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terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Flashback #2 - La ville s'agite

 


KIDZ é um trabalho coletivo que concede carta branca a cinquenta jovens artistas de todo o mundo, sem tema, forma ou enquadramento trata-se, afinal de contas, de uma ordem para criar.
( E, no mesmo espírito e uma décadas mais cedo, os velhos abriam a loja de livros de banda desenhada e questionavam-se se a banda desenhada não seria a forma mais precoce de arte contemporânea)
Na muito improvável Rua dos Francos Burgueses, no Marais que se entregou há muito às multidões amantes do consumo, e que empurrou os mais boémios para os subúrbios, entregaram aos miúdos um palacete resplandecente por fora e totalmente desventrado por dentro, o ambiente ideal para promover a destruição criativa, e eles redecoraram-no contra a tradição do bairro mas como era de borla, os sacos de papel de marcas de várias cores, cuidadosamente bordadas em tons dourados, acotovelavam-se debaixo de botas, calças e outros vestuários que homenageavam o arco-íris, pendurados em cordas de roupa , sim porque a cor parece ser a maior afirmação da juventude rebelde, pouco condescendente para com as formas ou, pelo menos, indiferentes.
Mas, e justiça lhe seja feita, Paris é uma cidade em agitação constante que se empolga com a revolução, com a contradição, com a polémica e, mais do que mais, com o protesto, contra as limitações da sua liberdade de escolha quando lhe impõem, a ela, gerente de uma ourivesaria na Place des Vosges, a obrigação de usar máscara, só porque é inverno e ninguém tem a certeza se o COVID já se tornou endemia ou contra a fome em África, o aumento do preço dos combustíveis, o aumento do custo vida, ou apenas a favor de poder protestar, sem ter de apresentar um motivo.
Na Praça da República, num fim de tarde antes de ser noite no Marais, mas depois de o Sol se pôr sobre o Canal de St. Martin, onde batelões que se empenhavam, tal amantes do Titanic, em abraçar as margens do estreito canal, e onde as margens recolhiam alguns dos boémios expulsos do centro, os criadores alternativos às tendências, a arte de rua com preocupações humanitárias, não só a liberdade para a Ucrânia, mas as 619 pessoas que desapareceram durante o governo fascista da atual primeira-ministra do Bangladesh, mas depois do Sol se pôr na praça, havia espaços de manifestação que exigiam uma nova independência para a Argélia, uma assembleia constituinte para um país latino americano, cuja bandeira desconhecia e é mesmo essa agitação cosmopolita que nos mantém vivos e que mantém viva a cidade.
A cidade estava, de facto, muito agitada para um Domingo de Sol, que outros europeus aproveitariam trazer as famílias ao parque ou comprar as últimas prendas de natal
Mas em Paris, não há desses estrangeiros, e até há, como os miúdos alemães que estudavam no restaurante do bairro onde uma sopa de cebola pode aquecer, até duas almas pelo menos, mas ou agitam ou ficam a ver e em Paris ninguém gosta de ficar a ver.
E o dia começou tranquilo, uma cidade que acorda tarde, nos bairros a norte onde o traçado histórico da cidade já foi substituído por blocos de habitação, todos muito parecidos e quase todos iguais, seis artistas ocupavam um pequeno pavilhão junto ao canal que teria sido certamente a casa dos guardas das comportas, onde, debaixo da cobertura de uma feira de natal, vendiam arte genuína, reconhecível e com elevado sentido estético, aquele que valoriza as formas com alguma soberba contra as cores, a preços de quem ainda não são jovens artistas emergentes.
Mas depois, mais a Sul o canal agita-se com o meio-dia e com a juventude inquieta que passeia os seus cães com a mesma veemência com que licita obras de arte ambíguas e com significados difíceis e, naquele dia, não fui mais capaz de não correr atrás da agitação da urbe, primeiro em processo de comoção pelo reencontro e a reconciliação entre Bresson e Parr, e finalmente, no MEP descobrindo Boris Mikhailov, o mais experimentalista, umas vezes documental, outras conceptual, pintura ou performance, fotógrafo que havia alguma vez presenciado, soviético de nascimento, ucraniano de nacionalidade, fotógrafo para o partido nas horas de trabalho, e fotógrafo erótico e de nus em casa, às escondidas do partido, do patrão e do país, afinal nesses tempos, sempre os mesmos.
Atento aos pontos cardinais da cidade que adora a revolução, sorrimos com a contradição que não deixa de representar, mais a Ocidente, a exposição de Arte Povera no sofisticado Jeau de Paumme, um pavilhão de campo dos muito monárquicos jardins das Tulherias.
Afinal de contas a Arte Povera é baseada nos elementos, construída com materiais comuns, uma espécie de arte reciclada uma forma livre de expressão, comprometida sendo a resposta com as contingências os eventos e o presente.
a resposta europeia à pop art americana.
O que deixa os franceses cheios de orgulho. apesar dos artistas serem predominante italianos.
E, enquanto aquecíamos a alma da noite fria na gastronomia de Borgonha e nos vinhos de Bordéus, na burguesa ilha de Saint Louis, não deixámos de pensar no que seria da cidade se não fosse o seu fascínio pela contradição, polémica e protesto.




