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sábado, 11 de julho de 2026

Os cães do Cáucaso não choram

 


Os cães do Cáucaso têm direito à sua existência, mas não propriamente a uma existência feliz. Deambulam pelas ruas ou pelos campos, são geralmente alimentados por onde passam, mas não são objeto de grandes intimidades por parte dos humanos, nem de ter estatuto de animal doméstico, com pelo tratado e passeios higiénicos de trela em riste.
Tão livres como vadios, num trote desordenado e não treinado, mas normalmente com muito bom feitio e amigos de quem se ri para eles.
E, da mesma forma que não conhecemos nenhum cão doméstico, também não vimos nenhum cão chorar, dentro das fronteiras do Cáucaso.
Também em Borjoni eles por lá andavam, mas, nas termas que curaram os czares e os privilegiados da república soviética, até eles tinham um ar mais nobre, sempre de cauda levantada, uma espécie de radar para qualquer donut acabado de fritar que se pudesse escapulir nas mãos de uma criança.
Mas em Borjoni, uma Geórgia indolente passeia-se rua acima, rio abaixo, enchem-se garrafões de cinco litros de águas quentes e sulfurosas e divide-se o tempo entre as barracas de feira, os desafios com super-heróis, a roda gigante do parque de diversões e a palete oficial de souvenirs de pendor nacionalista, mas há também uma multidão de velhinhos sentados, à espera, no banco de jardim.
Este é o último oásis antes da grande planície georgiana e, nos grandes espaços, parecem querer libertar-se os fantasmas da história 
Em Ergneti, a fronteira não reconhecida corta a estrada, mas, para lá do sinal stop, só há silêncio porque a Ossétia do Sul é um vulcão adormecido, e para lá do posto de controle vivem cinquenta mil ossetos protegidos [ou ocupados?] pelos russos, menos os trinta mil Georgios expulsos para o lado de cá, na guerra dos cinco dias, e já passaram dezoito anos de fronteiras fechadas e de terras proibidas



No Cáucaso, assim como nas ruínas do domínio soviético nos Balcãs, permanecem estas peças de puzzle por completar, de todos os povos que viveram e migraram no império dos sovietes e, tal como a quase ténue fronteira entre o ódio e a saudade, também nestas terras de ninguém e dos equívocos, há vontades de minorias que despertam anseios e provocam o desassossego, mas as minorias acabam sempre por ter de  servir os velhos amos, a bem dos interesses da maioria [ou de quem manda]
Na casa de Lia, a duzentos metros da fronteira separatista, ela construiu o seu museu da [s suas memórias] onde expõe todos os estilhaços recuperados do conflito fronteiriço de 2018, e recebe-nos no seu quintal, de pijama e pantufas, sem filtros, tal como os bombardeamentos dos russos, o rapto dos familiares e um momento em que a história da Geórgia ia, mais uma vez, ser interrompida, tivessem os tanques avançado na planície para sul.
Ficaram às portas de Ergneti, mas lançaram a sombra sobre um país que ainda não sabe se pode ousar definir o seu destino e Lia foi acordando do seu torpor numa hora seguida de memórias em catadupa. 
Claro que há sempre duas versões para qualquer conflito, e nem a história dos brincos de Elsa e do amor que sobreviveu às armas, consegue esconder o facto da Geórgia ter antes bombardeado o enclave e a convicção de Lia de que os ossetas são estrangeiros que emigraram da Pérsia para a Geórgia e, logo, isso não lhes dá direito a ter uma pátria.
Há assim quem insista que pode haver duas versões da mesma história, mas os ursos vivem, definitivamente, no Norte.
Regressamos à estrada de fronteira pelo caminho de terra e buracos do quintal da Lia, com vista para uma miragem, tal como os brincos de Elsa, um sinónimo da separação das pessoas.
Eventualmente para sempre.


Meia hora na direção do Sul, na planície da Geórgia vive Gori, a cidade de José Estaline e, no parque central da cidade, ainda vive a casa onde nasceu, o comboio blindado do grande líder e um palácio que cheira a glória decrepita que se espalha pelos salões da memória onde cada quadro, imagem,  figura ou tapeçaria com a imagem de Stalin, ainda provoca arrepios [não sabemos se o devemos apelidar de líder porque nem verdadeiramente Lenine acreditava nisso] tal como a sombra de José ofusca qualquer vestígio de vontade própria desta urbe.
Porque que carga ainda há um museu de Estaline que sequestra uma cidade inteira, tantos anos depois do colapso do regime e muito tempo depois dele próprio ter sido prescrito?
 Mas a mesma e imutável guia de sempre  [segundo P, que a conhece bem] do museu, baixinha de cabelo muito preto escorrido em forma de colher e cara muito branca, será  da base ou das origens caucásias, não concede muito espaço  nem a sorrisos nem a perguntas e debita o que foi definido pela curadoria sobre cada linha cronológica da vida do homem e da sua tomada do poder deste soviético maquiavel e, sem inflexões nem tremores, recorda, na sala e na imagem exata da linha cronológica dos anos trinta, com a sua voz estridente e uma pronúncia exótica, uma enorme fotografia granulada de miséria camponesa, que José foi o responsável  pela morte de  fome de três milhões de ucranianos.
Afinal não é saudosismo, parece que os georgianos preferem deixar as memórias à flor da pele, no jardim central de Gori, apesar de nunca termos percebido se o aparatoso museu era uma lição de saudade ou de história. 
Se calhar um vilão pop, e assim se moderniza o cheiro a mofo.
Foi com alívio que chegámos à beira do rio, em Mtskheta e, na capital espiritual e religiosa da ortodoxia da Geórgia, a cidade vestia-se de um fim de tarde ameno e, dentro da catedral da cidade, os crentes rezavam enquanto, dentro das muralhas os miúdos recuperavam o terreiro aos turistas fugidos da noite.
A menos de cinquenta quilómetros das feridas da história, e à volta da mesa com um copo de vinho na mão e uma brisa vinda do rio, até nos parece que a planície da Geórgia nasceu sempre de finais felizes.



sexta-feira, 10 de julho de 2026

Monges do Silêncio

 

