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terça-feira, 19 de abril de 2011

Fellini 8 1/2



Costa, cruzeiro com sotaque definitivamente italiano.
As referências são os gloriosos anos do pós-guerra, dolce vita impregnada de memórias cinematográficas.
Fellini é rei a bordo. Mas seria esta mescla o seu estilo?
É fácil abusar dos ícones do passado porque estes não se queixam!
E no mar plano do Adriático, os sons de uma harmónica (piano?) dormente e queixosa deixam-nos a planar num dolce fare niente que não se revê no declínio dos nossos (hemisférios) impérios.
Que os líbios não nos incomodem!

Mestre Veneza

Marco
Marco Polo
A casa de Marco Polo – dizia o gondoleiro
Gondoleiro?
Sim, a Marta mandou!
Não, não parecia de todo a casa dele.
Ele adivinhou e corrigiu…antes de ser um teatro…porque era de madeira.
Ah – o entusiasmo não era grande
Era o dono da ilha toda.
Antes ou depois daquela coisa da China?
Podíamos ter perguntado, mas não!
Era gondoleiro e italiano, bolas!
Os edifícios continuam a cair aos bocados.
Parece outra cidade, não é? – O gondoleiro atreve-se, oitenta euros depois
Afundado nas cinzas, tal como a eterna Veneza

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O vôo da noite TP 1684


A capa briha na penumbra das apagadas luzes de cabine, como uma lâmpada de criatividade em histórias espalhadas pelo mundo, atenuando o ambiente soturno e bolorento que persiste na cabine.
Um Aladino desperta sempre a atenção, sobretudo abandonado à sua sorte no assento côncavo de uma aeronave, a mais louca máquina voadora do mundo.
O vôo nocturno descola da ilha ensopada de chuva e de luzes...as ilhas já não são ilhas no sentido lato e inóspito do termo
Sepúlveda fora do território panfletário esbanja memórias sem geografia definida, facto estranho para quem nunca se exilou, tão estranhamente vulgar quando lido do céu, uma ponte aérea tão curiosamente comum e intemporal entre a America do Sul e a Europa, refúgio envelhecido de todos os apátridas.
E memórias são de uma criatividade e de um encanto que o autor muitas vezes esconde por detrás de palavras de revolução perdida.
Encontrou-as em correntes de escrita fascinante, sem que lugar algum o segure em mais do que um capítulo seguido
Mas numa noite de Inverno sobre o Atlântico Norte, são as histórias de um exilado na Europa do frio e da chuva, que nos parecem familiares.
" Não me incomoda a chuva, é o que me agrada em Hamburgo..."- o autor em O anjo vingador
" Gostava da chuva, e aqui chovia que se fartava!"
As vantagens de um exilado permanente, convulsivo e rebelde é que nos faz levitar, sem ordem nem prioridade, por universos persistentemente contraditórios.
Mas numa noite de Inverno no vol de nuit sobre o Atlântico, são as interjeições latinas com a Alemanha do Norte, que me adormecem o corpo e me despertam as memórias.

Frankfurt ,20 Janeiro 2003

Spatten era uma palavra inimaginável na Alemanha que eu conheci, há vinte anos atrás.
Mas hoje esta viagem aos mais profundos e irrecuperáveis sentimentos e memórias provocou um temporal de ténues recordações dos Verões de emoções fortes em Frankfurt , 1983 e já voaram vinte anos, de repente uma angustia tão intensa que dói, como se a pele tivesse encarquilhado em segundos tantas décadas e a ansiedade se apoderasse do vazio, do despertar de locais calcorreados com pés e mentes vagabundas, já sem retorno, outro flash que nos acorda para a mortalidade [ a culpa é da memória ], num súbito pavor, gelado e ventoso numa noite de Inverno na estação de Manheim, 2003 e vinte anos é uma eternidade, apenas a rasgos, porventura lampejos, anestesiados pelos olhares profundos e penetrantes das fêmeas normandas, ao pequeno almoço de numa sala real salpicada de tristes e solitárias viagens de trabalho no feminino, os sorrisos com algum deleite, nada camuflado, algures num semáforo [ sempre verde], numa janela que se esgota com a partida do trem [ e fica o soslaio triste, um adeus sem som] , sempre e ainda sem vergonha da sedução....e de repente o filme rebobinou-se sem esforço, voltei a ter vinte anos [ ou elas já tem quarenta?].
E quando me começo a convencer que afinal nada mudou na Alemanha das nossas recordações [não reavivemos malditas datas],lagoas em Mainz, corpos e copos, lindas e proveitosas divagações em torno de uma garrafa de vinho, que muito provavelmente nunca deixei de ter vinte anos... me apercebo que, neste fim de tarde de segunda feira Invernal, o comboio chegou atrasado a Stuttgart, partiu mais de uma dezena de minutos da gare do já desespero, apeou-se num indesculpável atraso que desfez a correspondência porque gastou os três minutos de tolerância que a civilização lhe concedeu, mas insistente na miopia que lhes descontrolou o sincronismo com um passado que se move e transforma depressa demais, mantem o relógio electronico do expresso atrasado para se manter a tempo, mas a correspondência não espera [ ninguém espera] e o atraso torna-se também ele sem retorno, apenas entornado por uma resignada cerveja, e agora esperemos...mais cinco minutos de atraso no clone que vem do Sul, e os passageiros já resmungam com tons de latino e, finalmente Frankfurt sem ordem nem perdão, a memória das torres da finança internacional, os 2 CV da irreverência apaixonada, uma inexplicável inversão de papéis, com uma indisfarçável sensação de familiaridade mas também perda...três horas depois, duas de atraso [ ou um sonho acordado?] que pouco me incomoda, afogado naquela cerveja em cima de um balcão que me recordo tão bem, à chegada a Frankfurt às 7 da manhã de um Agosto de 1985, completamente perdidos, sem pressa de partir o muro em Berlin, recordo-me tão bem [será que ainda lá está? Não, certamente não é a mesma!]
Spatten, funfe minuten! Afinal tudo mudou na Alemanha incontornável nas nossas recordações e sobretudo, sobressaltos !


