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domingo, 23 de junho de 2024

Os novos filhos da Casa Real

 


Na Calle da Cava Baja, a multidão acotovela-se junto à porta da taberna dos castiços, agora que o Sol desapareceu por completo dos céus de Madrid.
Há uma espécie de herança árabe nesta procissão de fé, a forma como os madrilenos festejam, todos os dias a chegada da noite e a libertação da autoridade do rei Sol, como se vivessem uma vida inteira em sacrifício de fé pelo Ramadão.
Pura ilusão!
Não há fé que se sobreponha à vontade de Madrid tapear nas ruas da cidade, agrupando-se por interesses comuns ou outras afinidades junto às portas do lazer, olhando para dentro onde se come e bebe, vivendo de fora onde tudo o resto acontece.
E até por isso, a ideia de herança árabe desvanece-se, porque não existe no mundo muçulmano de hoje,  tolerância para a indolência com que o clima e a paisagem temperam a personalidade de todos os povos que circundam as margens do mediterrâneo.
Mesmo que os sons do flamengo que ligam todos os bares da rua da cova baixa sejam, em cada nota, um apelo à mística do deserto e dos povos nómadas e, por indução, à memória dos povos árabes. 
O nome da taberna é sugestivo, mas não reflete a frequência eclética, sim é verdade que quase todos falam espanhol, mas há vestígios do império em todas as conversas, em todas as esquinas, sempre que as vozes se sobrepõem aos ruídos da cidade.
O império das Americas que se estilhacou em dezenas de formas de entoar a língua mãe e dezenas de países que, a partir de um colonizador (e também de um libertador) único se desventraram em dois séculos de múltiplas vivências turbulentas.
E eles não se escondem nas ruas de Madrid, é são cada vez mais numerosos na movida que venera o manto de escuridão que dá voz ao novo mundo. 
Uma Espanha cada vez mais diferente, portanto! 
E, na Calle da Cava Baja, uma espécie de entranhas da perdição ou de profundezas do inferno onde a gula e o álcool explicam a maior parte deste ruidoso convívio entre a comunidade hispanica. 
Por isso mesmo, a única herança mocarabe de Madrid que sobrevive ao tempo, à proximidade geográfica, a uma antiguidade comum e a uma longa ocupação da península, são os acordes de um flamengo de sons tribais, uma união em torno do mediterrânico com supremacia árabe e muçulmana. 
Sobre esta inconfundível herança, os nossos irmãos preferem acolher os que colonizaram, na longínqua américa, do que partilhar a memória nas vizinhanças do mar interior, em que foram subdidos do califato. 
Mas o som da música tribal que, decididamente vem do Sul, tem momentos em que abafa as vozes do presente e interrompe este burburinho latino. 
Nas paredes do Cava 67 (como poderia ser de qualquer outro bar de mesas e bancos altos, nesta ou em qualquer outra das ruas da capital) um cubano de nacionalidade indiscutível mas que foi condenado ao anonimato pelo dono do bar, parafraseia Dom Quixote "como não és experiente nas coisas do mundo, todas as coisas que têm alguma dificuldade, parecem-te impossíveis. Confia que o tempo sabe dar doces saídas a muito amargas dificuldades" 
Inquietudes (que revelam um desejo maior do que uma certeza) de Cervantes com as suas mais remotas origens , ou com as origens da remota mestiçagem americana? 
Ou apenas moinhos de vento nas planícies de Castela? 
Nada que os  faça arrefecer a sua vontade de serem perfilhados como os novos filhos da casa real!



segunda-feira, 17 de junho de 2024

As vozes da cidade

 


