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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O frio activa memórias longínquas (e estabelece estranhas associações)


O frio corta as avenidas novas em postas, e as correntes polares sabem a peixe do Árctico e o que safa é a luz, que me segue, tal cão fiel, no Marquês às nove, no Areeiro às dez, na João XXI à uma, na Praça de Londres ainda o sol brilhava - o brilho aumenta com o frio - e as sombras a poisar debaixo das árvores lá para as seis na Visconde Valmor.
No intervalo de um dia que estava demasiado frio para passeios vi-me empacotado nos vidros embaciados e conversas indiscretas de um comité de empreendedores que lançavam os alicerces de uma lista de um qualquer grupo desportivo, ou de uma comissão de trabalhadores, mas não havia obra nem grandes referências aos representados. Discutiam a mensagem "que dava jeito" alvitravam-se trunfos de marketing político "uma referência discreta ao desporto" e tudo parecia encaminhar-se para a vitória.
Até que começam a discutir os curriculum "se publicamos a experiência de um, temos de referir a de todos,  eu fui coordenador, eh pa coordenador não é estatuto, toda a gente é coordenador, a malta não liga, há coordenadores que coordenam dois tipos, mas eu coordenei cinquenta, eh pa assim já é melhor, mas eu tenho experiência sindical, o meu historial é de gestor, " ou todos, ou ninguém", e eu terminei as minhas lulas com a convicção de que a lista ia morrer ali, afogada num copo de vinho.
Como sempre, os potenciais representados estavam entregues aos bichos, a não ser que eles se transformassem, entretanto, em furiosos dissidentes.
Corro para o frio.
Na Praça de Londres lembro-me da Guerra Junqueiro e da noite fria em que saía do Star empanturrado com quatro horas de "Les Uns et les Autres", uma noite de Inverno em que acreditei que havia de mudar o mundo tão diferente de uma tarde fria e cheia de Sol em que sonhava (sonhei hoje) com uma realidade que não destrua as minhas convicções.
Pudera, passaram pelo menos trinta anos!
A subir a Avenida de Roma tive outra visão, mais escaldante e carnal
Prefiro não contar, pudera foi para aí há vinte cinco anos.
Em cinco anos, havia mudado um pouco a visão romântica do mundo. Longe da retórica pós-populista dos sindicalistas de carnes moles, mas ainda muito próximo de um idealismo de carnes duras.
E à medida que subia a rua, saltava uma década em cada dez números de porta, e o filme passava a correr até entrar de novo no meu corpo, sentado num confortável e aquecido automóvel, este provavelmente o resultado de uma gestão frugal das minhas convicções
Atravessei a Avenida da Republica e as memórias desvaneceram-se no Sol de Inverno que caiu a pique por detrás dos prédios e das memórias do Monumental, que é a última coisa que me lembro
Tudo num só quarteirão, num só dia solar, sempre abaixo de dez graus!
Acho que preferia ter apanhado uma gripe!