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sexta-feira, 10 de março de 2017

Gipsy Kings




A estrada para o Sul é imensa, tanto quanto a paisagem de uma planície inatingível.
Caminhamos pela Estremadura abaixo e os sinais dos humanos são permanentes, apesar de predominar o deserto.
Não se vislumbra vivalma nos campos castanhos, esporadicamente verdes e sempre, quase sempre, de um dourado que sobrevive ao inverno e se confunde com o braseiro que se antecipa no verão.
Mas a paisagem nunca deixa de ter o toque do homem, de um personagem escondido que troca a mecanização da agricultura pensada para a indústria por uma sesta preventiva nas tardes de Sábado.
Eles não se vêm, mas sente-se que estão lá, como a enganadora sugestão de que um xerez antes de almoço não provoca a inibição nem sobressaltos na estrada, porque ao Sábado não há polícia que trabalhe.
Mais um engano, a estremadura profunda, a caminho de Córdova, é pasto de autoridades fardadas que se infiltram na numa fila contínua de automóveis esporádicos.
A Espanha profunda é uma arte de magia negra, anunciada pelos touros miúra que fazem as vezes do espantalho rural e que descansam os locais da intrusão alheia, enquanto estes vivem nas ruas das cidades, das aldeias e dos lugarejos, como se as suas próprias casas fossem prisões medievais de alta segurança.
Apenas as famílias ciganas vivem numa espécie de campo que antecede as cidades, mas nem estes se aventuram demasiado pela planície adentro, nas mulas velhas e nas tendas encardidas, porque, sabe-se lá porquê, as terras são dos homens mas não são para os homens.
Exatamente ao quilómetro noventa e oito – a metade do caminho é a metade e a aritmética é uma métrica perfeita para a constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer – saímos do filme que corre em contramão para trás do nosso caminho, um quadro de cores esbatidas e quentes, rodeadas de molduras de um branco espesso pintado num céu de meia estação e tempestades esporádicas e desligámos por momentos o motor das sensações de embalo.
Do outro lado da estrada, espreita o miúra em pose de letargia, própria de um bicho solitário de cartão, incapaz de ser o protagonista das estradas do Sul.
Na berma do caminho, longe do alcance da fera, descansava uma fonte andaluza que libertava água como quem sua, em pingos grossos mas aleatórios, tão descentrada do petulante jardim sem folhas, que apenas podia ter sido construída sem aritmética nem fita métrica.
Por detrás da fonte sem aspirações, residia um hostal de portadas encerradas, numa lembrança furtiva de um qualquer cenário construído nas planícies da Andaluzia, para produzir filmes de cowboys.
De mãos dadas com o fantasma, a bodega fervilhava de movimento, como se toda a amplitude da paisagem andaluza tivesse sido, através de um grande funil chamado civilização, despejada naquela gigantesca mercearia de presuntos pendurados, pernis de ossos eloquentes espalhados pelos pratos, recuerdos de gosto sensível e caramelos descendentes que emolduravam uma comunidade de figurantes rurais
Cá fora, sentadas na esplanada do país da planície, elas permaneciam incólumes às distrações diversas e, tal como todas as protagonistas dos filmes negros das décadas passadas do século vinte, fumavam, maços de tabaco vermelho espalhados pela mesa, que apelava à hora da coca-cola, unhas de um vermelho ofuscante, cabelos muito pretos que acariciavam os lábios vermelhos e as mãos compridas, vestidas de preto do pescoço às ancas, da cintura ao tornozelo, estes exemplares superiores de uma representação viva da teoria da evolução.
(Instantânea como a abertura de uma porta)
Vermelho e preto, não estivéssemos nós na terra dos toureiros
Perante um atrevimento tímido de um forasteiro que vive do ar do mar, esbofetearam com os olhos um trejeito desdenhoso e levantaram-se com uma languidez predestinada de quem nasce composta.
As duas.
As pernas alcançavam a berma da estrada e as saias tão largas quanto curtas não permitiam destrinçar os diversos tons de preto, apenas as formas.
Viraram as costas e os seus blusões negros identificavam-nas em letras brancas.
Polícia.
E até a empenada e entupida fonte se centrou no jardim das folhas mortas.
Agora entendemos porque a fera miúra se mantinha à distância e temerosa. Como aliás toda uma multidão que se havia refugiado dentro da bodega.
Como se as protagonistas tivessem secado o local.
E nós não duvidámos um bocadinho que fossem agentes de uma autoridade suprema.
Até a criança nos lembrar que hoje era Sábado de carnaval.
Mas nunca se sabe.
Afinal de contas a Espanha profunda é pura arte de magia negra.

Heranças.

domingo, 27 de setembro de 2015

Sul





Gosto da ideia do Sul como imagem de marca.
Mesmo que esteja de frente para Oeste e que as gaivotas não sejam aves migratórias (tanto quanto sei)
Mesmo que o nevoeiro não me permita vislumbrar o horizonte, e que os equívocos da imagem e das suas mensagens tendam a destruir o imaginário do Sul.
Fica gravado no vidro a ambição da viagem.
Gosto da ideia de que sou um ser do Sul.
Agrada-me que me tomem por uma identidade de fronteira.
Uma imagem feliz


segunda-feira, 26 de março de 2012

Azul


Atravessar o Sado num dia de Sol, numa manhã de semana sem pressas e de multidões ausentes é uma experiência azul, salpicada de rostos que se destacam da paisagem.

Este encadeamento de azul é um prelúdio das terras do Sul, uma luz que apenas o Sul tem!

E os tempos, os muitos anos não mudaram este lugar, esta mesma sensação dominante. Os barcos mudaram, a paisagem urbana das duas margens mudou e evoluiu (ou se construiu, equívoco após equívoco), mas o essencial permanece intacto desde que me lembro, com um bando de colegiais a estrear a época balnear no último dia de aulas, quando miúdos olhávamos o barco pneumático, símbolo da modernidade, que voava alucinante por cima das águas do Sado, e nós nos verdes jardins da margem, abençoados pela Santa que nos observava na redoma de vidro, par a par com a simplória arquitetura do Estado Novo.

Família, Pátria e Autoridade

A absolutamente idêntica sensação, décadas de criança, adolescente e adulto.

Na adolescência experimental de campismo quase selvagem, devorados por nuvens de mosquitos que enevoavam o azul em fins de tarde épicos e sem surpresas nas dunas que eram a fronteira das fronteiras, um pasto de esfomeados e microscópicos animais, hoje ilha entre condomínios privados.

Como adulto nostálgico, refugiava-me sempre que podia, mesmo de fato e gravata, pelos caminhos de Santiago do Cacém, mais próximo mas mais longo, numa pressa profissional que se desvanecia nas lombas da estrada, nas raízes dos pinheiros que se infiltravam no alcatrão da estrada

A serenidade peninsular – a verdadeira razão da mesma sensação, década após década – aumenta o brilho das cores, e assopra suavemente a neblina ondulante da manhã tardia.

E sempre que olho para a fronteira do mar, lembro-me…e a sensação sempre igual.

Vertigem azul!

Skipper, o meu golfinho imaginário do rio Sado que tantas vezes se riu para mim, sem me gozar, apesar de eu não saber saltar como ele, eu debruçado sobre a amurada do ferry, ele perto e longe, sempre mais rápido que o meu olhar, sim o Skipper hoje não apareceu.

Também o Skipper não se deixa domesticar, tal como a península sem pontes para o continente!