Calvário e a modernista fábrica de Lisboa – é fascinante, para quem o decide olhar, como se fosse a primeira vez.
E paro nas passadeiras, sem as atravessar, encosto-me às paredes sem cair e olho de baixo para cima, e descubro que o tabuleiro da ponte já faz parte do bairro, no ruído do metal incessantemente pisado pelos automóveis que desconhecem de todo a vida cá em baixo, e na moldura das varandas dos prédios altos que competem entre si por um lugar ao nível da ponte.
Tomo um café. Vejo passar nas minhas costas o elétrico amarelo. Imagino a composição. Saio para a rua. Fumo um cigarro e espero. Haverá mais 25? Preparo a camara e concebo um final em grande, como o dos westerns em que o herói se afasta em direção ao horizonte no pôr-do-sol. O cigarro acaba e continuo à espera. Encosto-me ao posto de transformação que faz tic-tac. Será que pode explodir? Finalmente o amarelo aparece na curva e instala-se no largo do Calvário. Fixo demoradamente o cruzamento de cócoras e de camara preparada. Sinto-o aproximar-se nas minhas costas e foco o espaço vazio. O guarda-freio adivinhou que o vou alvejar pelas costas e para antes do cruzamento. Imagino a expressão maliciosa do guarda-freio. “Aguenta-te, que vais sofrer”. E eu sofro, já me doem os joelhos. Finalmente, ouço o tiritar do elétrico em andamento e ele aparece-me no canto da objetiva. O elétrico geme e o posto de transformação faz tic-tac. E eu disparo. Uma vez. Duas vezes, e ele para no cruzamento em pose provocante, uns segundos apenas. E depois parte em direção ao horizonte, atravessando a ponte sobre o Tejo em terra firme. E eu levanto-me. Sopro os restos de pólvora e fico muito contente comigo mesmo.

Alcântara vive debaixo da ponte mas ninguém se parece importar com isso!