Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 13 de julho de 2026

A lenda das terras quentes

 

Sentados na varanda do wine bar kultura, mastigamos o branco viniverria, embalados pela voz de Gogi Tsabadze, enquanto esgotamos o fim da tarde quente, entre conversas com sabores frutados ou simplesmente absorvendo os odores gastos da cidade velha e, quando as conversas se esgotam e as luzes se acendem por detrás das fachadas dos pátios, dos lugares improváveis onde as pessoas vivem e partilham as varandas e os becos com a música e com os copos que brindam à multiculturalidade, resumimos a essência do Cáucaso 
Diz a lenda que a futura cidade de Tbilisi nasceu quando o Rei Vakhtang Gorgasali descobriu as fontes termais, graças ao seu falcão, que o levou a uma fonte borbulhante de água termal. Ele ficou tão impressionado com a descoberta que ordenou a construção de uma casa de banhos no local, lançando as bases para o que viria a se tornar a capital da Geórgia.
Ao que consta, parece que não passa de uma lenda, apesar do rei ter existido e apesar de alguns historiadores atribuírem a este rei do século quarto, algumas propriedades curativas de super-herói. 
E as termas de enxofre, debruçadas sobre o rio e sobre a escarpa da margem norte, e aninhadas na encosta do bairro antigo, também não são lenda e submergir, primeiro o pé direito, depois as pernas e, finalmente a medo, o tronco inteiro, nas águas quentes, muito quentes, sulfurosas, bastante sulfurosas, são a primeira experiência imersiva nesta cidade de uma alma velha que não gosta de se deixar decifrar. 
Segundo consta, as termas de enxofre serviam não apenas para fins higiênicos, mas também como centros sociais e culturais. Decisões importantes eram debatidas, negócios eram feitos e até mesmo propostas de casamento eram discutidas nas suas câmaras fumegantes.
Mas hoje não. 
Hoje nos banhos Georgios não havia vestígios de interação social entre locais, nem dos locais, sequer, e a banheira gigante era, apesar de sulfurosa, o nosso melhor refúgio contra a ira dos únicos locais presentes.
A matrona que guardava a chave que nos sorria, mas era um sorriso coberto de pelos de ferro.
E os massagistas que arqueavam as pernas como os lutadores de artes marciais antes de lançarem furiosamente os clientes sobre uma gelada mesa de pedra e os esfregarem como roupa encardida a fugir de uma barra de sabão azul.
Mas, quando os locais saiam da sala, quase que respirávamos uma atmosfera oriental, pelo menos no imaginário oriental que eu teria concebido se alguma vez tivesse entrado em algum banho de Istambul ou Budapeste.
Mas nunca entrei e, por isso, enquanto procurava decifrar uma qualquer alma oriental nos tetos abaulados que pendiam sobre a banheira de banhos sulfurosos de Tbilissi, as únicas imagens que me ocorriam eram as da matrona maléfica, dos massagistas furiosos ou uma imagem fugaz e furtiva de dois idosos a jogar xadrez numa piscina de fundo coberto de pastilhas de azulejo de um verde de mar profundo.
 Aliás, uma mera ilusão mental de um orientalista envergonhado, ou não fosse esta cidade (haveria de me conformar com esta impossibilidade, muitos dias depois, finalmente) tão pouco parecida com qualquer dos estereótipos de urbe, muito comuns nas divagações dos viajantes intermitentes
E os últimos ocidentais com pendores orientalistas ficaram conhecidos na História como a última geração de colonialistas europeus.
Segundo alguns eruditos dos roteiros de viagem, “Tbilissi é como a música polifónica, as palavras não conseguem descrevê-la de forma adequada e tu tens de a experimentar, avaliando as suas harmonias, saboreando a sua complexidade e afundando-nos na sua História à medida que descobrimos a relação pessoal que vamos criando com a cidade”
Sendo a música polifónica uma textura musical onde duas ou mais linhas melódicas independentes soam em simultâneo, mantendo a sua própria importância rítmica e melódica e depois desta tradução, tudo passa a fazer mais sentido.
Há muitas linhas melódicas que se cruzam nas ruas da cidade, não fosse esta uma capital construída pela força persuasora dos invasores, mas também pela resiliência dos que aqui sempre foram vivendo, como se fosse já um hábito terem de aculturar os estrangeiros sôfregos de encruzilhadas históricas, às tradições locais, a um alfabeto e um apego às terras quentes e ao vale profundo.
Por isso, nos pareceu que a melhor maneira de respirar a cidade e os seus ritmos seria de copo de vinho na mão e uma lista de música georgiana no ouvido, e foi assim que, a partir da varanda do bar kultura, embalados pela indolência dos sons locais ( há um tom persa neste som languido e sofrido) mergulhámos na sedutora decadência dos prédios encardidos de velhos que parecem desfazer-se com o peso da roupa estendida nas varandas,  que invadem os quarteirões do centro da cidade com o  seu suor impregnado de quem sempre ali  viveu,  um povo inteiro que prefere resguardar-se nos pátios interiores, um instinto de defesa de quem está habituado a intrusos.
Mas nas outras linhas melódicas independentes, há camadas de gente extrovertida  que invade as ruas, seja para o protesto diário em frente ao parlamento, não importa o motivo desde que ninguém deponha a bandeira branca e vermelha alinhada com as estrelas amarelas em fundo azul ( e em Tbilissi não há dúvidas por quem os corações batem ou por quem os sinos dobram) apenas para enfrentar o poder e lembrar-lhes que querem ser donos do seu destino, ou para correrem perdidamente na prova dominical de atletismo, ao longo da Avenida Shota Rustaveli em direção à Praça da Liberdade.