domingo, 19 de janeiro de 2025

Flashback #1 - Flanneur

 


A crise energética chegou a França que não depende do gás russo, mas tem, aparentemente, dificuldades em equilibrar as cargas na rede e a cidade está fria e escura, apesar de estarmos no Natal. 
A manhã cedo da cidade das passagens é um território idoso, onde o bom gosto se refugia do décimo bairro, das saídas de metro encardidas, das ruas molhadas que se lavam das toneladas de lixo que a urbe lhe entrega todas as noites, porque há vida própria nos bairros centrais de Paris, afirmação confirmada pelas lojas de quinquilharias com utilidades penduradas nas portas, os restaurantes étnicos que engolem os cafés de Paris e a juventude, que domina a calçada, na exuberância das cores, dos movimentos, das roupas, da musica que juramos que ouvem por debaixo dos auscultadores, dos penteados e das tatuagens.
Quando entramos nestes túneis intemporais do bom gosto, os sons tornam-se difusos e parece que a cidade ficou lá fora e aqui dentro guardam-se as memórias da Pátria, as heranças culturais da grande França ultramarina, os refúgios de moda vintage e nós, os idosos do regime, flutuamos sobre as nossas memórias e sobre a História com a qual ainda estamos familiarizados, os velhos cá dentro, os novos lá fora e, quando um túnel termina,  interrompe-se o silêncio e entra uma súbita corrente de  ar  de trânsito, de multidões agitadas e, depois, novamente o silêncio redentor.
 As passagens de Paris são o purgatório entre a fraternidade da república, a norte, e as indulgências da monarquia ao longo das margens do rio e, mesmo quando a cidade está fria e escura e as passagens são também corredores de vento, as lojas das galerias congelam o tempo e preservam as memórias da cidade que já não existe, um livro de lombada dura e letras douradas, o cheiro a café quente servido sob candelabros de cristal e galerias de homens famosos emoldurados em florestas de madeiras nobres.
Ao fim de uma manhã inteira dentro das passagens de Paris, assomamos com receio à superfície, sentimo-nos encadeados pela agressividade do Sol de Inverno, como se o holocausto se abeirasse de nós.
Nós, e os novos velhos nostálgicos da civilização ocidental a quem até não nos desagradaria que a cidade pudesse ter ficado no passado e que a crise do gás não tivesse chegado este Inverno.



sábado, 25 de março de 2017

Pablo, e os exílios dourados

Santiago, 2010

O meu personagem do fim-de-semana foi o Pablo.
Não digo Neruda, porque, se o fizesse, logo se criaria um auréola romântica que distorceria a verdade do filme e, provavelmente, quase todas as suas motivações e encantamentos.
Não sou, de todo, um cinéfilo, e por isso sou um tanto desajeitado com o desenho da forma, com as subtilezas dos diálogo e até com as mensagens subliminares que abundam no cinema de autor.
Por isso não entendi porque é que o primeiro livro que Pablo deixou Oscar apreender fosse "As mulheres quando vão ao zoológico, já não voltam."
Mas, construído sobretudo em cenários de sombras profundas e de contraluz ostensiva, pareceu-me coerente

Santiago, 2010


Um jogo de pistas
Um bordel heroico, resistente ao interrogatório de um polícia de bigode e ao close up do realizador
Um oficial que seria general sem medo
E mulheres.

Santiago, 2010

São imagens que desfilam num enredo que nos faz adivinhar o desfecho
Afinal de contas estávamos em 1948, do Óscar, o polícia, não restam vestígios de História e do Pablo, todos o conhecem pelo poeta que foi apresentado à indolência boémia e parisiense pelo seu amigo Pablo

 Santiago, 2010

Democracias populares efémeras entre ditaduras nacionalistas de pendor absoluto e um fascínio muito europeu pelas histórias de exilados sobreviventes.