É o teu olhar, a forma como tu encriptas os enigmas da cidade, envolvendo-os em camadas de significados múltiplos. 
Close up focado na primeira linha do horizonte dos elementos congelados pelo tempo, uma flor de cores berrantes, um retrato, um cartaz ou um anúncio de momentos que já passaram ou mensagens que deviam desafiar a vontade eterna, nalgumas outras geografias, especiarias ou legumes com nomes e sabores que não nos lembram nada. 
E todos os movimentos dos restantes horizontes, desfocados como se, na fluidez do movimento, os pormenores e as linhas do rosto dos que não conseguimos tocar, fossem supérfluos para a história que consigo contar. 
Os primeiros planos de Madrid colam se nos postes, nos sinais de trânsito, nas luzes de iluminação pública, e revelam-nos angústia, desespero, grito de revolta, de alerta ou de vitória, porque não há padrão nas vozes de madrid
As mensagens escritas não permitem distinguir a entoação ou a intensidade e muitas vezes são vozes sem dono, uma geração espontânea de anarquia, por impulso. 
Não há padrão nas vozes de Madrid, apenas impulso, seja uma mensagem publicitária sem plano nem estudo de mercado, lugares de parqueamento para partilhar, o último espetáculo de flamengo de um artista obscuro, um show erótico numa cave estigmatizada de um bairro menos recomendável, seja um grito de protesto contra a violência sobre os animais, sejam de companhia, sejam de aviário. 
Mas respira-se uma liberdade sem fantasmas nos pilares da centralidade ibérica, mesmo que a multidão esteja demasiado atarefada para compreender as vozes da cidade.
Sempre com equilíbrio de brancos quente, como se não houvesse nunca Sol no nosso universo



domingo, 9 de junho de 2024

Memórias reinventadas da Gran Via

 


