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domingo, 14 de setembro de 2025

Pão, Paz, Silêncio e...Fé

 

Acabamos com a manhã chuvosa de domingo, no museu municipal da tapeçaria em Portalegre, um regresso ao mundo industrial e da arte mecenato, muito antes, mesmo, de apenas se ser patrono das artes por motivos mesquinhos ou fiscais.
São uma dezena de salas de bom gosto e de tapeçaria de autor, numa tentativa dos poderes públicos de atrasar a extinção da tapeçaria de arte, por falta de condicionalismo industrial, que alimentou os organismos públicos no longínquo Estado Novo e por ausência de capital do capitalismo lusitano, os únicos mecenas que poderiam salvar a nossa tradição.
A manufatura corre o risco de fechar, dizem. por falta de encomendas, mas a memória é inabalável.
Cá fora, as nuvens nimbo, por definição brancas, não iluminam os céus no domingo de manhã, mas voltaram à tarde para se refletirem nas planícies, ou seriam apenas as ovelhas do Alentejo profundo?
Embrenhado na serra, o gato que podia ter nome, mas não precisava, para ser o senhor da quinta, um abusado que cheirava a  mercearia e que se instalava entre as obras da escultora, patas cravadas no tapete de vime, olhos cinzentos transparentes que refletem a arte da terra da Maria, era o guardião das memorias da escultora,  espalhadas pelos cantos da quinta com vista para o Marvão, mas também um gato agradecido pela nossa hesitante atenção.
Sempre em paz com o teu espaço próprio. Oh gato cinzento! 
E especialmente, o silencio dos grandes espaços, a serra de são Mamede que não precisa de nos partilhar com os ruídos do mundo.
Aquele silêncio de quem não sente a necessidade de nos impor opiniões que não está certo de partilhar, sim, nesse mesmo sentido de quem nem se preocupa em acreditar.
Seja nos montes, seja nas planícies, nao ha ruídos de fundo que perturbem a nossa paz anterior.
Em Reguengo ainda há largadas, uma meia rua coberta de areia, as trincheiras coçadas de uso, e a ruralidade vestida em torno de barbas encardidas e bocas desdentadas no café que se (e nos ) chama a todos de bons amigos, não se chamasse a terra de Alegrete.
E, à volta da esplanada que também é a rua principal da aldeia, todos falam alto, especialmente quando se aproximam os forasteiros, citadinos de certeza. Falam alto com as minis na mão, agitando os braços, enrugando a boca e chispando a barba por fazer há três dias, num ritual em que testam se os que chegam são gente ou são bicho, se se atrevem a atravessar a muralha de homens da terra ou se fingem apenas procurar os lugares perdidos que sabem que nunca vão encontrar.
Nós entramos e logo somos brindados com um caloroso e desdentado sorriso porque, afinal de contas, passámos o teste e até podíamos ser gente da terra !
Alegrete, de seu nome.
E eles discutem a qualidade das vacas da largada de ontem, uma opinião avalizada mas não especialmente militante, mas também tiram selfies e riem-se para nós, e nesta terra também devem viver crianças, porque as arvores estão cobertas de desenhos e mensagens de amor e estão vestidas por rendas que protegem as centenárias árvores e as suas idosas de olhares menos impolutos. 
Pelas encostas das serras abaixo, existem ruas do bom juízo, uma bandeira nacional que não necessita de vento para se desfraldar, e uma ruralidade autentica porque nas terras vivem e trabalham aa pessoas, as bermas estão cuidadas e há miradouros das serras para os vales e parques de merendas que trocam olhares dos vales  com a serra e com a história.
E, nas fronteiras do interior profundo, sobra tempo para longas conversas à mesa farta, onde os horários precisos são desprezados, porque ter paz e pão é a única resposta às autocracias da mente que insistem, em cada recaída da humanidade, confundir-nos com miragens que apelidam de dilemas.
Um ruido de fundo que não resiste ao vinho na ânfora e à brisa de início de setembro que vem da praia fluvial e do rio.
Nem à imensidão dos grandes espaços, debruçados sobre as muralhas do castelo de Marvão, um discernimento só possível para quem observa o mundo visto das alturas.
E, no fim do sonho lento de um fim de semana, acordamos com uma intensa manifestação da fé do povo.
Preparado para resistir a mais uma semana de mundo à beira da insanidade.
Não há dilemas quando a vida se nos revela simples. 
Podemos, simplesmente, querer tudo. Outra vez.



