No museu Palácio Canton, no muito célebre Paseo Montero, a tal avenida da soberba, está em exposição Hijos de Dios, uma reportagem fotográfica sobre a diversidade religiosa na península do Yucatan. um fotógrafo que conta as histórias de vida dos católicos, dos crentes de Pentecostes e dos Menonitas.
São imagens contrastadas, no uso das cores, mas também nas escolhas do enquadramento, cheias de histórias que ficam por contar, porque é mesmo assim com as boas imagens.
No Palácio Caton, a ambição do estado cultural é imensa, pretendem narrar as origens e a história do comércio no tempo dos maias, o que é um projeto vago pela imensidão do período de análise e não é um feito desmesurado, pois os maias, muito avançados nalguns ramos da ciência, não dominavam a roda nem a moeda, o que tornava o comércio um exercício difícil e até um pouco aborrecido.
Depois também tem a ambição de contar a história do palácio e dos seus antigos residentes ou proprietários e o que o estado fez pela sua memória, quando tomou conta deles, a partir do século vinte.
E, além disso, o desfile temporário dos filhos de Deus.
Muita ambição para um estado e para um palácio só.
A história da vida no palácio confunde-se com a do General Francisco Canton, um residente famoso e resiliente e que se foi adaptando com arte aos tempos conturbados da mudança de século, do dezanove para o vinte.
Foi militar e combateu as revoltas indígenas, foi político, mas assistiu impune à queda de Porfírio Dias, ao assassinato de Madero, e de todos os revolucionários que a revolução tragou ao longo dos dez anos seguintes e ainda teve tempo de ser empresário, uma terceira vida que atravessou sem grandes sobressaltos a constituição revolucionária de 1917, uma prova viva de que o ímpeto revolucionário perdeu muita intensidade ao chegar ao Yucatan.
Mérida é uma cidade grande e nota-se também pela ambição do Estado e pela qualidade do comércio local, a verdadeira montra da diversidade cultural do país.
Do outro lado da rua, o gordito acena a cabeça e continua a limpar o pó dos seus manequins, o jovem entusiasta da loja da frente faz um desconto de quarenta por cento na árvore da vida, como se se tratasse de uma bênção que garantia um futuro de saúde e sorte, na geladaria não havia descontos, mas havia sempre um sabor extra, agora que as esquinas guardavam as cores do fim do dia, os restos do sol amarelo entre as nuvens negras das promessas tropicais.
E, nos corredores e nas arcadas do palácio do governo, a tradição mantém-se depois da noite precoce cair nos pátios anteriores, onde Fernando Castro Pacheco, um discípulo tardio de Rivera, enche as paredes do poder com as cenas épicas das lutas eternas do México, como se fosse necessário lembrar aos políticos que é o povo, e não o patrocínio das artes, que os elege e para quem eles devem governar
Na lucha eterna do México, a águia que representa o bem, combate a serpente que corporiza o mal, esperando uma vitória do bem, a libertação do povo mexicano e de todo o bem que há nele sobre os negros presságios do mal, a corrupção, a exploração e a miséria.
E as paredes contam também histórias da conquista do yucatan, da escravatura, da guerra das castas, um mural com s figura de Salvador Alvarado, o homem que aboliu a escravatura, sempre o México em carne viva e cores quentes.
Na loja de artesanato, ele fala português es brasileiro? Não, la chica, la novia? Sim, mas não mais, e faz uma cruz no ar, para que não restassem equívocos.
Mas Mérida é uma cidade grande e nota-se especialmente pela noite.
Em La Negrita, há música ao vivo, margaritas e guacamole, a banda toca alto demais e afoga a voz da vocalista que nunca consegue combater contra a banda inteira e por isso não desperta as emoções na plateia que come e se diverte independentemente dos esforços infrutíferos, em palco.
Na casa Kau, um lounge pateo, ainda existe um disco jockey e bolas de espelhos na pista de dança, o único espaço coberto do Páteo, cercado de paredes amarelo vivo, Fridas e outros ícones da arte de rua.
E enquanto dançamos, o disk jokey começa a entusiasmar-se e vai passando musica cada vez mais antiga, procurando aproximar a realidade, tal como ele a vê, com a nossa alguma antiguidade em pista.
Afinal de contas, somos todos filhos de Deus.
E como o México, no hay dos!
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