Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O sonho Arménio

 


Os habitantes da aldeia mais ou menos imaginária de Narite, davam especial importância aos sonhos. Contavam-nos uns aos outros, tentando adivinhar o sentido secreto que neles se escondia.
Averiguavam obrigatoriamente o dia da semana; se fosse Domingo, não havia razões para preocupações porque o sonho domingueiro é oco, não promete nem vaticina nada. Mas é preciso guardar na memória tudo o que vimos em sonho na noite de terça para quarta-feira porque, precisamente na quarta, entre o primeiro e segundo canto do galo, os sonhos trazem presságios.
Nós acordámos na manhã de terça-feira com os pés no lago Sevan, aliviados porque na próxima noite já teremos passado e fronteira para a Geórgia e assim, longe da aldeia da Arménia, os sonhos já não trazem presságios, culpa dos galos que não cantam ou porque, longe daqui, não conseguimos lembrar-nos dos sonhos, sequer.
Nem dos sonhos nem das lendas.
Segundo a lenda, no lugar do lago Sevan, havia uma fonte no pomar onde os habitantes locais iam buscar água e sempre lhes era recomendado que fechassem a torneira da fonte.
Um dia, uma jovem distraiu-se e deixou a torneira aberta, inundou o pomar transformando-o no lago. O ancião da aldeia ficou irado e transformou-a numa pedra que agora está plantada no meio do lago Sevan.
Afinal ainda há lendas de que nos vamos lembrar.
Pelo monte acima e com o lago nas costas, a maioria das casas de Dilijan são pintadas de azul-claro e, como são de madeira, não assustam a floresta e Jan significa querido e esta estância termal que curou o politburo durante décadas é, afinal de contas, o querido Dili.
Nas florestas de Dilijan, os antigos mosteiros entregam-se, em ruínas, à natureza que conquista o seu espaço natural, reduzindo a fé cristã à longínqua memória peregrina, mas no Mosteiro de  São Mateus, afinal há vestígios recentes de uma fé incontida nas sombras do mosteiro escondido na floresta, e nós arrastamo-nos pela lama acima, porque a chuva da noite anterior tinha tornado escorregadios os caminhos da crença.


Agora que seguíamos na estrada para a fronteira da Geórgia e a altitude transformava a paisagem em estepe fria, despida e desabitada voltava e lembrar-me das palavras, quase despeitadas, do camarada exilado Vassili "a primeira coisa que vi ao chegar foi pedra" não, não é verdade, meu caro Vassili, e "quando me vim embora trouxe comigo a imagem da pedra" estavas definitivamente deprimido Vassili porque "então parece-me que é o azul do Sevan, os pomares de pessegueiros e as vinhas do vale Ararat, para além da pedra que exprimem o carácter e a alma da terra Arménia porque apenas alguns traços exprimem com maior plenitude o carácter e a alma de um povo " [reinventei- me a mim e à Arménia na negação das palavras do escritor].
E, a cerca de dois mil metros de altura, a Arménia abraça a Geórgia numa fronteira tranquila, não fosse a Geórgia a retaguarda das inquietações arménias e, subitamente, a chuva intensa parou.
Há fronteiras que fervem de agitação porque são o centro de um mundo inteiro que anseia passar mas em Akhalkalaki, uns quilômetros no interior da Geórgia, a casa de câmbios reage com indolência à nossa chegada, um guichet para o interior da loja e outro para a rua, mas não há forasteiros na rua nem uma vontade dos locais em transacionar a moeda local.
Passadas as nossas armas e bagagens, balbuciamos "Georgia on my mind" e o arco iris nasceu na nossa retaguarda, com uma nostalgia muito própria de um povo de exílio e de uma  diáspora imensa.
E lembrei-me do velho Aleksei, um homem simples que vivia desterrado nas aldeias do leste, nas montanhas e no inverno nevado que há décadas tinha saltado das páginas do livro de história para a vida real e falava, com amargura, das pessoas não seguirem a lei principal da vida, a compaixão
E nem os brindes Georgios, uma cascata de vinho e vodka na noite de Vardzia, nos fez esquecer a essência do sofrimento da Arménia, em hora de despedida.



