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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O homem Maia foi feito a partir do milho


Mérida é uma cidade grande. 
Percebe-se pela dimensão dos seus arredores, pela densidade do seu tráfego de final de tarde, pela forma como as ruas se inundaram quando uma carga de céu negro tropical desabou sobre a cidade, por ter um aeroporto moderno, uma autoestrada sem buracos e uma linha de comboio brilhante de novo, sugestivamente chamado de Tren Maya, especialmente surpreendente num pais quase sem comboios de passageiros.
Por ser a capital do estado de Yucatan, um nome que nasceu por equívoco, ou pouca vontade dos invasores espanhóis em preocuparem-se com detalhes indígenas
"Como se chama esta terra?" - terá perguntado o Caudillo aos índios
Estes, não entendendo o Caudilho responderam com outra pergunta " O que dizes?" ou, em dialeto maia *Vic Athan?" E então o espanhol - que também não terá entendido o maia - resolveu o assunto ordenando aos seus súbditos ou capatazes que se chamasse Yucatan, a esta terra. Com equívocos descuidados como este - normalmente em cenários que ninguém questiona o chefe - ja se desencadearam muitos conflitos, pelo mundo fora.
Ainda assim, Yucatan ficou e este não foi, de todo, o episódio mais sangrento da história da colonização do México.
Já quanto às origens do nome da sua capital, julgo não existirem grandes dúvidas.
Yucatan é um lugar de exploração e de soberba, porque foi uma zona de plantações, grandes senhores rurais e mão de obra escrava e, quando a escravatura foi abolida nos primórdios da independência, passou a ser uma terra de senhores e assalariados.
As primeiras grandes fortunas nascem do cultivo e transformação do açúcar e do sisal, e a soberba dos senhores de Yucatan ainda hoje é visível nalguns dos palácios construídos ao longo da enorme avenida Montejo, alguns ainda residências de família mas outros transformados, pelas famílias, em museus ou tomados pelo estado para transformação em patrimónios vivos de uma época, com utilizações contemporâneas ao serviço  da cultura ou do ensino da sua história.
Assim sendo, diria que todos os povos têm direito à sua soberba e que, sem ela, haveria poucos despojos materiais vivos para ilustrar os feitos (ou, pelo menos, os factos) da nossa história, sejam as cidades estado maia, sejam as igrejas construídas com o ouro americano, sejam palácios construídos pelos senhores rurais, com a fortuna do sisal.
Claro que sem juízos de valor nem interpretações da história baseadas nos valores ocidentais e humanistas de hoje.


Mas o Yucatan é também um lugar de revolta, porque os Maias nunca foram um verdadeiro estado mas sim um conjunto de cidades estado com poderes descentralizados e concorrentes - há quem afirme, de forma muito convincente que o maias eram os piores inimigos dos maias - e , quando os espanhóis chegaram ja não habitavam as grandes cidades maia e, estando dispersos, lhes resistiram com mais persistência, dificultando a sua absorção (ou aniquilação) tendo mantido uma guerra de atrito com o estado mexicano dos brancos e dos mestiços, para defesa das suas terras e dos seus costumes, durante toda a segunda metade do século dezanove.
E, apesar de derrotados na guerra das castas em 1901, as diversas subculturas maia são hoje mais vivas que a dos povos do Norte. descendentes dos aztecas e dos seus contemporâneos.
Assim, o legado maia vive-se tanto nos mercados de Campeche e do yucatan como nos museus regionais.
Não os retiram da base da pirâmide social, mas dão-lhes outra confiança e outra sensação de pertença, ajudam a construir o contraditório, e ajudam a explicar a nova versão oficial da história dos maias, contada no muy moderno grande museu da cultura maia, em Mérida.
Visto desta forma, talvez a forma grandiloquente como o regime trata hoje a herança maia não seja apenas uma construção ideológica para justificar um grandioso presente  da nação mexicana.
Mas o presente é mais subtil e menos épico que a história declamada.
O autocarro suburbano (coletivo) que se atravessou à nossa frente algures, no centro histórico, publicita. nas traseiras, todos os cursos superiores disponíveis na universidade local.  Mas lá dentro, só se viam rostos fechados, de gente sofrida e indígena e com expressões pouco dadas aos diplomas e aos estudos e muito consumidas pela energia despendida em longas horas de trabalho e de transporte para as distantes periferias.
E mais uma vez ficamos com aquela sensação, muito mexicana de que o bom e o mal devem ser divididos entre todos os autores de uma contenda (enfim a uns mais que a outros) de forma a evitar finais absolutamente felizes.
Segundo o livro sagrado Popol Vuh, o Homem Maia foi feito a partir do milho, surgiu da fecundidade amarela da maçaroca, sustentada pela mão do bacab do Sul, diante da observação daa estrelas que iluminam a noite na mão branca do Bacab do Norte.
O Ocidente e o por-do-sol são a origem dos ventos maus, simbolizam a guerra, os animais da noite, a fome e a morte e o seu Bacab é negro
Vermelho é o Bacab do Oriente donde vêm as chuvas preciosas para as grandes colheitas que dão vida aos homens, assim como às ciências e às artes.
O destino do Yucatan é assim uma espécie de luta entre o ocidente e o oriente maia.
Pois!



