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domingo, 30 de dezembro de 2012

Os seis pecados mortais (latino incompreensíveis)dos nórdicos


São indiscutivelmente mais evoluídos no respeito pelas regras de conduta de convivência em
Mas revelou-se um povo de relevantes pecados mortais
         i.           Desligam a máquina do café expresso a meio do jantar dos clientes (acho que é de propósito “ai vais querer café não eu desligo a máquina”)
       ii.            Têm o péssimo hábito de começar (e acabar) tudo a horas esta mania de cumprir horários, só pode ser doença congénita. Segundo prima J. é a teoria dos 8*3, 8 horas de trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas de descanso!
      iii. São obsessivamente adeptos do faça você mesmo, pelo que esperar no aeroporto é aguardar que encontremos o motorista dentro de um gigante autocarro amarelo, algures na escuridão da rua, obviamente nas chegadas que era a porta da direita e as partidas a da esquerda, duas portas de saída, duas portas de entrada, a mesma! Para nós nunca nos passou pela cabeça que o motorista em mangas de camisa nos esperaria pacientemente dentro do autocarro e que nunca lhe passaria pela cabeça nos procurar dentro do aeroporto. Motorista, logo, não guia. Uma inconciliável diferença cultural que só entendemos quando nos lembrámos do IKEA (desculpa aos dinamarqueses por me atrever a evocar um nome sueco)
     iv.       E depois explicam tudo o que se vai passar...sem surpresas
       v.       Insistem em jogar golf em campos nevados
     vi.      Paradoxo do serviço / Todos ganham bem logo o serviço é caro para todos, logo são comedidos, logo usufruem menos / Colocando a questão das 8*3 na equação então percebe-se que serviço bem diferenciador (por exemplo, fora de horas é escasso) é muito caro, logo não usam. Ganham bem, são protestantes frugais, não trabalham em excesso e fogem do serviço, logo não têm serviço. A igualdade na riqueza é assim uma equação impossível com qualidade de serviço. Serviço, significa desigualdade intrínseca! Então ricos, para quê? Imaginem então o choque para quem não ganha bem
IOL!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sombras de um Inverno Nórdico



(ou não há tarde nas paisagens do Norte)
A Escandinávia rural embala-nos à volta do roast beef e do arenque (o arenque é invenção minha, porque não visão - estereotipada - completa do universo nórdico sem o salmão e o arenque)
São algumas (uma, duas talvez) horas da tarde e desde a manhã que persiste a mesma sensação de eterno pôr-do-sol atrás das nuvens, numa constância de cinzentos meio-toms, um amarelo sol que rompe esporadicamente o ameaçador carregado sobrolho celeste.
Silêncio, cavalos, sombras e reflexos no lago quase gelado, numa província em estado semi sólido, pequenos interlúdios da imensa planície branca.