Caravensarai de Selin

 


De manhã, a fronteira e os seus fantasmas foram deixados para trás pela nossa sensibilidade cristã, mas a nossa confiança nos guardiões da arca de Noé parecia-nos ilimitada, agora que tínhamos partilhado com os soldados arménios da fronteira um guisado de carne e um copo de vodka no piquenique junto às cataratas Shaki.
Na vontade de cruzarem as suas próprias fronteiras, transportavam uma enternecedora timidez, carregada de olhares furtivos, sempre a aguardar a primeira mão, para o primeiro brinde, uma alusão verdadeira ao espírito de fraternidade entre os homens.
E depois chamaram-me de arménio enquanto brindavam à paz e à amizade entre os povos e o rio revolto (no Cáucaso todos os rios são revoltos) amortecia o som dos copos a chocar no ar enquanto, no cimo da escadaria, o veterano de guerra e o seu cão, elogiava o meu Panamá Afegão, eu tenho um igual , e o seu cão preto, educado e imperial, abanava a cauda de focinho espetado sob os restos dos piqueniques, do nosso ou dos arménios, conforme a direção dos fumos e dos aromas.
Memórias que já se transformaram em lendas.
Enquanto deixávamos a aldeia de David Tek, recordávamos a família de Anne e as palavras de Narine Abgaryan, uma escritora Arménia no seu livro "E três maçãs caíram do céu” que nos explicava que cada linhagem da sua aldeia imaginaria tinha a sua alcunha. Na maioria dos casos era cómica e engraçada, às vezes irónica, mas havia, embora raramente, as muito ofensivas. A alcunha da linhagem estava em conformidade com o comportamento da pessoa, boa ou indecente, e depois o apelido era herdado pelos descendentes.
Anne e Armen teriam certamente direito a uma alcunha muito lisonjeira, demasiado lisonjeira para a minha fraca memória.
Saltamos, alternadamente, para o desfiladeiro do Diabo e depois para o grande Mirador, e assim se fez a nossa despedida da província de Suyin sempre  a subir, na direção dos 2 500 metros e do Caravansarai de Selin , um exemplar ainda conservado de estalagem do período tardio da rota da seda, mesmo que, em pleno seculo treze de invasões mongóis, pareça pouco credível que por ali tenham passado caravanas vindas do oriente.
Também em memória da rota da seda, proliferam as lendas pouco verosímeis que atravessam os lugares mais remotos da Ásia Central.
A chuva gelada de junho tardio, empurrou o nosso piquenique para as abóbodas geladas da estalagem medieval e, por momentos [breves de uma fraqueza súbita] desejamos voltar ao século doze porque, segundo K, haveria fogueiras ao longo do centro da galeria e, hoje só havia escuridão e frio eternos.


Lá fora, assobiava o vento que não era, contudo, suficiente para apagar os vapores de álcool dos seres de um terrestre diferente, os descendentes do abominável Homem das neves (eternas).
O mau álcool não é apenas uma lenda dos homens do Cáucaso, parece ser uma herança viva do seu passado.
A Clarence, uma motard francesa de porte impressionante e pouco impressionada com a rudeza efusiva dos homens locais , retida acidentalmente no alto da montanha por um equivoco linguístico, aproveitou a nossa chegada para se libertar dos vapores de uma hospitalidade insistente, homens que bebem álcool artesanal sobre o capot de um emplastro de quadro rodas, saltar para cima da mota e deixar o lenço para trás, como se quisesse assegurar-se de que eles não lhe seguiriam o rasto nem a sua liberdade.
A Clarence, desconfia deles, mas sabe reconhecer quem lhe fala em francês (eu tentava explicar a K o nome dela, e ela ouviu)
Eles asseguram a K que não tinham a certeza se a Clarence era uma mulher e não lhes passava pela cabeça dar-lhes boleia para o lago Sevan.
E falaram em arménio, sem risco de se perderem na tradução.
Mas a francesa já não nos ouvia, é para isso que as motos servem.
E, desfeitos os equívocos e os restos da merenda, planamos sobre o lago Sevan, ao mesmo ritmo da tempestade e do céu negro de trovoada e de pressentimentos que se escondiam atrás das montanhas.
Deixamos para trás as neves eternas, guardámos o lenço da Clarence e reencontramos a alma antiga dos primórdios do cristianismo na Arménia nas cruzes de pedra celtas (outra vez uma herança das cumplicidades cruzadas) do cemitério aos pés do lago onde, nos túmulos do presente, a fotografia do morto e o espaço vazio com o nome da mulher viva nos asseguravam que, na Arménia, o casamento é a para toda a vida e para a eternidade.
À noite, no restaurante sobre o lago, comíamos truta grelhada enquanto escutávamos a voz do arménio Demis Russos, cercados de madeiras pesadas da velha ordem, de um serviço muito demorado e de uma grande indiferença dos locais.
Enquanto suspirávamos pelo vinho branco de casta superior que, já hoje, tínhamos provado na quinta dos queijos salgados, à beira da água doce.
Mas, a dois mil metros de altitude, jaz o mar da Arménia 



