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terça-feira, 2 de maio de 2017

No limite do infrator



WPP é um (raro) fenómeno de massas quando o assunto é fotografia.
Claro que aqui a imagem não pretende ser arte, mas uma janela para uma visão do mundo.
Tendencialmente grotesca e extrema, em grandes formatos e cores que apelam ao drama.
Uma realidade extremada que angaria multidões, seja em frente ao rio e aos tropeçar das gentes, seja para lá dos montes, onde ninguém passa ao acaso.
O ar que se respira é pesado e o acotovelar das famílias é tanto mais intenso quanto mais insuportável é o sofrimento humano.
A natureza, o desporto e as minorias jazem inertes e sem entusiastas seguidores, uma espécie de ar puro e de espaço livre que afugenta os nossos insaciáveis olhares.
Sempre mais intrusivos, os fazedores de imagem tornam-se os protagonistas do desespero humano.
Informação ou glória, ou quantas imagens valem uma vida humana?
Apesar da penumbra dos espaços, são as sombras e os ruídos de um quotidiano despreocupado que incomodam a reflexão impossível.
Voyeurismo ou uma pesada consciência social?
Disfarçar os relevos e atenuar as cores são a (melhor) forma de respeitar as vítimas







domingo, 12 de março de 2017

Tempo depois do tempo (exposição)

Alfredo Cunha, fotografias 1970 - 2017


"A superfície da História é a política, os poderes, pequenas e grandes decisões, as guerras, os desastres e os conflitos"


" ...Torna-se claro que as afirmações populares, os signos dos partidos, o discurso palpável das multidões, salientando-se nas paredes violadas, começa a substituir o silêncio da presença obrigatória, as procissões, as feiras de gado, as touradas e os dramas coletivos..."


" ... As imagens mostram a luta evidente entre o velho e o novo, a transição difícil, a mudança insegura ganha palmo a palmo..."


"...O olhar é outro, profundamente simbólico, mas perdeu o mito do modelo; são fotografias abertas à percepção do observador..."


" ...Ensaios de desfocagem sublinham a indeterminação de um período onde a verdade das coisas e dos homens se definem pela argumentação e o consenso temporário " - Maria do Carmo Serén na folha de sala

...

Nos limites da Cordoaria, fiquei preso na última imagem e perdi a cor no meu olhar.
Afinal de contas o preto e branco é a perspetiva que melhor capta a desfocagem e a indeterminação.
Primeiro, e obstinadamente contra a luz do Sol que realça as sombras e os símbolos de uma modernidade obsessiva pelo arrojo e pelo lazer...





...e depois, com o Sol vencido pelas nuvens carregadas de ventos vindos do Ocidente, procurando compor, peça por peça, os pedaços de sombra que antecipam o regresso à outra margem, uma espécie de ponte entre o tempo e o depois do tempo



sexta-feira, 9 de setembro de 2016

The journey - moving forward

Quinhentos dias é muito tempo your new (other) homeland . É um grande projeto.
Agora que estás em modo almost back e que te tornaste um artista, um homem do mundo e um especialista em centralidade mereces ser referência no Time Out Parede, como a revelação do ano (e meio).
Não, não te preocupes, não vou fazer História.
Não te vou lembrar que foste bicampeão em Londres, campeão da Europa na América, que te juntaste ao aniversário da Rainha e aos sessenta e um por cento de londrinos que não aderiu ao "brexit".
Não, não te vou recordar que sobreviveste a dois carnavais em Notting Hill e a uma montanha russa no Hyde Park, a tempestades de Inverno e a expedições nos subúrbios em manhãs de folgas sem dormir
Enfim, as recordações fazem parte do maior projeto de todos: viver!
Hoje, o que queria mesmo, era enviar-te o teu top ten de imagens do mês e achei que o wetransfer não era suficientemente bom para ti.
Uma sequência de dez imagens, todas na oblíqua - recorda-te sempre que um projeto tem de ser coerente, do ponto de vista estético e técnico - um significado inequívoco de movimento, determinação e vontade de construir.
E este pequeno projeto não tem título mas tem a alma de um jovem (e olha que não sou eu) que olha para o seu mundo e pensa (em voz alta):
"Always moving forward"


#1 - In the corner of the world



# 2 - walking high



#3 - Falling deep



#4 - Crowdfunding



#5 - useless red



#6 - colorful legs



#7 - diving in the mirror



#8 - floating hat



#9 - missing head



#10 - Growing fast
  


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Não há regimes perfeitos - parte 2


