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terça-feira, 21 de abril de 2026

Opa – O restaurante dos avós

 


Aterrámos com um sol tão envergonhado que gelava só de pensar na noite que havia de chegar.
Roterdão vive a semana da conexão ou a forma como a arte nos vai fazer experimentar ( e jamais explicar) o que significa estar ligado, num mundo pautado pelo movimento, tensão e pela fragmentação 
E nas primeiras horas de um país plano e sem interrupções, havia símbolos de conexão espelhados nos sorrisos e na jovialidade dos holandeses, um temperamento descontraído de quem sabe que a generalidade das coisas funciona, e a ausência de ansiedade facilita o empreendedorismo, a circulação entre lugares e a alegria de viver.
A cave explica o odor underground do espaço, podes entrar e podes comprar desde que sejam os meus quadros, assim me incentivava a primeira debutante desta vernissage coletiva de seres coloridos, habitantes de um antigo arquivo, agora desordenado por esta galeria nómada de artistas que partilhavam os seus conceitos de ligação, algumas visões tão experimentais que não se explicavam por si mesmos.
Algumas elas subiam as escadas apressadas para o ginásio dos pisos superiores, enquanto alguns outros mecenas subiam a escada da cave com esporádicas obras dos artistas coloridos e extravagantes que vendiam as suas criações, todas a menos de quinhentos euros e de formato não maior que 30 × 40
A loura de meia idade do SUV preto entrou e saiu enquanto eu esperava pelo tesla que me haveria de levar para onde guerra haveria de invadir o parque dos museus, perguntou se podia estacionar em cima do passeio, ah afinal não és de cá, será que se notava assim tanto e a loura sorriu, ainda estás à espera do tesla, sim mas já vem e eu juro que ela quase nos deu boleia para fora dali, enquanto a chuva caia sob a forma de uma neve liquida, de certeza que já vem perguntava a loura, e ria, nada destoava nela da loucura criativa da cave undergound e da extravagância artística daqueles seres que pareciam saídos de uma festa de finalistas da escola de arte numa década longínqua.
E a loura foi se embora sem arte nas mãos no seu suv preto e acenou nos com alguma nostalgia minha, reconheço, especialmente depois de perceber que o libanês do tesla, subia a rua de marcha atras para não ter de contornar o quarteirão gelado e periférico.
Mas na noite gelada de Roterdão toda a gente interage e sorri seja em holandês, seja em tradução simultânea, a conexão é tão importante para eles que não há barreiras de linguagem.
Bem, o libanês do tesla sorria, mas nós não entendemos grande coisa para além da satisfação dele por ser um perito em atalhos.
E despejou nos no meio de uma guerra armazenada em contentores e torres de vigia que transformaram a noite no parque dos museus numa alegoria provocatória à melhor forma de aprender a amar as bombas, com imagens explícitas a partir de contentores ferrugentos e sirenes que se acionavam com o impacto das explosões e o zumbido das balas.


Mais do que visual, uma experiência muito sensorial.
Mas os holandeses não paravam de sorrir, mesmo debaixo da ameaça de mais uma chuva de neve liquida ou uma qualquer bomba perdida de uma qualquer guerra alheia.
Opa significa avô em holandês e Opa é restaurante dos avós de todos os que se ligaram a este local, e há uma parede cheia de lembranças que ajudam a aperfeiçoar os sabores do jantar, e aquele ali no meio é o meu pai, explicou o louro e esguio holandês que parecia mesmo preocupado com a nossa opinião e bem-estar e agradeceu muito a nossa conta arredondada, afinal de contas povos felizes não cobram serviço.
E os avós todos, sorriram da parede abaixo!



domingo, 19 de abril de 2026

Amar assim perdidamente

 

Ontem, foi um grande concerto porque um grande concerto é uma voz que abraça uma vida, e são dez mil vozes em coro por uma adolescência tardia, quarenta anos depois de acreditarmos que faríamos a diferença e que iriamos mudar o mundo.
Claro que o Luís continua a cantar como um cristalino sonho e nós  não mudámos grande coisa mas, ainda assim, ontem foi um concerto cheio porque não despertou saudade, mas apenas sorrisos de condescendência doce sobre os nossos passados de desassossego e de esperança infinita.
Há dez mil vozes que cantam em unissono sem hesitação apesar de sabermos que o nosso tempo está a passar, apressado, mas não há nas suas vozes vestigios de uma velhice anunciada, porque afinal de conta já tivemos mais de quarenta anos para tentar a nossa sorte, jogar os dados e mudar o mundo.
Na grande sala, um pavilhão que se veste de casco de caravela ou outro navio qualquer, juntaram se numa só noite todos os concertos intimistas do chafarix e da aula magna, e nunca o coro pareceu tanto um eco geracional como quando cantamos com o Luis que ser poeta é ser mais alto, é ter garras e asas de condor e já não havia no nosso coro qualquer tom de desapontamento nem desassossego,  afinal não mudámos o mundo mas vivemos um mundo inteiro e um grande concerto é aquele que desperta apenas as melhores memorias e ter fome e sede de infinito, é condensar o mundo num só grito, é amar assim perdidamente todas as palavras que fomos capazes de dizer.
Entre bruxas, caravelas e causas sempre encontradas
Grande concerto, Luis

domingo, 18 de janeiro de 2026

Em Coimbra mandam eles

 