Neruda, o filme.
Premunição 1973, quando só a Europa permanece livre.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

198? - trinta anos já é História? (3/3)




A lua inclinava-se no horizonte da lassidão, deitados na relva proibida, estrelas sim, todos na busca do seu Criador, cada estrela a razão da existência de cada um?
E uma sombra debruçada, aproximava-se veloz, a sua velhice tingia o luar de negro, todos a sentiram na pressa arrastada num vestido comprido, escuro de bruxa, velho de assustada, era uma expressão que eles pressentiram, mas juraram ignorar.
Mas não conseguiram!
A sua aflição exprimia-se numa língua que jurávamos inglês, um sotaque que ignoravam, uma distância que não deixava dúvidas, uma língua natal que a interrompia na sofreguidão e na ausência de fôlego, para correr mais, longe era certamente o seu desejo. Seria?
- Ajudem-me! Estou a ser perseguida…política….Polaca! Roubaram-me tudo e vão-me matar!
A identidade já se tinha esvaído na ausência de documentos, no indecifrável de um nome…
Seria louca, perseguida, doente ou alucinada, polaca ou esperanto?
Não havia mais sombras na imensidão do parque!
A Guerra-fria teria tropeçado neste grupo? Sinais ou imaginação?
Só o Leste seria capaz de os emudecer de fascínio. Até o Che passava a ser Europeu sem restrições perante tal distância…
Ela tinha um olhar que eles não conheciam. Assustado mas altivo.
O medo vinha do frio e eles não iriam perder este contacto imediato com a História, apesar de ninguém acreditar mais em espionagem, em chapéus-de-chuva assassinos.
Pelo seguro, porque mesmo não acreditando, eles podiam ter sobrevivido à Perestroika anunciada – esse era o nome, o rosto era apenas uma mancha na testa – o grupo abraçou-a no seu e no destino dela!
As luzes de Pigalle atraíram-nos, madrugada de rapina, a fauna espelhava na hora a crueza da maquilhagem que desbota, são cinco da manhã, e nem mesmo as mulheres da noite (travestis – corrigiu o parisiense, que jogava em casa e tinha a certeza) resistem na sua altivez, donas da selva, da extravagância e do néon, o baixo fundo já se arrasta pelos cafés, sem vontade de vaguear mais pelos peep show que se desventram para a solidão, e para ninguém, não há turistas, ninguém troca cartas, os pés cansados molham-se nas ruas que se inundam de jactos de água, vassouras, homens de outras fardas que procuram afundar definitivamente a noite, e quase conseguiam provocar a alvorada!
Sem sustos, Petra liderava a militância! Era preciso salvar a velha, mesmo que fosse apenas dela própria e dos seus fantasmas!
- Sempre existem os centros da Segurança Social. Ela precisa de alvura, uns lençóis, sonos tranquilos e uma eventual reconquista com a sua própria identidade, psicólogos e tradutores, alguma medicina convencional – Era bom habitar o centro do mundo, ter Joseph por perto enfim, ser guiado para longe das ameaças, ter soluções práticas para os enigmas da noite e da geopolítica, para além da capacidade de evocar um espírito militante e anarquista!
- Alvura seja! Viajará connosco na transição da noite para o dia – Giovanni procurava reduzir as distâncias, uma insuficiência que se sabia crónica, um solitário nunca deixará de o transparecer…
Pedro e Michélle não descolavam, já não havia distâncias nem solidão entre eles.
E atravessaram Pigalle sem se sentirem perdidos, a velha embalava-se no grupo, sabia-se a salvo, nunca o inimigo poderia ser tão multinacional, só podia ser uma força de paz, sentia-se no olhar que ela sabia.
Por isso caminhava sem soluços, entre eles, partilhava as conversas deles no silêncio, adivinhava-se, e embrenhou-se nos túneis do metropolitano, ela e todos, despediam-se do dia, e ele acabado de nascer, o destino era a alvura.
Ninguém se abandonava, nem no metropolitano, porque era Domingo e não podia haver nada de tão interessante a revisitar nos sonhos, eles que esperassem!
Esperavam que o momento não se diluísse na claridade (há momentos que sobrevivem à noite, àquelas noites em que nos sentimos capazes de levitar o mundo e troçar da relatividade, absurdos físicos) e ofereceram-se café com leite à avozinha, uma esplanada de boulevard que lhes acrescentava minutos á existência, que prolongava o feitiço da Lua, uma atracção que não precisava de longas e sinuosas seduções, tão pouco temáticas comuns, apenas presença, imaginação e divagação experimental sobre o mundo deles, temperado pelo bizarro e pelo mistério que sempre adensa a cumplicidade.
SOS era o slogan de uma marcha que inundava o boulevard, a avozinha entregue aos cuidados e á alvura, uma mole de gente, todas as raças de França, despediam-se em protesto dos recambiados pelo governo chauvinista.
Ahmed enchia-se de razão e os seus braços ao alto afirmavam que afinal havia temática.
Paris protestava “mais uma sinuosa curva á direita” – afirmaria Joseph!
O feitiço desistia finalmente da Lua e a comunidade de seres tornava-se irreconhecível.
As despedidas diluíram-se na fúria dos outros, e dele Ahmed!
Ahmed SOS, somos todos irmãos, a onda humana também é dele, trocaram moradas e telefones, isso sim, sabiam que sou artista e pintor?
O tempo tinha sido curto. Até á próxima! Afasta-se com a multidão.
Giovanni e a solidão viraram as costas à multidão. Despedidas sem telefones nem moradas. Talvez uma minúscula lágrima, um fungo social que corroeu um mar de individualidade. Petra pôs-se a adivinhar e juraria mais tarde que era uma individualidade tão desajeitada que só poderia ser…de escritor!
- Vemo-nos por aí! – Era como Joseph se deveria identificar com tudo. Paris aldeia, o encontro não é destino mas inevitabilidade estatística. E daí porquê moradas, era altura de retornar aos sonhos, uma sesta de Domingo!
Petra, Sthepanie, Maria e Michélle foi um abraço diferente, mais longo e nocturno, mais uma noite de Inverno sob a Gare do Nord, são sempre assim as despedidas, moradas, telefones e promessas, e já nem Maria parecia tão desemparelhada, nem a cumplicidade delas tão impenetrável.
Um beijo muito longo. Pedro e Michélle. Amar-nos-emos em Genéve!


