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segunda-feira, 8 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 8/8


Agora sobrevoava o Atlântico Centro numa intermitência sonolenta, sentia o Sul pelas costas e procurava espreitar entre as nuvens, à procura de referências, tarefa impossível em pleno Oceano para um leigo em orientação marítima e profundo ignorante em estrelas.

E exatamente no prolongamento do Cabo Bojador – um olhar furtivo aos ecrãs de televisão da cabine, comprovavam-no – uma mancha de luzes, num formato retangular familiar, parecia flutuar sem direção precisa, seria um barco, um barco não era certamente porque não coincidia a dimensão com os dez mil metros de altitude anunciados no visor que lhe iluminava a face, a ele e aos duzentos e tal passageiros que dormiam.

E como dormiam, não se puderam aperceber que, naquela imagem de satélite azul, verde e castanha, comprovava-se, primeiro de forma pouco nítida, depois mais claro e, alguns segundos depois um contorno de luzes folclóricas qual arraial minhoto, a profecia de Saramago, Portugal flutuava no Atlântico, mas sem a companhia de Espanha,

Sem a companhia de Espanha e de luzes bem acesas como não houvesse um cabo elétrico que liga a nossa energia à Europa

Exatamente no prolongamento do Bojador.

A agitação apoderou-se de L. porque Portugal deveria ser o seu destino de regresso e, ao contrário do retângulo bem real, que se afastava agora por detrás da traseira do avião, sentia-se mais à deriva do que em qualquer um dos infindáveis dias em que estivera exilado, porque nas vinte e quatro horas de cada um deles ele sabia que a geografia se mantinha inalterável e que havia um lugar para regressar, mesmo que fossem remotas as possibilidades de readquirir a sua vida, o seu conforto e as suas raízes.

E, de repente, L. entendeu tudo: voltava a casa, mas o país não esperara por ele, procurava uma nova epopeia, renascia das cinzas numa inesperada e inusitada vocação marítima antes que os filhos da Nação abandonassem a Pátria de vez e, tal caravela, tinha agora um novo desígnio, recolher os portugueses pelo mundo, e L. não devia ter partido, ou regressado, conforme a perspetiva.

Será que o país também o viria buscar? Mas porque é que ninguém, naquele avião lotado, entendia que este absurdo, tão tridimensional quanto um quadro de Dali, estava mesmo a acontecer?

Adormeceu a congeminar como seria possível a ele, uma mente errante encerrada num corpo que ansiava pela criação de laços, voltar a tirar partido desta oportunidade que o seu surpreendente e caprichoso país lhe dava de novo, de ser viajante no conforto do seu próprio espaço, beneficiando da energia e das oportunidades de novas geografias promissoras

E L. sonhou o resto da noite com P. o P de Portugal.

Quando Luís acordou, não havia noite, antes um Sol que se escapava por debaixo das cortinas, nas minúsculas janelas duma aeronave de nacionalidade lusa, comandante e hospedeiras devidamente fardadas, e ele de mente absolutamente desperta de quem vira a sua vida desfilar em algumas horas de sono profundo, embalado pelo som dos motores…

Enquanto procurava discernir o que, da sua desperta memória, era realidade ou sonho, abriu a cortina e deparou-se com aquele extraordinário cenário, sempre renovado, a entrada no estuário do Tejo, com o Sol nascente a varrer o rio, a margem Norte, o bugio e a linha de Cascais.

Luís, quarenta e nove anos, regressava de mais uma entediante viagem de uma semana de trabalho em S. Paulo

Mas tudo o resto, que se recordava como tivesse acontecido, só podia ser um sonho, porque, nas histórias de verdade, os personagens têm nome e não uma maiúscula com ponto.

Mas parecia tudo tão real que lhe provocou um arrepio na espinha, tão frio quanto uma madrugada de sonos sobressaltados em altitude

Entre o alívio da reconfortante e avassaladora vista aérea de uma cidade no sítio certo, e o indisfarçável desconforto de um exílio sonhado, preferiu relegar para as profundezas do cérebro o que sabia da teoria dos sonhos, um enredo de premunições e memórias soltas de experiências e viagens passadas.