Quando o camião começou a trepar montes acima nós, cá atrás na caixa aberta, escorregávamos nos fardos de palha que nos picavam as extremidades e cediam ao peso da meia idade, e o camião roncava, resoluto, pelo caminho de terra que espreitava o precipício, curvas que se sobrepunham porque o monte era alto e distante e o P garantia que, desde que tinham reformado o camião soviético, [agora substituído por uma Mercedes] a viagem parecia outra, mais suave e mais determinada " para aí metade do tempo".
E, no monte, habitavam as ruínas da aldeia da família de Petro, o nosso anfitrião, ele e Maryna, os donos da guesthouse de Vardzia, ela cozinheira e tudo o mais a que o alojamento obriga, ele uma mais pálida encarnação mitológica de um mestre de cerimónias com um técnico de bricolage, sem fato próprio nem cara alegre [quanto muito, com subtis sorrisos, às vezes]
No cimo do monte vivia um verde intenso de uma primavera tardia que avançava, a cada estação, sobre as ruínas das casas de pedra que resistiam penosamente, à distância do vale e da civilização e aos invernos que vestiam a paisagem de branco.
E o Petro pareceu que se comovia quando nos conduzia pelas ortigas fora até à casa da sua mãe, e nós entrámos, por educação e com receio, sobre um piso de terra batida que nos humedecia os pés, encolhidos debaixo de um telhado arruinado de barrotes de madeira, vergados pelo peso das telhas e da terra que costumava servir de isolamento quando as temperaturas desciam a menos vinte.
Só ele conseguia discernir a cozinha e o fogão de lenha, o quarto em que dormia e a sala em que jantava, mas nós encorajávamos o seu regresso ao passado com atenção e com perguntas e um de nós notava que Petro se tornara quase sorridente e até ousado, e partilhava connosco o desejo de reconstruir a casa que a mãe tinha abandonado após a ultima grande guerra.
Enquanto na capital procuravam renascer os movimentos nacionalistas, duramente reprimidos pelo pior dos ursos do norte, em Vardzia as populações aproximavam-se do mundo para sobreviver ao esquecimento. 
Mas no alto dos montes, a igreja está em pé, tal como a fé em São Jorge, um interior de ícones, símbolos e velas acesas, o que prova que todos os dias alguém sobe os montes, a mais de meia horas de curvas a subir, para manter a fé na lembrança e alguém nos lembrou que o santo aqui se venera duas vezes por ano, como em qualquer outro lado do mundo.



Enquanto descíamos a pé e circundávamos um castelo em ruinas, uma prova de que há muito tempo que o vale é refém das ambições expansionistas de exércitos externos [ e a lista é longa desde os bizantinos, persas, árabes, mongóis, outra vez persas, otomanos e russos, para nomear apenas os mais notáveis, entendendo notáveis apenas como os mais reconhecidos, sem juízos de valor] e, enquanto nos procurávamos equilibrar entre pedras rolantes e curvas traiçoeiras, dividíamos a reduzida atenção sobrante entre as memórias do Petro e a natureza distintiva dos povos do Cáucaso de hoje.
É que, por aqui,  quando acreditamos ter encontrado um mínimo múltiplo comum com as nossas realidades conhecidas, o quotidiano destrói-nos as convicções prévias porque quanto mais nos aproximamos da Rússia mais difícil se torna perceber a complexa teia de amizades, cumplicidades e traições que povoam os territórios do antigo império, por aqui a saudade e o ódio servem-se em doses iguais, parecem as duas faces de uma só moeda como se fossem sentimentos gémeos à beira de um fratricídio anunciado [ainda sem criminoso definido]
Esta imagem apareceu tão nítida na minha nuvem pessoal que escorreguei numa pedra solta e quase mergulhei no vazio em direção ao rio.
Recompus-me, mas a descida parecia infinita e o rio ainda estava longe, revolto, mas longe.
Continuam a falar entre eles em russo, a maioria do povo não estereotipado não (se) reconhece (n)o inglês como o esperanto do mundo civilizado, professam uma fé católica [apostólica na Arménia e ortodoxa na Geórgia] que foi o cimento da identidade própria dos povos do Cáucaso, primeiro contra o predomínio muçulmano do sul [e do este e do oeste] e mais tarde contra o grande urso ateu do norte mas que hoje parece condescendente com o grande leste autocrata de uma fé que se professa de baioneta em punho.
Não me interpretem mal, começo a suar mas não é febre, porque a brisa fresca só chegaria mais tarde, quando o caminho se aproxima do rio.
Há uma coincidência de feitios no mau álcool de vodka ou vinho artesanais ou no temperamento colérico sexista e violento, mas as cerimónias religiosas dos povos do Cáucaso são intensas, familiares e [diria mesmo] plenas de sinais identitários distintos dos rituais eslavos [no interior das igrejas e dos mosteiros sentimos um povo em paz interior]
E, sem resposta definitiva, atingimos a brisa do rio.
A todo o momento uma nova realidade parece querer destruir todas as teorias de generalização das origens e do presente do Cáucaso 
Mas o carácter distinto dos alfabetos do Cáucaso cristão, acalma a nossa ansiedade e quando, a pé e ao longo do rio, chegamos à cidade escavada na pedra, entendemos finalmente que existe uma herança Geórgia, independente da vontade dos seus múltiplos invasores.
Construída no século doze, durante o reinado Rei George, foi um próspero centro cultural, político e religioso. O complexo inclui uma rede de cavernas, tuneis subterrâneos e camaras esculpidas na face da montanha, e foi construída como um refúgio para os georgianos dos invasores mongóis, tendo sido habitadas até ao seculo catorze.
Chegados a igreja da Dormicão de Maria, esperam-nos os monges em voto de silêncio e caras fechadas e as pinturas que retratam, não apenas cenas religiosas, mas também  o rei George III e a sua filha Tamara, responsáveis pela edificação do mosteiro.
No seculo doze, a era dourada da monarquia medieval georgiana, em parte governada por uma mulher.
E ainda hoje, são as mulheres que sorriem mais e é nos seus olhos que vemos o espelho da identidade do Cáucaso, cujo brilho nem o banho na bacia dos detritos da fabrica de CO2 apagou [ ao parece uma identidade química que não costuma matar ninguém]
No fim da noite o anfitrião, entre brindes cada vez intensos e indecifráveis, cantava uma balada de sons persas, com a mesma convicção com que Anne e a sua filha cantaram para nós, uns dias antes, a canção nacional Arménia de sons celtas.






quinta-feira, 9 de julho de 2026

O sonho Arménio

 


