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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Os hijos de Dios


 No museu Palácio Canton, no muito célebre Paseo Montero, a tal avenida da soberba, está em exposição Hijos de Dios, uma reportagem fotográfica sobre a diversidade religiosa na península do Yucatan. um fotógrafo que conta as histórias de vida dos católicos, dos crentes de Pentecostes e dos Menonitas.
São imagens contrastadas, no uso das cores, mas também nas escolhas do enquadramento, cheias de histórias que ficam por contar, porque é mesmo assim com as boas imagens.
No Palácio Caton, a ambição do estado cultural é imensa, pretendem narrar as origens e a história do comércio no tempo dos maias, o que é um projeto vago pela imensidão do período de análise e não é um feito desmesurado, pois os maias, muito avançados nalguns ramos da ciência, não dominavam a roda nem a moeda, o que tornava o comércio um exercício difícil e até um pouco aborrecido.
Depois também tem a ambição de contar a história do palácio e dos seus antigos residentes ou proprietários e o que o estado fez pela sua memória, quando tomou conta deles, a partir do século vinte.
E, além disso, o desfile temporário dos filhos de Deus.
Muita ambição para um estado e para um palácio só.
A história da vida no palácio confunde-se com a do General Francisco Canton, um residente famoso e resiliente e que se foi adaptando com arte aos tempos conturbados da mudança de século, do dezanove para o vinte.
Foi militar e combateu as revoltas indígenas, foi político, mas assistiu impune à queda de Porfírio Dias, ao assassinato de Madero, e de todos os revolucionários que a revolução tragou ao longo dos dez anos seguintes e ainda teve tempo de ser empresário, uma terceira vida que atravessou sem grandes sobressaltos a constituição revolucionária de 1917, uma prova viva de que o ímpeto revolucionário perdeu muita intensidade ao chegar ao Yucatan.
Mérida é uma cidade grande e nota-se também pela ambição do Estado e pela qualidade do comércio local, a verdadeira montra da diversidade cultural do país.


Do outro lado da rua, o gordito acena a cabeça e continua a limpar o pó dos seus manequins, o jovem entusiasta da loja da frente faz um desconto de quarenta por cento na árvore da vida, como se se tratasse de uma bênção que garantia um futuro de saúde e sorte, na geladaria não havia descontos, mas havia sempre um sabor extra, agora que as esquinas guardavam as cores do fim do dia, os restos do sol amarelo entre as nuvens negras das promessas tropicais.
E, nos corredores e nas arcadas do palácio do governo, a tradição mantém-se depois da noite precoce cair nos pátios anteriores, onde Fernando Castro Pacheco, um discípulo tardio de Rivera, enche as paredes do poder com as cenas épicas das lutas eternas do México, como se fosse necessário lembrar aos políticos que é o povo, e não o patrocínio das artes, que os elege e para quem eles devem governar 
Na lucha eterna do México, a águia que representa o bem, combate a serpente que corporiza o mal, esperando uma vitória do bem, a libertação do povo mexicano e de todo o bem que há nele sobre os negros presságios do mal, a corrupção, a exploração e a miséria.
E as paredes contam também histórias da conquista do yucatan, da escravatura, da guerra das castas, um mural com s figura de Salvador Alvarado, o homem que aboliu a escravatura, sempre o México em carne viva e cores quentes.
Na loja de artesanato, ele fala português es brasileiro? Não,  la chica, la novia? Sim, mas não mais, e faz uma cruz no ar, para que não restassem equívocos.
Mas Mérida é uma cidade grande e nota-se especialmente pela noite.
Em La Negrita, há música ao vivo, margaritas e guacamole, a banda toca alto demais e afoga a voz da vocalista que nunca consegue combater contra a banda inteira e por isso não desperta as emoções na plateia que come e se diverte independentemente dos esforços infrutíferos, em palco.
Na casa Kau, um lounge pateo, ainda existe um disco jockey e bolas de espelhos na pista de dança, o único espaço coberto do Páteo, cercado de paredes amarelo vivo, Fridas e outros ícones da arte de rua.
E enquanto dançamos, o disk jokey começa a entusiasmar-se e vai passando musica cada vez mais antiga, procurando aproximar a realidade, tal como ele a vê, com a nossa alguma antiguidade em pista.
Afinal de contas, somos todos filhos de Deus.
E como o México, no hay dos!