Sorriu sem disfarçar, quando se recordou do país iluminado a navegar no Atlântico Central e preparou-se para o regresso sonhado, no sentido literal, à pista da Portela.

“ O número tentou ligar-lhe 3 vezes….”

Era Ana, que ainda não se habituara aos atrasos do voo da noite!

O voo da noite - Parte 7/8

Enquanto esperava pacientemente pelos atrasos do voo da noite, L. observava o puto que dormia em cima de uma mala, aparentemente abandonada, como se não houvesse pais, donos ou um conceito equivalente de núcleo familiar. Mas o puto acordara, e agora perdido no sonho ou da família, choramingava sobre a grande mala que antes o acolhera.
Transeuntes preocupados de volta da criança desorientada, interrogavam-se sobre a solidão e o abandono, as seguranças de luva branca e feições carregadas, demonstravam o seu lado maternal, agitavam os olhos nervosos à procura e, vindo de sabe-se lá donde aparece o pai da criança que a embrulha nos braços, como ramos de uma árvore pejada de raízes. Mas a frieza da mestiça de feições carregadas só entregou a criança depois de identificado o alegado indigente.
L. sorriu com este final feliz e embrenhou-se na leitura, a lâmpada de Aladino de Luís Sepúlveda, como antes e durante, Borges, Garcia Marques e Vargas Llosa, companheiros na sua solitária viagem.
A capa brilhava agora na penumbra das apagadas luzes de cabine, como uma lâmpada de criatividade em histórias espalhadas pelo mundo, atenuando o ambiente soturno e bolorento que persistia neste interlúdio entre a terra e o espaço exterior.
Um Aladino desperta sempre a atenção, sobretudo abandonado à sua sorte no assento côncavo de uma aeronave, a mais louca máquina voadora do mundo.
O voo noturno descola do istmo ensopado de chuva e de luzes e L. voltava a embrenhar-se em Sepúlveda que, fora do território panfletário, esbanja memórias sem geografia definida, facto estranho para quem nunca se exilou, tão estranhamente vulgar quando lido do céu, uma ponte aérea tão curiosamente comum e intemporal entre a América do Sul e a Europa, refúgio envelhecido de todos os apátridas.
E memórias são de uma criatividade e de um encanto que o autor muitas vezes esconde por detrás de palavras de revolução perdida.
Mas numa noite de Inverno sobre o Atlântico Sul, são as histórias de um exilado na Europa do frio e da chuva, que pareciam familiares a L. e são as interjeições latinas com a Alemanha do Norte, que adormecem o corpo de L. e voltam a despertar as suas memórias.
Eram as noites que marcavam o seu ritmo afetivo e a sua tolerância à distância que, à medida que o tempo escorria, deixava de ser apenas uma distância física e se transformava no reinventar de uma nova existência, como se tivesse reencarnado na essência de um outro ser.
Deixara de haver rotinas para L., e os finais de dia alternavam entre a profunda e temível solidão e a euforia dos encontros fortuitos nos bares de todas as cidades, nas sociedades de elite ou nos hotéis de luxo que a nova profissão lhe proporcionava.
Jamais L. se imaginaria um ser de sociabilidade tão fácil e de pendor tão universal como nas terras de um exílio tão dourado e compensador.
Chegava a sentir-se um mercenário do seu interior, agora que decidira deixar de contemplar a vida dos outros e se assumia, qual jovem rebelde e de natureza errante, como participante desta nova existência reincarnada.
Nos compassos de solidão, debruçava-se no skype, cada vez mais intermitente e ausente, e constatava que os filhos reinventavam a vida na sua ausência, com uma saudade cada vez mais difusa e uma necessidade cada vez menos premente.
É diferente ser exilado fora de tempo.