198? - 30 anos já é História ? (2/3)



E este era decisivamente um discurso europeu, de quem nascera em França, de quem já acreditava que Maomé morrera na cruz, de tanta escola e cultura em França, terra que o tinha transformado de adolescente em adulto, de quem tinha ultrapassado as fronteiras dos bairros, estudava na Universidade e se preparava para invadir o espaço cultural francês, disso nem Stephanie tinha dúvidas.
Mas Ahmed tinha.
- Nascemos em França, mas não nos sentimos franceses…
- Mas pensas e expressas-te como cidadão europeu – Stephanie esboçava um protesto, porque essa conversa de filho indesejado e relação fortuita não lhe parecia discurso de muçulmano tradicional.
- E não somos tratados como franceses…
- Mas se nem vocês se sentem, como esperam que uma nação conservadora e republicana os vejam? – Pedro não perdia nenhuma oportunidade de provocar o Che, e não era racismo, era embirração com o personagem.
- E a democracia europeia não deve assegurar a todos o que ajudaram a construir o ideal da Europa a igualdade de direitos e, simultaneamente, o direito à diferença? Sobretudo aqueles que se enterraram nas fundações, que se misturaram com o cimento da construção europeia!
   E não nos podem interpretar mal quando, de tempos a tempos, sentimos o apelo do bom selvagem, a vontade de regresso ás origens que não conhecemos, mas que os nossos pais nos contaram, e estas ânsias, para vocês surpreendentes, coincidem com os súbitos desvios da vossa (nossa) democracia à direita profunda, tão bruscos quanto igualmente surpreendentes, multiplicação de bandeiras tricolores em todos os edifícios vagamente públicos, ridícula confusão de identidade com nacionalidade.
Pedro calou-se e reconheceu a derrota. O tipo era consistente.
E Ahmed, embalado pelo encanto dos seus próprios argumentos, e pelo enlevo demonstrado pelos ouvintes, sim, todos o cercavam enquanto desciam a escadaria do jardim, Sacré Coeur atrás e atenta no monte, Pigalle em baixo provocante e certamente indecente, explicava-lhes os sacrifícios dos pais, o racismo no seu mais puro quotidiano, o grito de afirmação das manifestações de 84,a afirmação da cultura do subúrbio, daquela vontade que apenas a juventude conhece, afirmação ou desterro!
- E existem milhares de desintegrados que vagueiam pelas estações de comboios à procura do que nunca encontram, ilegais e que escorraçados se refugiam nos bairros e os destabilizam, com a sua raiva – Joseph, parisiense, frequentador da noite de Monmartre e Pigalle por vocação e conforto, sem quaisquer convicções específicas, apenas pela musicalidade e pela estética dos bares, de Brel, das discussões pela noite fora, ele parisiense também tinha direito a opinião, e exprimia-o.
Enquanto Ahmed anuía, Michélle e Pedro sorriam, embalados um pelo outro, enquanto que, por exclusão, Petra e Giovanni caminhavam silenciosos, olhos na lua ou na calçada, ouvidos em Ahmed ou em ninguém, longe um do outro, vizinhos rodeados de montanhas.
Ninguém percebia como este grupo se havia criado, talvez geração espontânea, mas este italiano, que não cantava nem tocava aparentemente nada, que viajava e por aquela noite havia encalhado, tinha tropeçado numa qualquer saída de emergência e parecia sentir-se satisfeito por apenas não caminhar sozinho, todos acharam que uma ambição tão modesta não poderia ferir ninguém e adoptaram-no!
Petra decidira envolver Giovanni nesta existência de grupo, sorriu-lhe e aceitou a conversa tímida, apenas geografia de lugares e coreografia de seres, era preciso desentorpecer as nuvens de desalento que espreitavam as escadarias de Monmartre.
Pois, a musicalidade nocturna perdia sonoridade na madrugada do impossível.
Diferenças. Impossível!

