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domingo, 23 de junho de 2024

Os novos filhos da Casa Real

 


Na Calle da Cava Baja, a multidão acotovela-se junto à porta da taberna dos castiços, agora que o Sol desapareceu por completo dos céus de Madrid.
Há uma espécie de herança árabe nesta procissão de fé, a forma como os madrilenos festejam, todos os dias a chegada da noite e a libertação da autoridade do rei Sol, como se vivessem uma vida inteira em sacrifício de fé pelo Ramadão.
Pura ilusão!
Não há fé que se sobreponha à vontade de Madrid tapear nas ruas da cidade, agrupando-se por interesses comuns ou outras afinidades junto às portas do lazer, olhando para dentro onde se come e bebe, vivendo de fora onde tudo o resto acontece.
E até por isso, a ideia de herança árabe desvanece-se, porque não existe no mundo muçulmano de hoje,  tolerância para a indolência com que o clima e a paisagem temperam a personalidade de todos os povos que circundam as margens do mediterrâneo.
Mesmo que os sons do flamengo que ligam todos os bares da rua da cova baixa sejam, em cada nota, um apelo à mística do deserto e dos povos nómadas e, por indução, à memória dos povos árabes. 
O nome da taberna é sugestivo, mas não reflete a frequência eclética, sim é verdade que quase todos falam espanhol, mas há vestígios do império em todas as conversas, em todas as esquinas, sempre que as vozes se sobrepõem aos ruídos da cidade.
O império das Americas que se estilhacou em dezenas de formas de entoar a língua mãe e dezenas de países que, a partir de um colonizador (e também de um libertador) único se desventraram em dois séculos de múltiplas vivências turbulentas.
E eles não se escondem nas ruas de Madrid, é são cada vez mais numerosos na movida que venera o manto de escuridão que dá voz ao novo mundo. 
Uma Espanha cada vez mais diferente, portanto! 
E, na Calle da Cava Baja, uma espécie de entranhas da perdição ou de profundezas do inferno onde a gula e o álcool explicam a maior parte deste ruidoso convívio entre a comunidade hispanica. 
Por isso mesmo, a única herança mocarabe de Madrid que sobrevive ao tempo, à proximidade geográfica, a uma antiguidade comum e a uma longa ocupação da península, são os acordes de um flamengo de sons tribais, uma união em torno do mediterrânico com supremacia árabe e muçulmana. 
Sobre esta inconfundível herança, os nossos irmãos preferem acolher os que colonizaram, na longínqua américa, do que partilhar a memória nas vizinhanças do mar interior, em que foram subdidos do califato. 
Mas o som da música tribal que, decididamente vem do Sul, tem momentos em que abafa as vozes do presente e interrompe este burburinho latino. 
Nas paredes do Cava 67 (como poderia ser de qualquer outro bar de mesas e bancos altos, nesta ou em qualquer outra das ruas da capital) um cubano de nacionalidade indiscutível mas que foi condenado ao anonimato pelo dono do bar, parafraseia Dom Quixote "como não és experiente nas coisas do mundo, todas as coisas que têm alguma dificuldade, parecem-te impossíveis. Confia que o tempo sabe dar doces saídas a muito amargas dificuldades" 
Inquietudes (que revelam um desejo maior do que uma certeza) de Cervantes com as suas mais remotas origens , ou com as origens da remota mestiçagem americana? 
Ou apenas moinhos de vento nas planícies de Castela? 
Nada que os  faça arrefecer a sua vontade de serem perfilhados como os novos filhos da casa real!



segunda-feira, 17 de junho de 2024

As vozes da cidade

 


É o teu olhar, a forma como tu encriptas os enigmas da cidade, envolvendo-os em camadas de significados múltiplos. 
Close up focado na primeira linha do horizonte dos elementos congelados pelo tempo, uma flor de cores berrantes, um retrato, um cartaz ou um anúncio de momentos que já passaram ou mensagens que deviam desafiar a vontade eterna, nalgumas outras geografias, especiarias ou legumes com nomes e sabores que não nos lembram nada. 
E todos os movimentos dos restantes horizontes, desfocados como se, na fluidez do movimento, os pormenores e as linhas do rosto dos que não conseguimos tocar, fossem supérfluos para a história que consigo contar. 
Os primeiros planos de Madrid colam se nos postes, nos sinais de trânsito, nas luzes de iluminação pública, e revelam-nos angústia, desespero, grito de revolta, de alerta ou de vitória, porque não há padrão nas vozes de madrid
As mensagens escritas não permitem distinguir a entoação ou a intensidade e muitas vezes são vozes sem dono, uma geração espontânea de anarquia, por impulso. 
Não há padrão nas vozes de Madrid, apenas impulso, seja uma mensagem publicitária sem plano nem estudo de mercado, lugares de parqueamento para partilhar, o último espetáculo de flamengo de um artista obscuro, um show erótico numa cave estigmatizada de um bairro menos recomendável, seja um grito de protesto contra a violência sobre os animais, sejam de companhia, sejam de aviário. 
Mas respira-se uma liberdade sem fantasmas nos pilares da centralidade ibérica, mesmo que a multidão esteja demasiado atarefada para compreender as vozes da cidade.
Sempre com equilíbrio de brancos quente, como se não houvesse nunca Sol no nosso universo



domingo, 9 de junho de 2024

Memórias reinventadas da Gran Via

 