terça-feira, 7 de julho de 2026

Terras de Fronteira


 Davit Tek foi um herói Arménio do seculo dezoito, um combatente que organizou a resistência contra os invasores persas em diversas fortificações da Arménia oriental.
Mas, tal como na história da sua nação, os heróis da Arménia não são  admirados pelas suas vitorias mas principalmente pela sua perseverança e valentia. 
David Tek é uma aldeia do sul da Arménia, uma península agora incrustada nas novas fronteiras do Azerbaijão, onde outrora viviam mais de cem mil arménios no enclave de Nagorno Karabah.
Em Davit Tek não vivem mais do que setecentos habitantes, porque muitos partiram com a tomada do enclave arménio pelas tropas azeris que lhes cortou a estrada para Goris e aumentou o tempo de viagem para o norte e para a capital em mais de duas horas.
" As ervas cresceram muito nos últimos anos, porque já não há animais a pastar nas encostas" exclama Davit, o filho agricultor da família da Anne, encolhendo os ombros e levantando os braços para o céu, porque ele não quer partir, pelos seus animais e pelo seu pomar.
Em Davit Bek, nasceu Aram Manukyan um ilustre arménio que, durante o extermínio de 1915 ajudou milhares de refugiados e recolheu órfãos vindos de todas as geografias do exilio.
Hoje, na aldeia de Davit Bek, cercada por fronteiras hostis, restam as casernas dos soldados da fronteira, os novos bunkers em construção nos topos dos montes que se cruzam no olhar porque só para ocidente existem terras da mãe Arménia, a poluição do lago com minerais das minas e o contraste entre o verde espalhado pela natureza e o lixo empilhado  nos cursos de água por uma população em suspenso.
A espera da paz ou da guerra, certamente que nem eles sabem bem.
Em Kapan, a capital da província, há uma confrontação de bandeiras na encosta e apenas a bandeira russa os abandonou, uma mediação de conflitos tão venenosa quanto a mineração selvagem de cobre, alumínio e tungsténio a que destinaram a cidade nas últimas décadas.




Em Kapan, sente-se a efemeridade das fronteiras e percebe-se a volatilidade da alma e da independência Arménia, diante do que já perderam ou do que podem ainda perder, especialmente com a ambição azeri (de um novo corredor que pretende ligar o Azerbaijão ao seu enclave junto a fronteira da Turquia) que pode isolar os arménios do seu único vizinho cooperante, o Irão a sul, imagine-se!
Porque a pressão do espaço não protege o tempo da Arménia 
Mas na missa de domingo em Kapan, no dia de eleições em que se espera que ganhe o mesmo, aprendemos que um piquenique com os crentes é apenas um pretexto para juntar as pessoas e conversar e aprendemos também que, na Arménia, os padres casam-se às claras.
Aqui o tempo demora tempo, o tempo que demora a contornar as fronteiras desenhadas pelo poder das armas e das alianças, mas as gentes procuram um novo normal apesar desta Arménia da periferia ser um país de ruínas eternas que a pressa do urgente não permitiu ainda reconstruir.
Mas as empregadas do Panorama, um restaurante muito moderno à procura da reputação perdida, serviam à mesa de luvas brancas e a música nacional Arménia revelava influências celtas indiscutíveis, num surpreendente renascimento do espírito cruzado.
A cidade, sentida no seu amago, agarra-se às indulgências de um domingo nos parques da cidade, gelados e animação juvenil. indiferentes as ruínas da era industrial que os rodeiam enquanto a cidade, vista de cima, esgota-se na tranquilidade de uma tarde de verão e nenhum dos seus problemas nos pareceu, a esta distancia, irreversível.
E no final da noite, apesar da visita dos soldados à casa da Anne, intrigados pela nossa presença nesta aldeia ameaçada pela geopolítica, não houve mais surpresas e o partido do pequeno homem engravatado que faz corações com as mãos, ganhou outra vez