Mas Petra e o amor dos outros imergiam a Argélia profunda.

198? - trinta anos já é História? (1/3)



Pedro,
Genéve tornou-se fria! Esta semana nevou, e o Inverno começou esta semana.
Hoje Reagan chegou, tudo está bloqueado, vigiado, a cidade submerge em militares, em metralhadoras.
A cidade manifesta-se, uma marcha pela paz, uma manifestação pelos judeus, pelos afegãos, pelos refugiados.
Na semana passada tivemos medo em Genéve. A maioria votou “Vigilante”, um grupo de extrema-direita e, numa única semana, centenas de refugiados Zairenses e Turcos foram reenviados para os seus países. Et onc!!! Este fim-de-semana, na segunda ronda, os lugares foram distribuídos entre liberais, socialistas e um Vigilante.
Genéve, a Suíça, não está tão calma como aparente.
Eu regozijo, porque em breve terei uma semana de férias.
Mas sempre o teu silêncio. Recebeste as minhas cartas?
Penso em ti muito forte e espero que estejas bem. Escreve.

E Michelle cruzara-se com os seus olhos, por entre uma onda de loiras colegiais num bar de estação em Munique, cervejas que rodavam na mesa, elas eram quatro e ele sempre só, não diria abandonado porque Pedro achava-se longe desse estado terminal que significa abandono.
- Chamo-me Pedro!
- Michelle – o sorriso era verdadeiramente transparente, ou talvez cor de Alpes – e as outras são Stephanie, Marie e Petra, e vimos de Genéve.
- Vamos no Orient-Express até Paris!
O Orient-Express era uma griffe e, mesmo para um veterano dos comboios noturnos, havia alguns diferentes dos outros, provocavam arrepios de ansiedade e dependência, delírios de imaginação. E quando mais tarde, bem mais tarde, relia a longínqua e desencantada carta de Michelle, entre duas aulas, teoria e prática de uma prolongada vida universitária, lembrou-se como tudo (ou nada) tinha sido um produto do Expresso do Oriente de regresso a Paris, que apenas no nome resistia ao pedigree de outrora, mas que detinha um estranho poder, era o mistério sobre carris que reinava nos seres que se atreviam a desafiá-lo, entrando!
- Paris? É uma excelente altura para regressar a casa!
O fresco da noite despertou-os e a música atraiu-os para um pequeno bar escondido entre ruelas e trepadeiras, um pátio cercado de vedações e um portão que insistia em ranger, degraus esgotados pela erosão dos séculos, retorcidos como o corrimão de ferro que os empurrava para as luzes e para o fumo, um balcão corrido até ao fundo, mesas cheias de gente e histórias que se contavam em voz de tambor, o acompanhamento das baladas do jogral, viola no colo e notas bem puxadas ao sentimento e à atmosfera que Pedro jurava em voz alta já ter visto num filme qualquer, com muitos anos, sempre num qualquer antes da guerra, Paris no seu auge, como uma premonição de euforia antes que o mundo se consuma numa carnificina qualquer!
E quando a festa finalmente terminou, a pedido do barman, o grupo tinha crescido; um novo parisiense, o Che magrebino, Pedro e as Suíças e um Giovanni aparentemente mais maduro.
Este novo microcosmos de seres calcorreava as calçadas de Monmartre à procura de horizontes, e encontrou-o nas escadarias de Sacré Coeur, mas as largas vistas da colina e da cidade recusavam as certezas que eles procuravam, a música tem este efeito, anestesia o conformismo, o individualismo e gera vontades.
Mas, apesar do esforço nem mesmo o Che argelino, o mais recente espécimen europeu desta colónia em ebulição intelectual, adivinhava até onde podia ser aquela paz pardacenta que sobrevoava os anos 80, porque este envelhecido Continente não se compadece com tantas décadas de estabilidade emocional.
- Os franceses precisam de nós, mas não fazem mais do que nos tolerar – esforçava-se Ahmed por explicar os seus dilemas e sofrimentos a Stephanie, que genuinamente o desejava compreender, tal era a sua atenção – eles sentem que a nossa vinda é um fardo que tiveram de suportar, por nos colonizar, assim como um filho indesejado numa relação fortuita.