sábado, 25 de março de 2017

Há lamas no Ribatejo



(No roteiro dos lugares esquecidos ou à descoberta dos grandes espaços do interior)



Há lugares assim.
Esquecidos dos roteiros da memória coletiva.
Lugares indissociáveis de qualquer referência histórica ou acontecimento relevante.
Lugares sem pronúncia.
Tão esquecidos que não conhecem o sabor da pastelaria em horas mortas (e também nas outras) e onde só o sabor do café nos mantém ligados ao território dos vivos.
Tão alienados que baixam os olhos (desconfiança ou temor) e, soturnos, não ousam enfrentar as expressões curiosas dos forasteiros ou os passos furtivos dos salteadores fugazes.
Nos confortes da aldeia, ainda pairam as memórias de amores discretos de uma nobreza já defunta, odores de fumo espesso e aromático, sons de festas distantes que se impregnavam de vaidade e poder nos veludos e nas carpetes dos espaços de uma vivência quase feudal.



Nos castelos à beira da barragem, nas pontes de madeira desmembradas pelo peso de um tempo passado, sente-se a intromissão do espaço público pelos domínios privados, relembrada pela ermida do monte, que insiste em acender as velas pelos defuntos da aldeia.
Hoje, sente-se o silêncio da orfandade perante a partida dos senhores da aldeia, apenas fugazmente perturbado pelo apetite dos caçadores de tesouros que, por ali assomam, quando as árvores dão a pele, o corpo e, amiúde, a alma.
No acenar de olhos do casal idoso que enfrenta a estrada num pequeno trator, no abanar agitado de cabeça “do ganzado da terra”.
Em nenhures, onde o Alentejo e o Ribatejo vivem de costas voltadas.



P.S Sim, é verdade que há lamas no Ribatejo



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

On a clear day you can see forever - Uma alegoria de água




# 1 - ...a clear day...


# 2 - ruínas de água


# 3 - branco


#4 -  a cascata do homem


# 5 - sombras revoltas


# 6 - eterno descanso


# 7 - mar plantado






quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Cheiros de fim de festa


“Barrancos? Vais para Barrancos? Mas a tourada já acabou!”
É por isso mesmo que eu vou para Barrancos.
Adoro os cheiros de final de festa.
Não me agrada a matança do touro.
Ou a matança do porco.
Tenho pavor do sangue vivo dos animais bravos.
Pavor, sim, pavor dos espíritos descontrolados que se soltam com os gritos dos animais moribundos.
Prefiro o Alentejo das naturezas mortas
Vou para Barrancos por lá, já não se passa nada
Percebes?
Não, o corsário da Adega Velha, aquele que substituiu a pala no olho esquerdo por dois olhinhos estremunhados e o chapéu de bicos por uma careca lustrosa, já não me ouvia.
“Queres uma aguardente para o caminho?”
Não, porque ainda vou para Barrancos.
“Barrancos, tu vais para Barrancos? Olha que a tourada já acabou!”
Os despojos da tourada de uma morte anunciada, ainda revestiam o chão da praça minúscula com a poeira das planícies, a porta principal da igreja matriz com trincheiras de madeira tosca e castanha das árvores dos montes, as torres e os campanários com bancadas que ainda empurravam os calores da emoção na direção da arena – ínfima arena – e o numero treze da sorte que apontava, vermelho, para as janelas do clube recreativo e da associação tauromáquica.
“Acesso reservado aos sócios em dia de tourada”
Nas ruas circundantes a vivalma já tinha expulsado os forasteiros, cortejos de gente ainda um pouco enjoada das curvas da estrada de Moura.
Apenas uma imensa natureza morta, vozes por detrás das portadas escuras, um velho que fugia sobre muletas, antes que eu me cruzasse na sua frente, um pequeno grupo de terrestres autóctones que discutiam sobre nada numa língua fronteiriça, cheia de tiques de salero.
E olhavam para a nossa chegada pelo reflexo do olho esquerdo.
E uma carrinha espanhola, a abarrotar de torrões de alicante, doces de cor enjoativa e rebuçados de Badajoz que, aparentemente, se tinha esquecido de partir.
No café de todos os recontros com o quotidiano monótono, vendiam-se chás de composições bizarras e flores de cores garridas e o empregado, sem sotaque fronteiriço e um bigode de fino recorte literário, primeiro desconfiado, depois tímido e finalmente conhecedor, lá explicava a diferença entre os chás de salão e os chás curativos, trocando uns pelos outros sempre que pressentia mais emoção ou mais vontade de comprar, de forma a nunca nos provocar arrependimento.
Adoro o cheiro de final de festa.

