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domingo, 28 de outubro de 2012

El Condor passa (por aqui)



O silêncio da madrugada feita manhã no vale do Colca, recorda-nos que acordámos nas entranhas dos Andes, nas entranhas do mundo!
É um vale que se transforma em Canyon à medida que o rio resvala para o Pacífico e que nos conduz dos ondulados e férteis vales para as paredes abruptas de rocha em vinte quilómetros.
1,300 metros debruçados para baixo, numa visão alucinante, à espera que o condor passe.
E o(s) condor(es) passa(m), tarde para a hora marcada, mas plana ao ar sobre as nossas cabeças e eleva-se ao sabor da temperatura que sobe!




Três metros de imponência entre duas asas abertas, revelam-nos o seu estatuto sagrado, entre os deuses da natureza e a religiosa dicotomia do sagrado inca.
É uma singular combinação de elementos: céu, sol, montanha, rio e o condor.
Nas entranhas do mundo, é garantia suficiente de termos conquistado a eternidade, a vida do nível superior nas asas do condor.
Chichinito, tanto quanto é possível entender a camponesa que nos pede boleia, à beira da estrada, de regresso a Maca, uma das dezasseis aldeias do vale, perfiladas a par, frente a frente dos dois lados do rio, em que os espanhóis acantonaram os indígenas do vale, após a conquista, cada uma com a sua muy católica, branca e singela igreja, cujo único inimigo são os terramotos que as abatem como cavalos (apenas um trocadilho básico e rafeiro com os cavalos também se abatem, despropositado porque aqui há poucos cavalos e tanto quanto nos apercebemos, não se abatem).



Mas a camponesa tinha medo do Chichinito, um duende (mau, apressou-se a acrescentar) que por ali vagueava, especialmente dentro daquele túnel, toscamente escavado na rocha, que servia de passagem a todos os veículos (e camponeses), por entre uma nuvem de pó e escuridão (atravessar aquele lugar dantesco a pé, no meio do pó, da escuridão e dos muitos veículos, seria para mim razão mais do que suficiente para acreditar em duendes maus).
Nunca o tinha visto (ela) mas o marido, esse sim senhor já se tinha cruzado com ele, onde, no túnel, claro, pudera, digo eu!
Aborda os aldeões e propõe-lhes trocar o seu corpo por plata.
Muy malo!
E sempre que um turista tomba fulminado pelo mal de altitude, sob a forma de ataque cardíaco, então o povoado sabe que o Chichinito anda por perto e enganou mais uma alma desatenta (ou gananciosa, digo eu)
De regresso a Chivay, percebemos que não é apenas a alpaca que se come, em forma de guisado…
Rebobinámos a altitude, os vulcões, os lamas e os pastos, as zonas húmidas da reserva natural e subimos, subimos até ao altiplano que nos levaria, ao longo de horas sem fio, até ao outro lado da fronteira, por entre lagoas e flamingos, aproveitando a luz amarela do fim do dia, para mentalmente fotografar a paisagem dourada,da cordilheira oriental dos vulcões até ao lago Titicaca, derramado aos pés da cordilheira ocidental deste pedaço impressionante de mundo, chamados Andes.
Absolutamente rebentados pela altitude e pelas milhas voadas hoje, aterrámos, aterrados pela música andina que berrava lá fora, cá dentro, nas margens do lago Titicaca, pés secos e cérebro encharcado de mal de altitude.
Preferimos pensar que eram arrepios de excessivas sensações fortes para um homem só
O meu último suspiro foi para o condor, para os flamingos, para os patos do altiplano e todas as almas voadoras que fustigavam os céus desta terra de fronteira natural: o altiplano ter-me-á respondido com um trovão, que incendiou o lago e me desligou os fusíveis!
Terei sonhado?
A meio da noite, chamada madrugada, dei por mim acordado e combalido a olhar para a janela, e tive a certeza que nada disto era um sonho!

sábado, 27 de outubro de 2012

Altiplano – A natureza em estado sólido



 Entre cordilheiras só sobrevivem a altitude e imensidão dos elementos.
Imagens de um dia bem acima dos 4,000 metros que foi esgotando a nossa energia, quilometro após quilometro (em altura e em distância) em visões que alternavam entre o lunar surreal e os nevados vulcões sagrados das civilizações pré-incas
As imagens confundem-se com os sons andinos que, no silêncio de uma estepe de montanha sagrada, irrompem na nossa memória em flautas e violas, porque o criador deste filme panorâmico imaginou-o com banda sonora
Os picos gelados têm som, cheiro e paladar…
Pura magia dos (todos) sentidos!
A 4,900 metros, atingimos o cume da nossa existência breve, Patapampa reserva-nos esse troféu numa varanda de oxigénio debruçada sobre os vulcões, oito magníficos espécimes que nos rodeiam, a nós e aos milhares de oferendas à deusa da montanha, feitas de pedra
Pedra sobre pedra, perdemos o fôlego, mas preferimos pensar que a magia é mais forte que o mal de altitude…
Hualka Hualka, Ampato, Sabancaya, Chachani, Misti, Picchu Picchu e Mismi
Tudo isso!
Arrepio, mas preferimos pensar que a comoção (comunhão com a natureza e a presença aos pés – melhor, joelhos – da energia sagrada dos montes brancos) é mais forte que o frio andino que nos varre
Visões de uma natureza sagrada.
Aterrámos no fértil vale do colca dos terrenos cultivados em socalcos, varandas de pedra com uma diversidade de culturas, própria de quem aprendeu a sobreviver, muitos anos antes de os espanhóis terem chegado.
O império do milho e do têxtil do seu próprio gado: os lamas as alpacas, as vicunhas e os guanacos e alternado entre os domésticos e os selvagens.
Em Chivay – depois do altiplano, o vale – entendemos que a alpaca também se come, e que o guisado é, afinal de contas, apenas um guisado!
Aconchego carnal de um estômago colado à desoladora beleza do altiplano.
(num lapso de segundo, fiquei com a mesma sensação da criança que se apercebe que o fofinho coelho também se come, apenas um lapso de segundo)
Na capital da província, aterra também o vale, o mercado lembra-nos que para lá do altiplano mora gente, e uma diversidade surpreendente de gente e de agricultura.



E sempre a trilogia Deus (agora o católico plantado na praça de armas – sim, outra vez), natureza (elementos) e sobrevivência (o mercado, a terra e os animais)
O banho de águas quentes e termais, noite dentro e no vale (agora mais) profundo, consagrou a comunhão entre nós, humanos, e os deuses da montanha.
Mas àquela hora não havia virgens para sacrificar, nem sacerdotes que nos encomendassem aos deuses dos cumes gelados
Que os deuses da natureza nos perdoem e não nos lancem a sua ira!