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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Os retiros dos Deuses efémeros





Não é pressuposto entender, racionalizar os ambientes inevitavelmente labirínticos destes santuários da contemporaneidade, que tanto nos prendem ao óbvio como a um fio eléctrico pendurado numa tela branca alvejada por três borrões de tinta, com uma raiva ou uma paixão desesperada.
Não se entende porque nem tudo o que é arte tem de parecer sério, empolgante ou erudito; falta a tradição histórica dos verdadeiros clássicos, das verdadeiras categorias da Arte, conceitos estéticos dissecados pelo pó dos especialistas museológicos, pela eternidade fatalística com que nos habituámos a identificar \ maltratar \ adorar, tudo o que remotamente rime com ar.
Instinto e desespero, elementos e tridimensional, ícones de uma história recente, tudo é contemporâneo, tudo é parte do nosso direito (dos humanos) à criação segundo referenciais tão pessoais que se podem transformar em unipessoais, unívocos, sem público, sem nexo, incompreensíveis…
O fascínio pelo não conforme nasce do derrube sistemático das fronteiras, não, não é possível ir para além deste absurdo…já foi!
É uma desobediência bem sucedida, significado académico de iniciativa, cheio de becos obscuros e avenidas de uma urbanidade cósmica…
Mas não sei porquê, não escapo a nenhum destes templos da experimentalidade; reduzo-me à minha insignificância sensorial, rio de mim próprio e da minha ignorância, ressuscito os ícones do século 20, compro postais de Erró, pins do Che Guevara, livros de fotocolagem dos artistas checos dos anos 30 e saio temporariamente renascido das cinzas.
Até que a racional e previsível rotina do quotidiano nos destrua as defesas mais uma vez…
Esta é a única desvantagem dos fabulosos museus de Arte Contemporânea; São templos de Deuses efémeros, carecem de uma constante alimentação de fé, até que um dia se perca a noção do tempo, do analítico e das fronteiras do bom senso.
Conversão total!