Madrid é a única capital do mundo das nossas fronteiras, para a qual podemos partir e chegar por terra sem que o sol nasça e se ponha na mesma viagem. 
Já era assim na minha infância das fronteiras, daquelas que já não conseguimos explicar aos nossos filhos.
Acordávamos com o nascer do sol, corríamos pela estrada nacional fora para sermos os primeiros na fila que dava sempre acesso à Extremadura deles, nunca nada nos impediu, não havia razão para impedir, então se era sempre garantido que ias passar então porque é que havia fronteira, pai, afinal já nem me lembro como era ter o teu nome de criança no passaporte dos meus pais. 
E chegávamos sempre antes do sol desaparecer, era garantido que desceríamos a Gran Via a partir da praça de Espanha, décadas antes da cidade afundar os seus acessos nos túneis da escuridão e do progresso, sem ordem prévia, autoestradas onde haviam antes filas de fronteira e rituais de travessia e os  túneis à hora de almoço, onde antes persistiam os caóticos fins de tarde do trânsito da metrópole da ibéria, o primeiro lugar a partir da nossa  fronteira que cheirava verdadeiramente a cidade grande. 
No resto, a mesma realidade de sempre, estamos destinados a fazer de Madrid a nossa porta para as realidades paralelas que o mundo dos outros nos oferece ou, conforme estávamos habituados a acreditar, nos ensina. 
Uma espécie de antecâmara do resto do mundo, e não é uma demonstração de subserviência aos Bourbons ou de inferioridade em relação à dimensão, é apenas uma inevitabilidade geográfica.
E, por ser assim uma espécie de vizinho truculento, com uma arrogância proporcional ao tamanho do seu quintal, parecido no temperamento, muito diferente na forma e no desprezo com que lida com o individual e com os pormenores ( afinal de contas, serviço ao cliente e pequenas séries nunca foram o seu forte) nós consideramo-nos no direito de chegar sem avisar, não descalçar os sapatos à entrada e revelar uma absoluta ignorância pelos pormenores da História deles, pelo menos das partes em que não surgem como vilões nos compêndios de história da escola primária. 
E acreditamos que seremos sempre perdoados, se tapearmos sem pudor ao som de um qualquer flamengo com sabor a presunto. 
Por isso viajar para Madrid com um detalhado programa de visitas culturais ao âmago da essência castelhana, espanhola e continental é quase um refrescante reconhecimento tácito da liberdade deles poderem existir, porque havemos nós de reconhecer a importância da realeza espanhola, se eles desdenham o nosso afã republicano, mesmo que nas origens, sejamos todos primos, como resultado de séculos de casamentos reais de conveniência. 
Mas hoje decidimos viver Madrid como se ela não fosse o purgatório do mundo. 
Por isso decidimos aceitar que Madrid também é mundo com vontade própria. 
Afinal de contas, todos os preconceitos se diluem no tempo. 
Como os ressentimentos, aliás.
E as minhas memórias de Espanha são já antigas e temperadas pela diversidade do resto do mundo. 
Por isso, naquela tarde de feriado português, recém-regressados do planalto de Castela, e depois de um reconfortante repasto revestido de tortilha e regado de cerveja local, porque não são só as flores que precisam e carinho e água, estávamos prontos para um regresso ao século passado e às memórias de Espanha e, agora que reabilitámos Espanha e lhe apagámos o rótulo de apeadeiro da Europa. 
O pintor Chagall é um alienígena nestas disputas ibéricas, russo e judeu, francês por afinidade e alemão de inspiração e uma mente permanentemente exilada, foi um mau século para nascer judeu russo e viver na Alemanha, “non son tiempos proféticos", claro que esta poderia ter sido apenas uma interpretação do curador do museu da Fundação Mapfre, um Mecenas profissional que têm, pelos vistos, uma opinião contundente sobre as misérias do mundo. 
Mas não, a frase é um desabafo do artista que, em 1925 escrevia numa carta que teria hoje, sido viral “o tempo não é profético, reina o mal” 
“A exposição apresenta a obra do artista à luz dos acontecimentos históricos de que este foi testemunha, convertendo-se assim na primeira leitura completa da obra desde a perspetiva da sua tomada de posição e do seu compromisso sociopolítico de cariz humanista”
E, sem preparação prévia, depois de trinta e cinco minutos a caminhar pela Castellana acima, entrámos no século dos profetas torturados e no grito de liberdade que abafou as almas mortas nos conflitos sangrentos que o fustigaram, muito mais do que um título de uma obra do seu compatriota Gogol que, nos anos vinte, Chagall tinha ilustrado.
Nos salas dos pisos superiores da Fundação do Mecenas com gosto e opinião definida, valoriza-se o contraditório, nas cores explosivas de Chagall que retratam o exilio e o sofrimento da primeira metade do século vinte enquanto nos pisos inferiores impera o preto e branco das fotografias de  Christer Strömholm, um fotógrafo e educador sueco que não necessitou da cor para espalhar a esperança do renascimento humanista na segunda metade do século, a Europa voltou a ter tempo para a intimidade e para a diversidade, e nem a escala de cinzentos que povoa os universos de Strömholm, limita a sua sensibilidade perante o sofrimento humano.
(De novo regressados à rua e às cores vivas do presente)
Enquanto a nossa revolução fazia cinquenta anos do outro lado da fronteira, e só havia cravos vermelhos nas ruas da capital, a Madrid trabalhadora alvoraçava-se com a proximidade do fim da tarde nos bairros a norte de Praça Cólon, um bairro que não discriminava nem as bolas de pelo, por vezes confundidos com cães de companhia que farejavam as esquinas e puxavam os reformados de volta para as recordações de quando deixaram marca no mundo, nem os executivos de hoje, em dia de formação, que se desfaziam em convívios corporativos à porta das torres de vidro, enquanto não transbordavam os bares da movida espanhola, sim a norte da praça Colon, não vivia a Madrid monumental, coabitavam as avenidas amplas de linhas direitas de quem entende os números dos banqueiros privados com os quarteirões de um discreto bom gosto, uma grisalha classe média que, tal como os banqueiros, preferia a descrição à notoriedade das ruas do Bairro de Salamanca.  
Aceitar que Madrid é um mundo com vontade própria, no âmago da essência castelhana pode ser cansativo, não que a diversidade seja cansativa, mas pode ser vertiginosa.
Na casa museu do pintor espanhol Joaquim Sorolla, somos subitamente sugados para o passado, como se o jardim plantado de árvores com história e cercado de uma modernidade construída retirasse o dramatismo e os sons do presente, e nos preparasse para o universo deste pintor que se realizava com a representação da vida quotidiana da Espanha dos fins do século dezanove e da generalidade do séculocvvinte, capturando a luminosidade, as cores e a atmosfera do Sol nas áreas costeiras do país e das pessoas que irradiavam felicidade pelo mundo ser apenas simples e tranquilo.
Retratos de uma Espanha superficial, quase folclórica e etnográfica, que se satisfaz sendo meramente descritiva e contemplativa.
Não há uma única perspetiva de classificar a arte, ou nem toda a arte tem de querer mudar o mundo ou experienciar o sofrimento, a ideologia ou, sequer, opinião.