Afinal de contas o único animal vivo da vila era a estátua preta do touro bravo que desafiava, de duas patas no ar, os forasteiros que se aproximavam, chegados através da única rotunda de Barrancos.



terça-feira, 6 de setembro de 2016

Para lá do rio, só há espanhóis



Sete quilómetros e meio separam Noudar da civilização do alcatrão.
Um castelo que já foi porta estandartes da mais antiga das fronteiras da Europa.
Debruçado sobre o rio e sobre os espanhóis.
Despovoou-se há trezentos anos, até ao abandono.
Extinção voluntária.
Suicídio controlado.
Não havia mais espanhóis para combater e tornou-se num enclave sem identidade suficiente.
Demasiado dentro da imensidão de Castela, demasiado fora do retângulo com o qual nos habituámos a associar a Lusitânia, demasiado longe das rotas que transportam o Norte para a fronteira Sul do Império.



Sete quilómetros e meio de picada, oliveiras, sobreiros e gado indolente.
Uma paisagem em pousio, uma poesia a verde e castanho.
Uma escuridão que cerca o lugar, coberta de um manto de estrelas que se deslumbram com este lugar nenhum.
“ A chave do castelo? Emprestámos ao jardineiro e ainda não o conseguimos encontrar”
Daí a importância da placa artesanal que aponta a entrada.
Silêncio, poeira e calor.

Para lá do rio, afinal já nem há espanhóis.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As vozes do destino


“É o destino que transformou a vida dela, é o destino”
As vozes delas ecoavam, para lá da entrada da igreja matriz.
Coberta por um manto, cor de vinho tinto decantado, marcado por uma cruz de um dourado tão intenso que parecia refletir o Sol tórrido das tardes do Alentejo.
E por detrás do manto, as vozes.
Cansadas, encardidas por uma idade que se adivinhava avançada, soavam a vozes cobertas de negro, protegidas do calor intenso pela escuridão do templo, e que afugentam os espíritos maus do passado com o exorcismo das vidas dos outros, daquelas a quem as velhas carpideiras apelidavam de destino.
Contemplando, desolado, a cruz que pendia sobre a aldeia caiada de branco e de portadas escuras, fechadas e desertas, recolhi-me debaixo da ombreira gótica, refugiando-me na única sombra que pintava a paisagem.
Amarela e castanha, coberta por horizontes circulares que se assemelhavam a fundos de garrafa que nos faziam tremer a perspetiva.
E as vozes não despegavam a ironia do destino.
E a cruz castanha, que lutava para contrastar na paisagem, não tinha o efeito pretendido, o de libertar a paisagem e de absorver os sacrifícios dos Homens.
A minha sombra na ombreira da porta era a única ponte entre as vozes por detrás do manto escuro, e a cruz que ardia sobre a aldeia de uma vivalma recolhida.
O deserto da Galileia e o silêncio da morte de Cristo.
“Para lá de onde Jesus bateu as botas”
E preferi morrer de sede e de Sol, do que me transformar em destino.
E não entrei.
Na adega velha, a voz dos homens confundia-se com os lamentos do canto alentejano, no fresco das adegas de pedra, sentados ao longo de um banco comprido, de uma madeira gasta e salpicada de manchas, cor de vinho tinto.
Como o manto da porta da igreja
“Lá em Serpa, os atos de bravura eram recompensados com medalhas, medalhas de vinho tinto”.
Como ali.
O velho de testa larga e de pelos que cresciam para além da barba, cantava sem intervalos
A cruz, essa pesava sobre as costas curvadas dos homens que entravam e saíam entre cantos à desgarrada e copos de tinto que se entornavam do barril, para eles, e para todos os que por ali passavam.
Uma aldeia inteira que cambaleava entre as pipas de carvalho, o balcão da adega e o chão de cimento.
Afinal havia intervalos, marcados pelo fumo expirado sem círculos, do charuto do velho corsário, que trocava a pala no olho, por dois olhos pequeninos e intermitentes e o chapéu em bico por uma careca reluzente, cercada de irregulares pelos brancos.
O patrão, tão indiscutível quanto a semelhança entre ele e o quadro pintado, pendurado na parede branca e frontal, orgulhosamente do lado direito de cabeça de touro e cercada de pequenas gravuras, pratos de cerâmica antiga e tantos outros objetos de uma memória muito antiga.
Lá atrás, nas salas de jantar, resguardavam-se os forasteiros que não sabiam se deviam rir, aplaudir, chorar ou cambalear como os locais
O canto despertava as lembranças, as lembranças despertavam as saudades, as saudades despertavam os lamentos.
“E hoje à tarde é o funeral do Ti Manel, oitenta e um anos”
“Menina, é melhor não entrar, está lá dentro um funeral”