Os habitantes da aldeia mais ou menos imaginária de Narite, davam especial importância aos sonhos. Contavam-nos uns aos outros, tentando adivinhar o sentido secreto que neles se escondia.
Averiguavam obrigatoriamente o dia da semana; se fosse Domingo, não havia razões para preocupações porque o sonho domingueiro é oco, não promete nem vaticina nada. Mas é preciso guardar na memória tudo o que vimos em sonho na noite de terça para quarta-feira porque, precisamente na quarta, entre o primeiro e segundo canto do galo, os sonhos trazem presságios.
Nós acordámos na manhã de terça-feira com os pés no lago Sevan, aliviados porque na próxima noite já teremos passado e fronteira para a Geórgia e assim, longe da aldeia da Arménia, os sonhos já não trazem presságios, culpa dos galos que não cantam ou porque, longe daqui, não conseguimos lembrar-nos dos sonhos, sequer.
Nem dos sonhos nem das lendas.
Segundo a lenda, no lugar do lago Sevan, havia uma fonte no pomar onde os habitantes locais iam buscar água e sempre lhes era recomendado que fechassem a torneira da fonte.
Um dia, uma jovem distraiu-se e deixou a torneira aberta, inundou o pomar transformando-o no lago. O ancião da aldeia ficou irado e transformou-a numa pedra que agora está plantada no meio do lago Sevan.
Afinal ainda há lendas de que nos vamos lembrar.
Pelo monte acima e com o lago nas costas, a maioria das casas de Dilijan são pintadas de azul-claro e, como são de madeira, não assustam a floresta e Jan significa querido e esta estância termal que curou o politburo durante décadas é, afinal de contas, o querido Dili.
Nas florestas de Dilijan, os antigos mosteiros entregam-se, em ruínas, à natureza que conquista o seu espaço natural, reduzindo a fé cristã à longínqua memória peregrina, mas no Mosteiro de  São Mateus, afinal há vestígios recentes de uma fé incontida nas sombras do mosteiro escondido na floresta, e nós arrastamo-nos pela lama acima, porque a chuva da noite anterior tinha tornado escorregadios os caminhos da crença.


Agora que seguíamos na estrada para a fronteira da Geórgia e a altitude transformava a paisagem em estepe fria, despida e desabitada voltava e lembrar-me das palavras, quase despeitadas, do camarada exilado Vassili "a primeira coisa que vi ao chegar foi pedra" não, não é verdade, meu caro Vassili, e "quando me vim embora trouxe comigo a imagem da pedra" estavas definitivamente deprimido Vassili porque "então parece-me que é o azul do Sevan, os pomares de pessegueiros e as vinhas do vale Ararat, para além da pedra que exprimem o carácter e a alma da terra Arménia porque apenas alguns traços exprimem com maior plenitude o carácter e a alma de um povo " [reinventei- me a mim e à Arménia na negação das palavras do escritor].
E, a cerca de dois mil metros de altura, a Arménia abraça a Geórgia numa fronteira tranquila, não fosse a Geórgia a retaguarda das inquietações arménias e, subitamente, a chuva intensa parou.
Há fronteiras que fervem de agitação porque são o centro de um mundo inteiro que anseia passar mas em Akhalkalaki, uns quilômetros no interior da Geórgia, a casa de câmbios reage com indolência à nossa chegada, um guichet para o interior da loja e outro para a rua, mas não há forasteiros na rua nem uma vontade dos locais em transacionar a moeda local.
Passadas as nossas armas e bagagens, balbuciamos "Georgia on my mind" e o arco iris nasceu na nossa retaguarda, com uma nostalgia muito própria de um povo de exílio e de uma  diáspora imensa.
E lembrei-me do velho Aleksei, um homem simples que vivia desterrado nas aldeias do leste, nas montanhas e no inverno nevado que há décadas tinha saltado das páginas do livro de história para a vida real e falava, com amargura, das pessoas não seguirem a lei principal da vida, a compaixão
E nem os brindes Georgios, uma cascata de vinho e vodka na noite de Vardzia, nos fez esquecer a essência do sofrimento da Arménia, em hora de despedida.



Caravensarai de Selin

 


De manhã, a fronteira e os seus fantasmas foram deixados para trás pela nossa sensibilidade cristã, mas a nossa confiança nos guardiões da arca de Noé parecia-nos ilimitada, agora que tínhamos partilhado com os soldados arménios da fronteira um guisado de carne e um copo de vodka no piquenique junto às cataratas Shaki.
Na vontade de cruzarem as suas próprias fronteiras, transportavam uma enternecedora timidez, carregada de olhares furtivos, sempre a aguardar a primeira mão, para o primeiro brinde, uma alusão verdadeira ao espírito de fraternidade entre os homens.
E depois chamaram-me de arménio enquanto brindavam à paz e à amizade entre os povos e o rio revolto (no Cáucaso todos os rios são revoltos) amortecia o som dos copos a chocar no ar enquanto, no cimo da escadaria, o veterano de guerra e o seu cão, elogiava o meu Panamá Afegão, eu tenho um igual , e o seu cão preto, educado e imperial, abanava a cauda de focinho espetado sob os restos dos piqueniques, do nosso ou dos arménios, conforme a direção dos fumos e dos aromas.
Memórias que já se transformaram em lendas.
Enquanto deixávamos a aldeia de David Tek, recordávamos a família de Anne e as palavras de Narine Abgaryan, uma escritora Arménia no seu livro "E três maçãs caíram do céu” que nos explicava que cada linhagem da sua aldeia imaginaria tinha a sua alcunha. Na maioria dos casos era cómica e engraçada, às vezes irónica, mas havia, embora raramente, as muito ofensivas. A alcunha da linhagem estava em conformidade com o comportamento da pessoa, boa ou indecente, e depois o apelido era herdado pelos descendentes.
Anne e Armen teriam certamente direito a uma alcunha muito lisonjeira, demasiado lisonjeira para a minha fraca memória.
Saltamos, alternadamente, para o desfiladeiro do Diabo e depois para o grande Mirador, e assim se fez a nossa despedida da província de Suyin sempre  a subir, na direção dos 2 500 metros e do Caravansarai de Selin , um exemplar ainda conservado de estalagem do período tardio da rota da seda, mesmo que, em pleno seculo treze de invasões mongóis, pareça pouco credível que por ali tenham passado caravanas vindas do oriente.
Também em memória da rota da seda, proliferam as lendas pouco verosímeis que atravessam os lugares mais remotos da Ásia Central.
A chuva gelada de junho tardio, empurrou o nosso piquenique para as abóbodas geladas da estalagem medieval e, por momentos [breves de uma fraqueza súbita] desejamos voltar ao século doze porque, segundo K, haveria fogueiras ao longo do centro da galeria e, hoje só havia escuridão e frio eternos.


