À porta da catedral Svetitskhoveli, em Mtskheta, voltamos outra vez aos primórdios do Cristianismo e estes momentos e locais são indissociáveis da herança dos povos do Cáucaso, os mais ocidentais asiáticos do mundo.
E, pronto, decidimos entrar.
Os templos cristãos da Geórgia, não são todos circulares, mas, quando entramos, somos sempre envolvidos por uma espiral de fé que se acende nas centenas de velas, acesas todos os dias por crentes silenciosos que entram nos templos, sem hora marcada, beijam a porta de entrada e os ícones do seu Santo e depois levantam os olhos para o céu e aguardam o foco de luz que a crença lhes devolve através da cúpula sempre pintada em tons de Cristo.
E, na cidade santa dos ortodoxos, começamos o dia a acreditar, como eles, que debaixo daquele templo está guardado o manto sagrado usado por Jesus Cristo, pouco antes da sua crucificação e a lenda também nos explica porque é que o manto de cristo é apenas um mito e não uma relíquia da capital sagrada.
Porque o tempo normalmente tende a diluir a realidade nas lendas, beijamos a porta da catedral, recuamos até ao exterior como se tivéssemos reencarnado no século quarto, quando Santa Nina converteu o reino ao catolicismo.
E entrámos numa realidade dual porque no exterior, neste local de confluência dos rios Kura e Aragvi, abre-se uma outra porta, a Porta Caucásia, sempre a subir para Norte, para as montanhas e para a fronteira da Rússia.
E, para lá desta porta, há uma estrada que liga dois continentes, os duzentos quilómetros de asfalto intermitente da rodovia militar georgiana, tão gasto, de usado, pelos impérios que a usavam como a porta de entrada das intermináveis invasões que destruíram os sucessivos sonhos e reinos nacionalistas locais, mas que construíram a identidade do Cáucaso
Pela montanha acima o movimento é intenso e os camiões de duplo rodado fazem longas filas à espera que os humores dos donos das fronteiras alinhem os astros e ignorem as desavenças entre vizinhos mas a estrada que nos conduz à única fronteira terrestre aberta entre a Geórgia e a Rússia, por entre as neves eternas e relações tormentosas, carrega toda a História da vontade do comércio sobre a guerra, caravanas carregadas de seda, joias e especiarias, histórias de escritores antigos sobre a beleza natural da região, vinhos da Geórgia, as perfumadas flores arménias ou os produtos eletrônicos baratos, oriundos para lá do longínquo oriente.
A partir do Norte, a História parece preferir as ambições bélicas do gigante do Norte que empurram os exércitos para Sul desde, pelo menos, o século dezoito e uma vontade muito colorida de expandir a fé bolchevique em azulejos épicos e berrantes pela encosta Sul abaixo desde, pelo menos os primórdios do século vinte.
A mais famosa expressão monumental do construtivismo soviético celebra a amizade (que aparentemente está suspensa) entre a Mãe Rússia e a enteada Geórgia, e abraça o vale profundo com o mesmo amor com que se aninha nos picos gelados das montanhas do Norte.
Mas hoje era dia de seguir rumo a Norte, até Stepantsminda, nas majestosas montanhas do Grande Cáucaso, pela lendária Estrada Militar Georgiana até aos confortes da fronteira e recordar, com a nostalgia de um veterano da rota da seda, os grandes espaços da Ásia Central, as vacas a apropriar-se das falhas do asfalto e os pastores a cavalo que se assenhoram do verde dos planaltos e dos rebanhos de ovelhas.
Mas afinal o pastor a cavalo que vislumbrámos era apenas uma miragem, uma traição dos reflexos da luz de final de dia numa vista cansada de tanto ver e numa cabeça esvaída pela altitude.
Nos montes de uma quase Europa em espécie de pausa técnica, a paisagem hesita entre a proliferação das pistas de ski e de alojamentos de montanha para usufruto dos habitantes da capital e a preservação das tradições dos grandes espaços, em que os donos da paisagem montam a cavalo, os últimos resistentes da transumância.
E em Stepantsminda, longe dos montes recônditos de Vardzia, no lugar das fronteiras vazias, moram os sons e as cores da contemporaneidade e das caminhadas ao ar livre, montanha acima até à Igreja da Trindade de Gergeti.
E os pastores a cavalo (afinal sempre vi ontem, um pastor a cavalo), desmontam dos cavalos, montam as tendas e transformam o churrasco das suas ovelhas numa experiência imersiva de quem passa, estejam de passagem para a fronteira, venham apenas escalar as montanhas ,” hoje não tenho carne para churrasco mas, se queres, matamos já esta e apontou com o dedo indicador mas ela olhou-me nos olhos com aquele olhar de carneiro mal morto e eu não fui capaz, pensando bem é melhor escolhermos uma ovelha já muito morta” porque aquela ovelha tem olhos claros, como uvas brancas, como vidro e tem um perfil humano, misterioso, indiferente e patego, e havia sede de sangue de ovelha nos olhos claros de Ivan (o pastor bem pode chamar-se Ivan) e parece que milhares de anos de pastores a olhar para as ovelhas e as ovelhas a olharem para os pastores os tornam parecidos
Deixámos o Ivan a falar sozinho e fomos procurar outra tenda, bem longe dali e só parámos quando nos assegurámos que o churrasco era de ovelha congelada, preferencialmente uma carcaça de animal pré-histórico.
Meus Deus quanto tempo o homem deve implorar perdão à ovelha para que ela não nos dirija aquele ar?
E na estrada militar da Geórgia, os viajantes continuam a percorrer o caminho nos dois sentidos, a testar a sua resiliência ao ar rarefeito da altitude e das fronteiras.
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