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quarta-feira, 15 de maio de 2024

Bazargan e o fascínio pelas fronteiras da terra

 


Como manifestação da condescendência divina - provavelmente com intervenção humana de quem nos conduz para longe do dilúvio - chegamos a Tabriz à hora do bazar, do homem que fazia perfumes, do outro que nos dava a provar todo o género de doces de sabores conhecidos, do cheiro a chás e especiarias, o mais antigo bazar da rota da seda, mil anos completos a comprar e a vender tapetes e tudo o resto, uma agitação que já é intemporal e coabita condescendente com todas as dinastias da história e com as diferentes soberanias a que resistiu. 
Enquanto resistíamos à ideia de abandonar o bazar para voltar à estrada, direção fronteira, detivemo-nos junto ao jovem vendedor de sapatos, a primeira loja da rua dos sapatos, licenciado em engenharia mecânica por uma boa universidade iraniana convidado por uma universidade americana para efetuar doutoramento, mas que aguarda o visto que procura obter em viagens recorrentes ao consulado na Arménia, sim, porque o tio Sam não tem morada fixa por aqui. Levanta os braços para o ar e afirma que já não depende de mim e confessa quão triste a política pode ser, "deves ser muito bom para que os americanos te queiram pagar os estudos" e ele sorri tímido e agradecido por alguém lhe dizer o óbvio, do vendedor de sapatos da primeira loja do bazar de Tabriz. 
É curioso como as coisas importantes funcionam para além da retórica e todos os povos utilizam os mesmos critérios de seleção.
E, de alma cheia, regressámos à rota das fronteiras terrestres, uma fantasia juvenil que se alimenta de anarquia e de vontade de superação de barreiras artificiais, um desafio que nos conduz ao triunfo da irreverência sobre a obediência cega dos burocratas empedernidos e da planície de movimentos livres sobre as montanhas da incompreensão que separam os povos deles mesmos e dos seus irmãos, que digam os curdos na fronteira de Bazargan. 
Por tudo isso, e ainda mais a adrenalina pura sem ideologia, atravessar a fronteira de Bazargan a salto foi particularmente desafiante, uma rotunda que determinava o final do caminho com uma cancela que não era o fim do caminho, mas apenas uma porta para uma estrada de dois quilómetros até à fronteira a sério que, só na teoria, se podia fazer a pé e por isso havia um série de espécie de táxis, coordenados pelo único tipo que falava inglês na região, que levava a clientela estrada acima e trazia estrada abaixo. 
Os negócios sucediam-se porque Bazargan é uma fronteira viva, especialmente do lado iraniano, nota-se à distância que os irmãos turcos são tolerantes com a necessidade de comerciar dos vizinhos, provavelmente porque pertencem a um povo tendencialmente comum.
Depois, tudo se decide entre pavilhões prefabricados e corredores impermeáveis, primeiro o funcionário mal encarado do Irão que carimba o visto e não o passaporte, olha nos olhos e finge reconhecer a nossa cara sem digitalização ou qualquer tratamento informatizado, depois finalizado o primeiro corredor, dois polícias iranianos pedem novamente o passaporte e o visto, mas o visto já tinha ficado no anterior e portanto ele vai verificar, para depois confirmar, pede o passaporte e manda-nos avançar para o segundo polícia que, a cinco metros do primeiro, pede novamente o documento para confirmar, abana afirmativamente a cabeça e manda avançar fechando, em seguida, a porta de correr, encerrando impetuosamente a fronteira, resumida a um gradeamento titubeante.
Enquanto me afundo no corredor seguinte, olho de soslaio e confirmo que, nas minhas costas, permanece o retrato do Ayatolah na sua irritante pose sorridente de Estado. 
Duas curvas à frente, envolvemo-nos na bandeira vermelha e no quarto crescente e, para que não restassem dúvidas, enfrentamos de frente a pose solene de Estado e sem sorrisos do sultão Erdogan. 
Do lado ocidental da fronteira, tudo digitalizado, carimbos no passaporte vermelho que, perante o funcionário laico é garantia de que não contrabandeamos mercadorias nem a revolução, e por isso temos um corredor livre que não nos obriga à inspeção física das malas, tratamento exclusivo para os irmãos iranianos, portadores de inúmeros sacos pretos e de corações cheios de alma mercantil.
E enquanto caminhávamos entre poças de água de nacionalidade turca e de tradição curda à procura do nosso transporte para Ocidente, as filas de camiões cruzavam-se connosco em sentido contrário e apitavam generosamente, todos sem exceção, agitando-se dentro das suas cabines, acenando-nos com aquela alegria que só vimos nos olhos do Irão profundo. 
E naquela noite fria e húmida do Curdistão turco, eram os motoristas iranianos que se abanavam ao ritmo das poças e dos buracos, enquanto regressavam a casa, e nos agradeciam termos vindo e nos desejavam uma viagem segura de regresso a casa. 
Não vimos os olhos deles, mas os sorrisos deles brilhavam na escuridão da noite. 
Que Alá esteja convosco, magnifico povo do Irão 