Lá fora, assobiava o vento que não era, contudo, suficiente para apagar os vapores de álcool dos seres de um terrestre diferente, os descendentes do abominável Homem das neves (eternas).
O mau álcool não é apenas uma lenda dos homens do Cáucaso, parece ser uma herança viva do seu passado.
A Clarence, uma motard francesa de porte impressionante e pouco impressionada com a rudeza efusiva dos homens locais , retida acidentalmente no alto da montanha por um equivoco linguístico, aproveitou a nossa chegada para se libertar dos vapores de uma hospitalidade insistente, homens que bebem álcool artesanal sobre o capot de um emplastro de quadro rodas, saltar para cima da mota e deixar o lenço para trás, como se quisesse assegurar-se de que eles não lhe seguiriam o rasto nem a sua liberdade.
A Clarence, desconfia deles, mas sabe reconhecer quem lhe fala em francês (eu tentava explicar a K o nome dela, e ela ouviu)
Eles asseguram a K que não tinham a certeza se a Clarence era uma mulher e não lhes passava pela cabeça dar-lhes boleia para o lago Sevan.
E falaram em arménio, sem risco de se perderem na tradução.
Mas a francesa já não nos ouvia, é para isso que as motos servem.
E, desfeitos os equívocos e os restos da merenda, planamos sobre o lago Sevan, ao mesmo ritmo da tempestade e do céu negro de trovoada e de pressentimentos que se escondiam atrás das montanhas.
Deixamos para trás as neves eternas, guardámos o lenço da Clarence e reencontramos a alma antiga dos primórdios do cristianismo na Arménia nas cruzes de pedra celtas (outra vez uma herança das cumplicidades cruzadas) do cemitério aos pés do lago onde, nos túmulos do presente, a fotografia do morto e o espaço vazio com o nome da mulher viva nos asseguravam que, na Arménia, o casamento é a para toda a vida e para a eternidade.
À noite, no restaurante sobre o lago, comíamos truta grelhada enquanto escutávamos a voz do arménio Demis Russos, cercados de madeiras pesadas da velha ordem, de um serviço muito demorado e de uma grande indiferença dos locais.
Enquanto suspirávamos pelo vinho branco de casta superior que, já hoje, tínhamos provado na quinta dos queijos salgados, à beira da água doce.
Mas, a dois mil metros de altitude, jaz o mar da Arménia 



terça-feira, 7 de julho de 2026

Terras de Fronteira


 Davit Tek foi um herói Arménio do seculo dezoito, um combatente que organizou a resistência contra os invasores persas em diversas fortificações da Arménia oriental.
Mas, tal como na história da sua nação, os heróis da Arménia não são  admirados pelas suas vitorias mas principalmente pela sua perseverança e valentia. 
David Tek é uma aldeia do sul da Arménia, uma península agora incrustada nas novas fronteiras do Azerbaijão, onde outrora viviam mais de cem mil arménios no enclave de Nagorno Karabah.
Em Davit Tek não vivem mais do que setecentos habitantes, porque muitos partiram com a tomada do enclave arménio pelas tropas azeris que lhes cortou a estrada para Goris e aumentou o tempo de viagem para o norte e para a capital em mais de duas horas.
" As ervas cresceram muito nos últimos anos, porque já não há animais a pastar nas encostas" exclama Davit, o filho agricultor da família da Anne, encolhendo os ombros e levantando os braços para o céu, porque ele não quer partir, pelos seus animais e pelo seu pomar.
Em Davit Bek, nasceu Aram Manukyan um ilustre arménio que, durante o extermínio de 1915 ajudou milhares de refugiados e recolheu órfãos vindos de todas as geografias do exilio.
Hoje, na aldeia de Davit Bek, cercada por fronteiras hostis, restam as casernas dos soldados da fronteira, os novos bunkers em construção nos topos dos montes que se cruzam no olhar porque só para ocidente existem terras da mãe Arménia, a poluição do lago com minerais das minas e o contraste entre o verde espalhado pela natureza e o lixo empilhado  nos cursos de água por uma população em suspenso.
A espera da paz ou da guerra, certamente que nem eles sabem bem.
Em Kapan, a capital da província, há uma confrontação de bandeiras na encosta e apenas a bandeira russa os abandonou, uma mediação de conflitos tão venenosa quanto a mineração selvagem de cobre, alumínio e tungsténio a que destinaram a cidade nas últimas décadas.




Em Kapan, sente-se a efemeridade das fronteiras e percebe-se a volatilidade da alma e da independência Arménia, diante do que já perderam ou do que podem ainda perder, especialmente com a ambição azeri (de um novo corredor que pretende ligar o Azerbaijão ao seu enclave junto a fronteira da Turquia) que pode isolar os arménios do seu único vizinho cooperante, o Irão a sul, imagine-se!
Porque a pressão do espaço não protege o tempo da Arménia 
Mas na missa de domingo em Kapan, no dia de eleições em que se espera que ganhe o mesmo, aprendemos que um piquenique com os crentes é apenas um pretexto para juntar as pessoas e conversar e aprendemos também que, na Arménia, os padres casam-se às claras.
Aqui o tempo demora tempo, o tempo que demora a contornar as fronteiras desenhadas pelo poder das armas e das alianças, mas as gentes procuram um novo normal apesar desta Arménia da periferia ser um país de ruínas eternas que a pressa do urgente não permitiu ainda reconstruir.
Mas as empregadas do Panorama, um restaurante muito moderno à procura da reputação perdida, serviam à mesa de luvas brancas e a música nacional Arménia revelava influências celtas indiscutíveis, num surpreendente renascimento do espírito cruzado.
A cidade, sentida no seu amago, agarra-se às indulgências de um domingo nos parques da cidade, gelados e animação juvenil. indiferentes as ruínas da era industrial que os rodeiam enquanto a cidade, vista de cima, esgota-se na tranquilidade de uma tarde de verão e nenhum dos seus problemas nos pareceu, a esta distancia, irreversível.
E no final da noite, apesar da visita dos soldados à casa da Anne, intrigados pela nossa presença nesta aldeia ameaçada pela geopolítica, não houve mais surpresas e o partido do pequeno homem engravatado que faz corações com as mãos, ganhou outra vez



