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domingo, 19 de abril de 2026

Amar assim perdidamente

 

Ontem, foi um grande concerto porque um grande concerto é uma voz que abraça uma vida, e são dez mil vozes em coro por uma adolescência tardia, quarenta anos depois de acreditarmos que faríamos a diferença e que iriamos mudar o mundo.
Claro que o Luís continua a cantar como um cristalino sonho e nós  não mudámos grande coisa mas, ainda assim, ontem foi um concerto cheio porque não despertou saudade, mas apenas sorrisos de condescendência doce sobre os nossos passados de desassossego e de esperança infinita.
Há dez mil vozes que cantam em unissono sem hesitação apesar de sabermos que o nosso tempo está a passar, apressado, mas não há nas suas vozes vestigios de uma velhice anunciada, porque afinal de conta já tivemos mais de quarenta anos para tentar a nossa sorte, jogar os dados e mudar o mundo.
Na grande sala, um pavilhão que se veste de casco de caravela ou outro navio qualquer, juntaram se numa só noite todos os concertos intimistas do chafarix e da aula magna, e nunca o coro pareceu tanto um eco geracional como quando cantamos com o Luis que ser poeta é ser mais alto, é ter garras e asas de condor e já não havia no nosso coro qualquer tom de desapontamento nem desassossego,  afinal não mudámos o mundo mas vivemos um mundo inteiro e um grande concerto é aquele que desperta apenas as melhores memorias e ter fome e sede de infinito, é condensar o mundo num só grito, é amar assim perdidamente todas as palavras que fomos capazes de dizer.
Entre bruxas, caravelas e causas sempre encontradas
Grande concerto, Luis

domingo, 18 de janeiro de 2026

Em Coimbra mandam eles

 

A Ana é espanhola mas é de Coimbra, não apenas do património material mas especialmente o imaterial reconhecido pela Unesco, os rituais e as superstições que fizeram de Coimbra' o reino dos estudantes.
A Ana é doutorada e mais uma orgulhosa fantasma da biblioteca joanina, porque aguardar anos para poder consultar um dos sessenta mil livros deste local mágico onde os morcegos limpam as estantes de traças todas as noites e o retrato de D João V parece sempre iluminado por deferência do pintor ao seu Mecenas, sim, esta é para ela uma forma de perpetuar a memoria imaterial de Coimbra.
Ana é professora e conhece todas as dinastias e conforma-se com o facto da dinastia dos Filipes estar de castigo e não ter lugar nas paredes do salão nobre do palácio real ou da reitoria da universidade ( tudo por culpa do terceiro, segundo ela).
E explica tudo, quem foram os reis bons e os maus e porque é que os reis aqui em Coimbra são os estudantes, uns reis muitas vezes déspotas e absolutistas , temperadas  pela natureza incontrolável de uma juventude que destila soberba pelos poros do privilégio.
E a Ana conclui mesmo que nem o cruel marquês do extremismo e do fora da caixa pombal os domou no absoluto apesar de ter inaugurado a prisão académica e um extenso role de regras, cuja primeira era, afinal, a básica obrigação de assistir as aulas.
E ela gracejou seriamente com a oportunidade do retorno da dita prisão num implícito reconhecimento da derrota, o poder em Coimbra não é decididamente da universidade , mas dos jovens insurgentes das escolas gerais.
 Naquela manhã de sábado, que foi ontem, respirava-se uma solenidade quase revolucionaria ao longo da via latina, através da porta férrea, porque as capas que nunca se lavam esvoaçavam no Paço das escolas enquanto um grupo de  professores decanos, em trajos nobres e posturas irrepreensíveis, saia de uma missa privada na capela do arcanjo São Miguel.
Também fora do pátio das escolas, coabitam os edifícios e a estatuaria do estado novo, com os vestígios das ultimas lutas estudantis, todos à espera que o próximo rasganço devolva a irreverencia dos estudante à sociedade civil dos jovens empregados.
Se fosse em Aveiro numa tarde de domingo, que foi hoje, choveriam  cavacas do terraço da igreja de são gonçalinho, nas festas do santo, mas em Coimbra as manifestações de poder são mais do género imaterial.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

E...Viva o México, segundo Ixca Cienfuegos

 