terça-feira, 6 de setembro de 2016

Para lá do rio, só há espanhóis



Sete quilómetros e meio separam Noudar da civilização do alcatrão.
Um castelo que já foi porta estandartes da mais antiga das fronteiras da Europa.
Debruçado sobre o rio e sobre os espanhóis.
Despovoou-se há trezentos anos, até ao abandono.
Extinção voluntária.
Suicídio controlado.
Não havia mais espanhóis para combater e tornou-se num enclave sem identidade suficiente.
Demasiado dentro da imensidão de Castela, demasiado fora do retângulo com o qual nos habituámos a associar a Lusitânia, demasiado longe das rotas que transportam o Norte para a fronteira Sul do Império.



Sete quilómetros e meio de picada, oliveiras, sobreiros e gado indolente.
Uma paisagem em pousio, uma poesia a verde e castanho.
Uma escuridão que cerca o lugar, coberta de um manto de estrelas que se deslumbram com este lugar nenhum.
“ A chave do castelo? Emprestámos ao jardineiro e ainda não o conseguimos encontrar”
Daí a importância da placa artesanal que aponta a entrada.
Silêncio, poeira e calor.

Para lá do rio, afinal já nem há espanhóis.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Bowery 250


A Bowery não é uma grande rua.
Não é alta nem é baixa, apenas corpulenta e descuidada quanto seria afinal de esperar de uma rua que é uma gigantesca linha de fronteiras confusas e identidades sobrepostas.
A sul a frenética e incompreensível terra da China.
A oeste o berço da emigração italiana e irlandesa, agora uma pequena Itália, invadida, quarteirão a quarteirão pela corrente chinesa
A leste vivem os últimos marginais da cidade, que disputam as poucas árvores com uma silenciosa e tímida comunidade japonesa e um jardim onde todas as manhãs anciões chineses (eles outra vez) passeiam pássaros Hua Mei em gaiolas de um orgulho estridente, não fossem estes, pássaros cantadores.
A norte e a leste, a ponte de Williamsburgo, que foi a rota de emigração dos judeus para Brooklyn e ainda a norte a rua de Houston, onde ainda persistem alguns dos bares clandestinos que proliferaram na baixa Manhattan, durante a lei seca.
E há quem garanta que, nos bairros circundantes, viveram os alemães que cruzavam o bairro da carne e serviam os melhores bifes da média maçã. Antes de terem emigrado para Brooklyn à frente dos judeus e saltado para Queens, de braço dado com os irlandeses, outra vez intimidados pela ortodoxia dos judeus da cidade.
De piso esburacado, placas centrais pouco cuidadas e de uma largura desproporcional à altura dos prédios antigos, gastos e atolados de reclamos sem luz e carateres verticais, a Bowery é uma velha feia e com mau feitio.
Não é bela e snob como o Soho, nem suja e vanguardista com a East Village, nem intelectual como a Greenwich Village.
Pronto.
Dá mesmo a impressão que alguém se esqueceu dela.
Mesmo com a chegada do vanguardista New Museum aos 235.
É mesmo preciso ser resistente para suportar a chegada ao 235.
Como alguém marcava na rua, “ainda bem que sou ateu”