O taxista que veio do (frio) Teerão



Cai um frio de quebra ossos na noite viking
Copenhaga, -4ºC.
Kokkedal Slot? A hesitação e a inépcia em lidar com o tom tom confortavelmente instalado no veículo que nos resgatara do frio, minutos antes da congelação final, não nos levantou suspeitas, tal era o frio e tal era a confiança cega na civilização nórdica.
Estamos na Dinamarca e aqui, na civilização, ninguém se perde (ou ousa perder)
Mas Kokkedal Slot está a meio caminho do fim do mundo e o taxista hesita…
Tão estrangeiro como nós? – A ideia trespassa-nos o cubo de gelo que obstruía os neurónios nas nossas partes altas!
28 quilómetros para o destino, pareceu-lhe uma longa distância, pareceu-nos que não fazia ideia do que estava a ver no ecrã encriptado do GPS em dialeto nórdico, provavelmente dinamarquês, dadas as coordenadas. 28 quilômetros pareceu-nos ( a nós e a ele) uma eternidade…de centenas de coroas, daquelas moedas de buraco ao meio, que valem mais do que o metal que contêm!
Não, apenas o cuidado de não falhar, uma reconfirmação necessária de quem presta serviço e se preocupa com o destino dos clientes!
O tom tom finalmente arranca e o mapa da cidade, cheio de cor na branca noite escura da cidade, as ruas marcadas a vermelho, as margens a amarelo, como se fosse um videojogo de vilão em riste, trespassando as ruas cada vez mais desertas, luzes laranjas que aceleram nas bermas da estrada, iluminando de forma cada vez mais ténue as fachadas austeras da cidade geométrica.
A (o) meia-noite (meio da noite, imaginamos que a luz, senão o sol, já desaparecera há mais de – quase - um dia) aproxima-se, e a malta civilizada prepara-se para regressar ao seu universo pessoal do chão aquecido e dos edredons de penas 
Começam a sobrar dos outros...
Segundo os locais, são suecos e noruegueses bárbaros a procura de bebida barata
(Barata? Uma arrojada metáfora para quem se assume como os únicos nórdicos continentais)
 A confiança do taxista aumentava com a ausência de queixas do tom tom e as queixas do frio são a sua forma de quebrar o gelo…
“ O frio é nosso amigo…atrai clientes…”
“… O gelo é nosso inimigo”
As incoerências do homem (mas afinal o frio é mau, ou é quente?) são uma fonte de inspiração da condição humana.
E da circunstancial conversa do frio, aproveita para nos explicar que antes (uau, afinal o tipo se calhar não é estrangeiro), este antes revela antiguidade e competência no posto, o frio chegava mais tarde…
“Aquecimento global!” – Foi a ponte encontrada para o monólogo que se adivinhava entusiástico, qual panfletário “ os americanos…” e eu olhava de soslaio para o tom tom, certificando-me de que a linha vermelha não desaparecia do ecrã, “…não acreditam no efeito estufa…” e eu pensava “O que virá a seguir?” e ele não me desiludia “ …se experimentassem ligar o automóvel dentro de casa com as portas e as janelas fechadas…morriam todos em quinze minutos…acham que a mãe natureza tudo aguenta, mas não…”
Ups! Lembrei-me da sua tez morena e a pergunta desenrolou-se qual língua sem vontade própria
“De onde vens?”
“Irão, 21 anos”
E eu fiquei a imaginar a ira do Imã!
Mas ele dirigia cautelosamente, sem qualquer emoção descontrolada.
O meu olhar enregelado (seria do frio ou da forte coincidência sugestiva?) despertou-lhe a compaixão ou o senso prático e politicamente correto de vinte e um anos de vivência no exílio dourado, num país em que “ quem tem emprego está bem”
“Nós (iranianos) somos um povo horrível… lavagem cerebral, enganam o estado, não pagam impostos (pagar impostos é bom) …”
Eu não tinha certezas…se era bom pagar impostos, se este tipo era real, quão bizarra era a anatomia de um iraniano de integração nórdica.
“…Aplicam a justiça pelas próprias mãos, sempre de gatilho armado…têm facilidade em matar”
E a linha vermelha começava a divergir de forma que nem as legendas dinamarquesas conseguiam camuflar.
“Enganei-me!” Pois, eu também percebi
“ Devia ter apanhado a autoestrada de Helsingor” Pois, todos percebemos
Recuperado do engano, provocado pelo seu excesso de zelo, apontou – sempre hesitante – para uma nova alternativa vermelha, e eu percebi que a orientação não era o seu forte
Perdidos à saída da capital!
“Por aqui são mais quilômetros, mas eu desligo o taxímetro quando chegar ao Km 22,5…”
Melhor a aritmética que em orientação e nesta fase eu estava prestes a entender porque é que entre Portugal e a Dinamarca há milhares de quilômetros de diferenças, e certamente os primeiros automóveis sem condutor nascerão neste ninho de tecnologia quase espacial.
Força Irão! Deixa-te ir! Conduzes como se estivesses no espaço.
Encaixado numa nova linha vermelha, mais pronunciada e curvilínea do que devia, agora perfurava com o halogénio a floresta de troncos que bordejavam a estrada, escuro como breu e semáforos ligados em cruzamentos plantados no silêncio e na ausência absoluta de transeuntes.
“Terrível, um povo que não presta. O meu irmão, que vive na América quis lá voltar e eu avisei-o…deu-me razão…veio embora, sem vontade de voltar”
“É um problema de vizinhança, têm maus vizinhos…e todos eles acham que os vizinhos são maus…aqui temos a Alemanha”
Também tu, Brutus!
“ Nunca a democracia vai vingar nestes países…Egito, Síria…”
Ele tinha definitivamente opinião, sustentada e abrangente e, para já, não estávamos em risco; circulava vagarosamente (é o gelo, sabem!?) numa interminável reta e a linha vermelha não vacilava
“ Eu não acredito em religião e os extremistas não permitem que as pessoas vivam em liberdade…é preferível que fiquem lá os ditadores”
Voltavam os cruzamentos, as casas, mas não sinal do mar (e devia haver), não se vislumbravam referências familiares para quem, como nós, já por ali devíamos ter passado hoje.
“ Eu li sobre todas as religiões, primeiro judeus, depois cristãos e a seguir muçulmanos, todos com a mesma origem comum e todos se guerreiam…por isso não acredito em religião”
Vinte quilômetros depois, soubeste que eu era português – para um estrangeiro que já não é estrangeiro e que fala inglês com quem ele entende que não é, de todo, inglês, perde facilmente a noção de que podem haver estrangeiros naquele local ermo e (agora) desconsolado –
“ Há muitos portugueses na Dinamarca…” estava na hora do interlúdio de simpatia para a nação lusitana, “…engenheiros, na restauração e são muito apreciados” agora é que eu já não percebia se ele era um iraniano integrado ou um nórdico com remotas reminiscências persas.
“Vou desligar o taxímetro, não quero que fiques prejudicado, o meu patrão vai entender”
Mas o caminho permanecia pouco familiar e a linha vermelha aproximava-se perigosamente do destino registado e as minhas dúvidas adensavam-se…
“Estamos a 800 metros” sim eu também tinha visto, mas não acreditava, e o inevitável aconteceu, uma estrada bloqueada à nossa frente, uma ponte sobre a linha de comboio e, do outro lado, o perdido Kokkedal Slot.
A única ponte no raio de visão do tom tom dinamarquês de um iraniano integrado que não fazia a ideia (nem estava preparado para reagir a imponderáveis geográficos)
Uma aventura no reino da Dinamarca, quem diria, e o nosso motorista parecia uma barata tonta, as ruas eram cada vez mais estreitas, pátios e parques de estacionamento, vivendas e não havia mais pontes para lá da estrada de ferro, um mar de castanho no aparelho que falava sozinho e, obviamente como máquina não pensante, não dava soluções, porque não havia, a não ser que saísse do quadrado.
“Zoom Out”, ordenei subitamente, achei que era a altura de mostrar a este cego crente na tecnologia do satélite, que nada substitui o sentido prático de orientação de um puro lusitano!
E como por magia, o mar apareceu e apontei-lhe o caminho
Alguns metros mais tarde, já de taxímetro ligado “ Importas-te? Com estas voltas o meu patrão não vai aceitar, eu não te quero prejudicar…”, a linha vermelha descobriu o novo caminho para o castelo encantado.
Força Irão, deixa-te ir!
Cem coroas de gorjeta depois (“ Tens a certeza?” e eu gostei da sua capacidade de autocritica) o taxista de Teerão agradeceu, comovido, de mãos unidas numa longa prece.
Um espírito livre, mas desorientado, na branca e escura noite nórdica.
Mais de uma hora e setecentas coroas depois!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Svenska - Day 3