Melhoraram as previsões meteorológicas, sempre acompanhadas de ameaças de agravamento do estado do tempo. Incomodam-me estas alternâncias húmidas do tempo.
Já não chove no Braço de Prata, esboça-se uma espécie de claridade em Belém. A Junta de Freguesia faz a festa sozinha no paredão, o som é de Carnaval tardio.
Recordo-me do abandono e do desleixo perante (a exposição do) trabalho e a sofisticação perante a anarquia, quiçá a miséria.
E no soberbo espaço da central elétrica, manifestação de um confortável mecenato às artes de vanguarda, volta a desfilar a galeria de horrores, debaixo dos holofotes de luz precisa e de um enquadramento formidável.
A eletricidade como Santo Graal
Todos os anos a fila se repete e os premiados se esforçam por dar voz aos refugiados, às vítimas inocentes da guerra, aos deserdados da poluição e da fome, aos objetos de regimes abjetos.
Mas o silêncio é sempre maior, todos os anos que passam. Progressivamente, à medida que terminam as imagens de desporto e natureza, os transeuntes remetem-se à escuridão e ao isolamento perante a multidão que circunda as imagens da atualidade.
(e não consigo deixar de pensar, mesmo que apenas por um breve instante que não consigo agarrar, se a reportagem descreve, alerta ou forma a realidade)
E, mais uma vez, a anarquia é proporcional ao protagonismo, a violência das imagens contrasta com uma meditação à meia-luz, aquelas sombras que anestesiam os efeitos de um mundo descontrolado.
Imagens poderosas de um futuro inebriado por um novo ciclo de extremismos.
Porém, fotografar refugiados com água pela cintura (o fotógrafo) também poderá ser obsceno?
Especialmente porque se trata de uma competição, de um prémio e de múltiplas carreiras.
No espaço arejado da antiga central elétrica, alternância tem outro significado. Não deixo de pensar como o pós industrial pode ser mais sedutor do que a realidade.
Mas nem por isso desisto de um sofisticado café de máquina, de um olhar seduzido para o movimento no rio, para a ponte que liga as duas margens e para os aviões que se deslumbram na aproximação à cidade (na melhor aproximação à cidade, do mundo)



E o Sol luta contra as ameaças de agravamento do estado do tempo.
E eu refugio-me em paisagens interiores, e sobretudo nos interiores da História, especialmente depois deste cru confronto com a atualidade, agora que o tempo vai piorar e a Junta desiste da festa porque o vento Sul ameaça romper as bandeiras
E inverter a aproximação dos aviões à melhor aproximação de cidade do mundo.
E voltamos aos armazéns desolados das traseiras da avenida da índia, aos becos estreitos dos bairros esquecidos pela marginal, para encontrar as memórias – tal como o trabalho, para os lados do braço de prata.
Não posso deixar de me repetir que a sofisticação é um universo (cada vez mais) exclusivo ( de divulgação) da anarquia e da miséria humana
E que o outro nós se revê na simplicidade.



Desprovida
Deserta
(Levemente) Desolada.
Não havia filas nas paisagens interiores (de Maputo que já foi Lourenço Marques)
Ninguém.
Mas a imagem do cinema teatro de Lourenço Marques é demasiado familiar, mesmo para quem nunca esteve em África, como se já tivéssemos vivido tempo suficiente para fazermos parte dos últimos capítulos dos compêndios de História Moderna (e eventualmente Contemporânea)
…As paisagens levam-nos…a uma viagem interior…a banalidade da ação contrasta com um passado que evoca emoções por quem lá passou…contraste entre o distanciamento e a proximidade
Não será contraste, será dicotomia.
Nas paisagens interiores não havia pessoas, e isto era uma garantia, para já, de que não havia anarquia nem miséria, apenas esquecimento.
Na parede e na sala.
Na cronologia da história de que me recordo, o esquecimento precede a loucura.