A Ana é espanhola mas é de Coimbra, não apenas do património material mas especialmente o imaterial reconhecido pela Unesco, os rituais e as superstições que fizeram de Coimbra' o reino dos estudantes.
A Ana é doutorada e mais uma orgulhosa fantasma da biblioteca joanina, porque aguardar anos para poder consultar um dos sessenta mil livros deste local mágico onde os morcegos limpam as estantes de traças todas as noites e o retrato de D João V parece sempre iluminado por deferência do pintor ao seu Mecenas, sim, esta é para ela uma forma de perpetuar a memoria imaterial de Coimbra.
Ana é professora e conhece todas as dinastias e conforma-se com o facto da dinastia dos Filipes estar de castigo e não ter lugar nas paredes do salão nobre do palácio real ou da reitoria da universidade ( tudo por culpa do terceiro, segundo ela).
E explica tudo, quem foram os reis bons e os maus e porque é que os reis aqui em Coimbra são os estudantes, uns reis muitas vezes déspotas e absolutistas , temperadas  pela natureza incontrolável de uma juventude que destila soberba pelos poros do privilégio.
E a Ana conclui mesmo que nem o cruel marquês do extremismo e do fora da caixa pombal os domou no absoluto apesar de ter inaugurado a prisão académica e um extenso role de regras, cuja primeira era, afinal, a básica obrigação de assistir as aulas.
E ela gracejou seriamente com a oportunidade do retorno da dita prisão num implícito reconhecimento da derrota, o poder em Coimbra não é decididamente da universidade , mas dos jovens insurgentes das escolas gerais.
 Naquela manhã de sábado, que foi ontem, respirava-se uma solenidade quase revolucionaria ao longo da via latina, através da porta férrea, porque as capas que nunca se lavam esvoaçavam no Paço das escolas enquanto um grupo de  professores decanos, em trajos nobres e posturas irrepreensíveis, saia de uma missa privada na capela do arcanjo São Miguel.
Também fora do pátio das escolas, coabitam os edifícios e a estatuaria do estado novo, com os vestígios das ultimas lutas estudantis, todos à espera que o próximo rasganço devolva a irreverencia dos estudante à sociedade civil dos jovens empregados.
Se fosse em Aveiro numa tarde de domingo, que foi hoje, choveriam  cavacas do terraço da igreja de são gonçalinho, nas festas do santo, mas em Coimbra as manifestações de poder são mais do género imaterial.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

E...Viva o México, segundo Ixca Cienfuegos

 

Afinal o México acaba.
Pelo menos para nós, que partimos!
Do fundo do cenote de Xkeken, flutuamos no rio subterrâneo que percorre as profundezas do Yucatan, ao que consta resultado da queda de um meteorito que extinguiu os dinossauros e deixou esta terra com milhares de buracos que descobriram rios, outrora escondidos no infra mundo.
E olhamos para cima, nós e os morcegos, e vislumbramos um céu azul e dezenas de raízes a tombar pela terra abaixo.
Seria a nossa última visão do México, se não tivéssemos de regressar à superfície para voltar a casa.
E alguém disse que, se calhar, tinha valido a pena extinguir os dinossauros, para isto.
Para quem flutuava nos cenotes, era uma heresia genuína e, sei lá porquê, só me lembrei de kundera, na sua insustentável leveza do ser.
Em Valladolid acabou a imersão de México, muito apropriadamente nas profundezas do México em sentido literal.
Mas, porque a imersão mexicana vive-se na rua, voltámos às esquinas da cidade onde se pode comer uma sandes de leitão por quarenta e cinco pesos, uma espécie de roulottes que constroem sandes enquanto os condutores esperam pelo semáforo verde, tudo muito dinâmico, há bancos para sentar, balcão para encostar, take away entregue no veículo em andamento e nem os detritos despejados do telhado retiram a motivação que reina na esquina da calle 41 com a calle 44.
E, de sandes de leitão na boca, percebemos que, afinal o México sempre acaba, um dia.
Mesmo depois de uma alegada propina paga à guarda nacional - o visado nega, o colega suspeita - para um perdão de multa por excesso de passageiros a bordo do veículo que nos transportava, eles nunca estão aqui, argumentava o colega, mas afinal estavam hoje, azar ou afinal de contas uma sorte de ter sido perdoado, ou talvez não, apenas o acaso.
Afinal ninguém foi preso e o México não quer acabar mesmo.