Madrid é a única capital do mundo das nossas fronteiras, para a qual podemos partir e chegar por terra sem que o sol nasça e se ponha na mesma viagem. 
Já era assim na minha infância das fronteiras, daquelas que já não conseguimos explicar aos nossos filhos.
Acordávamos com o nascer do sol, corríamos pela estrada nacional fora para sermos os primeiros na fila que dava sempre acesso à Extremadura deles, nunca nada nos impediu, não havia razão para impedir, então se era sempre garantido que ias passar então porque é que havia fronteira, pai, afinal já nem me lembro como era ter o teu nome de criança no passaporte dos meus pais. 
E chegávamos sempre antes do sol desaparecer, era garantido que desceríamos a Gran Via a partir da praça de Espanha, décadas antes da cidade afundar os seus acessos nos túneis da escuridão e do progresso, sem ordem prévia, autoestradas onde haviam antes filas de fronteira e rituais de travessia e os  túneis à hora de almoço, onde antes persistiam os caóticos fins de tarde do trânsito da metrópole da ibéria, o primeiro lugar a partir da nossa  fronteira que cheirava verdadeiramente a cidade grande. 
No resto, a mesma realidade de sempre, estamos destinados a fazer de Madrid a nossa porta para as realidades paralelas que o mundo dos outros nos oferece ou, conforme estávamos habituados a acreditar, nos ensina. 
Uma espécie de antecâmara do resto do mundo, e não é uma demonstração de subserviência aos Bourbons ou de inferioridade em relação à dimensão, é apenas uma inevitabilidade geográfica.
E, por ser assim uma espécie de vizinho truculento, com uma arrogância proporcional ao tamanho do seu quintal, parecido no temperamento, muito diferente na forma e no desprezo com que lida com o individual e com os pormenores ( afinal de contas, serviço ao cliente e pequenas séries nunca foram o seu forte) nós consideramo-nos no direito de chegar sem avisar, não descalçar os sapatos à entrada e revelar uma absoluta ignorância pelos pormenores da História deles, pelo menos das partes em que não surgem como vilões nos compêndios de história da escola primária. 
E acreditamos que seremos sempre perdoados, se tapearmos sem pudor ao som de um qualquer flamengo com sabor a presunto. 
Por isso viajar para Madrid com um detalhado programa de visitas culturais ao âmago da essência castelhana, espanhola e continental é quase um refrescante reconhecimento tácito da liberdade deles poderem existir, porque havemos nós de reconhecer a importância da realeza espanhola, se eles desdenham o nosso afã republicano, mesmo que nas origens, sejamos todos primos, como resultado de séculos de casamentos reais de conveniência. 
Mas hoje decidimos viver Madrid como se ela não fosse o purgatório do mundo. 
Por isso decidimos aceitar que Madrid também é mundo com vontade própria. 
Afinal de contas, todos os preconceitos se diluem no tempo. 
Como os ressentimentos, aliás.
E as minhas memórias de Espanha são já antigas e temperadas pela diversidade do resto do mundo. 
Por isso, naquela tarde de feriado português, recém-regressados do planalto de Castela, e depois de um reconfortante repasto revestido de tortilha e regado de cerveja local, porque não são só as flores que precisam e carinho e água, estávamos prontos para um regresso ao século passado e às memórias de Espanha e, agora que reabilitámos Espanha e lhe apagámos o rótulo de apeadeiro da Europa. 
O pintor Chagall é um alienígena nestas disputas ibéricas, russo e judeu, francês por afinidade e alemão de inspiração e uma mente permanentemente exilada, foi um mau século para nascer judeu russo e viver na Alemanha, “non son tiempos proféticos", claro que esta poderia ter sido apenas uma interpretação do curador do museu da Fundação Mapfre, um Mecenas profissional que têm, pelos vistos, uma opinião contundente sobre as misérias do mundo. 
Mas não, a frase é um desabafo do artista que, em 1925 escrevia numa carta que teria hoje, sido viral “o tempo não é profético, reina o mal” 
“A exposição apresenta a obra do artista à luz dos acontecimentos históricos de que este foi testemunha, convertendo-se assim na primeira leitura completa da obra desde a perspetiva da sua tomada de posição e do seu compromisso sociopolítico de cariz humanista”
E, sem preparação prévia, depois de trinta e cinco minutos a caminhar pela Castellana acima, entrámos no século dos profetas torturados e no grito de liberdade que abafou as almas mortas nos conflitos sangrentos que o fustigaram, muito mais do que um título de uma obra do seu compatriota Gogol que, nos anos vinte, Chagall tinha ilustrado.
Nos salas dos pisos superiores da Fundação do Mecenas com gosto e opinião definida, valoriza-se o contraditório, nas cores explosivas de Chagall que retratam o exilio e o sofrimento da primeira metade do século vinte enquanto nos pisos inferiores impera o preto e branco das fotografias de  Christer Strömholm, um fotógrafo e educador sueco que não necessitou da cor para espalhar a esperança do renascimento humanista na segunda metade do século, a Europa voltou a ter tempo para a intimidade e para a diversidade, e nem a escala de cinzentos que povoa os universos de Strömholm, limita a sua sensibilidade perante o sofrimento humano.
(De novo regressados à rua e às cores vivas do presente)
Enquanto a nossa revolução fazia cinquenta anos do outro lado da fronteira, e só havia cravos vermelhos nas ruas da capital, a Madrid trabalhadora alvoraçava-se com a proximidade do fim da tarde nos bairros a norte de Praça Cólon, um bairro que não discriminava nem as bolas de pelo, por vezes confundidos com cães de companhia que farejavam as esquinas e puxavam os reformados de volta para as recordações de quando deixaram marca no mundo, nem os executivos de hoje, em dia de formação, que se desfaziam em convívios corporativos à porta das torres de vidro, enquanto não transbordavam os bares da movida espanhola, sim a norte da praça Colon, não vivia a Madrid monumental, coabitavam as avenidas amplas de linhas direitas de quem entende os números dos banqueiros privados com os quarteirões de um discreto bom gosto, uma grisalha classe média que, tal como os banqueiros, preferia a descrição à notoriedade das ruas do Bairro de Salamanca.  
Aceitar que Madrid é um mundo com vontade própria, no âmago da essência castelhana pode ser cansativo, não que a diversidade seja cansativa, mas pode ser vertiginosa.
Na casa museu do pintor espanhol Joaquim Sorolla, somos subitamente sugados para o passado, como se o jardim plantado de árvores com história e cercado de uma modernidade construída retirasse o dramatismo e os sons do presente, e nos preparasse para o universo deste pintor que se realizava com a representação da vida quotidiana da Espanha dos fins do século dezanove e da generalidade do séculocvvinte, capturando a luminosidade, as cores e a atmosfera do Sol nas áreas costeiras do país e das pessoas que irradiavam felicidade pelo mundo ser apenas simples e tranquilo.
Retratos de uma Espanha superficial, quase folclórica e etnográfica, que se satisfaz sendo meramente descritiva e contemplativa.
Não há uma única perspetiva de classificar a arte, ou nem toda a arte tem de querer mudar o mundo ou experienciar o sofrimento, a ideologia ou, sequer, opinião.