São Gregório, O Iluminador

 

Para o imaginário comum da nação, a igreja apostólica da Arménia é a guardiã da identidade nacional do povo e da nação e tudo parece ter começado com São Gregório, um príncipe parsa refugiado das invasões parsas, educado na Arménia ocidental, em Cília, e aprisionado pelo seu rei por procurar converter o reino pagão da Arménia oriental, qual vassalo do império persa.
Tiridates de seu nome.
E é verdade que, desde o destino do iluminador, que a fé e a igreja católica foram, em muitos momentos da história da Arménia, o único mínimo denominador comum capaz de identificar o povo, e daí o esforço de se distanciar de Roma e das igrejas ortodoxas de leste.
Porque afinal, a discussão centra-se em torno das duas naturezas de Cristo, o homem e o filho de Deus, sem confusões, sem alterações, sem separação nem divisões, assim sendo uma versão oriental do cristianismo e uma questão meramente semântica ou, como nos contava, ontem, o padre de Kapan, uma cisão identitária e nacionalista para unir e defender um povo que raramente foi independente e que, muitas vezes, foi um povo sem terra.
E porque todas as crenças precisam de provas, testemunhas, relíquias e locais de culto, mosteiro de Khor Virap é o santuário da fé cristã Arménia porque foi neste local que o iluminador foi preso pelo rei ( segundo consta por onze anos) e nós descemos ao poço onde o santo foi encarcerado, e espreitamos pelo buraco por onde uma viúva o terá alimentado e tudo é muito visual e por isso somos levados a tomar uma lenda por irrevogável e certamente o santo Gregório converteu o rei vingador porque o curou da sua raiva e o transformou no primeiro reino católico do mundo, logo nos primórdios do século quarto.
E logo um mosteiro que vive no vale fronteiro ao monte Ararat, abençoados pelo sagrado, e salvos do diluvio pelo Homem da arca.



E a rota dos mosteiros desce para sul (enquanto os seculos avançam para o futuro) para Tatev, um mosteiro do seculo nove que se constituiu, no auge da autonomia do reino da Arménia como universidade no seculo doze e terá sobrevivido, muitas vezes ferido, outras vezes isolado, às invasões da ambição e a evangelização muçulmana porque os inimigos procuravam destruir os mosteiros porque sabiam que estes representam a unidade da nação arménia
Assim reza a História da nova (e amputada) Arménia.
Hoje, em Tatev, os padres abençoam-te a alma e o corpo, duas mãos de pão cheio e uma mão cheia na cabeça dos crentes e há nestes locais de uma fé antiga, que preserva as ruínas como um local místico de reflexão (ou uma memória da resistência de uma frente cristã, na fronteira de territórios hostis), e os sinos derrubados pela natureza que serviam de livre-arbítrio entre a paz e a guerra porque chamavam os crentes e avisavam os soldados da chegada dos inimigos.
Nas asas de Tatev (diriam os ateus) mais do que viver uma fé profunda preservam-se os rituais da identidade nacional de um povo e de uma nação. 
Em Khor Virap, em Tatev, em Kapan as pessoas parecem, de facto, cuidar do ritual como se fosse um assunto identitário como se os rituais de fé apostólica fossem capazes de perpetuar a nação Arménia, mesmo depois da pátria extinta.
E quando o ateu comum se comove com a fé dos homens simples, (ou com o ritual da fé dos homens) converte-se a uma espécie de crença humanista que pode nascer dos homens, sem intervenção divina e que impede que nos transformemos numas feras.
E olhando do alto do mosteiro de Tatev para o vale profundo e para o silêncio da natureza em estado puro, sentimo-nos empoderados por uma espécie de crença que te dá asas, (como diriam os crentes profundos) e diz a lenda que o arquiteto do mosteiro se lançou no precipício e pediu asas a Deus.
Não me pareceu estranho ouvir um arquiteto afirmar, no seu último auto de fé, do alto do local que fora a última reserva do saber do auge da monarquia arménia, que agora lia a bíblia e que compreendia a sua sabedoria
Se tivesse vivido no sopé do monte Ararat, abençoado por Noé, o arquiteto talvez tivesse voado.






segunda-feira, 6 de julho de 2026

Bem Hajam


Acordamos nas águas-furtadas do hotel que nos tinha recebido estremunhado, na madrugada quente de Erevan e a luz de verão de uma manhã desprotegida de cortinas, despejou-nos o monte Ararat  pela cabeceira da nossa cama de uma noite demasiado curta para, sequer, sonhar.
Bom presságio, este, o de ter um quadro vivo do símbolo sagrado do povo arménio à nossa cabeceira a primeira imagem de um povo inteiro, logo pela manhã.
Lembramo-nos da chegada chuvosa e solitária do escritor herói russo, Vassili Grosman, no inverno de 1962 (a minha única expetativa literária da isolada Arménia) e percebemos que, por vezes, a realidade pode ser muito mais solarenga do que as crónicas de um velho russo despojado da glória, obrigado a espiar os seus pecados no exilio na mais pequena e remota das republicas soviéticas, empregado como tradutor de um obscuro escritor arménio .
Parece que não há semelhança entre a cinzenta era dos sovietes e os novos tempos de um país que parece acreditar que os trinta e cinco anos de independência são um período de carência suficiente para garantir a independência nacional e a fé cristã.
Mas a manhã da capital acorda-nos cedo para a história turbulenta de um povo cuja terra lhe foge debaixo dos pés, e não tem havido na história deles futuros muito promissores.
No museu do genocídio desfila uma cronologia precisa do exilio de um povo inteiro expulso da sua Arménia ocidental pelo exército otomano do governo dos progressistas jovens turcos, uma crua exposição documental de uma perseguição que se prolongou por décadas e culminou no exilio forçado e premeditada eliminação de mais de um milhão de arménios 
Tudo documentado, incluindo nomes e fotografias de todos os mandantes, e dos outros que preferiram não ver o óbvio porque era uma verdade incomoda para as geoestratégias dominantes.
Um resumo quase visceral de um povo de exílios e de genocídios sempre demasiado permeáveis a alianças complexas numa geografia tão tortuosa, retalhado por otomanos persas e russos, e apenas isolando a história dos últimos séculos.
E como em todos os episódios de loucura humana, o rastilho é a inveja em relação a uma elite cultural e a uma aptidão especial para o sucesso nos negócios e a chama torna se incontrolável com a necessidade de encontrar um bode expiatório para o declínio do império por fraqueza própria 
" É na riqueza humana, em oposição à arrogância nacionalista que reside a única e verdadeira essência da liberdade nacional" terá dito Vassili Grosman, o grande escritor e herói russo caído em prematura desgraça devido (adivinha-se) a um excesso de irreverência. 
Encontramos a Arménia engolida pelos seus últimos salvadores, na casa museu de Sergei Parajanov a quem os soviéticos tiraram a camara de filmar, mas o lançaram numa fúria criadora de vanguarda não conforme.
Nasceu na Ucrânia, viveu dentro das fronteiras do grande império, mas pediu para morrer na Arménia.
Ele sentia-se como um peixe fora de água e desenhava e colava peixes de boca aberta, partilhou os doze episódios da vida da Mona Lisa que a pintura original escondia, como se ela estivesse povoada de mentes ocultas, nada que não estivesse implícito na ultima ceia de jesus, segundo Sergei (ou Quiçá os seus acólitos) uma dicotomia entre a consciência e a riqueza (calculo que no sentido de ganância)
O guardião do subversivo e do não standard acabou por ser o símbolo de todos os povos da suburbana soviética.