São Gregório, O Iluminador

 

Para o imaginário comum da nação, a igreja apostólica da Arménia é a guardiã da identidade nacional do povo e da nação e tudo parece ter começado com São Gregório, um príncipe parsa refugiado das invasões parsas, educado na Arménia ocidental, em Cília, e aprisionado pelo seu rei por procurar converter o reino pagão da Arménia oriental, qual vassalo do império persa.
Tiridates de seu nome.
E é verdade que, desde o destino do iluminador, que a fé e a igreja católica foram, em muitos momentos da história da Arménia, o único mínimo denominador comum capaz de identificar o povo, e daí o esforço de se distanciar de Roma e das igrejas ortodoxas de leste.
Porque afinal, a discussão centra-se em torno das duas naturezas de Cristo, o homem e o filho de Deus, sem confusões, sem alterações, sem separação nem divisões, assim sendo uma versão oriental do cristianismo e uma questão meramente semântica ou, como nos contava, ontem, o padre de Kapan, uma cisão identitária e nacionalista para unir e defender um povo que raramente foi independente e que, muitas vezes, foi um povo sem terra.
E porque todas as crenças precisam de provas, testemunhas, relíquias e locais de culto, mosteiro de Khor Virap é o santuário da fé cristã Arménia porque foi neste local que o iluminador foi preso pelo rei ( segundo consta por onze anos) e nós descemos ao poço onde o santo foi encarcerado, e espreitamos pelo buraco por onde uma viúva o terá alimentado e tudo é muito visual e por isso somos levados a tomar uma lenda por irrevogável e certamente o santo Gregório converteu o rei vingador porque o curou da sua raiva e o transformou no primeiro reino católico do mundo, logo nos primórdios do século quarto.
E logo um mosteiro que vive no vale fronteiro ao monte Ararat, abençoados pelo sagrado, e salvos do diluvio pelo Homem da arca.



E a rota dos mosteiros desce para sul (enquanto os seculos avançam para o futuro) para Tatev, um mosteiro do seculo nove que se constituiu, no auge da autonomia do reino da Arménia como universidade no seculo doze e terá sobrevivido, muitas vezes ferido, outras vezes isolado, às invasões da ambição e a evangelização muçulmana porque os inimigos procuravam destruir os mosteiros porque sabiam que estes representam a unidade da nação arménia
Assim reza a História da nova (e amputada) Arménia.
Hoje, em Tatev, os padres abençoam-te a alma e o corpo, duas mãos de pão cheio e uma mão cheia na cabeça dos crentes e há nestes locais de uma fé antiga, que preserva as ruínas como um local místico de reflexão (ou uma memória da resistência de uma frente cristã, na fronteira de territórios hostis), e os sinos derrubados pela natureza que serviam de livre-arbítrio entre a paz e a guerra porque chamavam os crentes e avisavam os soldados da chegada dos inimigos.
Nas asas de Tatev (diriam os ateus) mais do que viver uma fé profunda preservam-se os rituais da identidade nacional de um povo e de uma nação. 
Em Khor Virap, em Tatev, em Kapan as pessoas parecem, de facto, cuidar do ritual como se fosse um assunto identitário como se os rituais de fé apostólica fossem capazes de perpetuar a nação Arménia, mesmo depois da pátria extinta.
E quando o ateu comum se comove com a fé dos homens simples, (ou com o ritual da fé dos homens) converte-se a uma espécie de crença humanista que pode nascer dos homens, sem intervenção divina e que impede que nos transformemos numas feras.
E olhando do alto do mosteiro de Tatev para o vale profundo e para o silêncio da natureza em estado puro, sentimo-nos empoderados por uma espécie de crença que te dá asas, (como diriam os crentes profundos) e diz a lenda que o arquiteto do mosteiro se lançou no precipício e pediu asas a Deus.
Não me pareceu estranho ouvir um arquiteto afirmar, no seu último auto de fé, do alto do local que fora a última reserva do saber do auge da monarquia arménia, que agora lia a bíblia e que compreendia a sua sabedoria
Se tivesse vivido no sopé do monte Ararat, abençoado por Noé, o arquiteto talvez tivesse voado.