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domingo, 4 de setembro de 2011

Mister K











A procura de Kafka nas vielas de Praga só podia ser um desapontamento – se esta dependesse da vontade do próprio.
Introvertido, inseguro e insatisfeito com a sua dupla existência – e com a existência em si – não gostaria de saber que o tentaram furiosamente transformar num ícone (turístico) de Praga.
Maldição ao amigo Max que não destruiu os seus escritos, após a sua morte, conforme a vontade do próprio.
K não era um bem-amado, num complexo edipiano que se estendia à família e à cidade.
Escreveu toda a sua - curta como a vida – obra em alemão, quando em Praga se procurava recuperar a língua checa.
O amor nasceu agora, tão interesseiro que nem o pai de K – comerciante judeu – alguma vez abençoaria.
O novo e pequeno museu – criado por um catalão – é o único não sítio de Praga de K, que respira K.
Mas entendendo ou não, a mística de Kafka é anarquicamente sedutora e transporta-nos para os antípodas de Kundera – também um checo K – no insustentável peso do ser.
Embalado pelos carris da noite checa dentro, deixo-me envolver pelo nevoeiro da ponte Carlos e percebo nos ossos que há de facto uma Europa a (pelo menos) duas velocidades e profundas periferias perdidas no centro da Europa.

Praga...mente!








Não há fantasma que resista a um passeio de segway por Praga, num entardecer de Verão.
Segway não é bicicleta, nem mota, nem andar a pé.
É tudo isso e não é nada disso.
E o entardecer de Verão é mágico! Sobre o rio Moldova – que por punição histórica corre para os lados da Alemanha – desfilando diante dos palácios de Mala Strana, sobrevoando a larga calçada polida do bairro aristocrata, Imagine com Lennon no mural, triunfal e motorizada subida ao Castelo…
E o crepúsculo desce sobre a cidade. E as histórias do brasileiro R dão eco às façanhas de um povo que não é o dele.
A embalada descida pelas verdes colinas da cidade, despejou-nos no monumento às vítimas do comunismo, tão ideológico quanto de interpretação naif – afinal deixaram esse fantasma na rua, mas apagaram-lhe a luz.
E o fogo-de-artifício caiu na ponte, nas festas de verão na ilha, um rock muito activo que nos ajudava a interpretar – agora na cidade nova – o cubismo de Picasso na versão checa.
Arte Nova na cidade nova e o segway desfilava diante a tela de cinema que é a História da Europa Central, sem ordem nem cronologia definidas: Mozart e Beethoven, Karel IV e os judeus na cidade, setecentos anos de perseguições, os Habsburgos e a Primeira República – trezentos anos depois a língua checa outra vez –
Despedimo-nos noite dentro com Kafka na praça da cidade velha. A estrela pop checa agitava a praça, o relógio astrológico, os turistas e os checos que ainda não se conformaram com os Habsburgos terem construído uma casa diante da sua catedral.
Sublima visão de uma cidade rica em diversidade, tão bem guardada e preservada pela frieza e desconfortante arrogância destes checos!

Os fantasmas de Praga





Os fantasmas de Praga saem às ruas estreitas, sinuosas e desertas da velha cidade, todos os dias, sempre depois de anoitecer. É preciso vê-los, senti-los na predisposição de respirar os lugares, abrir os poros às lendas que sobrevoam os locais míticos (e amaldiçoados) da velha e pouco serena Boémia. 
O carrasco de serviço ao Reino frequenta a mesma taverna nos dias de execução – o grande circo do povo - junto da praça do mercado. O povo assim o suspeita: musculado, sempre a mesma cara todos os dias, apenas nos dias especiais. E bebe com a serenidade de dever cumprido, um dos poucos empregos pagos pela Coroa em pleno século XVII.
A cerveja une os vivos aos fantasmas, as vítimas, os carrascos e os espectadores.
O filho da bruxa falava com os fantasmas que pernoitavam junto à igreja e usava-os para extorquir dinheiro ao povo. Um dia decidiu intervir com o divino, com os fantasmas das freiras.
Correu mal, segundo rezam as (verdadeiras) lendas!
Perseguiram-no, arrancaram-lhe as roupas, a pele, a carne e depositaram os ossos junto dos fantasmas do exterior da igreja, que o odiavam. Foi um verdadeiro inferno de reduzida qualidade na sua vida eterna.
O assassino fantasma monge da jovem e bela prostituta (também fantasma) deambulam à volta do convento, entretanto asilo e agora Hospital, e conta – quem sabe – que continuam a discutir quem cometeu o pior dos pecados.
Emparedado só o rico comerciante espanhol que ousou pedir guarita numa noite de Inverno e tinha ouro, ouro que se perdeu com os tempos, nos fornos de uma padaria e na mulher do padeiro que morreu afogada no poço.
Confusas desgraças?
Bem-vindos às lendas de Praga em versão moderna. O Sol voltou e os habitantes da cidade expiam os fantasmas pelas ruas da urbe com a mesma alegria com que bebem cerveja.
E não os odeiam…bom, excepto o fantasma chamado comunismo: esse, fecharam-no no museu!
Hoje à noite, no regresso pela nocturna ponte de Carlos, havia sombras a pairar entre as estátuas, seres e cães – aqueles que morderam os testículos de S.Roque, enviados por Deus – os profetas checos olhavam-nos com olhares cépticos e sentia-se o reflexo de Kafka no rio Moldova.
Rainhas, marionetas e o Anjo da Morte regressam à ponte de pedra antes de a manhã despertar.
Passando de manhã, com o raiar do Sol, algumas das estátuas ainda tremem com o regresso fulminante das vagabundas almas nocturnas.