domingo, 7 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 6/8


Mas cedo percebeu que BA era uma cidade da boémia decadente, tão sedutora quanto falida, e não era por ali que L. podia viver do seu trabalho
Tal surpreendente constatação não o impediu de vaguear semanas a fio pelos mercados de S.Telmo ou pelos bares de Palemo, de se embrenhar em peregrinações pejadas de atos de fé nos Santuários da cultura e paixão.
Acompanhado de E. um orgulhoso cicerone de Borges e de uma legião bem representativa da nova inteligência porteña, vasculhou todos os lugares do autor e captou o seu espírito mais denso e profundo no café Tortoni, Rua de Mayo, 875, referência de intelectuais e artistas, teimosamente posicionado no eixo do poder, como a barricada da irreverência incontida e permanente á ousadia imperial dos governantes.
Rua de Mayo, entre a Plaza de Mayo e a dos Congressos. Borges e Gardel: duas extremidades do quadrado estético de referência do passado recente de um povo jovem. Tortoni, antiga tertúlia, hoje espaço de culto.
L. sentiu-se rapidamente preso a este povo, tão jovem mas com uma História tão intensa, tão cheia de contradições e tão familiar na sua profundidade intelectual e na sua inabilidade para gerir as coisas práticas, sempre à beira do abismo e tão juvenis quanto emocionalmente instáveis, quando se entregam em desespero a um pai ou uma mãe do povo, dê por onde der!
Na Plaza de Mayo, a fronteira entre a boémia S.Telmo e as avenidas imperiais, e o obelisco que se impõem como uma bandeira de pedra entre o palácio do Presidente e a praça do Congresso, símbolos do poder e (quiçá) do nacionalismo aceso, L. sentiu-se no âmago das encruzilhadas históricas deste povo jovem.
Para E. e os seus entusiastas amigos – e agora amigos de L. - a Casa Rosada, ao fundo, representava o farol do (fascínio pelo) poder, da força messiânica dos líderes do povo (descamisados, pobres e infelizes), dos militares absolutistas e opressores com sonhos imperiais que repõem uma ordem instalada (?), uma sucessão alucinante de extremos, que se intercalam periodicamente com os reinados de famílias com mística popular e o fascínio pelas mulheres de personalidade forte que se tornam poderosas e idolatradas.
“O clã Peron, os militares e as mulheres são os protagonistas da História da casa rosada, do farol da Plaza de Mayo e de um país” – repetia L. entre um gole de café gelado com sabor a rum – “Sangue, suor e lágrimas” – realçava E.
E L. já imaginava Eva discursando ao povo na janela da casa rosada.
“Mas a Plaza de Mayo é também o palco dos equívocos, os absurdos, os contrassensos e as encruzilhadas do nacionalismo excessivo”
“A mistificação das mães de Maio no auge da ditadura militar, que exibiam os sinais dos filhos desaparecidos opositores de um regime, que não tolerava protagonismos populares ou cento e cinquenta mil pessoas que aplaudiram a invasão das Malvinas, em pleno período de declínio da ditadura militar de Vilela “ – continuava E.
L. percebia cada vez melhor a nossa raiz latina comum; Manipulação, revolta, nacionalismo, mistificação e a voz do povo, tudo numa só Plaza e num só século.
L. concedeu a si próprio estas indulgências de turista – ele preferia ser reconhecido como viajante, ou explorador da natureza humana - como sendo parte integrante do seu processo de aculturação a uma nova vida num novo hemisfério.
Mas, latitudes diferentes e a mesma língua levantaram voo, semanas depois, para Santiago, São Paulo, Bogotá e Lima, o quadrado da sua nova vida de exilado económico e sentimental

O voo da noite - Parte 5/8


Quantas vezes se debruçara sobre os balcões de check-in, era uma equação de variáveis indefinidas, perdidas nos horários trocados de uma massa humana que freneticamente se deslocava permanentemente de um lugar para outro, em complicadas manobras de segurança, bagagem, vistos e passaportes, novos tempos e novos hábitos de latitudes longínquas a que L. já se tinha adaptado

Incomodavam-lhe mesmo as facilidades aduaneiras europeias quando, cada vez mais esporadicamente, regressava ao velho continente.