Mas o Bowery deve ter algum encanto.
O Instituto de Fotografia Contemporânea instalou-se a vinte e seis de Junho no 250.
Número par, azar dos Távora, é no outro lado da rua, e parecia um canguru a fugir das crateras do meio da rua, infeliz por não haver passadeiras e os semáforos ameaçarem desligar-se a cada passo na direção desta largura oceânica.
Pois, o ICP, é como se chama, despediu-se da mediática e luminosa sexta avenida e desterrou-se junto à muralha da China
E logo com uma exposição que se mantém aberta até a noite cair, chamada de Publico, Privado e Secreto.
Inquietante.
“ A exposição mostra como a contemporânea identidade de cada um é atualmente moldada de forma indelével pela visibilidade pública e pela imagem que nós próprios construímos para disseminação.”
Voyeurismo e vigilância.
Um tipo que se depila em frente a uma webcam, uma blogger que marca encontros fortuitos na Houston Street e os filma com uma micro camara, peepshows virtuais e filmes construídos a partir de camaras de vigilância.
E a cave, ampla e luminosa cave da Bowery 250, a partir das seis da tarde parecia uma antecâmara dos mais secretos e perversos jogos das pessoas comuns.
E entre os corredores sentia-se uma tensão que cheirava a suor.
Assustadora a forma como os (inúmeros) visitantes deste local, oscilavam entre uma profunda intelectualidade de vanguarda e doentia personalidade psicopática.
Bipolaridade ou impressão minha.
Felizmente havia camaras de vigilância em todos os cantos.
Regressados à superfície, a Bowery já parecia mais normal e, porque estávamos exaustos de atravessar tantas fronteiras e descer a tantos buracos, levantámos o braço e estacou, de súbito um táxi amarelo, para variar uma Nissan, desta vez com trejeitos de veículo comercial.
Abrimos a porta e o negro gigante assomou no lugar do condutor, sorriu com uns grandes dentes brancos e gritou com um indisfarçável sotaque francês:
Cab is free.
Mais uma fronteira. Bem-vindo a Port-au-Prince!
Ao nosso lado direito, abriram-se as faixas de aceleração para a ponte de Williamsburg e à nossa frente, enfiado numa cratera gigante jazia um táxi amarelo para gáudio dos transeuntes e ira do nosso haitiano, “como é possível que um taxista caia num buraco, se fossem os outros agora um taxista tem de conhecer os buracos todos”

Ele tinha razão e a marca do táxi afundado era um Ford.


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Lendas do Cabo




O Cabo Espichel é um posto fronteiriço para o mar de ninguém. Por isso, uma fronteira especial, porque não habitam povos de línguas estranhas do lado de lá, resta um mar de lendas, de ondas, de ventos, incerteza portanto.
Inóspito porque garante uma barreira entre o mar indómito e a terra dos homens, local onde construímos os nossos espaços de conforto.
As fronteiras são isso mesmo, locais perenes povoados de fantasmas daqueles que foram incapazes de passar para o aquém
Sombras e planos inclinados são o que melhor define a presença humana neste local!
Porque as lendas são apenas pretextos que não explicam a necessidade de salvação dos Homens