Bom, em tese!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Não há regimes perfeitos - parte 1



Em Braço de Prata, chovia copiosamente no recinto da fábrica e os muros desfaziam-se de areia amarela com as investidas de água furiosa.
Só o Vhils me olhava fixamente por detrás do vidro infestado de gotas de água que cresciam como uma epidemia incontrolável.
De água, lama, cinzento, caminhos afundados em mares revoltos, terrenos abandonados à tempestade a uma profunda crise de identidade.
Só Vhils me olhava fixamente, a forte personalidade do muro frontal enfrentava a erva que crescia como uma barba verde que o envolvia mas que lhe preservava a essência.
Vi muitas imagens que chapinhavam nos lagos circundantes, sempre acreditei que a chuva era um manancial de imagens, mas era eu próprio que me afogava sem orientação porque as quedas de água impediam que eu voltasse às margens.
Perdi a inauguração mas não a exposição que jazia agora entre aguarelas e pincéis, entre risos e gritos de crianças que desafiavam o teatro de marionetes, um eco persistente de gotas de chuva que pingavam nos baldes sem cor, espalhados nos corredores de mosaico antigo, um mosaico de fábrica, portas de madeira com vidros quadrados e maçanetas metálicas, portas de fábrica, vidros de fábrica e claraboias que ampliariam o sol mas ameaçavam de chuva, no soalho de madeira gasta que resiste nas salas com nomes mas sem portas (espaços que não se reclamam seus)


Atravessei o espaço silencioso, uma vez e outra ainda, para ter a certeza de ser notado, porque não há pior associação do que ser clandestino num dia de tempestade e num local fantasmagórico.
Não fossem os risos das crianças que, afinal de contas, nunca apareceram, nem elas nem as marionetas.
Mas o café era real e as madeiras do balcão eram de um tempo novo, inspiravam conforto por detrás das vidraças que (só podiam estar) que se deixavam embaciar, primeiro nas pontas, depois sobre as laterais absolutamente simétricas das pequenas vidraças quadradas, e afinal havia alguém que lia um livro sob a janela e de bule de chá no centro de mesa.
E voltei a percorrer os lagos circundantes e as quedas de água que eliminavam a identidade dos terrenos da fábrica e, encharcado na pele e na alma, deixei o Vihls partir.
(Atravessei a cidade que era apenas um manto de água que me cobria e me arrastava, estrada fora)
Chovia copiosamente, e eu lembrava-me que o tempo continuava instável , enquanto os para-brisas se esfregavam ruidosamente na minha frente e no vidro encharcado, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, soando a uma enlameada alternância de poder.


E atravessei as Amoreiras na direção de Campo de Ourique.
No bairro dos vizinhos e das mercearias, as árvores extravagantes da rua do elétrico serviam de cortina ao céu cinzento e reduziam o branco da calçada portuguesa a um véu encardido que afogava os restos da luz do dia.
Do lado de dentro da montra, as paredes estavam pintadas de cores fortes, a iluminação era cuidada e pontual e nas paredes, cuidadosamente espaçadas, brilhavam as imagens de uma cor inconfundível, em contraste com a tarde escura, a luz mágica dos finais de dia indianos.
Do lado de dentro da montra, as vinte imagens de grande formato, do fotógrafo da jovem afegã, dos gurus sábios, das cidades azuis, dos rios sagrados, dos comboios mágicos, das multidões de olhos muito abertos, das poeiras alaranjadas.
Para lá do vidro, num silêncio equívoco, num ambiente quase asséptico, havia vinte janelas insonorizadas viradas para a maior anarquia do mundo, desenhadas por um tal de McCurry.
Recordo-me particularmente daquelas duas imagens de um metro e sessenta por um metro, um amanhecer glorioso e aéreo da estação ferroviária de Agra e a mulher e o filho por detrás do vidro embaciado do automóvel, a mulher de mão estendida e o menino de olhos muito abertos, apostando também eles que poderiam viver da caridade na sobrelotada Mumbai.
Chovia a potes lá fora, lá fora na rua do elétrico em Campo de Ourique, lá fora na janela da galeria silenciosa e asséptica.  Desviei o meu olhar extasiado e estarrecido da imagem e espreitei, entre um corredor de imagens, para a rua esperando ver a mulher a espreitar para a galeria, vinda detrás das árvores, pisando o véu encardido que afogava os restos da luz do dia.
Mas ela não estava lá.