Mas esta aparente felicidade ao Sol de Sorolla, apátrida relativamente à ideologia, foi também um elixir para o nacionalismo autocrático que imergiu do sangue de um povo inteiro, quiçá demasiada luz junto ao mar para tanta escuridão nas vastas planícies do interior.
A diversidade talvez não canse, mas hoje percorremos milhares de milhas e dezenas de anos ao longo do imaginário europeu, e a nossa alma apenas serenou em frente às prateleiras dos grandes armazéns da Gran Via, noite adentro sem previsão de encerramento e as multidões que se acotovelam, indiferentes à escuridão que caía lá fora e, novamente à mesa, rodeados de uma multidão ruidosa e de uma gastronomia exuberante.




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Catedrais inacabadas



Houve um tempo em que a Península respirava a diversidade própria das encruzilhadas de grandes civilizações, das placas tectónicas que permitiram a gestação e crescimento dos alicerces da História do Mediterrâneo.  
A diversidade alimentava-se da incerteza, da equivalência de poderes, das origens comuns, das permanências seculares e da grande terra que a todos albergava.
Construíam-se muralhas e aldeamentos fortificados, montavam-se e desmontavam-se acampamentos, como se ninguém tivesse ainda a certeza de quais eram os seus territórios, por inerência
Extremadura teve o seu momento de centralidade na disputa que foi a reconquista cristã.
(Ou na conquista islâmica)
(Ou na colonização romana)
Difícil de entender quem eram os inimigos, se os Almohades se os reinos cristãos vizinhos
Impossível era perceber quem eram os nativos e quem eram os invasores, quais as influências dominantes, o que era absorvido, adaptado ou motivo de guerra.
Afinal de contas a narrativa histórica só encontra buracos negros no período dos Visigodos.
Leão e Castela, e esporadicamente o Condado Portucalense, o poder do Califado e aqueles que nunca foram poder reinante, mas que sempre registam presença como a terceira alternativa nas disputas entre cristãos e os muçulmanos.
Os judeus, claro.
“Afinal de contas eram todos primos” – conclui o historiador castelhano
A Península nunca nesse tempo fora inquestionavelmente cristã, transpirava mestiçagem e comuns sentimentos de pertença.
E de partilha de conhecimento e de experiências diversas, desde Fez até à Extremadura
O XII ainda foi um século de Renascimento nas fronteiras do Mediterrâneo.
Entre o adormecimento das velhas dinastias Berberes e a irreverência dos jovens reinos cristãos  
Com a limpeza étnica e a estabilização dos territórios, a Extremadura passou a viver das memórias
E a exportar insaciáveis conquistadores barbudos que fugiam do marasmo e da monotonia para o indefeso Além-Mar

Do triunfo dos elementos e das purgas dos reis católicos



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Não passa nada!