No interior dos cafés decorados com relíquias tecnológicas do século vinte, os transístores e os retratos dos seus antepassados, no interior das galerias de arte, à mesa com a rica gastronomia local, nas bancas dos mercados de artesanato e de antiguidades, nas figuras refletidas nos espelhos colados nas esquinas  da urbe,  há tanta irreverência nos olhares desta gente extrovertida que parece dispensável o aparato policial deste Estado que parece demasiado presente nas ruas da cidade e esta parece a única linha melódica dissonante na cidade.  
Mas nas ruas estreitas,  em redor da Torre do Relógio, não muito longe da ponte da paz, são os gatos que reinam do alto dos parapeitos, é um bairro de moradias comunitárias, já não há prédios cinzentos pendurados em varandas de ferro, mas casas de madeira pintadas em cores leves e a mesma roupa estendida, os vidros partidos e as tábuas de madeira quebradas pelo tempo e os gatos que defendem a propriedade e ocupam as ruínas do bairro antigo, protegendo os velhos que decidem acolher nas ruas e nas casas do bairro, uma autoridade menos intrusiva e mais condescendente que a autoridade das grandes avenidas porque deixam em paz os humanos que coabitam com os escombros.
Do outro lado da ponte da paz, no parque Rique, o enorme cão pastor estende-se de lombo no chão e parece desconcertado com a visão do pavão empoleirado no banco de jardim, no fundo a fazer de pavão, mas o cão pastor parece consciente de que o pavão está naquele lugar e naquela posição por um propósito superior qualquer porque o pavão é um símbolo que estabelece a ligação entre os rituais pagãos e os símbolos da igreja católica (segundo a crença local)
Afinal o pavão tinha um proxeneta sentado no banco de jardim que vendia a imagem do pavão, uma nota por uma fotografia e este pavão não passa de um pavão pagão e dai o desconsolo do cão pastor
Nada que nos desencoraje uma subida dentro de uma cabine fechada, monte acima até ao regaço da mãe.
Na encosta do monte Maricala, vislumbram-se as cúpulas da diversidade religiosa, igrejas ortodoxas, de uma igreja apostólica Arménia, uma sinagoga, uma mesquita e mesmo um templo Zaroastra e, no topo da colina Sololaki, Kartlis Deda é uma enorme estátua de alumínio apelidada de “Mãe da Geórgia”, a estátua enverga um traje típico da Geórgia e, nas mãos, segura um cálice de vinho e uma espada. Diz-se que simboliza o carácter nacional da Geórgia. O vinho representará a hospitalidade do povo, e a espada o amor georgiano pela liberdade (ou melhor, a força do povo caso alguém tentar infringir a sua liberdade).
A meio do dia, o céu turva-se encosta abaixo e a água do céu confunde-se com a corrente do rio e nós olhamo-nos ao espelho na esquina da rua Betlemi e gostamos do que vemos, esta cidade aumenta a nossa autoestima, mesmo molhados, subimos ao terraço do restaurante See 360 e, sentados numa mesa à janela, de copo de vinho branco na mão, sentimos o cheiro da chuva, disfrutamos os sabores surpreendentes da gastronomia da Geórgia, e deixamo-nos envolver pelos sons estranhos da musica popular e pelas conversas que vão crescendo de tom à medida que o terraço se enche de expatriados.
Eles chegam através da estrada militar e fogem das emoções fortes, ansiando pelos desfechos de um mundo normal, sem presságios nem dilemas, mas é indisfarçável a inquietação nos olhares de língua estrangeira que agora enchem o espaço e até em russo se percebe que há uma carga conspiratória que forma uma nuvem de fumo que sobrevoa o espaço.
(Mas não é possível, porque nem quando procuramos mudar o mundo é permitido neste século, fumar em recintos fechados)
Mas as vozes quase sussurradas, que agora se sobrepõem à música de fundo, convertida a um swing de origem indefinida, antecipam todas as premonições naquele terraço debruçado sobre a urbe que festeja a universalidade, a todas as horas do dia.
E, enquanto a chuva limpava o pó da História, nós decidimos voltar à rua e experimentar a cidade  