Quando o trem de aterragem baixou e o mar desapareceu debaixo dos nossos pés (meus e de Sepulveda) as memórias tornaram-se mais difusas - não é possível ter memórias com os pés no chão e em terra firme - afinal eram histórias breves, sem que nos fosse possível afeiçoar aos personagens, fortes, rudes e genericamente audazes!
Terá sido um sonho?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O El Dorado de águas profundas

Fui a Sines e não vi o mar.
Não tirei fotografias porque seria uma forma de simplificar a complexidade do cenário, a (ausência de?) alma da cidade que não se vê, mas sente-se!
Sines é a promessa de uma geração, um caldeirão mais ou menos aceso de experiências do género quase, quase, que resulta mais no preto e branco, nas reportagens sobre uma qualquer época pós revolução industrial, mas que se confundiria, nalguns pontos, nalguns ângulos de iluminação do Sol com uma ruralidade perdida, solitária de referências, raízes que sobrevoam os locais, pairando sobre o pó e o vento como arbustos reinventados por novos e sempre actuais filmes do (Sud)Oeste (Oeste = West (ern))
Por isso me atrevo a experimentar excluir fotos das mensagens...para dar um ar mais sério, mais ensaio do tipo sócio-cultural
Recordo as visitas de estudo no final da década de setenta à nossa (mais que tudo) ambição marítimo-industrial, na altura apenas adiada pela crise do petróleo...e não consigo ter saudades porque regressei ao mesmo ponto da história sinto a mesma sensação de eterna (?) "no man's land", o mesmo círculo de caravanas dos pioneiros, sem índios porventura, mas a mesma adolescência de espírito (e quiçá industrial também)
(e assim se justificava aquele aspecto de transição - rural, Alentejo e piscatório que já não é e cidade industrial que há-de ser - )
A visão estratégica do porto de Sines é assim um destino sem sentido único, sem destinatário preciso e sem cronograma temporal... diria que assim se arrisca a ser uma fatalidade ou um enorme e suculento (porque estas tragico-comédias têm um sabor e uma textura próprias) buraco negro (exactamente isso, porque ninguém sabe verdadeiramente o que é)
Passou de porta de saída para o mundo para porta de entrada para a Europa, aliás ambição nunca cumprida.
Vasco da Gama partiu de Sines...e o petróleo aqui chegou e tudo o resto esbarrou numa intrincada, confusa e equívoca rede (cheia de nós) ferroviária.
Também quem disse que tínhamos vocação de entreposto?
Nem Vasco da Gama se quis associar ou voltar a partir de Sines (Será?)
As torres eólicas que circundam a refinaria e provocam de vento a chama que se consome no cume da chaminé fazem-nos desconfiar que o há-de ser se tende a consumir no tempo.
Em Sto André, aquele Kiboutz periférico, cresce sem que ninguém perceba, falta-lhe a densidade de uma verdadeira cidade (será que há cidades verdadeiras?) mas há espaço, verde e o zeloso GNR prestava assistência a uma passadeira e aos restos inacabados de uma obra municipal, prestava preciosas informações demográficas aos turistas acidentais (ou seriam os representantes lusos dos investigadores chineses?).
A mesma sensação de promessa, os bairros desconstruídos por arquitectos que se inspiravam no descontínuo em vagas de industrialização intermitente, ruas principais sem vielas secundárias, porque os bairros são ilhas, ligadas em redes finas ao obelisco inexistente da praça da Concórdia - as ilhas já não uma benção arquitectónica - e o século XXI brota mas não se impõe.
Aspecto de transição , uma vez mais. Fui ao Sudoeste e não vi o mar. Foi estranho, mas assim percebe-se melhor.