Visitar os grandes planaltos é um exercício de absorção da substância, uma massa de imensidão que avança na nossa direção e nos reduz a soberba à dimensão da vulnerabilidade humana.
É adormecer sob um manto de estrelas cadentes depois de um carrocel de sombras cavadas nos vales profundos do Tejo Internacional e acordar com os cheiros da terra, descer para a raia, conduzido por fileiras de árvores que nos indicam o caminho e nos impelem a prosseguir, mesmo sabendo que avançamos em direção à nossa insignificância perante os elementos.
A Nordeste de Castelo Branco, abre-se uma nova perspetiva de espaços sobrevoados por bandos de aves que encenam formações ordenadas em direção ao sul, sombras desenhadas no azul que contrasta com a terra castanha e os cumes nevados da Estrela a Ocidente e da Serra das Gatas a Oriente, Extremadura adentro.
Não há, pois, fronteiras nem autoestradas incompletas que quebrem a indolência do ar que se respira, um sopro de vento frio que corre mais devagar a lembrar-nos que o tempo é uma invenção recente e, muitas vezes, redundante.
Indiferentes à nossa passagem, pastam os animais sem vontade de correr nem receio dos ventos gelados de Norte que empurram o frio porque, a Nordeste de Castelo Branco é a terra quem manda, por persistência dos locais ou pelo esquecimento dos conquistadores que, há muitos séculos, daqui debandaram à procura de emoções fortes e de desnecessárias demandas.
Permanece a certeza de que as cidades são apenas meras concessões da natureza ou do mundo rural, confinadas entre os montes que pontuam os recortes do horizonte, como se a imensidão da terra lhe permitisse algumas concessões à espécie humana.
As amplas visões não reduzem as distâncias do espaço físico, mas aproximam os seres que gastam a sua liberdade e a sua ausência de compromissos picando entre dois copos, conversando entre muitos amigos.
- Se queres almoçar, é na Mirabel, muito espaço e sem pressa, o António é o proprietário e o meu nome é Francisco - e despede-se com um aperto de mão cristão e barbudo
É desta forma que a cordialidade humana se despede dos hóspedes do mundo atual.

Afinal de contas não passa nada!


sexta-feira, 10 de março de 2017

Gipsy Kings




A estrada para o Sul é imensa, tanto quanto a paisagem de uma planície inatingível.
Caminhamos pela Estremadura abaixo e os sinais dos humanos são permanentes, apesar de predominar o deserto.
Não se vislumbra vivalma nos campos castanhos, esporadicamente verdes e sempre, quase sempre, de um dourado que sobrevive ao inverno e se confunde com o braseiro que se antecipa no verão.
Mas a paisagem nunca deixa de ter o toque do homem, de um personagem escondido que troca a mecanização da agricultura pensada para a indústria por uma sesta preventiva nas tardes de Sábado.
Eles não se vêm, mas sente-se que estão lá, como a enganadora sugestão de que um xerez antes de almoço não provoca a inibição nem sobressaltos na estrada, porque ao Sábado não há polícia que trabalhe.
Mais um engano, a estremadura profunda, a caminho de Córdova, é pasto de autoridades fardadas que se infiltram na numa fila contínua de automóveis esporádicos.
A Espanha profunda é uma arte de magia negra, anunciada pelos touros miúra que fazem as vezes do espantalho rural e que descansam os locais da intrusão alheia, enquanto estes vivem nas ruas das cidades, das aldeias e dos lugarejos, como se as suas próprias casas fossem prisões medievais de alta segurança.
Apenas as famílias ciganas vivem numa espécie de campo que antecede as cidades, mas nem estes se aventuram demasiado pela planície adentro, nas mulas velhas e nas tendas encardidas, porque, sabe-se lá porquê, as terras são dos homens mas não são para os homens.
Exatamente ao quilómetro noventa e oito – a metade do caminho é a metade e a aritmética é uma métrica perfeita para a constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer – saímos do filme que corre em contramão para trás do nosso caminho, um quadro de cores esbatidas e quentes, rodeadas de molduras de um branco espesso pintado num céu de meia estação e tempestades esporádicas e desligámos por momentos o motor das sensações de embalo.
Do outro lado da estrada, espreita o miúra em pose de letargia, própria de um bicho solitário de cartão, incapaz de ser o protagonista das estradas do Sul.
Na berma do caminho, longe do alcance da fera, descansava uma fonte andaluza que libertava água como quem sua, em pingos grossos mas aleatórios, tão descentrada do petulante jardim sem folhas, que apenas podia ter sido construída sem aritmética nem fita métrica.
Por detrás da fonte sem aspirações, residia um hostal de portadas encerradas, numa lembrança furtiva de um qualquer cenário construído nas planícies da Andaluzia, para produzir filmes de cowboys.
De mãos dadas com o fantasma, a bodega fervilhava de movimento, como se toda a amplitude da paisagem andaluza tivesse sido, através de um grande funil chamado civilização, despejada naquela gigantesca mercearia de presuntos pendurados, pernis de ossos eloquentes espalhados pelos pratos, recuerdos de gosto sensível e caramelos descendentes que emolduravam uma comunidade de figurantes rurais
Cá fora, sentadas na esplanada do país da planície, elas permaneciam incólumes às distrações diversas e, tal como todas as protagonistas dos filmes negros das décadas passadas do século vinte, fumavam, maços de tabaco vermelho espalhados pela mesa, que apelava à hora da coca-cola, unhas de um vermelho ofuscante, cabelos muito pretos que acariciavam os lábios vermelhos e as mãos compridas, vestidas de preto do pescoço às ancas, da cintura ao tornozelo, estes exemplares superiores de uma representação viva da teoria da evolução.
(Instantânea como a abertura de uma porta)
Vermelho e preto, não estivéssemos nós na terra dos toureiros
Perante um atrevimento tímido de um forasteiro que vive do ar do mar, esbofetearam com os olhos um trejeito desdenhoso e levantaram-se com uma languidez predestinada de quem nasce composta.
As duas.
As pernas alcançavam a berma da estrada e as saias tão largas quanto curtas não permitiam destrinçar os diversos tons de preto, apenas as formas.
Viraram as costas e os seus blusões negros identificavam-nas em letras brancas.
Polícia.
E até a empenada e entupida fonte se centrou no jardim das folhas mortas.
Agora entendemos porque a fera miúra se mantinha à distância e temerosa. Como aliás toda uma multidão que se havia refugiado dentro da bodega.
Como se as protagonistas tivessem secado o local.
E nós não duvidámos um bocadinho que fossem agentes de uma autoridade suprema.
Até a criança nos lembrar que hoje era Sábado de carnaval.
Mas nunca se sabe.
Afinal de contas a Espanha profunda é pura arte de magia negra.