domingo, 12 de julho de 2026

A Porta Caucasiana

 

À porta da catedral Svetitskhoveli, em Mtskheta, voltamos outra vez aos primórdios do Cristianismo e estes momentos e locais são indissociáveis da herança dos povos do Cáucaso, os mais ocidentais asiáticos do mundo.
E, pronto, decidimos entrar.
Os templos cristãos da Geórgia, não são todos circulares, mas, quando entramos, somos sempre envolvidos por uma espiral de fé que se acende nas centenas de velas, acesas todos os dias por crentes silenciosos que entram nos templos, sem hora marcada, beijam a porta de entrada e os ícones do seu Santo e depois levantam os olhos para o céu e aguardam o foco de luz que a crença lhes devolve através da cúpula sempre pintada em tons de Cristo.
E, na cidade santa dos ortodoxos, começamos o dia a acreditar, como eles, que debaixo daquele templo está guardado o manto sagrado usado por Jesus Cristo, pouco antes da sua crucificação e a lenda também nos explica porque é que o manto de cristo é apenas um mito e não uma relíquia da capital sagrada. 
Porque o tempo normalmente tende a diluir a realidade nas lendas, beijamos a porta da catedral, recuamos até ao exterior como se tivéssemos reencarnado no século quarto, quando Santa Nina converteu o reino ao catolicismo.
E entrámos numa realidade dual porque no exterior, neste local de confluência dos rios Kura e Aragvi, abre-se uma outra porta, a Porta Caucásia, sempre a subir para Norte, para as montanhas e para a fronteira da Rússia.
E, para lá desta porta, há uma estrada que liga dois continentes, os duzentos quilómetros de asfalto intermitente da rodovia militar georgiana, tão gasto, de usado, pelos impérios que a usavam como a porta de entrada das intermináveis invasões que destruíram os sucessivos sonhos e reinos nacionalistas locais, mas que construíram a identidade do Cáucaso 
Pela montanha acima o movimento é  intenso e os camiões de duplo rodado fazem longas filas à espera que os humores dos donos das fronteiras alinhem os astros e ignorem as desavenças entre vizinhos mas a estrada que nos conduz à única fronteira terrestre aberta entre a Geórgia e a Rússia, por entre as neves eternas e relações tormentosas, carrega toda a História  da vontade do comércio sobre a guerra, caravanas carregadas de seda, joias e especiarias, histórias de escritores antigos sobre a beleza natural da região, vinhos da Geórgia, as perfumadas flores arménias ou os produtos eletrônicos baratos, oriundos para lá do longínquo oriente.
A partir do Norte, a História parece preferir as ambições bélicas do gigante do Norte que empurram os exércitos para Sul desde, pelo menos, o século dezoito e uma vontade muito colorida de expandir a fé bolchevique em azulejos épicos e berrantes pela encosta Sul abaixo desde, pelo menos os primórdios do século vinte.
A mais famosa expressão monumental do construtivismo soviético celebra a amizade (que aparentemente está suspensa) entre a Mãe Rússia e a enteada Geórgia, e abraça o vale profundo com o mesmo amor com que se aninha nos picos gelados das montanhas do Norte.