Sim, o que diriam elas, se tu lá entrasses.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O médico Garcia: português, judeu, médico e homem do mundo

Do cimo do Castelo, quase que acreditamos que esta paisagem manchada de nuvens é tão inóspita que é incapaz de albergar seres humanos com História.
Do cimo do Castelo, entre janelas de paisagem, somos quase levados a acreditar que, quem aqui nasceu, jamais seria capaz de partir, por falta de grandes espaços, pela intensidade das fronteiras naturais, pela distância do mar, pelo silêncio das planícies.
Jurava que aqui só havia êxtase e paisagem.
Juraria...
Mas na sinagoga de Castelo de Vide, vivem-se histórias de refugiados e de homens do mundo.
Tão homem do mundo que a inquisição só teve coragem de o perseguir, depois de morto.
Nascido em Castelo de Vide...( que nem a Wikipedia consegue desmentir), e talvez ajude a explicar porque é que, apesar de tudo, nós duramos há mais de oitocentos anos.
Em Castelo de Vide em dia de feira medieval a revelação foi mesmo a Sinagoga.


Nasceu em Castelo de Vide em data desconhecida, provavelmente em 1501, filho do mercador Fernando (Isaac) de Orta, originário de Valência de Alcântara, e de Leonor Gomes originária de Alburquerque, ambos eram judeus convertidos ao cristianismo (cristãos-novos) espanhóis e instalaram-se em Castelo de Vide,[1] possivelmente na sequência do Decreto de Alhambra dos Reis Católicos, que expulsou os judeus de Espanha em 1492. Frequentou as universidades de Salamanca e Alcalá, onde estudou gramática, artese filosofia natural, provavelmente a partir de 1515, tendo-se licenciado em medicina em 1523.[1]
Regressou a Castelo de Vide em 1523, dois anos após a morte do pai, onde praticou clínica. Em 1526 obteve licença para praticar medicina e no mesmo ano mudou-se para Lisboa. Aí tornou-se médico de D. João III e conheceu o grande matemático Pedro Nunes. Foi escolhido para dar conferências de filosofia natural na Universidade de Lisboa, e em 1533 foi eleito pelo conselho para professor da cadeira.[1]
Embarcou para a Índia a 12 de Março de 1534 como médico pessoal de Martim Afonso de Sousa, que foi para o Oriente como capitão-mor do mar da Índia entre 1534 e 1538 e governador de 1542 a 1545. Depois de acompanhar o seu patrono durante os quatro anos em que este granjeou grande prestígio em várias campanhas militares na costa ocidental da Índia, Orta estabeleceu-se como médico em Goa, onde adquiriu grande reputação. Aí ganhou a amizade de Luís de Camões. Em 1541 casou com uma rica herdeira, Brianda de Solis, com quem teve duas filhas.[1]
Qaundo Martim Afonso de Sousa regressou temporariamente a Portugal em 1938, Orta permaneceu na Índia como médico. Foi um médico conceituado em Goa,[1] praticando medicina no hospital e na prisão de Goa. Foi médico de figuras relevantes do meio político e social como o sultão de Ahmadnagar, exercendo igualmente o comércio e outras actividades lucrativas. Apesar de nunca ter visitado a região do Golfo Pérsico ou de ter viajado para oriente de Ceilão, Orta contactou em Goa com comerciantes e viajantes de todas as nacionalidades e religiões.
Graças ao seu serviço e amizade com o vice-rei Pedro Mascarenhas, cerca de 1554 foi-lhe dado o foro da ilha de Bombaim, então sob domínio português. Em Bombaim mandou construir uma quinta ou solar no local onde depois os britânicos erigiram o Forte de Bombaim (atualmente também chamado castelo [castle] e Casa de Orta).[2]
Garcia de Orta faleceu em Goa em 1568 sem nunca ter tido directamente problemas com a Inquisição, apesar desta ter estabelecido um tribunal na Índia em 1565. Contudo, logo após a morte de Orta, a Inquisição iniciou uma feroz perseguição à sua família. A sua irmã, Catarina, foi condenada por judaísmo e queimada viva num auto-de-fé em Goa, em 1569. Esta perseguição culminou em 1580 com a exumação da Sé de Goa dos restos mortais do médico e a sua condenação à fogueira por judaísmo.