Heranças.

domingo, 5 de março de 2017

Dona Gema se hay enamorado del Sultan



O nome dela é Gema, Dona Gema
Capturada pelas tropas do Sultão, adormecida pela solidão da berma do caminho, Gema foi, segundo alguns cronistas, o princípio do fim da soberania indiscutível do velho guerreiro.
Seriam os seus olhos, os cabelos que lhe escorriam pelos ombros ou antes a sua fragilidade cristã desprovida de ambição, que enfeitiçaram as barbas brancas e a longa idade do Sultão, isso, ninguém sabe.
Ou ninguém, alguma vez ousou questionar.
Exceto o velho sábio, provindo dos confins do Egito que, conhecedor de todas as ciências ocultas, particularmente a magia, assegurou que, se o talismã indicava perigo é porque esta mulher é uma feiticeira que usa as suas formas sedutoras para enganar os incautos.
Mas o guerreiro que aspirava a paz celestial nos famosos jardins do Irão, só tinha ouvidos para o silêncio da princesa cativa e da sua lira de prata pendurada sobre o seu generoso decote.


Gema reuniu uma corte de admiradores eventuais à porta do Palácio e contou-nos a sua história, a do velho sábio que se propôs construir um jardim mais grandioso que o do Irão, tão extraordinário e inexpugnável que ninguém, do lado de fora, o poderia ver.
A princesa católica iria escrever a história num tempo futuro, a do astrólogo mágico que haveria de conceber este palácio rodeado de fortalezas inexpugnáveis e com jardins interiores, ricos e luxuriantes.
Invisível aos olhos dos mortais, protegidos por uma chave e por uma mão, poderosos talismãs carregados de uma magia oriunda dos confins do Egito

Mas a princesa católica tinha o dom de enfeitiçar os homens, porque enfraqueceu o coração e as defesas do velho sultão e deixou-se raptar pelo astrólogo para o enfeitiçar, nos confins da sua caverna, até à eternidade.
O Sultão morreu acossado pelos inimigos e os habitantes locais não encontraram nunca, nesta colina, nada mais que um terreno ermo e escabroso.
Até ao dia do Juízo Final ou quando a mão que segura a chave desfaça o encantamento que foi lançado sobre esta colina.


Gema mantem uma versão diferente da construção do palácio, a história de Alhamar o fundador do Alhambra, numa época em que o grande Califado se confinava à exígua Granada, longe vão os tempos do esplendor expansionista da grande nação moura.
Terá sido o último dos sultões unificadores do que restava do Império, mas o primeiro que rendeu vassalagem ao Rei Fernando
E construiu o Alhambra, uma fortaleza vista de fora, um retiro construído para dentro, para deleite e segurança de mais duzentos e cinquenta anos de presença árabe na península.

Gema, a princesa católica sem nome registado,

Gema, a guia intérprete do Palácio de Alhambra.

E ela, a nova Gema, calou-se e eu finalmente percebi o encantamento do Sultão lendário, ou de Alhamar, o fundador do Alhambra por esta colina.