Mas, nas ruas, a salvo dos locais de culto da desgraça do destino arménio, Erevan convive sem complexos visíveis com as óbvias influências dos invasores, agora tratadas como heranças. os russos, os persas, os turcos, um perfil de nariz saliente e testas prolongadas, e um nada dissimulado fascínio pela herança europeia que a história deles reclama, o país cristão mais antigo do mundo, uma relação cúmplice com reis medievais católicos, e o irrecusável apelo da liberdade, segurança e do bem-estar que parece emanar do ocidente.
Para quem viveu longos seculos com tao poucos momentos felizes, já não é pouco, como contou o velho Sarkissian na sua história do exilio na Sibéria, esse grande ativista do partido e da revolução que caiu em desgraça por ter sido, anos mais tarde, acusado de ser espião turco e que voltou à sua terra arménia, dezanove anos depois, sem ódio dos homens, grato por ter enriquecido o coração para lá do circulo polar ártico no convívio com os russos simples, por ter apurado a inteligência nas barracas em conversas com cientistas e pensadores russos.
Os arménios parecem encarar o seu passado como uma experiência de vida e, por isso mesmo, não o querem repetir.
No fim da tarde, nas escadarias da Cascade em plena hora dourada a realçar a herança sagrada do monte Ararat, não há vestígios de passado nenhum, nos adoradores dos reflexos do por do sol sobre Yerevan.


domingo, 10 de maio de 2026

Unidade na Diversidade




Às oito da noite na De Kerk, o cartaz anunciava um concerto intimista, uma noite de música, encontros e "togetherness" (parece-me uma expressão muito holandesa, uma mente que se exprime sempre em duas línguas)
Eline, Lara e a Stela, elas e a frugalidade de um piano e de guitarra elétrica, elas e uma viola acústica, um folk em bruto e sem filtros do chão até ao teto (alto) da igreja, há muito tempo transformada em estúdio de artistas da cidade.
E na fria noite de Roterdão, os tetos altos e a musica cristalina não foram suficientes para subir a temperatura interior e o frio intenso tornava-nos cúmplices das canções de um sofrimento contido, isto baseado apenas nas introduções dos artistas, sempre atentos aqueles que não entendiam a língua dos holandeses.
A Stela não costumava escrever canções de amor, mas agora escrevo, porque tenho saudades de um amor que está distante, e ela canta o sentimento de uma solidão que ela não sabe se é um sentimento real ou apenas uma letra de música.
Sim, quando o cartaz anunciava que eram autoras de uma música "raw” referia-se certamente à sinceridade sem filtros de quem se sente encantada por ter uma audiência de talvez cinquenta pessoas em vez de cinco, por escrever uma canção para avó que amava apenas para garantir que não se esquece nem dela nem do que viveu com ela.
A Eline fala de viver num barco, da liberdade (e do medo) de se sentir nua (uma música pouca própria - palavras dela - para um local como a de kerk) ou então canta a despedida de alguém ou, mais do que isso, um olá a coisas novas.
A Lara canta um daqueles momentos em que temos medo de avançar para o que é inevitável, mas precisamos daquele empurrão de quem nos quer bem.
Sim, eles também lhe chamam música do dia a dia.
Mas estas duas horas de final de dia, foram o fim de uma viagem, um dia de ventos gélidos e chuvas dispersas, uma viagem às profundezas da criatividade e, muitas vezes, do bom gosto e o esporádico mau gosto é, sempre, uma cascata de disrupção.
E o destino levou-nos a Katendrecht, a península a sul da cidade, à galeria de honra dos fotógrafos holandeses, apenas noventa e nove fotografias, sempre à espera da centésima perola para acrescentar ao primeiro andar da gloria do edifício Santos.
Sim, Santos, não há engano.
E o destino leva-nos ao Fénix, o museu das migrações, uma assunção explicita aos desafios de uma Europa que apenas nos últimos oitenta anos deixou de ser um continente de emigrantes.
Com a paz e com a prosperidade.
O muito recente museu das migrações integra a rede dos diálogos com a história e em prol do presente, a outra face do mesmo mundo do MAS de Antuérpia, um elogio às epopeias dos mares como o Fénix representa um elogio à diversidade das nossas raízes.
Não há um futuro óbvio, mas a arte em Roterdão já integrou a nova palete de formas num conteúdo predominantemente inclusivo.
Faltam eventualmente os outros, os uns e os outros, para lá dos portões dos armazéns e das fábricas do passado industrial.
E a diversidade não parece ter, para já, condicionado a criatividade e o livre pensamento, mesmo para aqueles que nunca tiveram acesso aos circuitos da arte.
Na antiga fabrica de Codrico, entre caldeiras e ferro ferrugento, nos contentores do Rotterdam Photo em Deliplein, ou nas salas do Fenix, de um espaço que se abre em janelas para o rio, deixou de haver uma explicação obvia para a palavra raízes.
Como o novo significado da palavra displacement, ou o retorno às origens das gerações de emigrados, como a incredulidade do regresso a uma Tunísia que nunca tinha conhecido ou as memórias da autora japonesa, a autora que não se lembra das fotografias que lhe tiraram quando criança, o pai com quarenta e um anos, ela com onze anos e a boia  com um patinho na ponta, com uma idade estimada  de dois anos ou as cartas de amor do meu avô para a minha avó durante a segunda  guerra mundial, ou a rotina dos seres de Beirute à beira da próxima guerra,  ou o desconforto da transexualidade nas ruas do Peru ou as paisagens que sobreviveram à extinção da Yugoslavia, histórias das guerras ou da mesma familia dinamarquesa que foi familia de adoção de crianças holandesas após a segunda guerra mundial e de crianças  na Ucrânia, quase um século depois.
E, qual acaso de quem procura uma igreja transformada em estúdio de artistas no norte da cidade, para os lados de Nordplein, as abstrações artísticas tornam-se a vida das pessoas, enquanto os feirantes desmontavam as tendas da feira de sábado e os passeios eram tomados pelos cheiros e pelas vestes e pelas cabeças cobertas do medio oriente.
No fim de tarde chuvoso nas fronteiras da cidade, sob o pretexto de procurarmos uma igreja em hora de concerto, percebemos que a diversidade não é apenas uma forma de expressão artística, são rotinas de um imaginário distante, de repente aqui tão perto, de portas abertas para a mercearia do bairro, sempre com um otimismo esperançoso de futuras gerações de finais felizes.
Porque eu tenho um fraquinho pelos finais felizes ou, como cantava a Eline, um “ Hello to new things”



