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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Palmela Jazz



Sombras e sons.
É assim que imagino os longos finais de tarde, debruçado sobre uma paisagem sem horizonte.
Propagando-se pelas ameias do castelo como as armaduras dos cavalos dos guerreiros do rei Afonso, assobiando em todas as reentrâncias, recompondo as pedras soltas de uma memória, construída sobre centenas de anos de solidão nas alturas.
O jazz alonga as sombras, não é o Sol que se põe é o saxofone que compõe as cores quentes, que reproduz o tilintar dos copos de vinho, a vinha do reinado.
A quatrocentos metros de uma altura propagada por sons fortes, todo o horizonte é de conquista.
São diferentes os nossos castelos de Portugal


domingo, 3 de junho de 2012

O taxista que gostava de jazz


Nada na manhã precoce do táxi acelerado condizia com o som que exalava das entranhas deste publico veículo de transporte personalizado.
Oito e cinco da manhã na curva da Sá da Bandeira, à saída do Teatro, escurecido e estilizado hotel sem palco, e um teatro de revista que não acorda do espetáculo da noite tardia.
Entre as curvas da rua, a Brasileira sorri detrás da majestosa fachada tolerante (pela idade e pelo estatuto) diante da imagem cinemática do mercedes, um milhão de quilómetros mínimo, coração ao alto mas cansado, que atacou a curva debaixo em duas rodas (um pouco de exagero de fita de animação) e encarquilhou a alcatifa de asfalto (o efeito é mais parecido com um levantar de ondinhas) com uma atlética travagem (eu juraria que a traseira levantou, outra vez duas rodas)
Sim, nada previa a harmonia do som de jazz e swing que se desembaraçava a cada solavanco da empedrada calçada do Sá da Bandeira, coração de leão da cidade.
Um bafo de tabaco entranhado e tardio espirrou pelas portas recém- abertas!
Um clube noturno sobre rodas que ainda não reabrira de um estonteante noite de swing?
Hot club do Porto em corrida contra os seus fantasmas, angra de heroísmo acima despenhando-se Campanhã abaixo
A ausência de sintonia entre o som leve, o odor pesado que não desanuviava com o fresco marítimo da manhã e o corpulento guardião da louca travessia do herbie...
Momento seguinte número 2;
Cabeça soerguida tronco de fora na passadeira da praça dos Aliados
As turistas com um olhar loiro e os corpos promissores que atravessam a passadeira em busca de um táxi que as leve a elas, e às pesadas bagagens, para o paraíso das companhias aéreas de baixo custo
Pedras Rubras
Taxi, turn right Taxi
Homem corpulento corpo de fora da janela.
Elas entenderam que o táxi bafo de onça estava ocupado mas que havia outros no turn right
Porque a cidade insiste nos táxis parados
E o swing barafustava ao longo do caminho em direção ao jazz final e definitivo.
“Estás a apitar porquê?”
Uma lata velha de um vermelho que apodrecia ao ar, e uma razoavelmente jovem refreava os ânimos mediante a visão do corpulento taxista.
Ela não conseguia mesmo passar por ali.
“A menina tem falta de jeito” – sussurrou entre dentes o taxista que gostava de jazz