O fascínio do silêncio, das águas límpidas que parecem nascer de todos os aposentos e jardins deste magnífico lugar, da floresta verdejante e dos tons alaranjados que submergem a paisagem, por onde quer que poisemos o nosso olhar


E os gatos sonolentos que se enroscam ao longo da porta da Justiça, que são os espíritos do velho astrólogo que imaginou este lugar, antes mesmo de se tornar visível aos mortais.
A sedução de uma lenda reside, afinal de contas, na insignificância dos detalhes históricos.
Para Carlos V, o novo conquistador católico, tristes aqueles que perderam tudo isto, para o último Sultão, a vergonha da retirada sem resistência, em 1492, e a humilhação da mãe que lhe terá acusado de se ter comportado como uma mulher na defesa do que lhes pertencia

O resto é História


sábado, 4 de março de 2017

Confluências


A mesquita de Córdoba é um lugar de confluências
(pressuposto)

E é o que transparece do silêncio filtrado pelas luzes ténues que se infiltram nos vitrais das capelas e da nave central convertida aos reis católicos, e que conferem aos arcos mouriscos uma tonalidade indefinida, entre o laranja exuberante e o rosa subtil



É uma ideia sedutora, porém um circuito de sinuosas traições e de alianças imprevistas.
Caminhando em círculos, perdemos a noção da cronologia dos factos porque o que prevalece é a perspetiva presente, diluída pelos retoques da História.
É um sinónimo de diálogo implícito, porém à espreita de um elo mais fraco que condene.

A nave central constitui uma intromissão de luz no orgulho do califado, como que uma vontade explicita de submeter conjunto original a uma nova ordem triunfal
(não é tanto assim, porque afinal de contas na sua génese esteve uma capela visigoda)



São moiras de cabelos soltos, e uma tez escura com sotaques de mestiçagem e, neste domínio não há submissão, apenas genética.

Os sons de flamengo que sobrevoam a atmosfera exterior confluem em uníssono para a praça central impregnando as ruelas da judiaria.
(Também eles, judeus, crentes do mesmo Deus)

Confluência e paixão pela proximidade, que representam o nascimento de uma nova espécie de Homem.
Apesar de a confluência ser, para já, um estado efémero.
(as sucessivas e massivas conversões forçadas constituem todos os epílogos da História, uma significância estatística)
E a única certeza é a de que, enquanto houver história, estaremos sempre em suspenso quanto ao final.
Haverá sempre Sultões que se apaixonam por princesas cristãs em cativeiro e seres que se recusam a demolir o belo, por amor à arte
(sorrisos)

E, quando pela primeira vez hoje de manhã me apodero da palavra certeza, porque na direção do meu olhar está indiscutivelmente Meca (é histórico, porque está referenciado, é geográfico porque está comprovado), este miradouro da cidade santa do Islão é invadido por dezenas de japoneses que a fotografam sem pudor e registam que, no confronto das culturas, há sempre uma terceira via: a da tecnologia em bruto e do sorriso infantil e deslumbrado pelo registo de imagens.


Ou na esperança de, um dia, se descobrir um Homem novo.


segunda-feira, 23 de março de 2015

Torremejia, a meia hora do faroeste


Finalmente a planície, até que enfim que as nuvens se tornam naquele cinzento esbranquiçado que transparece inocência.

Finalmente as nuvens inofensivas que aceleram o rolar no asfalto e entorpecem os reflexos.

É plana, é rural, uma perspetiva sem fim, apenas levemente emoldurada por montanhas que se confundem com os reflexos de uma claridade que cega, e que vem do céu, dos campos de cereais, dos silos amarelos, como que a querer perpetuar o Verão.

Se não fosse a planície, o Sol e a súbita vontade de dormir uma sesta, nunca Torremejia se intrometeria no meu mapa, no meu ângulo reto que me preparava para desenhar, ali para os lados de Mérida.

E, sem vontade de parar, tal era o entorpecimento pela luz da planície, entrei no deserto da vila, Domingo à tarde fora.

Na rua, na estrada, na N 630 ou na rua da estremadura, conforme fosse a nossa distância do estatuto de forasteiro, predominava a vivalma, que não era um estado de alma, mas uma realidade terrena.

Triste a solidão da Extremadura província.

