Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Bem Hajam


Acordamos nas águas-furtadas do hotel que nos tinha recebido estremunhado, na madrugada quente de Erevan e a luz de verão de uma manhã desprotegida de cortinas, despejou-nos o monte Ararat  pela cabeceira da nossa cama de uma noite demasiado curta para, sequer, sonhar.
Bom presságio, este, o de ter um quadro vivo do símbolo sagrado do povo arménio à nossa cabeceira a primeira imagem de um povo inteiro, logo pela manhã.
Lembramo-nos da chegada chuvosa e solitária do escritor herói russo, Vassili Grosman, no inverno de 1962 (a minha única expetativa literária da isolada Arménia) e percebemos que, por vezes, a realidade pode ser muito mais solarenga do que as crónicas de um velho russo despojado da glória, obrigado a espiar os seus pecados no exilio na mais pequena e remota das republicas soviéticas, empregado como tradutor de um obscuro escritor arménio .
Parece que não há semelhança entre a cinzenta era dos sovietes e os novos tempos de um país que parece acreditar que os trinta e cinco anos de independência são um período de carência suficiente para garantir a independência nacional e a fé cristã.
Mas a manhã da capital acorda-nos cedo para a história turbulenta de um povo cuja terra lhe foge debaixo dos pés, e não tem havido na história deles futuros muito promissores.
No museu do genocídio desfila uma cronologia precisa do exilio de um povo inteiro expulso da sua Arménia ocidental pelo exército otomano do governo dos progressistas jovens turcos, uma crua exposição documental de uma perseguição que se prolongou por décadas e culminou no exilio forçado e premeditada eliminação de mais de um milhão de arménios 
Tudo documentado, incluindo nomes e fotografias de todos os mandantes, e dos outros que preferiram não ver o óbvio porque era uma verdade incomoda para as geoestratégias dominantes.
Um resumo quase visceral de um povo de exílios e de genocídios sempre demasiado permeáveis a alianças complexas numa geografia tão tortuosa, retalhado por otomanos persas e russos, e apenas isolando a história dos últimos séculos.
E como em todos os episódios de loucura humana, o rastilho é a inveja em relação a uma elite cultural e a uma aptidão especial para o sucesso nos negócios e a chama torna se incontrolável com a necessidade de encontrar um bode expiatório para o declínio do império por fraqueza própria 
" É na riqueza humana, em oposição à arrogância nacionalista que reside a única e verdadeira essência da liberdade nacional" terá dito Vassili Grosman, o grande escritor e herói russo caído em prematura desgraça devido (adivinha-se) a um excesso de irreverência. 
Encontramos a Arménia engolida pelos seus últimos salvadores, na casa museu de Sergei Parajanov a quem os soviéticos tiraram a camara de filmar, mas o lançaram numa fúria criadora de vanguarda não conforme.
Nasceu na Ucrânia, viveu dentro das fronteiras do grande império, mas pediu para morrer na Arménia.
Ele sentia-se como um peixe fora de água e desenhava e colava peixes de boca aberta, partilhou os doze episódios da vida da Mona Lisa que a pintura original escondia, como se ela estivesse povoada de mentes ocultas, nada que não estivesse implícito na ultima ceia de jesus, segundo Sergei (ou Quiçá os seus acólitos) uma dicotomia entre a consciência e a riqueza (calculo que no sentido de ganância)
O guardião do subversivo e do não standard acabou por ser o símbolo de todos os povos da suburbana soviética.



Mas, nas ruas, a salvo dos locais de culto da desgraça do destino arménio, Erevan convive sem complexos visíveis com as óbvias influências dos invasores, agora tratadas como heranças. os russos, os persas, os turcos, um perfil de nariz saliente e testas prolongadas, e um nada dissimulado fascínio pela herança europeia que a história deles reclama, o país cristão mais antigo do mundo, uma relação cúmplice com reis medievais católicos, e o irrecusável apelo da liberdade, segurança e do bem-estar que parece emanar do ocidente.
Para quem viveu longos seculos com tao poucos momentos felizes, já não é pouco, como contou o velho Sarkissian na sua história do exilio na Sibéria, esse grande ativista do partido e da revolução que caiu em desgraça por ter sido, anos mais tarde, acusado de ser espião turco e que voltou à sua terra arménia, dezanove anos depois, sem ódio dos homens, grato por ter enriquecido o coração para lá do circulo polar ártico no convívio com os russos simples, por ter apurado a inteligência nas barracas em conversas com cientistas e pensadores russos.
Os arménios parecem encarar o seu passado como uma experiência de vida e, por isso mesmo, não o querem repetir.
No fim da tarde, nas escadarias da Cascade em plena hora dourada a realçar a herança sagrada do monte Ararat, não há vestígios de passado nenhum, nos adoradores dos reflexos do por do sol sobre Yerevan.