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A Máscara de Calakmul

 


A nossa manhã é, como sempre, precoce, e vamos acordando com a cidade, com os locais, como se, todos os dias repetíssemos o ritual de iniciação à imersão local, seguindo as passadas de quem vai trabalhar ou às compras ou apenas perder-se na cidade em que toda a vida viveram.
Um calor húmido dos trópicos debruçado sobre o golfo do México entorpece a nossa vontade, mas o ritmo também baixou, os ruídos são mais lentos, as cores tornam-se mais diluídas tipo mate, e os sons tornam-se mais abafados.
As igrejas recebem os fiéis, quase sempre mulheres idosas que se recolhem sob a proteção do seu santo, mas naquela igreja particular na esquina da rua 57 - sim, em Campeche, as ruas têm números - as mulheres estão todas de joelhos viradas para o altar e uma delas reza em voz alta, e as outras seguem-na, e a igreja é delas, em relação direta com o criador, sem intermediários, e aqui os sons saem nítidos e transparentes nesta missa rezada sem padre.
Junto à muralha sul, há um pequeno museu com vestígios das cidades maia, retirados dos inúmeros locais arqueológicos que rodeiam Campeche, e este local de culto maia, obrigatório para jovens estudantes, é também um dos empregos seguros em que o estado assume função social para um rácio generoso de vigilantes por cada vestígio arqueológico encontrado.
Entre a muralha e o mar, o tempo e os homens foram aterrando marés ao longo dos séculos e construíram múltiplos equipamentos sociais, instalações de organismos públicos e uma generosa avenida marginal.
Fora da muralha ficaram os menos afortunados, os que fazem fila à porta do  banco do bien estar ou a mulher em cadeira de rodas e chapéu de sol que cantava na esquina da rua 55, cantava para sobreviver.
E o mar de Campeche é sujo e baço, daqueles lugares que o mundo parece ter escolhido para despejar todo o seu lixo.
No mercado da cidade vendem-se bananas a 20 pesos a dúzia, revistas e jogos de azar, legumes e outras frutas, carne e flores, sandes de leitão ao almoço, e a agitação que se vive nos apertados corredores do mercado parece indiferente à humidade que sufoca apenas quem não vem aqui para comprar.
E no mercado de Campeche tudo é negociável.
Menos a Máscara de Camakmul, cuidadosamente escoltada por zelosos funcionários, dentro das muralhas do museu local.



sábado, 27 de dezembro de 2025

O lugar das grandes águas

 