Afinal o México acaba.
Pelo menos para nós, que partimos!
Do fundo do cenote de Xkeken, flutuamos no rio subterrâneo que percorre as profundezas do Yucatan, ao que consta resultado da queda de um meteorito que extinguiu os dinossauros e deixou esta terra com milhares de buracos que descobriram rios, outrora escondidos no infra mundo.
E olhamos para cima, nós e os morcegos, e vislumbramos um céu azul e dezenas de raízes a tombar pela terra abaixo.
Seria a nossa última visão do México, se não tivéssemos de regressar à superfície para voltar a casa.
E alguém disse que, se calhar, tinha valido a pena extinguir os dinossauros, para isto.
Para quem flutuava nos cenotes, era uma heresia genuína e, sei lá porquê, só me lembrei de kundera, na sua insustentável leveza do ser.
Em Valladolid acabou a imersão de México, muito apropriadamente nas profundezas do México em sentido literal.
Mas, porque a imersão mexicana vive-se na rua, voltámos às esquinas da cidade onde se pode comer uma sandes de leitão por quarenta e cinco pesos, uma espécie de roulottes que constroem sandes enquanto os condutores esperam pelo semáforo verde, tudo muito dinâmico, há bancos para sentar, balcão para encostar, take away entregue no veículo em andamento e nem os detritos despejados do telhado retiram a motivação que reina na esquina da calle 41 com a calle 44.
E, de sandes de leitão na boca, percebemos que, afinal o México sempre acaba, um dia.
Mesmo depois de uma alegada propina paga à guarda nacional - o visado nega, o colega suspeita - para um perdão de multa por excesso de passageiros a bordo do veículo que nos transportava, eles nunca estão aqui, argumentava o colega, mas afinal estavam hoje, azar ou afinal de contas uma sorte de ter sido perdoado, ou talvez não, apenas o acaso.
Afinal ninguém foi preso e o México não quer acabar mesmo.



No dia anterior, tínhamos visitado a maravilha do mundo maia, mas ontem demasiados como nós tiveram a mesma ideia - mas ao que consta é sempre assim, não é uma questão de sorte - e o esplendor do local perde-se na relva e nos ruidosos turistas que, ao contrário dos de Palenque, não tinham visitado o grande museu maia no dia anterior, e tinham gasto uma parte importante das doze horas de imersão mexicana, que lhes foi prometida,  no autocarro que os trouxe das praias da Riviera maia.
E, por isso, em vez de se deslumbrarem em silêncio diante a pirâmide quetzal, interiorizando a energia que podia emanar do local, enchem o ar de inconveniências que quase destroem a magia de Chichen Itza, a maior cidade do lado mexicano dos maias.
O resto da magia sobrevivente foi então tragada pelos milhares de vendedores ambulantes que entupiam os caminhos e conseguiam esconder os vestígios arqueológicos menos exuberantes, os que, apesar da selva e do esquecimento humano, ainda arranhavam a superfície do sitio arqueológico.
Mas não podíamos deixar de vir, alguém lembrou, por causa da pirâmide, do templo dos guerreiros, da praça das mil colunas, do grande jogo da pelota, da plataforma dos crânios, do templo superior dos jaguares, do caracol do observatório ou do conjunto das monjas, o que faz de Chichen Itza um lugar onde até os mitos comprovam a existência de um passado que deixou raízes que explicam porque é que tanta gente ainda fala dialetos maias no Yucatan.
E enquanto o António, o guia local,  construía a narrativa animada e pintava as cores do que terá acontecido no local, como os rituais que precediam as grandes epopeias, a adoração a Ek Chouah, o Deus do cacau e o protetor dos comerciantes, rituais antes e os sacrifícios apenas depois, a única forma de agradecimento e apaziguamento dos deuses, nós imaginamos o que seria o estádio de pelota cheio - e o estádio de Chichen itza é enorme - o Conselho de nobres intelectuais e religiosos a sul, a norte os guerreiros, o rei na casa do jaguar e os burgueses nas bancadas laterais, e só havia um jogo sagrado, em cada 52 anos, quando o  calendário solar de 260 dias e o lunar de 365 dias se encontram e era um fim de um ciclo. 
Assim os festejos deviam ser especiais, um jogo de pelota, sete contra sete, os melhores contra os melhores e, no fim, o melhor era sacrificado e assim acalmava os deuses  que, ficando contentes, seriam generosos para o ciclo seguinte.
O sacrifício era voluntário e o escolhido era decapitado por um jogador da equipa derrotada, uma honra para os escolhidos, porque para os deuses só servia o melhor.
Mas, porque os Maias eram civilizados, eles tinham de controlar o tempo, e por isso desenvolveram um calendário ligado às culturas e a astronomia e o controlo do tempo pelo calendário leva à prosperidade das sociedades sedentárias, através do desenvolvimento da agricultura.
E, à medida que o António se entusiasma com o que sabe e com o que perguntamos, deixamos de ouvir os sons da ignorância e da soberba contemporânea e imaginamos o mundo maia em todo o seu esplendor e contradições.
Sim, afinal tínhamos mesmo de vir!
Em Valhadolid,  provam-se doces de mel e nutella, temperos de chili e mel, rezam-se terços de janelas abertas para a rua, na Calzada dos Frailes, enquanto os turistas da Riviera maia desembocavam dos autocarros na praça principal, às centenas, ainda receosos, hesitantes, para a parte dois das suas doze horas de imersão no profundo mundo mexicano, mas não arranharam mais do que apenas uma das muitas camadas com que se veste este povo.
Na primeira noite na Cidade do México, descobrimos, entr
e as paredes escuras da cidade adormecida. um painel de azulejos, colado numa esquina do centro histórico com um excerto do livro “La region más transparente” do escritor e diplomata mexicano Carlos Fuentes de 1958.
Só hoje, consegui encontrar uma forma de o traduzir para a realidade do mundo deles:
" O meu nome é Ixca Cienfuegos, nasci e vivi na Cidade do México. Isso não é grave. No México não há tragédia. Tudo se torna uma afronta.
Afronta, este sangue que se queima como a ponta de um agave ( planta suculenta, matéria prima da tequila)
Afronta, minha paralisia desenfreada que coagula a cada amanhecer. E o meu eterno salto mortal até ao amanhã.
Jogo, ação e fé do dia a dia, não só nos dias de recompensa ou de castigo: vejo os meus poros escuros e sei que serão proibidos lá em baixo, no fundo do vale."
Viva o México porque ele nunca acaba.
Tenho a certeza!




quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Os hijos de Dios


 No museu Palácio Canton, no muito célebre Paseo Montero, a tal avenida da soberba, está em exposição Hijos de Dios, uma reportagem fotográfica sobre a diversidade religiosa na península do Yucatan. um fotógrafo que conta as histórias de vida dos católicos, dos crentes de Pentecostes e dos Menonitas.
São imagens contrastadas, no uso das cores, mas também nas escolhas do enquadramento, cheias de histórias que ficam por contar, porque é mesmo assim com as boas imagens.
No Palácio Caton, a ambição do estado cultural é imensa, pretendem narrar as origens e a história do comércio no tempo dos maias, o que é um projeto vago pela imensidão do período de análise e não é um feito desmesurado, pois os maias, muito avançados nalguns ramos da ciência, não dominavam a roda nem a moeda, o que tornava o comércio um exercício difícil e até um pouco aborrecido.
Depois também tem a ambição de contar a história do palácio e dos seus antigos residentes ou proprietários e o que o estado fez pela sua memória, quando tomou conta deles, a partir do século vinte.
E, além disso, o desfile temporário dos filhos de Deus.
Muita ambição para um estado e para um palácio só.
A história da vida no palácio confunde-se com a do General Francisco Canton, um residente famoso e resiliente e que se foi adaptando com arte aos tempos conturbados da mudança de século, do dezanove para o vinte.
Foi militar e combateu as revoltas indígenas, foi político, mas assistiu impune à queda de Porfírio Dias, ao assassinato de Madero, e de todos os revolucionários que a revolução tragou ao longo dos dez anos seguintes e ainda teve tempo de ser empresário, uma terceira vida que atravessou sem grandes sobressaltos a constituição revolucionária de 1917, uma prova viva de que o ímpeto revolucionário perdeu muita intensidade ao chegar ao Yucatan.
Mérida é uma cidade grande e nota-se também pela ambição do Estado e pela qualidade do comércio local, a verdadeira montra da diversidade cultural do país.


Do outro lado da rua, o gordito acena a cabeça e continua a limpar o pó dos seus manequins, o jovem entusiasta da loja da frente faz um desconto de quarenta por cento na árvore da vida, como se se tratasse de uma bênção que garantia um futuro de saúde e sorte, na geladaria não havia descontos, mas havia sempre um sabor extra, agora que as esquinas guardavam as cores do fim do dia, os restos do sol amarelo entre as nuvens negras das promessas tropicais.
E, nos corredores e nas arcadas do palácio do governo, a tradição mantém-se depois da noite precoce cair nos pátios anteriores, onde Fernando Castro Pacheco, um discípulo tardio de Rivera, enche as paredes do poder com as cenas épicas das lutas eternas do México, como se fosse necessário lembrar aos políticos que é o povo, e não o patrocínio das artes, que os elege e para quem eles devem governar 
Na lucha eterna do México, a águia que representa o bem, combate a serpente que corporiza o mal, esperando uma vitória do bem, a libertação do povo mexicano e de todo o bem que há nele sobre os negros presságios do mal, a corrupção, a exploração e a miséria.
E as paredes contam também histórias da conquista do yucatan, da escravatura, da guerra das castas, um mural com s figura de Salvador Alvarado, o homem que aboliu a escravatura, sempre o México em carne viva e cores quentes.
Na loja de artesanato, ele fala português es brasileiro? Não,  la chica, la novia? Sim, mas não mais, e faz uma cruz no ar, para que não restassem equívocos.
Mas Mérida é uma cidade grande e nota-se especialmente pela noite.
Em La Negrita, há música ao vivo, margaritas e guacamole, a banda toca alto demais e afoga a voz da vocalista que nunca consegue combater contra a banda inteira e por isso não desperta as emoções na plateia que come e se diverte independentemente dos esforços infrutíferos, em palco.
Na casa Kau, um lounge pateo, ainda existe um disco jockey e bolas de espelhos na pista de dança, o único espaço coberto do Páteo, cercado de paredes amarelo vivo, Fridas e outros ícones da arte de rua.
E enquanto dançamos, o disk jokey começa a entusiasmar-se e vai passando musica cada vez mais antiga, procurando aproximar a realidade, tal como ele a vê, com a nossa alguma antiguidade em pista.
Afinal de contas, somos todos filhos de Deus.
E como o México, no hay dos!