Numa espécie de esplanada que disputava a berma poeirenta da estrada ou da rua com meia dúzia de automóveis igualmente poeirentos, sentavam-se os exemplares do vanguardismo da terra, a sua juventude portanto.
Eram quatro, pareciam igualmente distribuídos entre sexos, cabelos compridos, algumas com madeixas espetadas, talvez piercing no nariz. Talvez, não tenho a certeza. E fumavam, disso tenho a certeza.
Levantaram as cabeças e só saíram olhares de desdenho.
Dentro do café, a penumbra estendia-se da janela até ao balcão e os residentes tornavam-se mais velhos, mais curiosos mas igualmente pouco interessados. Afinal de contas, estava de passagem, era apenas um inseto nervoso a fugir da chuva que vinha de sul.
Por detrás do balcão esperava-me um barrigudo de meia-idade, de camisa branca e gravata vermelha, apertada com rigor e sem suor. Limpou o balcão de madeira com um pano mais escuro que a camisa e agarrou-se freneticamente à máquina do café. Sem grandes palavras. Apenas o suficiente. Também é assim que se quer um barman. Uma solenidade de quem sabe que não tem outro lugar senão aquele.
Nas paredes por detrás do bar, estava pendurada a história de Torremejia; uma telefonia de válvulas arrumada numa prateleira do lado direito do balcão, que partilhava com uns quantos despertadores e umas jarras de porcelana florida e gasta,
Atrás da grande máquina de café, um modelo clássico merecedor da estrada 66, penduravam-se utensílios da terra, jurei ver um arado, que vinha do teto até às chávenas de verdadeiro expresso, molduras com fotos de homens barbudos, algures nos inícios do século passado, gente solene, molduras muito pretas, formato que me despertou para as touradas, em versão de festa brava espanhola. Estremadura, portanto.
Do lado esquerdo do balcão, mais escuro, mais longe, mais sombrio e mais só, uma enorme máquina de escrever preta, teclas pretas e um enorme cilindro, insistia em dar um toque de modernidade ao lugar, enfim mais trinta anos que as molduras e os arados, muito mais antiga que a cromada máquina do café
O homem não tinha bigode, a casa de banho estava inundava entre o cheiro de lixívia, a tampa partida e água do autoclismo que não parava de cair e o secador que despejava ar frio.
No corredor de saída um casal, sim um homem e uma mulher de feições orientais – definitivamente chineses – arfavam concentradíssimos para uma slot machine eletrónica que lhes comia as moedas ininterruptamente, cada vez mais concentrados e tensos, como se não houvesse amanhã, e pareciam personagens de banda desenhada introduzidas por um qualquer realizador alternativo no centro de um filme a preto e branco em que os atores principais, nem sequer davam pela sua presença
Lancei uma moeda para cima do balcão e virei as costas, pontapeando a porta com a biqueira da bota direita.
No meio do asfalto, de pernas abertas e arma fora do coldre, disparei, soprei para a objetiva e montei-me, sem olhar, no meu automóvel, com a certeza que tinha atingido o alvo, e arranquei velozmente, pradaria fora, cobrindo de pó os rufias de Torremejia

THE END


sábado, 14 de março de 2015

Gran Via



É inevitável.
Sempre que subo a Gran Via, vindo do Callao começam a desfilar na minha memória, lembranças adolescentes dos passeios em família a Madrid.
Inevitável porque era o acontecimento da nossa adolescência, o passeio de carnaval de automóveis em fila (eram pelo menos dois automóveis), saída de madrugada, o pequeno-almoço em Montemor que servia de reunião de família, os primos todos, o tio que conduzia pelo meio da estrada, antes e depois da fronteira, a longa fila de fronteira, para cá de Badajoz, formulários à saída, algum desplante espanhol à entrada, as casinhas alentejanas, tão brancas quanto postos de fronteira do lado cá, edifícios de vidros espelhados na Espanha em busca da modernidade, o almoço na pousada de Oropesa, o cheiro a deserto europeu na longa planície, ou no inóspito planalto, antes da grande cidade, verdadeiramente a única grande cidade que conhecemos durante anos.
A chegada de noite fria (era sempre Carnaval) à praça de Espanha, a curva para entrar na Gran Via, rua acima o deslumbre dos saloios pelo néon espanhol dos edifícios da avenida (era uma luz especial, diferente da dos filmes americanos, mas o mais próximo que conhecíamos de uma grande urbe) nariz esborrachado nos vidros laterais das nossas cascas de noz mas que, apesar de tudo, se distinguiam entre um enorme rebanho de SEAT (Espanha, país de uma industria de mercado interno).


Depois a chegada desordenada ao hotel Gran Via, no coração da urbe, na esquina da Calle Montera, a difícil operação de estacionar os automóveis nos minúsculos parques de estacionamento das ruas que circundavam a grande rua, o jantar no self-service, o cheiro a metropolitano, e hoje, dei por mim outra vez a olhar para dentro do Hotel Trypp (que é como ele se chama hoje) à procura do self-service, que agora se chama Berska, ou do café de esquina que hoje se chama Mc´Donalds e estava lá tudo, a recolha dos talheres, as mesas embutidas com uma cobertura de um plástico que parecia madeira, mas não era, porque em Espanha tudo tinha de ser massificado, funcional e pouco refinado, e uma tremenda excitação de todos nós, os putos, porque estávamos no estrangeiro, tínhamos feito uma grande viagem e cheirava a cidade.


Pronto, e acabei por me lembrar que já passou quase uma geração, e que já não somos os mesmos, os que chegaram e os que partiram e que nós próprios, já vivemos uma vida sempre a voar, sempre cheios de pressa para qualquer lugar, tão esquecida que estava aquela época dos rituais em que os momento eram espaçados e vividos com memória.
Em poucos lugares vejo o meu passado de puto de forma tão cristalina, tão real, tão como se fosse ontem.
Mas acontece sempre que subo a Gran Via do Callao para a Calle Montera.
Quarenta anos depois, o meu puto liga-me (passeava eu na Gran Via outra vez) a dizer-me que vai emigrar, para Madrid talvez, para Londres se calhar e achei “força puto” mas com a súbita consciência de o quarto do puto está cada vez mais vazio.