E, enquanto abria mais uma vez a sua mala, sem se importar nem questionar com a sua utilidade, constatava divertido que, por estas bandas, as revistas e os controlos eram sempre desempenhados por mestiços profundos de feições carregadas e olhar frio e cortante, mas que as suas mãos enluvadas apenas acariciavam a roupa, sem entrar em detalhes, esperançados de nada de suspeito encontrar.

Mais um raio X na mala de um caixeiro-viajante da era moderna, adormeceu L. da atmosfera pesada, noturna e de luzes de néon amareladas de tão gastas, da área de embarque e transportou-o para a viagem de partida para as Américas.

Ou seria a de regresso, considerando as circunstâncias e a sua fulgurante ascensão na nova vida de (i) emigrante.

Corria atrás do Ocidente numa tarde que não tinha fim. Deixara a sua vida por resolver e, da cabine da aeronave lotada, olhava a profundidade temerária que ressaltava a turbulência em imagens de abismo.

Não entendia na altura se era o abismo do profundo mar azul e do deserto humano que se espelhava nos areais do Sahara e de Cabo Verde, ou apenas uma vida que se desmoronava num exílio fora de época.

Sentia-se apenas confortado pelo facto do Sol ser amigo, porque sobrevoa sempre as nuvens e por não vislumbrar fenómenos do fim do mundo como árvores plantadas no céu.

Imaginava Buenos Aires, como serão os cheiros da manhã nos mercados, nas cervejarias, será verdade o ritual do café sem pressas, como se fizesse parte da sua função no mundo observar os outros, imaginar as vidas de quem se atreve a passar, não há nenhum impedimento em construirmos histórias ao sabor lento do café e tinha saudades de Lisboa, como se o oceano me estivesse a esticar de forma intolerável entre dois mundos.

A realidade a dez mil metros de altitude, despertava-o para uma aula de ritual dos porteños e, como se fosse natural recomeçar a andar, aprendia como imaginar a segunda vida dos que o tentam lixar a vida

“Tal como eles não imaginam a minha segunda vida!”

Procurava entre a turbulência, as subidas e descidas e o apertar os cintos não me enredar nas nuvens, regressar à construção do meu mito sobre o novo mundo, calibrar a nossa expectativa, porteños de beleza impura que envolve as tradições submetidas ao Tango, os cheiros e as cores, as referências obrigatórias ao início do século XX, cafés e tertúlias, a intelectualidade e a ditadura, Borges e Gardel, o Déco que impõe ainda hoje o ritmo da modernidade

E as saudades das suas referências de passado em glória e tragédia nacional, um fado que nunca ouvia, pareciam-lhe agora intoleráveis enquanto sobrevoava, em descida prolongada, a colónia de Sacramento.

21:07, a tarde esgotou-se finalmente no início de noite e sentiu o céu vermelhão escuro na cauda do Airbus; Atravessara meio mundo sem mudar de língua e, no aterrar da segunda vida (ou seria o descolar da segunda e aterrar da primeira?), e assegurava que a visão argentina do universo hispânico, seria uma versão claramente melhorada do original.