sábado, 11 de abril de 2015

O território de um Deus alternativo




Odemira é o fim da carreira, é o princípio do território do fim do mundo.
Já foi assim, hoje é um pouco como se ainda fosse assim.
A ponte branca que se eleva por cima do rio Mira, marca o princípio de um território, o Alentejo do Sudoeste, um território com uma heterogeneidade muito própria.
Não é interior, porque é fustigado por um mar azul intenso
Não é litoral, porque tem poucas casas, tem campos que cheiram a estrume de tão cultivados, tem estradões que parecem nuvens, ruídos de campo, mosquitos de charco, sentimentos encardidos de tanto pó.
Verde dos campos
Vermelho das estradas
Azul do mar.
Ao meio-dia das redondezas de Odeceixe, o Sol mantém-se discreto, o vento oeste sopra no vale e está frio.
Silêncio no mar de Odeceixe e uma neblina de fora de estação
Ao meio dia, a caminho da estrada de Rogil, chegam os autóctones às tabernas à procura de almoço.
Grandes botas de borracha com resquícios de bosta, barba por fazer, olhares de extraterrestre em terra própria, enterrados em barbas profundas e olheiras mal dormidas
E depois chegam os outros, os putos bronzeados oriundos de uma qualquer capital, enrolados num qualquer Saxo e em mortalhas de uma substância qualquer, provavelmente a verdadeira quilha da prancha de surf.
Mais a Sul, em Aljezur, outros encardidos que procuram tapear às cinco da tarde e o taberneiro que lhes responde que as ovas só voltam amanhã e assegura, a todos os que o querem ouvir, que tem um serviço ao domicílio para entrega de bêbados em casa, desde que eles se enfrasquem no local.
Seres que não se vêm em mais lado nenhum, ou será que este ar de fim do mundo os vidra os olhos?
Ainda mais a Sul, na Arrifana vivem os campeões do surf na areia, e aqui juntam-se todos os anteriores (à excepção dos lavradores), ondas, mundos de gente, tão diferentes que não se destacam nacionalidades nem comportamento especialmente bizarros.
Sobra apenas a comunidade das estufas.
Na nova centralidade de s. Teotónio, vemos chegar as carrinhas de filipinos, cingaleses e outras nacionalidades impensáveis no sudoeste da europa, que entopem o grande supermercado da zona de cheiros intensos, olhares que perfuram as mulheres louras, olhares que despontam das peles muito escuras e que só se conhecem no Oriente longínquo.
Na rota das novas especiarias, pelas redondezas da Azenha do Mar, os mares de plástico escondem vidas muito errantes e precárias por detrás de vedações ostensivas, carrinhas brancas que circulam vazias nas estradas de acesso, muito desconforto perante tal dissimulação.
O Sudoeste não é paraíso homogéneo

O Sudoeste é o território de um Deus alternativo!


terça-feira, 3 de março de 2015

Fotonovela "O Patrão"



- Pai, porque é que todos te chamam Patrão?
- O pai é um homem importante! – E o filho não percebeu nada.
Importante – repetia o puto, enquanto se mirava de cima do seu metro e vinte para os ténis todos rotos
Uma pedra que se tinha intrometido entre ele, a bola e uma nuvem de pó amarelado por onde se esfumou uma grande oportunidade de golo, frustração porque as miúdas sorriam apenas para os heróis.
Isso sim. Era importante 


No topo das muralhas do castelo, este homem de meia-idade abria os braços para o horizonte da planície amarela, campos a perder de vista, ondas quase simétricas.
Cá de cima, o patrão quase parecia um homem alto, apesar de uma fita métrica bem esticada ser incapaz de lhe dar mais do que um metro e sessenta de altura.
A calvície e o seu terror pelas balanças, conferia-lhe uma forma demasiado redonda  para os seus trinta e oito anos de idade, um fato coçado de tantas cerimónias oficiais, que parecia querer rebentar-se a cada movimento mais energético do Patrão.
E falava de coisas sérias: revolução, povo… 
E ia crescendo.
E o puto, doze anos, mais ou menos, temeu o pior. 


Mas logo o patrão se levantou, apressou-se, vestiu novamente o ar de presidente, e lançou-se rua abaixo, acenando a toda a gente e gritando ao puto “ Conto-te ao jantar”.
- Calceteiro incompetente – pensou, quando quase tropeçava numa pedra da velha calçada que se havia desprendido da rua!
O puto tinha mesmo razão
O pai patrão não podia ter sido um desportista.