O homem Maia foi feito a partir do milho


Mérida é uma cidade grande. 
Percebe-se pela dimensão dos seus arredores, pela densidade do seu tráfego de final de tarde, pela forma como as ruas se inundaram quando uma carga de céu negro tropical desabou sobre a cidade, por ter um aeroporto moderno, uma autoestrada sem buracos e uma linha de comboio brilhante de novo, sugestivamente chamado de Tren Maya, especialmente surpreendente num pais quase sem comboios de passageiros.
Por ser a capital do estado de Yucatan, um nome que nasceu por equívoco, ou pouca vontade dos invasores espanhóis em preocuparem-se com detalhes indígenas
"Como se chama esta terra?" - terá perguntado o Caudillo aos índios
Estes, não entendendo o Caudilho responderam com outra pergunta " O que dizes?" ou, em dialeto maia *Vic Athan?" E então o espanhol - que também não terá entendido o maia - resolveu o assunto ordenando aos seus súbditos ou capatazes que se chamasse Yucatan, a esta terra. Com equívocos descuidados como este - normalmente em cenários que ninguém questiona o chefe - ja se desencadearam muitos conflitos, pelo mundo fora.
Ainda assim, Yucatan ficou e este não foi, de todo, o episódio mais sangrento da história da colonização do México.
Já quanto às origens do nome da sua capital, julgo não existirem grandes dúvidas.
Yucatan é um lugar de exploração e de soberba, porque foi uma zona de plantações, grandes senhores rurais e mão de obra escrava e, quando a escravatura foi abolida nos primórdios da independência, passou a ser uma terra de senhores e assalariados.
As primeiras grandes fortunas nascem do cultivo e transformação do açúcar e do sisal, e a soberba dos senhores de Yucatan ainda hoje é visível nalguns dos palácios construídos ao longo da enorme avenida Montejo, alguns ainda residências de família mas outros transformados, pelas famílias, em museus ou tomados pelo estado para transformação em patrimónios vivos de uma época, com utilizações contemporâneas ao serviço  da cultura ou do ensino da sua história.
Assim sendo, diria que todos os povos têm direito à sua soberba e que, sem ela, haveria poucos despojos materiais vivos para ilustrar os feitos (ou, pelo menos, os factos) da nossa história, sejam as cidades estado maia, sejam as igrejas construídas com o ouro americano, sejam palácios construídos pelos senhores rurais, com a fortuna do sisal.
Claro que sem juízos de valor nem interpretações da história baseadas nos valores ocidentais e humanistas de hoje.


Mas o Yucatan é também um lugar de revolta, porque os Maias nunca foram um verdadeiro estado mas sim um conjunto de cidades estado com poderes descentralizados e concorrentes - há quem afirme, de forma muito convincente que o maias eram os piores inimigos dos maias - e , quando os espanhóis chegaram ja não habitavam as grandes cidades maia e, estando dispersos, lhes resistiram com mais persistência, dificultando a sua absorção (ou aniquilação) tendo mantido uma guerra de atrito com o estado mexicano dos brancos e dos mestiços, para defesa das suas terras e dos seus costumes, durante toda a segunda metade do século dezanove.
E, apesar de derrotados na guerra das castas em 1901, as diversas subculturas maia são hoje mais vivas que a dos povos do Norte. descendentes dos aztecas e dos seus contemporâneos.
Assim, o legado maia vive-se tanto nos mercados de Campeche e do yucatan como nos museus regionais.
Não os retiram da base da pirâmide social, mas dão-lhes outra confiança e outra sensação de pertença, ajudam a construir o contraditório, e ajudam a explicar a nova versão oficial da história dos maias, contada no muy moderno grande museu da cultura maia, em Mérida.
Visto desta forma, talvez a forma grandiloquente como o regime trata hoje a herança maia não seja apenas uma construção ideológica para justificar um grandioso presente  da nação mexicana.
Mas o presente é mais subtil e menos épico que a história declamada.
O autocarro suburbano (coletivo) que se atravessou à nossa frente algures, no centro histórico, publicita. nas traseiras, todos os cursos superiores disponíveis na universidade local.  Mas lá dentro, só se viam rostos fechados, de gente sofrida e indígena e com expressões pouco dadas aos diplomas e aos estudos e muito consumidas pela energia despendida em longas horas de trabalho e de transporte para as distantes periferias.
E mais uma vez ficamos com aquela sensação, muito mexicana de que o bom e o mal devem ser divididos entre todos os autores de uma contenda (enfim a uns mais que a outros) de forma a evitar finais absolutamente felizes.
Segundo o livro sagrado Popol Vuh, o Homem Maia foi feito a partir do milho, surgiu da fecundidade amarela da maçaroca, sustentada pela mão do bacab do Sul, diante da observação daa estrelas que iluminam a noite na mão branca do Bacab do Norte.
O Ocidente e o por-do-sol são a origem dos ventos maus, simbolizam a guerra, os animais da noite, a fome e a morte e o seu Bacab é negro
Vermelho é o Bacab do Oriente donde vêm as chuvas preciosas para as grandes colheitas que dão vida aos homens, assim como às ciências e às artes.
O destino do Yucatan é assim uma espécie de luta entre o ocidente e o oriente maia.
Pois!