Assim acreditava porque tinha atravessado o mundo nessa esperança

E. esperava-o na cidade do Tango….

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 4/8


Apesar de ser uma mente que pairava o mundo, não o empolgava qualquer sentimento ou apelo ao destino atlântico e descobridor, revelado no ADN lusitano, e muito menos à Ibérica ambição de grandes e épicas conquistas. Nem mesmo o amor convicto pelas causas humanitárias num mundo globalizado, o terá alguma vez despertado para o voluntariado de impulso e sem regresso, que a sua mente em estado de sono profundo, sonhava.
Era eventualmente, e apenas, uma forma de expiação do pecado de viver num mundo remediado. Por isso, era um sentimento sem força suficiente que levasse alguma vez L. a pensar sequer em partir sem bilhete de regresso.
“ Tu és um homem maratona “ – uma profecia indesejada de furtivo e não assumido amor.
Convenceu-se então que isso de ser corredor de fundo era uma espécie de gene diletante e ramificado na sua consciência de ser, que não lhe permitia tomar decisões grandiosas e absolutamente não convencionais.
E por isso mesmo, tornou-se um adulto conformado e portador de uma existência tão linear quanto previsível, empurrado pelas circunstâncias conciliadoras de uma vida socialmente enquadrada, temperada por laivos de irreverência condescendente, décadas de ascensão consciente e estruturada, a obstinação que, esporadicamente, se sobrepunha à determinação e uma invulgar capacidade de acumular experiências e devolvê-las, sem golpes de mestria e de forma absolutamente gratuita, a todos os que dele se abordassem.
Socialmente inapto, portanto, este homem da maratona, no amor e no trabalho.
E à medida que as luzes amarelas do aeroporto galgavam o horizonte em sua direção, do táxi que o transportava e dos subúrbios sem esgoto nem pavimento, L. via desfilar, neste oásis de luz fosca, esbatida e sem sombras, a súbita destruição do seu mundo familiar e a incapacidade de lidar com um mundo laboral de metas curtas e personalidades afirmativas.
“Vou sair de casa” – foi de uma forma tão simples e cruel que o amor da sua vida, subitamente o privou da família, do sentimento que julgava ser apenas uma esbatida e longínqua paixão, e de uma vida social em recente estagnação.
“Apaixonei-me outra vez!” – A paixão é um sentimento do fim dos tempos, que se reacende em momentos de crise profunda, uma espécie de anestesiante para a queda iminente nos abismos, os momentos de loucura que precedem os marcos da História.
Foi o regresso da teoria dos ciclos, após décadas de crença absoluta no enriquecimento eterno, baseado no conforto, na indulgência e nos valores em que fomos habituados a acreditar.
“Lamentamos, mas não se adaptou aos novos tempos” – Retrato de uma geração em apuros
No amor e no trabalho!
Assim, para L. as generosas taxas de crescimento destes povos latinos, ansiosos por ascender ao patamar mínimo da classe média, ainda entre senhores e servos, eram um desafio sem segredos para quem já não acreditava, depois dos cinquenta, que o mundo fosse o seu novo e instável lar.
E os laivos de memória descontextualizada invadiam-no com a aproximação dos lugares com fuso horário.
E o aeroporto da Cidade do Panamá era um deles.
E, enquanto procurava consumar uma bandeirada a preço aceitável nesta viagem de bigode e tez morena, viu a sua vida a desfilar em contramão na esporádica autoestrada deste destino improvável.