Da atmosfera exalava tons de azul entre a neve branca e o manto de noite que invadia a cidade.


Neste entardecer em Uppsala é o branco de filtros azulados que preenche as minhas recordações, agora tardias e distantes, uma cidade que ostenta um imponente castelo, que aponta os seus garbosos e (agora) inúteis canhões de chumbo à vizinha igreja Anglicana - uma divergência de protagonismo por resolver? -  que se afirma universitária nas bicicletas que não desistem de circular ao lusco-fusco, nos envergonhados trilhos de lama castanha.

Um ambiente de lojas de velas que cheiram a jasmim, pairava no ar urbano e afunilava-se no foco dos candeeiros de rua, fazendo-nos recordar as histórias do avô Natal com um sabor adocicado de chocolate quente.

Perfeita a magia de cidade pequena e recortada de neve entre o casario antigo e o preservado moinho de água, uma magia que não se derrete nas luzes discretas e quentes que espreitam por detrás das cuidadas janelas, molduras possíveis de pinturas de autor.

Apeteceu-me rebolar para fora do autocarro, enfiar os pés na neve, captar na minha objectiva de longa angular, os últimos raios desta cidade.

Mas estava agarrado pelo cinto de segurança da gente séria que me circunda, e não saí.

No regresso do precoce lusco fusco das quatro da tarde, experimentava uma sonolência entorpecida pelo choque térmico dentro do autocarro aquecido que rolava sobre a auto-estrada gelada, sem pressas e sem qualquer desconforto…

De repente senti uma louca saudade das nossas exuberantes áreas de serviço que povoam as nossas vias rápidas (quarenta em quarenta quilómetros) para a prosperidade adiada.

Não me lembrei que os espartanos nórdicos há muito decidiram que estes são luxos impensáveis numa sociedade organizada… e de auto-estradas gratuitas!

