Pesquisar neste blogue
Mostrar mensagens com a etiqueta Algarve. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Algarve. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 22 de julho de 2015
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Alt (e) amente – A essência do poder local
Domingo à tarde no estabelecimento da Dona Manuela e não havia
mais turistas.
Só envelhecidos residentes em volta das mesas de pedra,
cercados de prateleiras pejadas de artesanato de loiça e cerâmica pintada,
chaminés que não deitam fumo porque, mesmo na serra, as leis são para cumprir.
Discute-se a idade dos velhos e as eleições para a Junta
"Nascida em Alte, residente em Alte"
- Mentirosa
"Ela não é de Alte é de Santa Margarida"
Ainda não chegou lá e já está a mentir!
O meu filho é o terceiro da outra lista (portanto a D. Manuela
é parte interessada) e ela é uma mentirosa.
- Eu cá acho que ela não é mentirosa – Aquele bigode
enxovalhado e mergulhado numa mini discordava com a patroa do estabelecimento
- O pai dela é um intrujão e um mal-educado. Ele teve cá a
fazer uma obra e esticou-se no orçamento. O meu marido chamou-lhe a atenção e
ele atirou os instrumentos para o chão e disse:
- Então façam vocês!
Está a ver?
- Mas a filha não é o pai – resistia o velho
- A mãe é outra que tal. Veio para a terra e abriu um
estabelecimento igual ao meu (Ah!) e desde que o abriu, vão sete anos, nunca
mais voltou a cá entrar, nem para tomar um café. Sim, porque o estabelecimento
dela não tem café! Como se eu lhe tivesse feito algum mal.
- Mas a filha não é a mãe.
- É igual, porque também ela nunca mais cá entrou!
E o velho desistiu, suspirou baixinho e virou-se para o
visitante.
Mas a D. Manuela não deixou.
Acha bem que ela minta assim ainda antes de sentar lá o
rabo, senhor visitante?
Pois, mentir não é bom…
Tás a ver? Ela é mentirosa e ainda não foi eleita.
O meu filho sim, é de confiança. Ele não quis ser o número
um…
Finalmente a Manuela afastou-se, dobrada por um troco
difícil.
-És de cá? (Como se fosse possível ser de lá e ele – e o seu
bafo alcoólico ressequido – não me reconhecerem) - perguntou o curioso autóctone
Lisboa? Os meus irmãos vivem lá; em Odivelas e em Sto.
António de Cavaleiros. São taxistas e têm um táxi deles. Eles estão bem, só eu é
que estou na merda!
Distraído com a mini e com as suas memórias, aproveitei para
me retirar desta ameaçadora contenda, para mim, tão incompreensível quanto a
diferença entre viver em Alte ou em Santa Margarida.
Onde quer que ela seja!
Ali, à saída da porta, do outro lado da rua, jazia a pequena
casa de arquitectura do Estado Novo, com as suas letras brilhantes, de tão
polidas, a aguardar que aqueles dois, e mais algumas dezenas escolham o próximo
inquilino.
Junta de Freguesia de Alte, os amigos do filho da dona do
estabelecimento, ou a maldita emigrante de uma terra qualquer?
Esta deve ser a essência do poder local!
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Beef Stuff
Na marina de Albufeira, três espécimenes
súbditos de SM e respetivos herdeiros (de Sua Majestade), lambem gelados na
esplanada, numa manhã de calor abafado e céu azul cinza.
Gordos, mesmo muito gordos.
Estes não vão partir nos
cruzeiros aventura, “fishing experience”, “Jet Boat” e outras alucinações aquáticas,
expedições a praias e a grutas.
Mas as dezenas de loiros que
descem as escadas deste complexo de cores garridas e arquitetura infantil,
saltam para os botes com uma alegria de parque temático, como se o mar do Algarve
fosse uma Adamastor mediterrânico e os golfinhos fossem tubarões brancos
esfomeados de beef.
Arranjaram finalmente uma
utilização para esta obra folclórica de regime – em fase acelerada de falência –
que continua a ser uma ilha fantasma rodeada de construções inacabadas!
No “Cape Coal Handle” aterramos
numa qualquer colónia britânica nas caraíbas, não há lusos na praia, a bica tem
acento e os souvenirs são mais caros que as lembranças.
No clube náutico de Ferragudo, os
gins tónico servem-se em copos de balão e o Peter, o John e Alice, despejam os
balões como jarros de limonada selvagem.
Numa praia perdida entre as
arribas do cabo central do Algarve há um pirata que serve pizzas num barraco de
madeira em decomposição projetada, bifes e outras carnes cobertas de algas e
refasteladas à sombra das arribas, que tem sinais de derrocada iminente
Bife para todos os gostos
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Algarve dos vales interiores
O termómetro batia 35º nas
encostas do vale interior. Branco e azul são as cores das aldeias apelidadas de
brancas pelo discurso turístico oficial, a face visível do remoto e montanhoso
interior.