domingo, 26 de abril de 2026

A lenda de Remo e Rómulo – uma história de fundação

 

Na sala de projeções, a protagonista é a estátua da loba que alimentou os gémeos humanos e que, por isso, fratricídios à parte, explica a fundação de Roma, para a generalidade dos entendidos, o berço da civilização ocidental, tal como a concebemos hoje.
Bom, antes ainda existiram os gregos, mas esses não eram exatamente uma nação, nem um império.
A loba de metal escuro era também a narradora da sua própria existência, porque uma estatua residente do alto da praça principal, ela a original, as outras espalhadas pelas capitais da europa, como lembranças dos descendentes da fundação, vivem no filme a vida dos que as cercam e uma delas confessava que tinha assistido a duas guerras e a uma ditadura.
Ou teria sido a criança loura que fugiu aos pais no museu e que descobriu a original loba a amamentar as crianças, que libertou a lenda e espalhou a boa nova da fundação do nosso mundo. por todo o continente?
Na sala de projeções da feira de arte de Roterdão, as projeções eram muitas e não ficamos para o fim da história porque havia um pavilhão de catorze mil metros quadrados de imagens para processar.
Hoje a europa inteira e uma parte do mundo que alinha com os princípios da fundação, que amamenta os novos filhos da liberdade criativa, juntou-se a nós no Ahoy para a feira de arte de Roterdão e para o unseen photo festival.
No subúrbio muito étnico da cidade, vive o ahoy, longe e pouco acessível a partir do metro, como se quisesse afirmar a independência do lugar, porque afinal uma feira e um centro de exposições tem de ser um lugar do mundo e não um repositório de etnias distantes.
A art rotterdam é, primeiro que tudo, uma feira de arte, um lugar de marchands e artistas, portanto um lugar exclusivo para quem quer comprar e vender, mas apesar do capital não ser, por definição, democrático, na sociedade do capital pode-se ser apenas remediado e ter acesso universal à cultura e aos criadores.
E, para quem ainda não percebeu, este bem a ficar escasso, é tão valioso que preferia nunca ter de me recordar dele.
E a Europa está viva e vive da diversidade, nos apelidos dos artistas, nas cores das telas e na estética da criação.
E na feira de arte de Roterdão mostram-se os consagrados e os miúdos que saem das escolas de arte,
Os consagrados, porventura vassalos dos colecionadores e do capital, centram-se na forma, formas que ficam bem nas paredes de grande formato, margens de contornos definidos, porque quem paga gosta de arte descodificada que possa partilhar com os amigos.
E, enquanto os consagrados se centram na forma, os miúdos expressam-se sem qualquer respeito pela forma nem pelos contornos definidos. Nem pela descodificação da arte, nem pelas paredes dos amigos.
Privilegiam as instalações não conformes, os vídeos e expressões de arte conceptual e os prospects ( como por aqui são conhecidos os juniores) dão tudo pela força da mensagem, têm receio do fim do mundo e abraçam as causas dos avós, da diversidade ao primado da experimentação.
E a arte dos miúdos partilha uma europa de influências exteriores, como as memórias do artista pop judeu iraniano emigrado na América que regressa a Tasckent para uma festa de aniversario, num vídeo de de cores frias e luzes cruas, ou sofrimento com a demência dos avós em fotografias de grande formato - estes jovens artistas vestem-se como os avós, há nas suas roupas um revivalismo da contestação e das grandes causas que não revêm nos pais -
A saída, na fila do bengaleiro, a fauna de seguidores dos prospects comentava a instalação de balões sensoriais a quem os visitantes se podiam abraçar vestidos numa versão artística de um aparelho de vigilância cardíaca, e dizia um deles, demasiado curto nas suas vestes de Pierrot, que as sensações não eram a cena dele, como nerd e artista em período de formação da sua estética e personalidade próprias.
E, no fim, perdeu o ticket para levantar o casaco no bengaleiro e também a compostura.



Meia hora mais tarde, na zona oeste  encontramo-nos com as memorias recentes do grande porto da cidade, os armazéns já foram abandonados pela azafama dos grandes barcos e dos contentores de mercadorias mas ainda não foram adotados pela urbe e, nesse limbo emocional, o armazém 9f de Delisplein, nos confortes da cidade, em despique entre os armazéns abandonados por um porto cujos guindastes se veem ao longe, cada vez mais perto da foz e do mar, alberga mais uma feira na semana de todas as feiras, e a Haute Photogarafie emerge em luzes quentes, grandes formatos e no único leilão silencioso de fotografias a preto e branco alguma vez presenciado, todas deixam as suas ofertas escritas numa lista de papel ao lado de cada foto e, hopefully, aumenta o numero de linhas e o valor a adjudicar pela obra.
O holandês da porta congratulou-se com a nossa pulseira rosa e assegurou-nos que esta é a melhor exposição de toda a semana de arte mas nem por isso o leilão silencioso despertou da letargia.
E apesar de não ter conseguido ultrapassar o preconceito de que a fotografia não deve ser comprada, havia um brilho especial naquela sala forrada de mundos reais e na fotografia de autor as novidades vêm do leste da europa, mais uma tendência estética da diversidade criativa da europa, e que prova que eles já tinham uma vida própria antes de serem o pasto da guerra e da barbárie 
Ca fora, os ventos do estuário continuam gélidos e transportam os odores da terra de ninguém por entre a amálgama de barracões inúteis e as novas instalações de arte pós industrial, uma nova antecâmera dos novos criadores, provavelmente um novo futuro da urbe.
O uber man palitava ininterruptamente os dentes, indiferente às metamorfoses prometidas, apesar do mercedes preto.
E nós terminamos o dia a ver a noite cair na cidade, pela janela do Melly na companhia de Marilyn Nance e Donna Kukama, a comer gelados de citrinos no restaurante Oliva, e a agradecer os sorrisos e a hospitalidade dos anfitriões desta cidade que se consideram filhos de um deus menor e por isso não escondem o entusiasmo de nos terem como visitas.
Sempre num inglês irrepreensível 
Obrigado, cidadão de Roterdão desde que nasceste,  por teres interrompido o teu jantar ainda a tempo de nos desejares um bom apetite, um spargetti al dente e um tinto de veludo.
É extraordinária a humildade da excelência.
É sempre assim