(continua)

sábado, 2 de maio de 2015

Dreaming and freedom of spirit




Havia uma fila meio louca, numa galeria meio louca, uma irreverência permitida pelo (porventura) mais snobe bairro da cidade.
Sublime, o ambiente de instalação, mal nos intrometemos na primeira sala.
Como se tivéssemos subitamente atravessado o canal da mancha pelas paredes do túnel, uma breve visita ao castelo de Hogwarts e um encontro imediato com o Conde Valdemort.
Senti saudades do espírito do Potter!


HERMÈS WANDERLAND.
9 April - 2 May 2015
(in Saatchi Gallery)


“Flânerie, that wonderfully liberating art of urban wandering, is second nature to Hermès, one could even say our most profound nature”, recounts Pierre-Alexis Dumas, the house’s Artistic Director and sixth generation member, evoking the 2015 Hermès theme. 


Quintessentially Parisian, flânerie is about revelling in the unexpected. “The journey through Wanderland draws its coherence from two intrinsic elements of la flânerie: dreaming and freedom of spirit”, explains Bruno Gaudichon, curator of La Piscine-Musée d'Art et d'Industrie in Roubaix, who was commissioned to create the exhibition. 


Set designer Hubert le Gall plunges visitors, the flâneurs themselves, into a dream world of joy and fantasy, with a Paris-inspired landscape as its backdrop. The eleven rooms present a series of installations in various media, created by a diverse selection of artists. From the Parisian square, to the covered passage, or a cafe of forgotten objects this veritable extended cabinet of curiosities will delight and intrigue visitors, inviting each of them to open their eyes, free their minds and be enveloped by the colour, sounds and images that surround them. 



Objects on display have been carefully and lovingly gathered from the Hermès archive, the museum collection of Emile Hermès at 24 rue du Faubourg Saint-Honoré in Paris and Hermès’ contemporary collections: a bike, a bag, a pair of boots, a travel writing case, a card deck, a watch from the house’s collection… The spirit of the 'Flâneur' is at the heart of Hermès' creations and its inspiration. 






