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domingo, 28 de julho de 2013

Há flamingos na lagoa dos Salgados


Na longa passadeira de madeira sobre as dunas, o vento de levante assobia de ocidente e, com a sorte a bafejar-nos pelas costas, afasta os mosquitos para a lagoa que, de longe, parece tão artificial quanto o campo de golf que a rodeia e a selva de blocos de apartamentos castanhos, que se confundem com a terra barrenta, é um facto – parecem construídos de barro vermelho - não fossem as milhares de palmeiras que infestam o local, porque não crescem nem nada, e se o areal fosse um deserto e os blocos de apartamentos, castelos árabes, então diríamos ter chegado a um oásis no Sahara; um pequeno erro de navegação e um mar apenas que os separa.
Mas eis senão que, aqueles pontos brancos ao longe, de pernas longas e patas na água lamacenta, se transformam em flamingos e, pelo seu aspeto, não foram ali plantados por aqueles que suicidaram as palmeiras, vindas de um qualquer oásis de viveiro (visionário ou louco? Visionário não certamente!)

Há mesmo flamingos de verdade na lagoa dos Salgados!

domingo, 28 de outubro de 2012

El Condor passa (por aqui)



O silêncio da madrugada feita manhã no vale do Colca, recorda-nos que acordámos nas entranhas dos Andes, nas entranhas do mundo!
É um vale que se transforma em Canyon à medida que o rio resvala para o Pacífico e que nos conduz dos ondulados e férteis vales para as paredes abruptas de rocha em vinte quilómetros.
1,300 metros debruçados para baixo, numa visão alucinante, à espera que o condor passe.
E o(s) condor(es) passa(m), tarde para a hora marcada, mas plana ao ar sobre as nossas cabeças e eleva-se ao sabor da temperatura que sobe!




Três metros de imponência entre duas asas abertas, revelam-nos o seu estatuto sagrado, entre os deuses da natureza e a religiosa dicotomia do sagrado inca.
É uma singular combinação de elementos: céu, sol, montanha, rio e o condor.
Nas entranhas do mundo, é garantia suficiente de termos conquistado a eternidade, a vida do nível superior nas asas do condor.
Chichinito, tanto quanto é possível entender a camponesa que nos pede boleia, à beira da estrada, de regresso a Maca, uma das dezasseis aldeias do vale, perfiladas a par, frente a frente dos dois lados do rio, em que os espanhóis acantonaram os indígenas do vale, após a conquista, cada uma com a sua muy católica, branca e singela igreja, cujo único inimigo são os terramotos que as abatem como cavalos (apenas um trocadilho básico e rafeiro com os cavalos também se abatem, despropositado porque aqui há poucos cavalos e tanto quanto nos apercebemos, não se abatem).



Mas a camponesa tinha medo do Chichinito, um duende (mau, apressou-se a acrescentar) que por ali vagueava, especialmente dentro daquele túnel, toscamente escavado na rocha, que servia de passagem a todos os veículos (e camponeses), por entre uma nuvem de pó e escuridão (atravessar aquele lugar dantesco a pé, no meio do pó, da escuridão e dos muitos veículos, seria para mim razão mais do que suficiente para acreditar em duendes maus).
Nunca o tinha visto (ela) mas o marido, esse sim senhor já se tinha cruzado com ele, onde, no túnel, claro, pudera, digo eu!
Aborda os aldeões e propõe-lhes trocar o seu corpo por plata.
Muy malo!
E sempre que um turista tomba fulminado pelo mal de altitude, sob a forma de ataque cardíaco, então o povoado sabe que o Chichinito anda por perto e enganou mais uma alma desatenta (ou gananciosa, digo eu)
De regresso a Chivay, percebemos que não é apenas a alpaca que se come, em forma de guisado…
Rebobinámos a altitude, os vulcões, os lamas e os pastos, as zonas húmidas da reserva natural e subimos, subimos até ao altiplano que nos levaria, ao longo de horas sem fio, até ao outro lado da fronteira, por entre lagoas e flamingos, aproveitando a luz amarela do fim do dia, para mentalmente fotografar a paisagem dourada,da cordilheira oriental dos vulcões até ao lago Titicaca, derramado aos pés da cordilheira ocidental deste pedaço impressionante de mundo, chamados Andes.
Absolutamente rebentados pela altitude e pelas milhas voadas hoje, aterrámos, aterrados pela música andina que berrava lá fora, cá dentro, nas margens do lago Titicaca, pés secos e cérebro encharcado de mal de altitude.
Preferimos pensar que eram arrepios de excessivas sensações fortes para um homem só
O meu último suspiro foi para o condor, para os flamingos, para os patos do altiplano e todas as almas voadoras que fustigavam os céus desta terra de fronteira natural: o altiplano ter-me-á respondido com um trovão, que incendiou o lago e me desligou os fusíveis!
Terei sonhado?
A meio da noite, chamada madrugada, dei por mim acordado e combalido a olhar para a janela, e tive a certeza que nada disto era um sonho!