Mas esta aparente felicidade ao Sol de Sorolla, apátrida relativamente à ideologia, foi também um elixir para o nacionalismo autocrático que imergiu do sangue de um povo inteiro, quiçá demasiada luz junto ao mar para tanta escuridão nas vastas planícies do interior.
A diversidade talvez não canse, mas hoje percorremos milhares de milhas e dezenas de anos ao longo do imaginário europeu, e a nossa alma apenas serenou em frente às prateleiras dos grandes armazéns da Gran Via, noite adentro sem previsão de encerramento e as multidões que se acotovelam, indiferentes à escuridão que caía lá fora e, novamente à mesa, rodeados de uma multidão ruidosa e de uma gastronomia exuberante.




sábado, 14 de março de 2015

Gran Via



É inevitável.
Sempre que subo a Gran Via, vindo do Callao começam a desfilar na minha memória, lembranças adolescentes dos passeios em família a Madrid.
Inevitável porque era o acontecimento da nossa adolescência, o passeio de carnaval de automóveis em fila (eram pelo menos dois automóveis), saída de madrugada, o pequeno-almoço em Montemor que servia de reunião de família, os primos todos, o tio que conduzia pelo meio da estrada, antes e depois da fronteira, a longa fila de fronteira, para cá de Badajoz, formulários à saída, algum desplante espanhol à entrada, as casinhas alentejanas, tão brancas quanto postos de fronteira do lado cá, edifícios de vidros espelhados na Espanha em busca da modernidade, o almoço na pousada de Oropesa, o cheiro a deserto europeu na longa planície, ou no inóspito planalto, antes da grande cidade, verdadeiramente a única grande cidade que conhecemos durante anos.
A chegada de noite fria (era sempre Carnaval) à praça de Espanha, a curva para entrar na Gran Via, rua acima o deslumbre dos saloios pelo néon espanhol dos edifícios da avenida (era uma luz especial, diferente da dos filmes americanos, mas o mais próximo que conhecíamos de uma grande urbe) nariz esborrachado nos vidros laterais das nossas cascas de noz mas que, apesar de tudo, se distinguiam entre um enorme rebanho de SEAT (Espanha, país de uma industria de mercado interno).


Depois a chegada desordenada ao hotel Gran Via, no coração da urbe, na esquina da Calle Montera, a difícil operação de estacionar os automóveis nos minúsculos parques de estacionamento das ruas que circundavam a grande rua, o jantar no self-service, o cheiro a metropolitano, e hoje, dei por mim outra vez a olhar para dentro do Hotel Trypp (que é como ele se chama hoje) à procura do self-service, que agora se chama Berska, ou do café de esquina que hoje se chama Mc´Donalds e estava lá tudo, a recolha dos talheres, as mesas embutidas com uma cobertura de um plástico que parecia madeira, mas não era, porque em Espanha tudo tinha de ser massificado, funcional e pouco refinado, e uma tremenda excitação de todos nós, os putos, porque estávamos no estrangeiro, tínhamos feito uma grande viagem e cheirava a cidade.


Pronto, e acabei por me lembrar que já passou quase uma geração, e que já não somos os mesmos, os que chegaram e os que partiram e que nós próprios, já vivemos uma vida sempre a voar, sempre cheios de pressa para qualquer lugar, tão esquecida que estava aquela época dos rituais em que os momento eram espaçados e vividos com memória.
Em poucos lugares vejo o meu passado de puto de forma tão cristalina, tão real, tão como se fosse ontem.
Mas acontece sempre que subo a Gran Via do Callao para a Calle Montera.
Quarenta anos depois, o meu puto liga-me (passeava eu na Gran Via outra vez) a dizer-me que vai emigrar, para Madrid talvez, para Londres se calhar e achei “força puto” mas com a súbita consciência de o quarto do puto está cada vez mais vazio.


A subir do Callao para a Montera.
Hoje, sexta-feira dia 13, e enganei-me na reserva do dia do voo de regresso a casa, fiquei com o cartão de débito sequestrado na caixa automática de um Banco Espanhol, e confrontei-me, cheio de vergonha e horror, com as mãos impolutas de uma guarda de raio X a vasculhar as minhas meias e cuecas sujas, espalhadas à vista de todo o aeroporto, à procura de uma tesoura que a menina da máquina jurou que estava dentro da mala (até virou a máquina para mim) e eu, horrorizado e inocente jurava que não, e afinal não havia tesoura nenhuma, ela fixou a imagem errada e alguém passou com uma tesoura das unhas para um outro lado qualquer!