...imaginava-o agora a descer à vila, naquele passo miudinho e ligeiramente desengonçado, suando com a sua falta de ginásio, com uma ambição de quem não descansa enquanto o burgo não virar cidade sempre atrás de mais um compromisso autárquico, aquela pausa nas ombreiras da porta principal da Câmara, cumprimentando todos os que apareciam por lá, reunião de vereadores, grandes projetos para a vila, obras sociais e, importante, as piscinas olímpicas municipais, reunião com os projetistas e engenheiros e os munícipes, todos eles queriam falar com o presidente, afinal ele era o Patrão.


Eram quase onze da noite mas os olhos do filho do António quase saiam das órbitas de tão despertos por esta descoberta.
Pai salteador e pirata. Não havia melhor visão para um pai. Só não entendeu essa história da revolução dos cravos.
Devia ser uma outra aventura qualquer!
Mas, naquela noite, o patrão teve pesadelos com o desmoronamento do seu mundo ideológico, “ Aquele careca lixou tudo”!
Mas, com o tempo e o cansaço adormeceu de vez, embalado pela água tépida da piscina municipal, acabada hoje, novinha em folha.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O El Dorado de águas profundas

Fui a Sines e não vi o mar.
Não tirei fotografias porque seria uma forma de simplificar a complexidade do cenário, a (ausência de?) alma da cidade que não se vê, mas sente-se!
Sines é a promessa de uma geração, um caldeirão mais ou menos aceso de experiências do género quase, quase, que resulta mais no preto e branco, nas reportagens sobre uma qualquer época pós revolução industrial, mas que se confundiria, nalguns pontos, nalguns ângulos de iluminação do Sol com uma ruralidade perdida, solitária de referências, raízes que sobrevoam os locais, pairando sobre o pó e o vento como arbustos reinventados por novos e sempre actuais filmes do (Sud)Oeste (Oeste = West (ern))
Por isso me atrevo a experimentar excluir fotos das mensagens...para dar um ar mais sério, mais ensaio do tipo sócio-cultural
Recordo as visitas de estudo no final da década de setenta à nossa (mais que tudo) ambição marítimo-industrial, na altura apenas adiada pela crise do petróleo...e não consigo ter saudades porque regressei ao mesmo ponto da história sinto a mesma sensação de eterna (?) "no man's land", o mesmo círculo de caravanas dos pioneiros, sem índios porventura, mas a mesma adolescência de espírito (e quiçá industrial também)
(e assim se justificava aquele aspecto de transição - rural, Alentejo e piscatório que já não é e cidade industrial que há-de ser - )
A visão estratégica do porto de Sines é assim um destino sem sentido único, sem destinatário preciso e sem cronograma temporal... diria que assim se arrisca a ser uma fatalidade ou um enorme e suculento (porque estas tragico-comédias têm um sabor e uma textura próprias) buraco negro (exactamente isso, porque ninguém sabe verdadeiramente o que é)
Passou de porta de saída para o mundo para porta de entrada para a Europa, aliás ambição nunca cumprida.
Vasco da Gama partiu de Sines...e o petróleo aqui chegou e tudo o resto esbarrou numa intrincada, confusa e equívoca rede (cheia de nós) ferroviária.
Também quem disse que tínhamos vocação de entreposto?
Nem Vasco da Gama se quis associar ou voltar a partir de Sines (Será?)
As torres eólicas que circundam a refinaria e provocam de vento a chama que se consome no cume da chaminé fazem-nos desconfiar que o há-de ser se tende a consumir no tempo.
Em Sto André, aquele Kiboutz periférico, cresce sem que ninguém perceba, falta-lhe a densidade de uma verdadeira cidade (será que há cidades verdadeiras?) mas há espaço, verde e o zeloso GNR prestava assistência a uma passadeira e aos restos inacabados de uma obra municipal, prestava preciosas informações demográficas aos turistas acidentais (ou seriam os representantes lusos dos investigadores chineses?).
A mesma sensação de promessa, os bairros desconstruídos por arquitectos que se inspiravam no descontínuo em vagas de industrialização intermitente, ruas principais sem vielas secundárias, porque os bairros são ilhas, ligadas em redes finas ao obelisco inexistente da praça da Concórdia - as ilhas já não uma benção arquitectónica - e o século XXI brota mas não se impõe.
Aspecto de transição , uma vez mais. Fui ao Sudoeste e não vi o mar. Foi estranho, mas assim percebe-se melhor.