A subir do Callao para a Montera.
Hoje, sexta-feira dia 13, e enganei-me na reserva do dia do voo de regresso a casa, fiquei com o cartão de débito sequestrado na caixa automática de um Banco Espanhol, e confrontei-me, cheio de vergonha e horror, com as mãos impolutas de uma guarda de raio X a vasculhar as minhas meias e cuecas sujas, espalhadas à vista de todo o aeroporto, à procura de uma tesoura que a menina da máquina jurou que estava dentro da mala (até virou a máquina para mim) e eu, horrorizado e inocente jurava que não, e afinal não havia tesoura nenhuma, ela fixou a imagem errada e alguém passou com uma tesoura das unhas para um outro lado qualquer!

A caminho da porta de embarque dei de caras com o D.Quixote e pensei “Cruzes”

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Maria Luísa


Maria Luísa, o parque está silencioso porque é noite profunda, e a Maria Luísa, a égua que puxa a carroça não relincha, apenas obedece a trote às instruções do andaluz e desdentado comandante, que não troca os locais históricos e nos recorda que a égua nos agradeceria o nosso reconhecimento.
O som martelado dos cascos na pedra é fantasmagórico, e dá uma vida imaginária às sombras, ao recanto do romântico, ao do poeta, do soldado, tudo isto a Maria Luísa abarca.


E no território da Expo de 1929, há lembranças de Portugal, vestígios da epopeia ibérica, conquistas mais do que descobrimentos.
Em Sevilha à meia-noite, só mesmo a Praça de Espanha dorme!


domingo, 30 de março de 2014

A trilogia (do 3) na rota das artes




3 horas de atraso.
30 euros de táxi até à cidade.
3 da manhã em Madrid.
30 minutos depois das oito da manhã em Madrid, outra vez
3D na rota das artes.
Almoço às 3 horas da tarde no Bairro das Letras.
Muito mais que três pingos de chuva numa cidade alagada.
24 horas à procura de uma trilogia em três dimensões, na rota das artes
E guardámos as ultimas três horas para colecção Thyssen.
Às sete horas da tarde, hora espanhola, a chuva copiosa envolvia o Retiro de um fino e silencioso nevoeiro, que contrastava com o burburinho latente de mais um protesto, anunciado por uma escolta policial que arfava de impaciência e potencial bélico.
E de repente o táxi conduzido no feminino afundou-se nas profundezas dos túneis que desaguam o centro histórico e a rota das artes na M30.
E nos subúrbios na fronteira do campo e do planalto, persistia a chuva.
Madrid 24 horas,
Tudo tão perto
Tudo tão rápido


domingo, 16 de junho de 2013

Chove na cidade festa



Chove na cidade anoitecida que arrefece a fúria espanhola, o burburinho da final da tarde de Sábado nas Portas do Sol, onde todos os madrilenos se pareciam conhecer nos pés do urso, um ponto de encontro natural das legiões de cidadãos que cerram fileiras e entopem os bares de tapas e cañas, entre as nove e meia e as dez da noite, que é o quilômetro zero das estradas de Espanha.
Pontualidade espanhola, um povo que se recusa a ficar em casa.
Mas a intempérie de temperatura calda (o verão asfixiante dos 37 graus, tem regresso prometido para a próxima semana) também parece acalmar a fúria dos homens estátua que povoam (como persistentes empecilhos de personalidade mutante) as praças da urbe turística, em busca de fama ou de uns euros que distraiam a crise e o desemprego.
Piratas e monstros, ícones do cinema e da animação americana numa dobragem sem legendas e em três dimensões.
Ou a fúria do homem sem braços que agita com a boca o balde das esmolas…
Ou o homem que grita na composição de metro o acidente da mulher grávida e assegura ameaçadoramente que não está a roubar ninguém mas que devem comprar uns lenços de papel por um euro, e os passageiros que baixam as cabeças e os olhos para não o ouvir, ou não acentuar a sua ira!
Ou a turma gótica que povoa o Templo Debod, de vista sobre a cidade e a casa de campo, com as luzes e as sombras que mancham o horizonte urbano em final de tarde
Piercings em cobertura de negro ao por do sol!
Apenas Cervantes e sus muchachos, Quixote e Pança, permanecem impávidos e serenos, no alto da sua estátua na tão nacionalista Praça de Espanha, ainda que na sombra da fachada imponente e cooperativa do maior arranha-céus da Europa após guerra.
E o Homem Árvore na Praça do Oriente.


Para eles, não há fúria nem chuva que os demova da sua missão que é a de abençoar todas as espécies que povoam os moinhos de La Mancha
Nem para a polícia sempre presente que lida, com distância e sem fervor, com o seu povo afirmativo e impaciente em relação aos tempos difíceis e à crescente multiculturalidade que os rodeia.
Tudo o que seja preciso para garantir que se mantém o excitante glamour da cidade fiesta.