quarta-feira, 24 de julho de 2013

As asas do desejo - Parte 4/5


 
- Começas tu ou começo eu? – A descoberta assumia contornos mais íntimos, definitivamente mais interessantes, mas o receio aumentava com a inevitabilidade do próximo encontro, desapontamento ou paixão, qual deles o mais embaraçante?
E ela começou.
Nem sequer pestanejara! Não sentia qualquer arrepio, incerteza ou vontade de me perder na irracionalidade permitida por uma flácida ânsia sexual!
Chegava de comodidade, de não repudiar a idolatria patética e repugnante daquele forcado que me feria de morte, tédio e repetição, os copos e as bebedeiras, os amigos e as não conversas, enfim nada de novo, nem mesmo sexo!
- Não havia portanto pontos fortes para explorar a chantagem ou o temor!
E ele lambia-me as feridas sem eu lhe pedir, e eu confortava-me de que dali, não haveria nunca surpresas, era socialmente aceite…enfim a nossa filha, não sendo desinteressante era tão pouco social, tão interior e introvertida, uma intelectualidade que sobrevoava as pessoas, a gente e os interesses comuns, que talvez tivesse tido sorte com este jovem, nada de brilhante, mas muito apresentável.
- Estás mesmo a contar-me a história do teu exílio? Creio que uma das características dos introvertidos não é decididamente telefonar à noite para casa de desconhecidos a meter conversa.
– Pedro protestava e começava a considerar que, ao telefone, a aparência engana mesmo, e a sua preocupação tornava-se exponencial!
- Estás a precipitar-te! Ainda não cheguei á parte da história onde me emancipo!
No final daquele dia, apenas desejara que o comboio se apressasse, que o anúncio não tivesse sido retardado aqueles intermináveis minutos.
- No dia da emancipação…
- Sim!
Sentia-me loucamente longe destes trajectos, que sabia serem derradeiros, mas sempre repetidos como os silêncios que povoavam as nossas tardes de Sábado, nos pontões da linha de Cascais.
De manhã, havia-me esforçado por perder todos os comboios que me conduziam à verde certeza de uma recepção amarga.
Mas nem os acidentes na Linha, nem a chuva de pedra que entardecia a manhã, me impediram de partir!
A minha partida para Paris estava decidida, comunicada á família, preparada e o destino já esperava por mim…seria hoje no comboio das seis!
Só ao meu desapontamento amoroso, ainda hoje não encontrei a palavra certa para lhe chamar, nada tinha dito.
Ele representava tudo aquilo que decidira, um mês antes, repudiar e negar.
Por isso aceitei aquela Bolsa de Estudo. Queria adiar o retorno a professora de uma qualquer escola da província triste e desconsolada, destino mais que sagrado para quem se enfia em Letras.
Tinha a certeza que a centralidade (aquela que tu tanto gostas) seria o melhor remédio para a minha emancipação e provável solidão.
Não lhe dissera antes, não por vingança, sobretudo por irrelevância. Quantas feridas procuraria ele lamber? Durante quanto tempo? Não, preferi não lhe dizer!
Como lhe poderia explicar que a nossa relação não tinha futuro, porque nunca tinha tido passado?
Tinha-lhe mentido?
Cristina tinha desligado Pedro desta confissão e assumia, sem rodeios nem pudor, o discurso directo, na segunda (e abandonada) pessoa.
Não. Apenas abanara a cabeça, ignorara as interrupções, como eu sabia prolongar as tuas ausências sociais com uma infinidade de coincidências da minha vida cultural, estudos e exames, família e descanso!
Quis partir porque não há o direito de perpetuar a infelicidade!
- Quantos anos?
- Alguns…
Porque não telefonaste?
O teu apartamento de luxo recebeu-me com o receio de quem é acordado sem aviso, esta é a resposta possível de uma relação não assumida, e eu que ainda não me apercebera porquê tanta fascinação da tua parte, seria o intelecto?
Senti-me tão insensível quanto esperava, aos jarros de sangria que nos apresentaram, á primeira noite que simulámos fazer amor na tua carpete da sala, às defesas por mim erigidas…
E como em todas despedidas, as palavras e os retratos de um dia a dia intermitente, já na primeira pessoa, soavam a falso, como se fosse importante falar-te do meu novo projecto, enquanto insistias em chumbar, em protelar tudo o que vagamente te lembrasse as palavras crescer e mudar, ludicamente perdido nos teus vinte e quatro anos, deslocados num mundo de adolescentes fantasistas.
- Afinal tudo se resumiu a um desapontamento de amor!
- Não estou convencida disso!
- Despediste-te assim, sem mais nem menos, á porta do apartamento do tipo, adormecido e atordoado num pijama de cornudo, já de mala às costas?
- (risos) Mais ou menos!
- E…
- Não reagiu, não acreditou, convidou-me para almoçar e jurou que esperaria por mim… e esperou!
E eu parti de táxi, e apercebi-me na altura que, de forma tão veloz e decidida como sempre, quando o visitara e precipitadamente saltava dos lençóis mornos, fugia de uma vila e de um homem que me atrofiava a vontade.
- Não partirias se encontrasses paixão.
- Insistes…Será assim tão simples?
- Não. Acredito que não há amor que resista á procura do nosso espaço próprio, pelo menos no médio prazo…
- Não há amor que resista ao nosso egocentrismo…quando o ego nos submerge!
O que não é linear que aconteça sempre e a toda a gente!
- Mas terias tu percebido isso, se não fosse o enfado?
- E será assim tão complicado e absoluto?
- Não sei! E quando foi tudo isto?
- Há dois meses. Finalmente o comboio chegara. Depois da despedida recusada, saltei para a carruagem 21, libertei-me fisicamente daquele Sábado de Verão chuvoso e embrulhei-me no Sud Express, destino Paris!
- Carruagem 21?
- Coincidências?
- Tu juraste que éramos espelhos…
E ele não precisou de começar.
Primeiro esquecemos os cheiros, depois a voz e os apelidos…só nos resta os nomes próprios, a imaginação do que teria sido mas nunca foi e, subitamente, um rosto!
Era definitivamente A Cristina que a sua mente inquieta e emocionalmente tremida o tinha impedido, três anos antes, de seduzir no concerto da Aula Magna, mesmo quando ela lhe tinha sugerido que os espelhos nunca se quebram.