A caminho da porta de embarque dei de caras com o D.Quixote e pensei “Cruzes”

domingo, 30 de março de 2014

A trilogia (do 3) na rota das artes




3 horas de atraso.
30 euros de táxi até à cidade.
3 da manhã em Madrid.
30 minutos depois das oito da manhã em Madrid, outra vez
3D na rota das artes.
Almoço às 3 horas da tarde no Bairro das Letras.
Muito mais que três pingos de chuva numa cidade alagada.
24 horas à procura de uma trilogia em três dimensões, na rota das artes
E guardámos as ultimas três horas para colecção Thyssen.
Às sete horas da tarde, hora espanhola, a chuva copiosa envolvia o Retiro de um fino e silencioso nevoeiro, que contrastava com o burburinho latente de mais um protesto, anunciado por uma escolta policial que arfava de impaciência e potencial bélico.
E de repente o táxi conduzido no feminino afundou-se nas profundezas dos túneis que desaguam o centro histórico e a rota das artes na M30.
E nos subúrbios na fronteira do campo e do planalto, persistia a chuva.
Madrid 24 horas,
Tudo tão perto
Tudo tão rápido


domingo, 16 de junho de 2013

Chove na cidade festa



Chove na cidade anoitecida que arrefece a fúria espanhola, o burburinho da final da tarde de Sábado nas Portas do Sol, onde todos os madrilenos se pareciam conhecer nos pés do urso, um ponto de encontro natural das legiões de cidadãos que cerram fileiras e entopem os bares de tapas e cañas, entre as nove e meia e as dez da noite, que é o quilômetro zero das estradas de Espanha.
Pontualidade espanhola, um povo que se recusa a ficar em casa.
Mas a intempérie de temperatura calda (o verão asfixiante dos 37 graus, tem regresso prometido para a próxima semana) também parece acalmar a fúria dos homens estátua que povoam (como persistentes empecilhos de personalidade mutante) as praças da urbe turística, em busca de fama ou de uns euros que distraiam a crise e o desemprego.
Piratas e monstros, ícones do cinema e da animação americana numa dobragem sem legendas e em três dimensões.
Ou a fúria do homem sem braços que agita com a boca o balde das esmolas…
Ou o homem que grita na composição de metro o acidente da mulher grávida e assegura ameaçadoramente que não está a roubar ninguém mas que devem comprar uns lenços de papel por um euro, e os passageiros que baixam as cabeças e os olhos para não o ouvir, ou não acentuar a sua ira!
Ou a turma gótica que povoa o Templo Debod, de vista sobre a cidade e a casa de campo, com as luzes e as sombras que mancham o horizonte urbano em final de tarde
Piercings em cobertura de negro ao por do sol!
Apenas Cervantes e sus muchachos, Quixote e Pança, permanecem impávidos e serenos, no alto da sua estátua na tão nacionalista Praça de Espanha, ainda que na sombra da fachada imponente e cooperativa do maior arranha-céus da Europa após guerra.
E o Homem Árvore na Praça do Oriente.


Para eles, não há fúria nem chuva que os demova da sua missão que é a de abençoar todas as espécies que povoam os moinhos de La Mancha
Nem para a polícia sempre presente que lida, com distância e sem fervor, com o seu povo afirmativo e impaciente em relação aos tempos difíceis e à crescente multiculturalidade que os rodeia.
Tudo o que seja preciso para garantir que se mantém o excitante glamour da cidade fiesta.