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O descuido de Hércules






Reconheço o meu fetiche aberrante pelas fronteiras.
Posto de controlo de saída, posto de controlo de entrada, homenzinhos muito compenetrados do seu dever de guardiões de uma terra qualquer, uniformes diferentes, línguas que se misturam e, depois de tudo passado, ainda falta a alfândega, os controlos de segurança e, com um pouco de sorte, os cães que nos farejam os pés e uma revista corporal profunda.
Tudo isto, não porque mudamos de mundo geográfico, mas apenas porque os humanos se alimentam de posse, uma espécie de direitos de autor sob propriedade da natureza, da qual nos apropriamos recorrendo a uma bandeira, uma língua e um hino
Daí, homenzinhos compenetrados, portanto!
Portanto quando me aproximo de uma fronteira começo a sentir aquele bichinho que me corrói a espinha, a que muitas vezes chamamos de arrepio!
Descontrolado, uma adrenalina de montanha russa, nos segundos finais da subida que antecede a queda sobre o vazio.
E, muitas vezes, só há vazio depois da fronteira.
E quando aterro num local como Algeciras, a adrenalina passa a ser tão errática que nem me apercebo que há tipos que se atravessam nas estradas para me empurrarem para estacionamentos clandestinos, tão longe do barco, que só podia ser mentira.
Mas Algeciras é uma fronteira de trezentos e sessenta graus (bom, para ser preciso é só de cento e oitenta), com europeus a imporem um hino, uma bandeira e uma língua em África, com africanos a povoar o lado de cá das fronteiras da Europa, uns ilhéus – europeus é certo – a desfraldar uma bandeira, uma moeda, uma língua, um hino e, ainda mais, uma rainha, num rochedo de terra firme na outra ponta da europa, de onde era pressuposto viverem, uma fronteira a sul que é fronteira da natureza – ou de Hércules – porque separa mares e continentes, mas que afinal não é fronteira, apesar de parecer.
Tudo à distância de um só olhar, quer estejamos no pontão do porto de Algeciras, no barco para Ceuta, em cima do rochedo ou na marginal de Ceuta
Uma aberração diz J.
Uma fonte de inspiração, pensa N.
Ceuta é a fronteira africana – começaria por narrar a crónica de N.
O estreito revela a cor azul viva da sua superfície e no fundo do mar, que se comprime entre placas continentais, ficam as falhas tectónicas, provavelmente uma obra de Hércules, que ainda não adivinhava que, interferir com a natureza, teria repercussões geoestratégicas.



Tão inspirado me sentia com o azul do mar, o cinzento da neblina que pairava sobre as montanhas de África e o castanho do rochedo que quase não me apercebi que hoje, o deck superior do ferry para Ceuta ia cheio de polícias e marroquinos clandestinos algemados, prontos para serem recambiados para Sul.
E o marroquino rico, recém regressado de Portugal em férias – Vila Nova de Milfontes, imaginem – cantava as maravilhas de Portugal, paraíso tão diferente do agitado Marrocos onde um telemóvel à vista, significaria perigo de assalto.
- No teu país (fantástico país) não passa nada, é um paraíso – recostava-se a estibordo, olhava o mar, e chupava num cigarro bem enrolado em ervas exóticas.
E em Ceuta, também já houve tempos em que, nós, os portugueses fomos felizes.
Na geografia como na História, as fronteiras são mesmo efémeras!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sagres – A derradeira fronteira


Sempre me habituei a considera-la a fronteira, nas esporádicas peregrinações a este Portugal debruçado sobre o imenso Atlântico
Num país de fronteiras, até o estendal de vendedores ambulantes que vendem tudo o que no país atrai a massa de visitantes sem referências históricas ou culturais do nosso passado, nos remete para o imaginário fronteiriço, quando os países eram ciosos da sua identidade

 


Esta estrada que acaba tão abruptamente quanto a falésia, parece navegar no azul do mar e do céu, nos nossos sonhos e passado glorioso
Muitas vezes é nas memórias que se constrói uma identidade forte e combativa
Aqui, a fronteira é o mundo!

sábado, 20 de novembro de 2010

A fronteira Ocidental do Império – um texto idiota e ABSOLUTamente inverosímil


Pinhão. 07 Agosto (sem ano definido)