terça-feira, 23 de julho de 2013

As asas do desejo - Parte 3/5


 
- Boa noite, alma gémea!
A surpresa já se transformara em esperança, o toque de telefone que coincidia com o desdobrar da chave na fechadura, era um garantido prolongamento das noites de uma insónia latente.
Era assim, todas as noites fossem tardias, todas as tardes, sempre que o por do sol me assustava…
- Já não me imagino chegar a casa e não sentir a tua companhia do outro lado da linha.
- Eu imagino-te a chegar…
Era evidente para Pedro que as coincidências têm limites e a voz pressentia vizinhança, olhares envergonhados e fortuitos, Bom dia balbuciado nos corredores ou nos elevadores!
- Continuo sem adivinhar de onde me escutas e pressentes.
- A impaciência tolhe!
- O sofrimento aguça a curiosidade
- Ai sim?
Já pensaste se és ou não afinal uma mente exilada?
- Não tenho memória suficiente para me recordar. Parti porque queria envergonhar o destino…
- E chegaste a um mesmo destino! – Atreveu-se a voz sem grandes certezas
Mas Pedro parecia não a ouvir.
- Os primeiros meses dessa antiga nova vida, no recém-adquirido ensino superior, representaram um duro amanhecer de longos dias de incomportáveis descobertas, um sucessivo desvanecer dos sonhos da adolescência, uma inexplicável capacidade de absorção de sentidos, uma maquiavélica e paciente aprendizagem dos extremos, sistemática moldagem de comportamentos, dourada insistência na preparação de uma elite, uma geração obrigada a absorver décadas de vazio, de Estado Novo, de figuras paternais, de revoluções de cravos, da queima de soutiens, de inflação, de choques petrolíferos, do small is beautiful, dos modelos de crescimento sustentado, das expectativas redentoras de um novo mundo, tudo em passo acelerado, comprimido, estilizado, impresso como marcas de fogo nas nádegas de loucos carneiros de uma nova existência.
- Era assim tão tenebroso?
- O sucesso prometido era tão inebriante quanto os efeitos de uma dolorosa cirurgia plástica que nunca mais cicatriza, mas promete eliminação de gorduras desnecessárias, lábios defeituosos, cérebros incapazes, e as visões de uma nova vida de aventura, descoberta de seres, partilha de ideias loucas, derrube de barreiras, fronteiras, uma perturbante recompensa de estarmos vivos, sem sabermos o que desejamos, lendo em voz alta poemas de António Sérgio, reclamando a nossa juventude.
- Então a culpa foi do António!
- Foi dos genes. Quando parti pela primeira vez já não consegui mais parar de partir. É uma adrenalina impossível de conter
- Um curso superior a meio…
- Uma série de sonhos que só se alcançam na solidão e no desconforto do efémero.
- Já adivinhavas tudo isso?
- Vá lá, não me sobrevalorizes! Os sonhadores nunca antevêem o lado negro e obscuro do seu sonho.
- Mas voltaste a atracar…
- É diferente viver no centro da Europa
- Ah! A busca desesperada da centralidade
- Não. Em busca da partida fácil, perto de tudo, longe das explicações, das prisões e dos freios sociais
- Nada de prisões especialmente emocionais?
A primeira pausa da noite foi atravessada por uma gargalhada desproporcionada ao sentimento da pergunta, ao atrevimento da voz.
Absolutamente feminina, esta necessidade de se certificar de que não existem concorrentes, os tais empecilhos emocionais – Pedro adivinhava-lhe a intenção mas a resposta não saiu.
Porque ris? – Seria inquietude ou desilusão, a insistência da voz?
- Não faço a ideia do que isso representa! Sou um sentimental, mas pelas causas dos outros.
- Queres dizer que nada se atravessa entre ti e essa miragem tua de navegador de asfalto ou de carris!? A paixão compromete a descoberta? Nunca sentes que tanta descoberta é cansativa, não serve para nada, a recompensa não tem corpo, porque não há ninguém já á tua espera, quem sabe para te abraçar?
- É assim que te sentes? – Pedro teve um palpite e não conseguiu guardá-lo para si, este era o fascínio destas conversas nocturnas e sem rosto. Não havia freios. E, sem percebê-lo, mais uma vez se defendia dos sentimentos, não fossem eles fatais.
- Desde que te vi, que tenho a certeza de que somos espelhos…
- Como se chamava a tua última desilusão?
- Tomas! E a tua?
- Cristina!