No dia 15, entramos na vertigem do final, a mesma vertigem com que começamos a descer das serras do interior central para as planícies do yucatan e para o mar.
E, contra as piores expetativas possíveis, não nos cruzámos com a revolução zapatista que consta ter o hábito de descer dos montes e montar umas portagens informais no meio das estradas
Anda tudo tão calmo com a revolução - segundo informações pouco fidedignas - aparentemente em reflexão silenciosa, agora que, passados trinta anos, desapareceu o efeito surpresa, e que o mundo e a perceção popular do que uma revolução pode ser, mudou.
E, em Palenque, o lugar das grandes águas, provavelmente devido as cascatas de água que existem no local, situa-se o sítio arqueológico, o charme maia entre a planície e a serra, no meio da imensidão da selva.
Toda a envolvente desperta o melhor que há nos nossos sentidos, mistério, natureza e antiguidade de esplendor maia, como se o mergulho da tarde nas cascatas da água azul, nos tivesse purificado a alma e preparado o corpo para os rituais maias do dia seguinte.
No hotel MayaBell, os ruídos da selva confundem-se com a chuva e com os sons dos clássicos que se ouvem no arejado bar do hotel.
O Templo das Inscrições, o Palácio e o que se julga ser a sua Torre de Observação Astronómica, o Tempo da Cruz e o Templo do Sol são estruturas notáveis que realçam da selva, mas também do silencio que ainda reinava naquela manhã precoce, no lugar, onde os ainda poucos visitantes entendiam o privilégio e olhavam, com respeito, para as realizações dos nossos antepassados que viveram, mais de sete séculos, nas fronteiras do mundo maia, mas também nas fronteiras entre os reinos da planície e das montanhas.
Voltámos a estrada, e à musica dos clássicos, e em Catazajal em frente ao lago, comemos ceviche e peixe de rio assado ao vapor, enquanto observamos as crianças que regressam da escola para casa de barco e fazemos figas que ave predadora que sobrevoa o local não ataque as famílias de patos e de aves de pequeno porte que posam na vegetação anfíbia que se ondula, em frente aos nossos olhos, como se de uma miragem se tratasse.
Atravessamos terras de ganadeiros e voltamos a ver pequenos mexicanos de grandes chapéus de volta de estábulos que forravam a paisagem.
O condutor - o gordito já chegou, teria atirado o nosso intermediário, no inicio da viagem - mantem-se firme no compromisso de chegar a horas e não se desfazer nos buracos de uma estrada de bom traçado, mas a precisar de reparação desesperada e trás, no banco da frente, a mulher e a filha de quatro anos, como se precisasse de nos inspirar confiança.
Os camiões são grandes, muitas vezes com longos reboques, tao grandes como o México consegue ser, mas o gordito também é imenso e nunca nos desilude, naquele soberbo sorriso de um otimismo tal que nos deixa, invariavelmente. comovidos.
Ao anoitecer chegamos ao mar do Caribe, às noites quentes e húmidas, aos sons tropicais, aos homens temperamentais, os descendentes dos piratas que assolaram a costa e as muralhas e mudam outra vez os cheiros e as cores.
Ao anoitecer chegamos a Campeche.
Mas o gordito e a sua família voltaram para casa naquela mesma noite. Sem tempo de descanso.
Por isso. o otimismo deles é tão extraordinário.



Revolution e /ou Fe

 

A Livraria Cosecha é um recanto de revolução, no sentido puro do tema porque apela ao estudo, à reflexão abrangente da realidade que nos rodeia e à ação comprometida através da palavra escrita e da partilha da diversidade.
Sem destino preciso folheei "Sobre o duelo" de Chimamanda Ngisu Adichie, uma história de separação entre pai e filha, o pai que morre na pandemia, longe, na Nigéria 
É um espaço apertado, cuidadosamente organizado por temas, produtos gráficos e literários e autores improváveis, temas de investigação. todas as feridas que matam o México e o mundo, a emigração, o narco, as endémicas guerras do mundo, um altar do dia dos mortos dedicado a uma criança morta na Palestina, a coleção de postais dos zapatistas, do comandante Marcos, cartazes com mensagens fortes ou cores expressivas com personalidade de tradição indígena, prémios Camões, Pepetela e Lídia Jorge, e imagens da mesticidade, edições de investigação e revistas universitárias.
Num país em que a palavra Revolução se proclama tão alto e se repete tantas vezes como se perde com frequência em discursos de retórica e deixa de lado os mais excluídos, aqueles que não tem sequer acesso à palavra, a livraria Cosecha em San Cristobal de las Casas é um lugar que respira inclusão e diversidade, numa voz firme, mas contida, deixando as interpretações ou as opiniões para as quem quiser aprofundar.
Revolucionário, portanto 
No cemitério de San Cristobal neste domingo, dois de novembro, vive-se a festa católica do dia dos mortos, rituais diferentes dos maias, um cemitério católico com campas e jazigos mas a mesma festa que no dia anterior, apenas de uma forma um "pouquito mais católico" porque as famílias vêm para os jazigos, comer e beber, jogar jogos de família e partilhar recordações e bebidas, como a mistela chamada Nancy.
Beber com amor porque estão felizes por receber os seus mortos
Porque basta não os esquecer.
Como referia uma transcrição de Pedro Lemebel, a quem o New Yorker apelida de uma voz radical para tempos calamitosos, colocada ao lado da porta de entrada da livraria Cosecha "Olho de louca não se equivoca"