Mas hoje era dia de seguir rumo a Norte, até Stepantsminda, nas majestosas montanhas do Grande Cáucaso, pela lendária Estrada Militar Georgiana até aos confortes da fronteira e recordar, com a nostalgia de um veterano da rota da seda, os grandes espaços da Ásia Central, as vacas a apropriar-se das falhas do asfalto e os pastores a cavalo que se assenhoram do verde dos planaltos e dos rebanhos de ovelhas.
Mas afinal o pastor a cavalo que vislumbrámos era apenas uma miragem, uma traição dos reflexos da luz de final de dia numa vista cansada de tanto ver e numa cabeça esvaída pela altitude.
Nos montes de uma quase Europa em espécie de pausa técnica, a paisagem hesita entre a proliferação das pistas de ski e de alojamentos de montanha para usufruto dos habitantes da capital e a preservação das tradições dos grandes espaços, em que os donos da paisagem montam a cavalo, os últimos resistentes da transumância.
E em Stepantsminda, longe dos montes recônditos de Vardzia, no lugar das fronteiras vazias, moram os sons e as cores da contemporaneidade e das caminhadas ao ar livre, montanha acima até à Igreja da Trindade de Gergeti.
E os pastores a cavalo (afinal sempre vi ontem, um pastor a cavalo), desmontam dos cavalos, montam as tendas e transformam o churrasco das suas ovelhas numa experiência imersiva de quem passa, estejam de passagem para a fronteira, venham apenas escalar as montanhas ,” hoje não tenho carne para churrasco mas, se queres, matamos já esta e apontou com o dedo indicador mas ela olhou-me nos olhos com aquele olhar de carneiro mal morto e eu não fui capaz, pensando bem é melhor escolhermos uma ovelha já muito morta”  porque aquela  ovelha tem olhos claros, como uvas brancas, como vidro e tem um perfil humano, misterioso, indiferente e patego, e  havia sede de sangue de ovelha nos olhos claros de Ivan (o pastor bem pode chamar-se Ivan) e parece que milhares de anos de pastores a olhar para as ovelhas e as ovelhas a olharem para os pastores os tornam parecidos
Deixámos o Ivan a falar sozinho e fomos procurar outra tenda, bem longe dali e só parámos quando nos assegurámos que o churrasco era de ovelha congelada, preferencialmente uma carcaça de animal pré-histórico.
Meus Deus quanto tempo o homem deve implorar perdão à ovelha para que ela não nos dirija aquele ar?
E na estrada militar da Geórgia, os viajantes continuam a percorrer o caminho nos dois sentidos, a testar a sua resiliência ao ar rarefeito da altitude e das fronteiras.




sábado, 11 de julho de 2026

Os cães do Cáucaso não choram

 