Estranho o silêncio que emanava da sala perante tanta intensidade, como se a maioria do desespero tivesse saltado do quadro para o chão alcatifado da galeria das paredes amarelas.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Photografia

Parece recorrente a atração do contemporâneo pelo abandono e pela ruína, pela exclusão e pela desventura...de tal forma ostensivo que até altera a nossa perceção dos espaços comuns... (in Centro Português de Fotografia, Porto)



Madrid Off
 www.mostraespanha2015.com 


muda-nos a perspetiva da cadeia da relação...



a imagem enquanto expressão social...



e volta a mudar-nos a perspetiva dos espaços de liberdade...



como se pretendêssemos realçar o peso do abandono e das injustiças...à entrada de um espaço que já foi prisão! 

domingo, 27 de setembro de 2015

NB Photo


A Ângela inverteu o acessório (o explicativo) com o principal, e foi através do vídeo que tornou clara a sequência de fotografias que acentua a monotonia.
O vídeo explicou a diferença de estados entre a metrópole cinzenta e esquecida e o ultramar vibrante e explosivo, onde em cada ensaio emergia uma inevitável dicotomia entre ocupantes e autóctones. A etnologia, uma visão cientifica e independente que se tornou, como se fosse por acaso, numa mensagem política. O vídeo e a fotografia em estados contrastantes. Depois de ver o vídeo, então percebemos tudo.
De uma simplicidade quase genial.
Por isso, provavelmente a Ângela ganhou!
E não resistimos em juntar a Ângela, o Edson e o Ayrson (magnifica instalação) numa composição única.
Afinal de contas, a arte é, antes de mais, conceptual.




“o júri tomou uma decisão difícil, mas unânime, após longa deliberação, tendo em conta a qualidade do trabalho de cada um dos artistas apresentado nesta exposição coerente e intensa. 
Uma visita à exposição realça os aspetos deste forte e brilhante grupo de artistas. O trabalho de Edson Chagas traz uma nova dimensão ao minimalismo, tal como este é concebido no Ocidente, ao contextualizar os objetos no espaço e no tempo do pós-colonialismo, afastando-se de uma abordagem altamente formalista e estetizada.

As suas fotografias, com diferentes dimensões, apresentam uma ligação subtil conseguida através da linha de horizonte que se move de uma fotografia para a outra, enquanto um filme projetado reflete as fotografias, trazendo um elemento repetitivo de corrida e deslocação contínua de uma figura humana entre uma extremidade e a outra do ecrã, com uma banda sonora que ecoa a vida noturna e as ondas do mar, pontuada por um ritmo semelhante ao batimento de um coração, que dá vida ao horizonte onde, de outro modo, a figura humana é esmagada pelo espaço. A escolha do artista em fotografar o espaço no momento de silêncio, um espaço que, de outro modo, está cheio de movimento e atividade dos flâneurs e dos voyeurs, dos ébrios e dos amantes.

Passando para o trabalho conceptual e altamente ritualizado de Ayrson Heráclito, somos confrontados com uma performance representada numa instalação fotográfica de um conjunto de dípticos na forma de duas formulações em L invertido. De novo, as fotografias ecoam as semelhanças entre dois entrepostos esclavagistas transatlânticos, onde o artista exorcisou uma história impregnada do legado de violência infligido ao corpo negro no contexto do comércio de escravos transatlântico. Os vídeos ressoam entre si ao apresentar um registo ou representando o exorcismo através de um sistema de crenças africano ou da diáspora africana. Heráclito traz-nos um trabalho novo onde a esfera privada é representada como política, e onde a performance ritual é realizada com um sentido de responsabilidade não só para com a história, mas para com uma epistemologia onde o artista agirá como um sujeito e um objeto, com o ritual a misturar-se com o conceptual.

No contexto do trabalho da exposição, o júri foi unânime na atribuição do prémio Novo Banco Photo 2015 a Ângela Ferreira pela sua peça A Tendency to Forget (2015) concebida para a presente exposição, uma instalação multimédia inquisitiva e baseada em investigação que reúne a fotografia, arquitetura, escultura e imagem em movimento, pontuada por imagens de arquivo históricas num trabalho altamente sensibilizado que desafia a nossa perceção do passado e nos confronta com os fantasmas do contexto colonial e pós-colonial. O trabalho recorda-nos o lado mais sombrio da modernidade, à medida que desvela o lado oculto dos arquivos onde a artista joga com a tensão entre o visível e o invisível, entre a presença e a ausência, e com o inquietante. Podemos ver a leitura dos espaços como textos políticos através da revelação da cumplicidade entre a antropologia e o colonialismo, entre o poder e a produção de conhecimento que toma a forma de uma instalação escultórica minimalista que nos move de um modo invertido para minar metaforicamente o arquivo”.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Algarve Impressionista + 30º

Às voltas com a história da fotografia...
O Algarve Impressionista constrói-se de arrastamentos, sombras e movimentos, cor e luz experimentalista, grandes planos simbólicos e fundos suaves.
Como se o calor distorcesse qualquer perceção realista.
Olhar para...em vez de através de...