39º (à) sombra. Um calor tórrido abate-se sobre o vale, uma irrespirável onda térmica, comprimia os seres, atrevidos ou sem abrigo (turistas?), entre a terra e a espessa nuvem de fumo (prenúncio de fogo invasor) que pairava sobre o rio, que apagava o Sol, e aprisionava a respiração colectiva e ofegante de quem emergia da gare, das sombras do rio e das margens, paradas no tempo, suadas por este Verão insuportável para os Continentais, e para todos!
Nem as águas paradas do rio, permitiam refrescar a imaginária brisa que ousara subir águas acima, mais de cem quilómetros em marcha invertida (lembrei-me logo daquela história dos três rios que combinam, na manhã seguinte partir para o mar – há muito, muito tempo bendita escola primária), o Douro é dorminhoco, acorda tarde e parte em louca corrida entre falésias, sempre acontece aos atrasados.
Nada, naquela tarde, fazia prever um rio assim, nem hoje, nem nunca. Estava plano, reflexo do amarelo das nuvens, do amarelo e verde das encostas, apenas esporadicamente sulcado por um jet ski em piloto automático, dançando, e provocando o rio, que se encolhia ondulando-se, de forma tão preguiçosa que o calor crescia numa intolerável assumpção de poder dominante.
Mas não é um vale qualquer, maravilha da Terra, vinho do Porto, uma bênção do Império!
Yung, (nome do qual se desconhece a origem e o significado) encolhe-se por detrás da portada da sua loja 33.456, região 10, país 49, entreposto 115/49, porque o raio do calor lhe entope a mente e lhe entorna as fontes.
Enquanto os locais se fechavam nas tabernas esquecidas pelo Império (únicos estabelecimentos absolutamente locais sobre os quais não havia instruções centrais nem conhecimento enciclopédico), Yung conformava-se com o seu destino de guerreiro de terracota, enterrado na fronteira do fim do mundo; controlava o comércio local neste pedaço de território, mas não pertencia à elite da pirâmide que controlava, recolhia e exportava o ouro tinto deste vale encantado, uma pérola desabitada mas apreciada além-mar, terra do Sol Nascente.
Vinha longe ainda a azáfama da vindima, único momento em que este desterro se povoava de populações indígenas e de outras regiões ainda mais periféricas, em que os barcos desciam o rio na direcção correcta, em que se sentia parte da grande marcha do progresso.
Entretanto o seu depósito de mercadoria diversa, destinada aos bizarros gostos da população local (mas também aos ilustres turistas à procura de símbolos que comprovassem a sua passagem pelo vale e pelo território), coloriam a rua deserta com bandeiras lusitanas, incrustadas de pagodes, violas de plástico enfeitadas com os emblemas dos clubes de futebol (estranha e imprudente paixão dos autóctones que os fazia ferver e soltar-se perigosamente de uma letargia dominante), galos de Barcelos e Nossas Senhoras de Fátima luminosas e incandescentes, para além de tudo aquilo que os locais poderiam querer e imaginar, e há muito tinham desistido de produzir e vender!
Cinco da tarde, e o imponente mas decrépito comboio a vapor semanal apitava na gare dos azulejos azul lusitano, lançava um rasto de fumo negro sem odor, combatia o calor com o fumo, uma espécie de contra fogo aos incêndios florestais que continuavam a proliferar neste desabitado pedaço de mundo, sem que Yung percebesse porquê nem como!
No varandim traseiro que vislumbrava da ombreira da sua porta, reconhecia a identidade dos novos turistas, silhuetas familiares de quem prosperava no centro do novo mundo e recolhia, em fotografias digitais, as maravilhas naturais e culturais do velho mundo, os troféus conquistados à Antiguidade Ocidental, valiosos no prestígio exibido em regresso a casa.
Bah! Não iriam parar hoje na sua loja, à procura das recordações locais – exasperava Yung
Alguém, a oriente da linha, iria tirar partido do atraso da composição.
Alguém aumentava a probabilidade de uma menção honrosa e de progressão na pirâmide territorial, responsável do entreposto 115/49, quiçá?
Bah! Maldito sejas Yang (nome do qual se desconhece igualmente a origem e o significado).
Na taberna da Gare, os poucos homens que por ali deambulavam em torno de minúsculos recipientes de vidro que exalavam álcool em ondas, vociferavam para um visitante ocasional, sem grande convicção, todavia!