O voo da noite - Parte 3/8




Há três anos que os nativos irónicos comparavam abusivamente L. a um novo “barbudo malcheiroso” qual Pizarro, voando de mercados em mercados, vendendo consumo ao crescimento económico, pelo menos isso ele sabia fazer, porque havia vendido consumo durante anos a fio a um povo que comprava sem crescer.
Para além do incómodo gerado pela generalizada perceção da grande Ibéria, havia esta diferença não subtil e muito profunda, que marca a diferença dos povos: comerciante mas não conquistador, sem necessidade de converter os nativos à fé católica ou roubar a prata das minas.
L. estava longe de imaginar, tantos anos depois da opressora escola primária da professora Helena e do Hino Nacional cantado sem convicção nem especial amor à pátria, que se voltaria a confrontar com as contingências do Tratado de Tordesilhas.
“ A principal razão pela qual o Brasil é um país uno e esta unicidade não existe nos restantes países de língua espanhola, é porque todos os membros da elite brasileira estudaram e graduaram-se na mesma universidade “ – referia entusiasticamente o reitor da Universidade de Coimbra em todas as cerimónias públicas.
As razões da História iam-se alinhando cronologicamente, à medida que L. crescia e se transformava num Homem de calças coçadas e espírito libertário.
Por esta fase, o mundo já não chegava pelo correio, através de panfletos turísticos zelosamente pedidos por carta, numa letra irregular de adolescência avançada, sempre acompanhados de elogios bajuladores a todas as repúblicas ou monarquias, algumas tão obscuras, quanto o seu relevo no mapa-mundo, religiosamente colado nas paredes do quarto, mas que evoluíam no seu ranking de admiração em função do tamanho do envelope de resposta.
Avançáramos sem hesitação pela década da televisão a cores e L. tinha tudo para ser errante como o vento que assola a costa ocidental atlântica no inverno do norte, incapaz de se prender a uma existência vulgar e convencional.
Tão longe deste Pacífico, obscurecido por um anoitecer precoce a caminho do aeroporto, num mar que se deixa atravessar por um canal sem vento, construído no meio da sufocante humidade tropical, dos mosquitos e sacrifícios humanos, uma tentativa sobre outra, até resultar.
A natureza é obstinada em defender o que é sagrado e ligar dois mares com diferentes altitudes e histórias, que só se haviam ligado no extremo sul, entre tempestades e fiordes, não obedece de todo às leis da mãe natureza.
Daí o enorme sacrifício humano!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 2/8



Não fosse o solavanco inesperado numa cratera camuflada por um gigantesco lago artificial feito da chuva diluviana, e o miúdo jogaria futebol no espelho retrovisor de onde espreitava um bigode moreno, desconfiado de tanta reflexão absurda, saltaria do quintal pela janela da frente no lugar do morto, pedalaria campos fora a uma velocidade que os pesados ciclistas de rua, na imagem de fundo, não ousariam seguir.
Convencido, o puto, de que aquele era o mundo dele, uma província da qual não haveria História de Portugal que o colhesse. Tinha impregnada a noção de uma Pátria a preto e branco, modesta mas livre para os putos que se enchiam de pó nos infindáveis estradões de terra solta.
O bigode moreno do banco da frente balbuciou um “Perdão!” e o L. empertigou-se no banco de trás, no seu orgulho e na carcaça de homem feito, compondo-se de uma breve, mas sentida, emoção.
A chuva convenceu-o de que não estava em Lima, a terra de nevoeiro opressivo, mas que não aceita chuva por capricho da natureza, este tinha sido o seu poiso de semanas passadas, Santiago também não, porque aqui cheirava a Pacífico e as estradas tinham buracos.
Panamá e decidiu bem. Ao longe levitavam as luzes dos monolíticos cargueiros que esperavam a vez para entrar no canal, mas o táxi não se comoveu e, subitamente curvou para Leste, deixando o canal, os cargueiros e os milhares de marinheiros impacientes pelas costas…
A literatura do policial Carré não servira afinal de preparação, na sua primeira visita a este local, e nas outras que se seguiram, sempre como um entreposto, um mero poiso, umas horas de espera sem recordações nem memórias que valham sequer a fama e o proveito que resultam das suas ancas elegantes e curvas generosas, mas as memórias exóticas e românticas nada tinham a ver com este lugar, perdido entre a espelhada downtown e uma imensa e precária periferia pardacenta de predominância em latão e zinco.
Desejou muito, e de repente, voltar para o confortável e aquecido mundo das memórias.
Um exilado, compulsivo e rebelde levita permanentemente, sem ordem nem prioridade, por universos persistentemente contraditórios, mas tem sempre um refúgio sentimental para onde se recolhe, sempre que o incómodo ameaça torna-se insuportável.
Mas, assim tão de repente, não conseguiu porque a escuridão era agora total, e tal como o silêncio também a falta de luz impedia que película se projetasse nos reflexos sua memória. 