Os cães do Cáucaso têm direito à sua existência, mas não propriamente a uma existência feliz. Deambulam pelas ruas ou pelos campos, são geralmente alimentados por onde passam, mas não são objeto de grandes intimidades por parte dos humanos, nem de ter estatuto de animal doméstico, com pelo tratado e passeios higiénicos de trela em riste.
Tão livres como vadios, num trote desordenado e não treinado, mas normalmente com muito bom feitio e amigos de quem se ri para eles.
E, da mesma forma que não conhecemos nenhum cão doméstico, também não vimos nenhum cão chorar, dentro das fronteiras do Cáucaso.
Também em Borjoni eles por lá andavam, mas, nas termas que curaram os czares e os privilegiados da república soviética, até eles tinham um ar mais nobre, sempre de cauda levantada, uma espécie de radar para qualquer donut acabado de fritar que se pudesse escapulir nas mãos de uma criança.
Mas em Borjoni, uma Geórgia indolente passeia-se rua acima, rio abaixo, enchem-se garrafões de cinco litros de águas quentes e sulfurosas e divide-se o tempo entre as barracas de feira, os desafios com super-heróis, a roda gigante do parque de diversões e a palete oficial de souvenirs de pendor nacionalista, mas há também uma multidão de velhinhos sentados, à espera, no banco de jardim.
Este é o último oásis antes da grande planície georgiana e, nos grandes espaços, parecem querer libertar-se os fantasmas da história 
Em Ergneti, a fronteira não reconhecida corta a estrada, mas, para lá do sinal stop, só há silêncio porque a Ossétia do Sul é um vulcão adormecido, e para lá do posto de controle vivem cinquenta mil ossetos protegidos [ou ocupados?] pelos russos, menos os trinta mil Georgios expulsos para o lado de cá, na guerra dos cinco dias, e já passaram dezoito anos de fronteiras fechadas e de terras proibidas



No Cáucaso, assim como nas ruínas do domínio soviético nos Balcãs, permanecem estas peças de puzzle por completar, de todos os povos que viveram e migraram no império dos sovietes e, tal como a quase ténue fronteira entre o ódio e a saudade, também nestas terras de ninguém e dos equívocos, há vontades de minorias que despertam anseios e provocam o desassossego, mas as minorias acabam sempre por ter de  servir os velhos amos, a bem dos interesses da maioria [ou de quem manda]
Na casa de Lia, a duzentos metros da fronteira separatista, ela construiu o seu museu da [s suas memórias] onde expõe todos os estilhaços recuperados do conflito fronteiriço de 2018, e recebe-nos no seu quintal, de pijama e pantufas, sem filtros, tal como os bombardeamentos dos russos, o rapto dos familiares e um momento em que a história da Geórgia ia, mais uma vez, ser interrompida, tivessem os tanques avançado na planície para sul.
Ficaram às portas de Ergneti, mas lançaram a sombra sobre um país que ainda não sabe se pode ousar definir o seu destino e Lia foi acordando do seu torpor numa hora seguida de memórias em catadupa. 
Claro que há sempre duas versões para qualquer conflito, e nem a história dos brincos de Elsa e do amor que sobreviveu às armas, consegue esconder o facto da Geórgia ter antes bombardeado o enclave e a convicção de Lia de que os ossetas são estrangeiros que emigraram da Pérsia para a Geórgia e, logo, isso não lhes dá direito a ter uma pátria.
Há assim quem insista que pode haver duas versões da mesma história, mas os ursos vivem, definitivamente, no Norte.
Regressamos à estrada de fronteira pelo caminho de terra e buracos do quintal da Lia, com vista para uma miragem, tal como os brincos de Elsa, um sinónimo da separação das pessoas.
Eventualmente para sempre.


