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terça-feira, 9 de setembro de 2014

(Parte I) Bem-vindo ao mundo louco do baixo custo – O bilhete

Ou o que faz um Homem para tentar poupar cento e cinquenta euros!


Começa tudo numa noite de insónias, em que vimos estrelas de tanta agitação entre motores de busca e sites marados.
Primeiro, é preciso eliminar as escalas (17 horas até Londres, duas escalas uma overnight em Copenhaga e sabe-se lá mais o quê).
Depois é preciso navegar à procura dos minutos felizes, entre preços que variam ao segundo, competitivos à meia-noite, extravagantes às duas da manhã.
Finalmente encontrámos, entre várias pastas abertas e todas prontas para o próximo leilão, algo que se assemelha com uma expetativa humana: duas horas e vinte à ida, duas horas e quarenta à volta.
O aeroporto, esse não é o mesmo para onde vamos de onde vimos. Mas ficam os dois na grande ilha chamada Britânia.
Mas as horas de partida e chegada não dão jeito a quem trabalha, nem a quem passeia.
Vamos lá restringir as horas, partir cedo e chegar tarde dá mais tempo mas custa caro.
Dos cento e cinquenta euros de ganho, já foram vinte e cinco.
E com a atrapalhação de quem dedilha mais lento que os putos de vinte anos, lá vamos fechando pastas e arrependendo-nos logo de seguida, como quem muda de fila na autoestrada, porque quer andar mais depressa, e logo a fila mais rápida da direita se torna mais lenta, como que nos tivemos subitamente esquecido dos princípios de engenharia dos fluidos…
Obviamente para quem alguma vez os aprendeu.
É que a comparação de partida, diverge à chegada e as despesas, e os custos de cartão, e as taxas de urgência, tudo aquilo precisava mesmo era de uma folha de cálculo dinâmica, depois de estudada cada uma das infinitas hipóteses de modelo de negócio.
Mas ao fim de duas horas de um surfar ansioso, começámos a perder as forças e a aceitar que mais vinte menos vinte, sempre ganhávamos uma hora na chegada e quarenta minutos na partida.
Mais cartão, e após uma heroica resistência a todas as tentativas de up (upgrade, upselling) e lá carregámos no botão mágico do order.
E pronto, só ficámos a cem euros de um viajante normal!
Dormidas umas semanas em descanso, somos subitamente alertados por um email pulverizado de laranja e de harpas em amarelo sobre o azul dominante, lembrando-nos que a viagem estava a chegar.
Maçada. Queria mesmo esquecer-me.
E com as boas-vindas das duas companhias aéreas, a chegar a um aeroporto e a partir de outro, começamos a verter lágrimas de tanto tentar perceber as dezenas de instruções ameaçadoras que jorravam do ecrã, tão contraditórias que sentimos precisar outra vez de uma folha de cálculo.
À ida são 50*40*26cm de mala, mas à vinda perdemos seis centímetros de espessura mas ganhamos uma pasta de mão de dimensões não identificadas. E os líquidos e as horas de embarque e o check-in eletrónico (isso obrigatório porque senão, aproximar-nos-ia mais setenta euros do tal viajante normal) e as notas gerais e o clicando aqui saio da companhia aérea e entro no meta buscador para logo sair para a companhia aérea, que basicamente são duas.
E depois explicam que temos dois bilhetes independentes, porque são duas viagens, duas companhias, dois aeroportos, mas a mesma – e felizmente gigante porque senão ficávamos com os pés de fora – ilha.
O que vale é que podemos fazer os check-ins todos para o ano – e depois atrasamo-nos meia hora na saída porque desaparecem pelo menos um trio de passageiros –
E ainda, porque não um hotel em Londres (já tenho, obrigado e é baixo custo, sim senhor uma residência de quarto de entrada na transversal), um aluguer de automóvel com volante à direita, especial para si que gosta de viajar online (preferimos o comboio, obrigado) e, finalmente, uma magnífica opção de reserva de lugar – que basicamente se resumia à escolha de uns míseros seis lugares disponíveis – por uns frugais quatro euros.
A toda esta torrente resistimos estoicamente porque, afinal de contas, estávamos determinados a viajar a custo baixo.
Estamos quase a desistir do embarque eletrónico, porque não encontramos o clique aqui certo, entre tanta letra e tantos convites, mas lembramo-nos dos euros, mas principalmente da maçada a que nos demos, não podemos fraquejar agora, que o pior já passou.
Julgavas tu, julgava eu!
É melhor encontrarmo-nos outra vez, e durante o dia, para assegurar que o check-in é electrónico e para fazermos tudo certinho.
E depois de relermos todas as instruções direitinho, enveredamos aos solavancos pelo caminho crítico; entramos no meta buscador outra vez, para depois sair para a companhia da ida e, dois botões à frente, desnuda-se o primeiro cartão de embarque, agora grava envia por email e aguarda impressão lá em casa.
Depois sai da companhia, entra no meta buscador, sai do mesmo e entra na outra companhia, as cores mudaram mas graças a deus o caminho é parecido, dois botões depois parece que chegámos ao prometido céu. O segundo cartão de embarque salta meio desnudado, mas desta vez rodeado de harpas e anjinhos.
Já chegámos quase a Londres!
E não me vou esquecer de medir a malinha, não vá a coisa correr mal.
Já de noite, na véspera, estico a fita métrica enferrujada, que já não enrola, de tão maltratada, conferimos a medida, relemos as instruções e…
Voilá! Encontrámos uma mala à dimensão do baixo custo

Agora é que nada mais poderá correr mal, porque ainda estamos a cem euros de um viajante comodista!