Alte, apresenta-se debruçada
sobre o vale plantado de verde e de árvores de fruta, no prolongamento fértil
do vale do Arade e, por estes lados, predomina o silêncio, a indiferença
perante os estranhos e os poucos turistas que por aqui se aventuram, com este
calor e neste fim de tarde de luzes fortes e sombras oblíquas
A deserta loja de artesanato, as
vozes de uma indiscutível serrania algarvia que discutem, como putos, à volta
de uma mesa de bilhar, o carrancudo empregado de bar, tasca, agente do euro milhões,
a idosa que olha de soslaio no largo da igreja para quem se atreve a circundar o
altar da matriz fechada, são evidências de que não há fiéis entre nós!
Na aldeia branca da serrania, há
habitantes de verdade que estacionam os seus automóveis nos becos sem espaço,
levam as crianças à piscina, nas traseiras da escola primária, transportam
camionetas de fruta pela estrada sinuosa e levam os velhotes pela mão até suas
casas, caiadas mas com cheiros e sabores de um quotidiano de aldeia rural.
Quando abandono a aldeia, sinto o
último olhar do vendedor de peixe que limpa a banca do mercado ao ar livre,
rápido e desinteressado, para quem aqui vem e nada deixa – talvez uma beata – e
rouba as imagens desta pacatez civilizada, que são as portas do algarve
serrano, fronteiriço e inacessível que começa ali, para lá das aldeias brancas.
domingo, 28 de julho de 2013
Há flamingos na lagoa dos Salgados
Na longa passadeira de madeira sobre as dunas, o vento de levante assobia de ocidente e, com a sorte a bafejar-nos pelas costas, afasta os mosquitos para a lagoa que, de longe, parece tão artificial quanto o campo de golf que a rodeia e a selva de blocos de apartamentos castanhos, que se confundem com a terra barrenta, é um facto – parecem construídos de barro vermelho - não fossem as milhares de palmeiras que infestam o local, porque não crescem nem nada, e se o areal fosse um deserto e os blocos de apartamentos, castelos árabes, então diríamos ter chegado a um oásis no Sahara; um pequeno erro de navegação e um mar apenas que os separa.
Mas eis senão que, aqueles pontos
brancos ao longe, de pernas longas e patas na água lamacenta, se transformam em
flamingos e, pelo seu aspeto, não foram ali plantados por aqueles que
suicidaram as palmeiras, vindas de um qualquer oásis de viveiro (visionário ou
louco? Visionário não certamente!)
Há mesmo flamingos de verdade na
lagoa dos Salgados!
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Sofisticação Árabe na Península e nos Algarves
Fomos sempre instigados a ver a
História de Portugal de Norte para Sul, a nos identificarmos com os cristãos do
Norte da Europa, Visigodos e outros bárbaros que, com armas na mão, se
transformavam em bárbaros cruzados.
Foram os fundadores de Portugal,
é um facto, mas este facto resulta de uma insurreição do filho contra a mãe, atitude
de uma cristandade duvidosa, mas afirmação plena de como estes nobres medievais
eram brutos.
Os árabes do Sul (e, vá lá, do
leste) eram mais evoluídos na agricultura, nas formas de captação das águas, na
medicina, navegação, matemática e astronomia, geografia.
E deram a conhecer o fabrico de
papel e a pólvora!
E os barbudos proto cristãos nem
entendiam esta sofisticação na sua rudeza tribal!
A História longa revela-nos, aliás, que sempre
aprendemos mais com os invasores – e uns séculos mais tarde com os invadidos -
do que com a essência genética do lusitano
Primeiro refugiados nas montanhas
em tribos, depois vestidos de armaduras vistosas encarregaram-se de conquistar
território e enterrar os espojos da guerra entre igrejas e castelos.
Os outros eram mouros, apesar dos
diversos períodos de convivência pacífica entre cristãos e mouros e as
dificuldades crescentes em separá-los da sua terra ibérica.
Curiosidades históricas revelam
que muitos dos mouriscos expulsos do Sul de Espanha foram engrossar as legiões
de conquistadores espanhóis na América do Sul.
Depois de conhecer as maravilhas
árabes do Sul da Península, começo a suspeitar que todos perderam com o recuo
mouro para o além Mediterrâneo: eles e nós, lusitano-moçárabes de ascendência
celta!
No cimo das mais modestas
muralhas de Silves, capital árabe dos Algarves, contemplamos o longo vale do
Arade, serpenteado por uma agricultura resistente e concluímos que a herança
árabe não abandonou os arrabaldes da sua capital; e não deixo de pensar que
foram as reminiscências árabes que nos transformaram em navegadores.
É uma visão romanesca da História
de Portugal, construída de Sul para Norte ou (se quiserem tornear o latente,
mas evidente, confronto com a versão europeísta e oficial do nosso passado) a
História de um país construído com a influência dos invasores (derrotados, é um
facto) vindos de leste. (e assim não esquecemos os engenheiros romanos)
No final de contas todos os
invasores acabam, mais tarde ou mais cedo, derrotados.
No outro extremo da Europa, pela
mesma altura em que os Árabes eram expulsos da Ibéria, os persas invadiam
Constantinopla, capital remediada do evoluído Império Romano, e transformavam
as fantásticas igrejas de um pagão império tardiamente convertido a Cristo, em
mesquitas
E demoraram séculos a perceber
que a cidade já tinha águas canalizadas há séculos!
É histórico o desprezo dos
guerreiros pelos empreendedores!
Subscrever:
Mensagens (Atom)