Meia hora na direção do Sul, na planície da Geórgia vive Gori, a cidade de José Estaline e, no parque central da cidade, ainda vive a casa onde nasceu, o comboio blindado do grande líder e um palácio que cheira a glória decrepita que se espalha pelos salões da memória onde cada quadro, imagem,  figura ou tapeçaria com a imagem de Stalin, ainda provoca arrepios [não sabemos se o devemos apelidar de líder porque nem verdadeiramente Lenine acreditava nisso] tal como a sombra de José ofusca qualquer vestígio de vontade própria desta urbe.
Porque que carga ainda há um museu de Estaline que sequestra uma cidade inteira, tantos anos depois do colapso do regime e muito tempo depois dele próprio ter sido prescrito?
 Mas a mesma e imutável guia de sempre  [segundo P, que a conhece bem] do museu, baixinha de cabelo muito preto escorrido em forma de colher e cara muito branca, será  da base ou das origens caucásias, não concede muito espaço  nem a sorrisos nem a perguntas e debita o que foi definido pela curadoria sobre cada linha cronológica da vida do homem e da sua tomada do poder deste soviético maquiavel e, sem inflexões nem tremores, recorda, na sala e na imagem exata da linha cronológica dos anos trinta, com a sua voz estridente e uma pronúncia exótica, uma enorme fotografia granulada de miséria camponesa, que José foi o responsável  pela morte de  fome de três milhões de ucranianos.
Afinal não é saudosismo, parece que os georgianos preferem deixar as memórias à flor da pele, no jardim central de Gori, apesar de nunca termos percebido se o aparatoso museu era uma lição de saudade ou de história. 
Se calhar um vilão pop, e assim se moderniza o cheiro a mofo.
Foi com alívio que chegámos à beira do rio, em Mtskheta e, na capital espiritual e religiosa da ortodoxia da Geórgia, a cidade vestia-se de um fim de tarde ameno e, dentro da catedral da cidade, os crentes rezavam enquanto, dentro das muralhas os miúdos recuperavam o terreiro aos turistas fugidos da noite.
A menos de cinquenta quilómetros das feridas da história, e à volta da mesa com um copo de vinho na mão e uma brisa vinda do rio, até nos parece que a planície da Geórgia nasceu sempre de finais felizes.



sexta-feira, 10 de julho de 2026

Monges do Silêncio

 

Quando o camião começou a trepar montes acima nós, cá atrás na caixa aberta, escorregávamos nos fardos de palha que nos picavam as extremidades e cediam ao peso da meia idade, e o camião roncava, resoluto, pelo caminho de terra que espreitava o precipício, curvas que se sobrepunham porque o monte era alto e distante e o P garantia que, desde que tinham reformado o camião soviético, [agora substituído por uma Mercedes] a viagem parecia outra, mais suave e mais determinada " para aí metade do tempo".
E, no monte, habitavam as ruínas da aldeia da família de Petro, o nosso anfitrião, ele e Maryna, os donos da guesthouse de Vardzia, ela cozinheira e tudo o mais a que o alojamento obriga, ele uma mais pálida encarnação mitológica de um mestre de cerimónias com um técnico de bricolage, sem fato próprio nem cara alegre [quanto muito, com subtis sorrisos, às vezes]
No cimo do monte vivia um verde intenso de uma primavera tardia que avançava, a cada estação, sobre as ruínas das casas de pedra que resistiam penosamente, à distância do vale e da civilização e aos invernos que vestiam a paisagem de branco.
E o Petro pareceu que se comovia quando nos conduzia pelas ortigas fora até à casa da sua mãe, e nós entrámos, por educação e com receio, sobre um piso de terra batida que nos humedecia os pés, encolhidos debaixo de um telhado arruinado de barrotes de madeira, vergados pelo peso das telhas e da terra que costumava servir de isolamento quando as temperaturas desciam a menos vinte.
Só ele conseguia discernir a cozinha e o fogão de lenha, o quarto em que dormia e a sala em que jantava, mas nós encorajávamos o seu regresso ao passado com atenção e com perguntas e um de nós notava que Petro se tornara quase sorridente e até ousado, e partilhava connosco o desejo de reconstruir a casa que a mãe tinha abandonado após a ultima grande guerra.
Enquanto na capital procuravam renascer os movimentos nacionalistas, duramente reprimidos pelo pior dos ursos do norte, em Vardzia as populações aproximavam-se do mundo para sobreviver ao esquecimento. 
Mas no alto dos montes, a igreja está em pé, tal como a fé em São Jorge, um interior de ícones, símbolos e velas acesas, o que prova que todos os dias alguém sobe os montes, a mais de meia horas de curvas a subir, para manter a fé na lembrança e alguém nos lembrou que o santo aqui se venera duas vezes por ano, como em qualquer outro lado do mundo.