No dia anterior, tínhamos visitado a maravilha do mundo maia, mas ontem demasiados como nós tiveram a mesma ideia - mas ao que consta é sempre assim, não é uma questão de sorte - e o esplendor do local perde-se na relva e nos ruidosos turistas que, ao contrário dos de Palenque, não tinham visitado o grande museu maia no dia anterior, e tinham gasto uma parte importante das doze horas de imersão mexicana, que lhes foi prometida,  no autocarro que os trouxe das praias da Riviera maia.
E, por isso, em vez de se deslumbrarem em silêncio diante a pirâmide quetzal, interiorizando a energia que podia emanar do local, enchem o ar de inconveniências que quase destroem a magia de Chichen Itza, a maior cidade do lado mexicano dos maias.
O resto da magia sobrevivente foi então tragada pelos milhares de vendedores ambulantes que entupiam os caminhos e conseguiam esconder os vestígios arqueológicos menos exuberantes, os que, apesar da selva e do esquecimento humano, ainda arranhavam a superfície do sitio arqueológico.
Mas não podíamos deixar de vir, alguém lembrou, por causa da pirâmide, do templo dos guerreiros, da praça das mil colunas, do grande jogo da pelota, da plataforma dos crânios, do templo superior dos jaguares, do caracol do observatório ou do conjunto das monjas, o que faz de Chichen Itza um lugar onde até os mitos comprovam a existência de um passado que deixou raízes que explicam porque é que tanta gente ainda fala dialetos maias no Yucatan.
E enquanto o António, o guia local,  construía a narrativa animada e pintava as cores do que terá acontecido no local, como os rituais que precediam as grandes epopeias, a adoração a Ek Chouah, o Deus do cacau e o protetor dos comerciantes, rituais antes e os sacrifícios apenas depois, a única forma de agradecimento e apaziguamento dos deuses, nós imaginamos o que seria o estádio de pelota cheio - e o estádio de Chichen itza é enorme - o Conselho de nobres intelectuais e religiosos a sul, a norte os guerreiros, o rei na casa do jaguar e os burgueses nas bancadas laterais, e só havia um jogo sagrado, em cada 52 anos, quando o  calendário solar de 260 dias e o lunar de 365 dias se encontram e era um fim de um ciclo. 
Assim os festejos deviam ser especiais, um jogo de pelota, sete contra sete, os melhores contra os melhores e, no fim, o melhor era sacrificado e assim acalmava os deuses  que, ficando contentes, seriam generosos para o ciclo seguinte.
O sacrifício era voluntário e o escolhido era decapitado por um jogador da equipa derrotada, uma honra para os escolhidos, porque para os deuses só servia o melhor.
Mas, porque os Maias eram civilizados, eles tinham de controlar o tempo, e por isso desenvolveram um calendário ligado às culturas e a astronomia e o controlo do tempo pelo calendário leva à prosperidade das sociedades sedentárias, através do desenvolvimento da agricultura.
E, à medida que o António se entusiasma com o que sabe e com o que perguntamos, deixamos de ouvir os sons da ignorância e da soberba contemporânea e imaginamos o mundo maia em todo o seu esplendor e contradições.
Sim, afinal tínhamos mesmo de vir!
Em Valhadolid,  provam-se doces de mel e nutella, temperos de chili e mel, rezam-se terços de janelas abertas para a rua, na Calzada dos Frailes, enquanto os turistas da Riviera maia desembocavam dos autocarros na praça principal, às centenas, ainda receosos, hesitantes, para a parte dois das suas doze horas de imersão no profundo mundo mexicano, mas não arranharam mais do que apenas uma das muitas camadas com que se veste este povo.
Na primeira noite na Cidade do México, descobrimos, entr
e as paredes escuras da cidade adormecida. um painel de azulejos, colado numa esquina do centro histórico com um excerto do livro “La region más transparente” do escritor e diplomata mexicano Carlos Fuentes de 1958.
Só hoje, consegui encontrar uma forma de o traduzir para a realidade do mundo deles:
" O meu nome é Ixca Cienfuegos, nasci e vivi na Cidade do México. Isso não é grave. No México não há tragédia. Tudo se torna uma afronta.
Afronta, este sangue que se queima como a ponta de um agave ( planta suculenta, matéria prima da tequila)
Afronta, minha paralisia desenfreada que coagula a cada amanhecer. E o meu eterno salto mortal até ao amanhã.
Jogo, ação e fé do dia a dia, não só nos dias de recompensa ou de castigo: vejo os meus poros escuros e sei que serão proibidos lá em baixo, no fundo do vale."
Viva o México porque ele nunca acaba.
Tenho a certeza!