O voo da noite - Parte 1/8


“E quando ele tiver idade de ir para a guerra?”
Quando estamos longe, a nossa memória mais juvenil torna-se num potente motor de busca que recorda acontecimentos improváveis, meticulosamente extraídos de um pedaço descontextualizado de tempo, bem para além das profundezas da nossa consciência.
E sem entender qual tinha sido o gatilho das memórias que tinha disparado, L. deparou-se com um reflexo no vidro lateral do táxi noturno, um miúdo de calções curtos e joelhos esfolados que olhava atónito os pais, sem entender coisa nenhuma do que era a guerra e aquela palavra redonda, mas clandestina e envergonhada: emigração.
A noite já cobrira a cidade, uma qualquer metrópole sul-americana que bem poderia ser Bogotá, Lima, Santiago ou São Paulo, tantas tinham sido as partidas e as chegadas nestas novas geografias dos negócios, das oportunidades e do destino, que as referências esbatiam-se entre as diferentes pronúncias de uma língua comum e mestiçagens singulares.
Mas o táxi investia pelas anárquicas ruas da metrópole em hora de ponta procurando, na perpendicularidade das ruas secundárias, um impossível atalho para mais um aeroporto, e a criança que se chamava L., cinquenta anos atrás, esborratava-se nas gotas de uma chuva persistente que deformava a paisagem de fundo, os seres sem expressão que olhavam para os resquícios de vazio em autocarros lotados, os vendedores de cana-de-açúcar que exorcizavam a cana com rudes golpes de catana, carrinhos de mão carregados de tudo e de nada, e um trânsito interminável que tornava intermitentes as fileiras de prédios de cores escuras e encardidas, ou apenas tijolos empilhados, sem ordem nem prioridade, apenas iluminados por velas e santos que, esporadicamente preenchiam as janelas e cornijas.
Mas a imagem do menino, agora mais crescido, renascia das gotas de chuva e projetava-se no reflexo do vidro ou das poças imundas de água que enlameavam a face refletida, de calções mais compridos e joelhos menos esfolados e, na mesma inconsciência ideológica de adolescente incompleto, via os soldados regressar da guerra, e depois milhões não soldados de grandes malas e um olhar aterrorizado, ainda mais confuso porque os pais lhe haviam explicado que os emigrantes são aqueles que partem.
E estes partiam para onde?

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ei! Silly season, os nossos filhos estão a emigrar!


A estação tola aproxima-se do fim
Silly season para que não restem equívocos
São as manhãs de neblina costeira e outonal que nos acordam para a elevada perecibilidade do Verão
E do inverno...
A rapidez das ondas do tempo desfaz as memórias num ápice
Enquanto no país do sol poente as festas e festivais de verão extinguem a chama de um povo que se incendeia no calor da estação alta, os velhos emigrantes regressam "quando se prova o sabor de Paris nunca mais ficamos contentes com Portugal " e os miúdos com uma idade cada vez mais próxima dos nossos filhos despedem-se dos empregos precários (os nossos) e do desemprego e preparam-se para seguir o regresso os velhos emigrantes
Para saltar a fronteira inexistente
Não queremos (porque somos) ser piegas porque…
É o mercado, é a vida todos entendemos, o equilíbrio da oferta e procura, o mundo global que provoca a desertificação das periferias e enriquece os lusitanos de novas vivências e realça a nossa competitividade no mundo.
Mas o que será de nós se os nossos filhos não voltarem?
Seremos a geração que não consegue fechar a porta, os solitários guardiões de templo perdido
Não é retorica, é um fado!
Juramos que vamos gastar os últimos euros para os ajudar a emigrar como triunfadores de um mundo global
E não como o cu do mundo inteiro
Mas... E se não voltam?
Não é retorica, é uma visão aterrorizadora (sim, exagerada e piegas) de extinção
Demasiada diáspora para a velhice residente.
Resta-nos plantar raízes nos seus pés e lembrar-lhes que somos o melhor país do mundo para viver
Ganhem a taça e tragam-na para casa!
Seja isso o que for!