Enquanto descíamos a pé e circundávamos um castelo em ruinas, uma prova de que há muito tempo que o vale é refém das ambições expansionistas de exércitos externos [ e a lista é longa desde os bizantinos, persas, árabes, mongóis, outra vez persas, otomanos e russos, para nomear apenas os mais notáveis, entendendo notáveis apenas como os mais reconhecidos, sem juízos de valor] e, enquanto nos procurávamos equilibrar entre pedras rolantes e curvas traiçoeiras, dividíamos a reduzida atenção sobrante entre as memórias do Petro e a natureza distintiva dos povos do Cáucaso de hoje.
É que, por aqui,  quando acreditamos ter encontrado um mínimo múltiplo comum com as nossas realidades conhecidas, o quotidiano destrói-nos as convicções prévias porque quanto mais nos aproximamos da Rússia mais difícil se torna perceber a complexa teia de amizades, cumplicidades e traições que povoam os territórios do antigo império, por aqui a saudade e o ódio servem-se em doses iguais, parecem as duas faces de uma só moeda como se fossem sentimentos gémeos à beira de um fratricídio anunciado [ainda sem criminoso definido]
Esta imagem apareceu tão nítida na minha nuvem pessoal que escorreguei numa pedra solta e quase mergulhei no vazio em direção ao rio.
Recompus-me, mas a descida parecia infinita e o rio ainda estava longe, revolto, mas longe.
Continuam a falar entre eles em russo, a maioria do povo não estereotipado não (se) reconhece (n)o inglês como o esperanto do mundo civilizado, professam uma fé católica [apostólica na Arménia e ortodoxa na Geórgia] que foi o cimento da identidade própria dos povos do Cáucaso, primeiro contra o predomínio muçulmano do sul [e do este e do oeste] e mais tarde contra o grande urso ateu do norte mas que hoje parece condescendente com o grande leste autocrata de uma fé que se professa de baioneta em punho.
Não me interpretem mal, começo a suar mas não é febre, porque a brisa fresca só chegaria mais tarde, quando o caminho se aproxima do rio.
Há uma coincidência de feitios no mau álcool de vodka ou vinho artesanais ou no temperamento colérico sexista e violento, mas as cerimónias religiosas dos povos do Cáucaso são intensas, familiares e [diria mesmo] plenas de sinais identitários distintos dos rituais eslavos [no interior das igrejas e dos mosteiros sentimos um povo em paz interior]
E, sem resposta definitiva, atingimos a brisa do rio.
A todo o momento uma nova realidade parece querer destruir todas as teorias de generalização das origens e do presente do Cáucaso 
Mas o carácter distinto dos alfabetos do Cáucaso cristão, acalma a nossa ansiedade e quando, a pé e ao longo do rio, chegamos à cidade escavada na pedra, entendemos finalmente que existe uma herança Geórgia, independente da vontade dos seus múltiplos invasores.
Construída no século doze, durante o reinado Rei George, foi um próspero centro cultural, político e religioso. O complexo inclui uma rede de cavernas, tuneis subterrâneos e camaras esculpidas na face da montanha, e foi construída como um refúgio para os georgianos dos invasores mongóis, tendo sido habitadas até ao seculo catorze.
Chegados a igreja da Dormicão de Maria, esperam-nos os monges em voto de silêncio e caras fechadas e as pinturas que retratam, não apenas cenas religiosas, mas também  o rei George III e a sua filha Tamara, responsáveis pela edificação do mosteiro.
No seculo doze, a era dourada da monarquia medieval georgiana, em parte governada por uma mulher.
E ainda hoje, são as mulheres que sorriem mais e é nos seus olhos que vemos o espelho da identidade do Cáucaso, cujo brilho nem o banho na bacia dos detritos da fabrica de CO2 apagou [ ao parece uma identidade química que não costuma matar ninguém]
No fim da noite o anfitrião, entre brindes cada vez intensos e indecifráveis, cantava uma balada de sons persas, com a mesma convicção com que Anne e a sua filha cantaram para nós, uns dias antes, a canção nacional Arménia de sons celtas.