terça-feira, 21 de abril de 2026

Opa – O restaurante dos avós

 


Aterrámos com um sol tão envergonhado que gelava só de pensar na noite que havia de chegar.
Roterdão vive a semana da conexão ou a forma como a arte nos vai fazer experimentar ( e jamais explicar) o que significa estar ligado, num mundo pautado pelo movimento, tensão e pela fragmentação 
E nas primeiras horas de um país plano e sem interrupções, havia símbolos de conexão espelhados nos sorrisos e na jovialidade dos holandeses, um temperamento descontraído de quem sabe que a generalidade das coisas funciona, e a ausência de ansiedade facilita o empreendedorismo, a circulação entre lugares e a alegria de viver.
A cave explica o odor underground do espaço, podes entrar e podes comprar desde que sejam os meus quadros, assim me incentivava a primeira debutante desta vernissage coletiva de seres coloridos, habitantes de um antigo arquivo, agora desordenado por esta galeria nómada de artistas que partilhavam os seus conceitos de ligação, algumas visões tão experimentais que não se explicavam por si mesmos.
Algumas elas subiam as escadas apressadas para o ginásio dos pisos superiores, enquanto alguns outros mecenas subiam a escada da cave com esporádicas obras dos artistas coloridos e extravagantes que vendiam as suas criações, todas a menos de quinhentos euros e de formato não maior que 30 × 40
A loura de meia idade do SUV preto entrou e saiu enquanto eu esperava pelo tesla que me haveria de levar para onde guerra haveria de invadir o parque dos museus, perguntou se podia estacionar em cima do passeio, ah afinal não és de cá, será que se notava assim tanto e a loura sorriu, ainda estás à espera do tesla, sim mas já vem e eu juro que ela quase nos deu boleia para fora dali, enquanto a chuva caia sob a forma de uma neve liquida, de certeza que já vem perguntava a loura, e ria, nada destoava nela da loucura criativa da cave undergound e da extravagância artística daqueles seres que pareciam saídos de uma festa de finalistas da escola de arte numa década longínqua.
E a loura foi se embora sem arte nas mãos no seu suv preto e acenou nos com alguma nostalgia minha, reconheço, especialmente depois de perceber que o libanês do tesla, subia a rua de marcha atras para não ter de contornar o quarteirão gelado e periférico.
Mas na noite gelada de Roterdão toda a gente interage e sorri seja em holandês, seja em tradução simultânea, a conexão é tão importante para eles que não há barreiras de linguagem.
Bem, o libanês do tesla sorria, mas nós não entendemos grande coisa para além da satisfação dele por ser um perito em atalhos.
E despejou nos no meio de uma guerra armazenada em contentores e torres de vigia que transformaram a noite no parque dos museus numa alegoria provocatória à melhor forma de aprender a amar as bombas, com imagens explícitas a partir de contentores ferrugentos e sirenes que se acionavam com o impacto das explosões e o zumbido das balas.


Mais do que visual, uma experiência muito sensorial.
Mas os holandeses não paravam de sorrir, mesmo debaixo da ameaça de mais uma chuva de neve liquida ou uma qualquer bomba perdida de uma qualquer guerra alheia.
Opa significa avô em holandês e Opa é restaurante dos avós de todos os que se ligaram a este local, e há uma parede cheia de lembranças que ajudam a aperfeiçoar os sabores do jantar, e aquele ali no meio é o meu pai, explicou o louro e esguio holandês que parecia mesmo preocupado com a nossa opinião e bem-estar e agradeceu muito a nossa conta arredondada, afinal de contas povos felizes não cobram serviço.
E os avós todos, sorriram da parede abaixo!



domingo, 19 de abril de 2026

Amar assim perdidamente

 

Ontem, foi um grande concerto porque um grande concerto é uma voz que abraça uma vida, e são dez mil vozes em coro por uma adolescência tardia, quarenta anos depois de acreditarmos que faríamos a diferença e que iriamos mudar o mundo.
Claro que o Luís continua a cantar como um cristalino sonho e nós  não mudámos grande coisa mas, ainda assim, ontem foi um concerto cheio porque não despertou saudade, mas apenas sorrisos de condescendência doce sobre os nossos passados de desassossego e de esperança infinita.
Há dez mil vozes que cantam em unissono sem hesitação apesar de sabermos que o nosso tempo está a passar, apressado, mas não há nas suas vozes vestigios de uma velhice anunciada, porque afinal de conta já tivemos mais de quarenta anos para tentar a nossa sorte, jogar os dados e mudar o mundo.
Na grande sala, um pavilhão que se veste de casco de caravela ou outro navio qualquer, juntaram se numa só noite todos os concertos intimistas do chafarix e da aula magna, e nunca o coro pareceu tanto um eco geracional como quando cantamos com o Luis que ser poeta é ser mais alto, é ter garras e asas de condor e já não havia no nosso coro qualquer tom de desapontamento nem desassossego,  afinal não mudámos o mundo mas vivemos um mundo inteiro e um grande concerto é aquele que desperta apenas as melhores memorias e ter fome e sede de infinito, é condensar o mundo num só grito, é amar assim perdidamente todas as palavras que fomos capazes de dizer.
Entre bruxas, caravelas e causas sempre encontradas
Grande concerto, Luis