- Nós não estamos no rabo do mundo! Quer uma caixa de alfinetes? Não temos! Segue ao longo da rua e quando vir um tipo feio como … Aí tem. É a loja do Yung!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Atacama – o deserto das estrelas


O céu que cega os sentidos, é a primeira sensação do deserto.
Via Láctea, as Três-Marias…
Os camiões sulcam o deserto que se pressente na escuridão, e pressentem-se as maiores minas de cobre do mundo.
A chegada à cordilheira dos Andes é visível a quilómetros, pelos vultos luminosos que se confundem com as estrelas dos alucinantes monstros do asfalto…
E a distância entre os portos do Pacífico e as grandes metrópoles do interior Atlântico, torneando as cordilheiras, afrontando os cumes dos vulcões extintos
Bolívia, Paraguai, Peru e Argentina, refazendo as áridas rotas de Pedro de Valdívia.
São as novas fronteiras que se cruzam no Atacama!
O deserto em movimento, dominado pelos faróis da estrada e pelas estrelas do céu.
Depois, vem o silêncio; o deserto longe da estrada.
E no fecho da trilogia dos sentidos, o cheiro: a seco, perfumado e (particularidade deste deserto) a vento, 2,200 metros de altitude ventosa e resfriada.

De manhã, nasce um outro deserto.
Quente, vermelho, os vulcões que assomam do cimo das fronteiras, imensidão que se vê, as distâncias que não se entendem.
Tão perto (que parece), tão longe (que é).
Miragem indiscutível
Acordar com o vulcão Licancabur aos pés da cama!
Inactivo, mas com 6,000 metros de imponência, num absoluto contraste ente a terra de cor indecisa e o céu de um azul que não é cor de mortais!
O oásis dilui-se progressivamente no asfalto intermitente, nos muros altos que bordejam as árvores frondosas, os rios subterrâneos, primeiro, substituídos por arbustos, depois por umas penugens secas, tão inóspitas quanto o horizonte, por fim pedras e areia cinzenta.
Oásis, deserto, bosque inacabado, oásis Toconao.
Tudo o que se imagina num oásis: uma igreja – missionários que não se detinham na sua missão evangelizadora, pela ausência de crentes – pó que se entranha na vegetação que ousou nascer, um repositório de todo o lixo que o deserto rejeitou, uma luta que se vislumbra entre a civilização e as forças da natureza.
Um lama no curral e uma cabra que se passeia no banco de jardim, patas atadas por precaução de quem as conhece.





Mas tem gente; brinquedos esquecidos no quintal da senhora de idade, um tear que se prepara para trabalhar e a velhota da loja dos souvenirs, também dona do lama, da cabra e provavelmente das crianças que abandonaram o quintal, em defesa da sobrevivência do negócio.
É um cenário de purgatório geográfico e humano.
Antes do deserto que não tardou a afirmar-se como dono do planalto.


Salar de Atacama: uma imensidão de caprichos da natureza (ou o fascínio pela obra da criação e transformação do mundo), o terceiro maior lago salgado do mundo, o coração do deserto nas alturas, afinal o deserto tem vida
Flamingos, os donos dos pequenos lagos do Salar
A subida para as lagoas altiplanas, faz-se de medo das alturas e de transição de estado…o deserto que se perde nos cumes da cordilheira continental, simplesmente Andes!
4200 metros de altitude, lagoas de azul impossível, que competem com o céu e os vulcões.
Dizem que há alguns milhões de anos, a actividade de todos estes vulcões, correspondia a um terramoto de 40º…
Muita animação nos primórdios do mundo.
E ficaram duas lagoas…o vento assopra-nos os sentidos, um bando de vicunhas desce a encosta até ao lago, para matar a sede, um vulcão extinto de 5900 metros de altura vigia a vida animal do lago, do vale e das encostas sobranceiras.

Afinal, parece que o grande explorador dos interiores inóspitos, Pedro de Valdívia, passou apenas no vale e não conheceu este cenário do nosso mundo.
Pena para ele, e uma sede mortífera para os seus comandados que se perderam e reencontraram nos recantos mais secos deste planalto de Atacama.
Um problema de definição de fronteiras?