sábado, 15 de junho de 2013

É dia de clássicos em Madrid



Madrid
Madrid Real
Real Madrid!
É um dia de clássicos na capital mais alta da Europa.
Na Real Rainha Sofia desfila, e até Agosto, a vida do grande e alucinado Dali em onze capítulos, em onze salas, desde a infância artística até às tentativas de projetar a arte em quatro dimensões, as reflexões do átomo e, em flashback, as aventuras cinematográficas e publicitárias da sua expedição americana, a premunição da guerra como um monstro que é o ser humano, que se estrangula numa imagem épica, a descoberta do surrealismo, “ o surrealismo sou eu”, e és mesmo porque olhamos para ti e para as tuas obras e entramos numa dimensão diferente, não é humana nem celestial, é uma espécie de estágio pós vida, imerso em paisagens profundas e tridimensionais de um mundo que só existe nos sonhos de inquietude e temor e nas imagens da infância, remetidas ao início de século!
É por isso um Universo Dali!
Tão magnífico que, depois do contacto com o universo do "surrealismo sou eu", a visão da cidade só podia ser diferente, alternativa e, em espaços, desconcertante.
Em Lavapiés, respiram- se as questões de uma cidade e de um país que vive nas extremidades da Europa remediada, mas também o regresso aos ambientes e à moda vintage, os cafés de pendor literário, a feira de desenho independente e design em La Boca de piercing nas extremidades das artistas alternativas e de uma indiscutível beleza latina, a caminho da Calle dos Embajadores, onde palcos improvisados promovem o entrosamento das civilizações em bailes de escola e a comunhão do flamenco e da dança do ventre, sem que se entenda se nasceu (ou não) uma nova raça indígena e mestiça.
Regressados ao tempo das fronteiras dos reinos católicos e sultanatos árabes na grande Península Ibérica.
A caminho do Rastro, o mercado de todas as pulgas, no bairro da Latina.
E ala Madrid porque é Domingo e mesmo fora de estação e degustando presunto ibérico com vista para o relvado do Barnabéu, a romaria de adeptos não cessa de rodear o estádio, è espera de mais um clássico de velhas glórias.
Não há tradição que resista a esta movida latina que deixa o bairro de Salamanca descansar no fim-de-semana, lojas de marca e de luxo inatingível sempre abertas em ruas desertas, mas entope os estradões do Retiro com uma inundação de barcos a remos, artistas de rua (parque) e versões latinas do rato Mickey que dão um colorido berrante e anglo-saxónico a esta parada de estrelas que são os madrilenos.
E enquanto as nuvens ameaçam novamente o passeio de barco da cidade inteira, a rapariga da máquina fotográfica, revela-nos um retrato clássico de Doisneau, não fosse ele francês e ela (presumivelmente) espanhola.
Este foi decididamente um dia de novos clássicos em Madrid!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A milha dourada



Gran Via é a nova milha dourada para os guias turísticos da capital do (antes) Império, mas é também o que resta da velha Espanha (dos seres) de fato escuro e bigode grisalho, dos engraxadores que acompanham o ondular da grande rua que sobe da praça de Espanha até ao Callao, plana nas alturas até a saída do metro, junto ao velhinho hotel que virou Trypp, na esquina da Calle de la Montera, para voltar a descer em graciosa curva pela direita fora, até desaguar no rio maior chamado Alcalá.
Apesar das novas montras de design e das aspirações pós modernas e da moda de apelo mediático que substituíram cafés e livrarias, das salas de espetáculo que paulatinamente convertem as sessões de cinema em musicais de reminiscências anglo saxónicas (O rei é Leão), as calçadas e as fachadas clássicas da grande rua ainda transpiram a Espanha dos Ducados e dos fatos cinzentos, dos sabores clandestinos de um refrigerante invulgar, uma espécie de primavera de Madrid na década de setenta do século passado, das touradas e do flamenco, das boinas bizarras da guardia civil, dos caramelos e dos boiões de perfume de litro, das roupas cinzentas e dos óculos de sol à Alain Delon e a grande sensação chamada de Tiburón, uma grande estreia de Spielberg em versão dobrada.
Não há nada de particularmente errado nesta visão da Espanha da segunda metade do século passado, convertida a si mesmo e ao grande espaço continental, como que a lamber as feridas de um início de século alucinante e fraturante.
Mesmo que as reminiscências deste lugar nesse tempo só sejam percetíveis para quem cá tenha estado!
A única nota aparentemente disfuncional nesta grandiosidade quase decadente são as prostitutas que parqueiam, à uma da tarde, na esquina da rua pedonal entre esplanadas e lojas de moda, vigiadas por velhos com penetrante olhar de chulo (os novos velhos de fato escuro e bigodes grisalhos) perante a indiferença geral e o despeito das próprias.
Eu quase que garantia que estas almas depenadas, que ficaram presas na escala do tempo, como fantasmas pululando entre os vivos, encurralados entre o passado e o futuro, são a única prova de que provavelmente a milha dourada já foi, em tempos idos, o coração (e todos os outros órgãos vitais) da grande Espanha nacionalista, uma monarquia de Rei exilado!
Obviamente apenas evidente para quem viu o Tiburón que se exprimia em castelhano!