Mais uma oportunidade perdida para deixar de divagar, lusitano megalómano!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Svenska - Chapter 2


Socialmente até somos capazes de camuflar as diferenças, até porque a reconhecida e antiga solidariedade nórdica por todos os refugiados e oprimidos do mundo, miscigenou o povo e deixou descendentes.

Somos alienígenas com aparência humana perfeitamente integrada nos padrões nórdicos do século vinte e um, predominantemente louro é certo, mas convenientemente salpicado de latinidade e periferias diversas.

Mas no final daquele simpático e amistoso almoço partilhado em equipa, sentimo-nos absolutamente e descontroladamente antípodas: não lhes passou pela cabeça que não bebêssemos apenas água do jarro, que não degustássemos outra coisa que não uma lógica de mini prato em dias de festa…durante precisamente quarenta e cinco minutos (aliás anteriormente definidos como o que obviamente – e naturalmente - iria acontecer), com tudo incluído.

E voltou a não lhes passar pela cabeça que após a refeição vem o café. Mais uma vez de forma absolutamente natural, cordial e, em momentos, calorosa!

Mas também ninguém se lembrou de perguntar (nem os antípodas de pedir) porque esta forma de estar “ faça você mesmo aquilo que não faz sentido que alguém lhe faça” é cultural e endémica, como acreditar de forma verdadeiramente crente que o almoço não é um intervalo, mas apenas uma interrupção meramente fisiológica (aliás como outras).

“No more spare minutes’ MIND”

À noite, no luminoso conforto do aquecimento central, ou na profunda escuridão do frio cortante, as diferenças dissipam-se, desvanecem-se; até eles parecem alienígenas na sua própria terra e o nosso ar de pecado (estado de) em permanência dissolve-se nas gargalhadas do bar, nas minissaias que lhes alongam as pernas na pretensa primaveril noite sueca, no álcool e até (imaginem) no fumo (obviamente controlado e sempre destino às antecâmaras do frio).

Na (ir) racionalidade lusitana diríamos que se trata de um povo bipolar, mas ambos sabemos que se trata de um julgamento injusto, porque são eles que têm razão.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A longa noite gelada da Monarquia Nórdica


A longa noite gelada do Norte aparece no topo de todos os índices de felicidade e desenvolvimento social obviamente não por razões meteorológicas, mas que a agreste e bipolar meteorologia não derrete (afinal a escuridão precoce do Inverno Nórdico não provoca a depressão autóctone).



Estocolmo, 8:48 horas da manhã e na espécie de manhã retardada, o Sol esforça-se (em vão) por furar o horizonte gelado, por nascer às nove, mas o parto revela-se obscuro, cinzento pesado, branco de farrapos despejados estranhamente de um céu cor de chumbo… e em vez dos raios solares tombam os flocos de neve



Nesta visita quase furtiva à suposta capital da Nórdica Monarquia da Europa, submergimos num enclave europeu muito particular, de uma sobriedade absolutamente confortável, de um design que emana do aquecimento central dos edifícios, das pequenas que povoam o átrio do Hotel, um cinco estrelas sem serviço de recolha de bagagens, uma referência tão espartana como a filosofia de vida “ sirva-se a você mesmo”



Cheguei ao meu quarto de meia-noite, ainda a descongelar do passeio pela noite profunda à procura das luzes inexistentes no palácio real – luzes para quê? Não havia ninguém, verdadeira essência do espírito prático nórdico, razão pela qual despeitam a crise! – e a luz laranja do candeeiro à janela e a bola branca luminosa do outro lado da cama, uma mesa de cabeceira que não era (mas podia ser) deveriam manter-se acesas, mesmo sem o cartão de acesso ao quarto…



Na excitação lusitana – ou seria fascinação mediterrânica? – pela neve, confundi-me na tecnologia sueca e retirei o cartão de energia que não abria a porta – porque não era pressuposto – e deixei o cartão da porta dentro do quarto, e o recepcionista, tolerante com a ignorância barbárica – e num inglês perfeito – sorriu de forma condescendente e devolveu-me o salvo-conduto para o meu quarto em tons laranja e branco, janela para o pátio interior e um edredão que me afundou nos sonhos desta civilização que leva a sério todas as coisas verdadeiramente importantes do desenvolvimento social, mantendo uma conveniente distância da emoção excessiva e uma inflexibilidade ligeiramente impaciente (petulante?) face ao imprevisto.



Adormeci a pensar como seria este desenvolvimento social com o clima lusitano…e acordei convencido de que se trata de uma equação com variáveis a mais!