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segunda-feira, 13 de julho de 2026

A lenda das terras quentes

 

Sentados na varanda do wine bar kultura, mastigamos o branco viniverria, embalados pela voz de Gogi Tsabadze, enquanto esgotamos o fim da tarde quente, entre conversas com sabores frutados ou simplesmente absorvendo os odores gastos da cidade velha e, quando as conversas se esgotam e as luzes se acendem por detrás das fachadas dos pátios, dos lugares improváveis onde as pessoas vivem e partilham as varandas e os becos com a música e com os copos que brindam à multiculturalidade, resumimos a essência do Cáucaso 
Diz a lenda que a futura cidade de Tbilisi nasceu quando o Rei Vakhtang Gorgasali descobriu as fontes termais, graças ao seu falcão, que o levou a uma fonte borbulhante de água termal. Ele ficou tão impressionado com a descoberta que ordenou a construção de uma casa de banhos no local, lançando as bases para o que viria a se tornar a capital da Geórgia.
Ao que consta, parece que não passa de uma lenda, apesar do rei ter existido e apesar de alguns historiadores atribuírem a este rei do século quarto, algumas propriedades curativas de super-herói. 
E as termas de enxofre, debruçadas sobre o rio e sobre a escarpa da margem norte, e aninhadas na encosta do bairro antigo, também não são lenda e submergir, primeiro o pé direito, depois as pernas e, finalmente a medo, o tronco inteiro, nas águas quentes, muito quentes, sulfurosas, bastante sulfurosas, são a primeira experiência imersiva nesta cidade de uma alma velha que não gosta de se deixar decifrar. 
Segundo consta, as termas de enxofre serviam não apenas para fins higiênicos, mas também como centros sociais e culturais. Decisões importantes eram debatidas, negócios eram feitos e até mesmo propostas de casamento eram discutidas nas suas câmaras fumegantes.
Mas hoje não. 
Hoje nos banhos Georgios não havia vestígios de interação social entre locais, nem dos locais, sequer, e a banheira gigante era, apesar de sulfurosa, o nosso melhor refúgio contra a ira dos únicos locais presentes.
A matrona que guardava a chave que nos sorria, mas era um sorriso coberto de pelos de ferro.
E os massagistas que arqueavam as pernas como os lutadores de artes marciais antes de lançarem furiosamente os clientes sobre uma gelada mesa de pedra e os esfregarem como roupa encardida a fugir de uma barra de sabão azul.
Mas, quando os locais saiam da sala, quase que respirávamos uma atmosfera oriental, pelo menos no imaginário oriental que eu teria concebido se alguma vez tivesse entrado em algum banho de Istambul ou Budapeste.
Mas nunca entrei e, por isso, enquanto procurava decifrar uma qualquer alma oriental nos tetos abaulados que pendiam sobre a banheira de banhos sulfurosos de Tbilissi, as únicas imagens que me ocorriam eram as da matrona maléfica, dos massagistas furiosos ou uma imagem fugaz e furtiva de dois idosos a jogar xadrez numa piscina de fundo coberto de pastilhas de azulejo de um verde de mar profundo.
 Aliás, uma mera ilusão mental de um orientalista envergonhado, ou não fosse esta cidade (haveria de me conformar com esta impossibilidade, muitos dias depois, finalmente) tão pouco parecida com qualquer dos estereótipos de urbe, muito comuns nas divagações dos viajantes intermitentes
E os últimos ocidentais com pendores orientalistas ficaram conhecidos na História como a última geração de colonialistas europeus.
Segundo alguns eruditos dos roteiros de viagem, “Tbilissi é como a música polifónica, as palavras não conseguem descrevê-la de forma adequada e tu tens de a experimentar, avaliando as suas harmonias, saboreando a sua complexidade e afundando-nos na sua História à medida que descobrimos a relação pessoal que vamos criando com a cidade”
Sendo a música polifónica uma textura musical onde duas ou mais linhas melódicas independentes soam em simultâneo, mantendo a sua própria importância rítmica e melódica e depois desta tradução, tudo passa a fazer mais sentido.
Há muitas linhas melódicas que se cruzam nas ruas da cidade, não fosse esta uma capital construída pela força persuasora dos invasores, mas também pela resiliência dos que aqui sempre foram vivendo, como se fosse já um hábito terem de aculturar os estrangeiros sôfregos de encruzilhadas históricas, às tradições locais, a um alfabeto e um apego às terras quentes e ao vale profundo.
Por isso, nos pareceu que a melhor maneira de respirar a cidade e os seus ritmos seria de copo de vinho na mão e uma lista de música georgiana no ouvido, e foi assim que, a partir da varanda do bar kultura, embalados pela indolência dos sons locais ( há um tom persa neste som languido e sofrido) mergulhámos na sedutora decadência dos prédios encardidos de velhos que parecem desfazer-se com o peso da roupa estendida nas varandas,  que invadem os quarteirões do centro da cidade com o  seu suor impregnado de quem sempre ali  viveu,  um povo inteiro que prefere resguardar-se nos pátios interiores, um instinto de defesa de quem está habituado a intrusos.
Mas nas outras linhas melódicas independentes, há camadas de gente extrovertida  que invade as ruas, seja para o protesto diário em frente ao parlamento, não importa o motivo desde que ninguém deponha a bandeira branca e vermelha alinhada com as estrelas amarelas em fundo azul ( e em Tbilissi não há dúvidas por quem os corações batem ou por quem os sinos dobram) apenas para enfrentar o poder e lembrar-lhes que querem ser donos do seu destino, ou para correrem perdidamente na prova dominical de atletismo, ao longo da Avenida Shota Rustaveli em direção à Praça da Liberdade.



No interior dos cafés decorados com relíquias tecnológicas do século vinte, os transístores e os retratos dos seus antepassados, no interior das galerias de arte, à mesa com a rica gastronomia local, nas bancas dos mercados de artesanato e de antiguidades, nas figuras refletidas nos espelhos colados nas esquinas  da urbe,  há tanta irreverência nos olhares desta gente extrovertida que parece dispensável o aparato policial deste Estado que parece demasiado presente nas ruas da cidade e esta parece a única linha melódica dissonante na cidade.  
Mas nas ruas estreitas,  em redor da Torre do Relógio, não muito longe da ponte da paz, são os gatos que reinam do alto dos parapeitos, é um bairro de moradias comunitárias, já não há prédios cinzentos pendurados em varandas de ferro, mas casas de madeira pintadas em cores leves e a mesma roupa estendida, os vidros partidos e as tábuas de madeira quebradas pelo tempo e os gatos que defendem a propriedade e ocupam as ruínas do bairro antigo, protegendo os velhos que decidem acolher nas ruas e nas casas do bairro, uma autoridade menos intrusiva e mais condescendente que a autoridade das grandes avenidas porque deixam em paz os humanos que coabitam com os escombros.
Do outro lado da ponte da paz, no parque Rique, o enorme cão pastor estende-se de lombo no chão e parece desconcertado com a visão do pavão empoleirado no banco de jardim, no fundo a fazer de pavão, mas o cão pastor parece consciente de que o pavão está naquele lugar e naquela posição por um propósito superior qualquer porque o pavão é um símbolo que estabelece a ligação entre os rituais pagãos e os símbolos da igreja católica (segundo a crença local)
Afinal o pavão tinha um proxeneta sentado no banco de jardim que vendia a imagem do pavão, uma nota por uma fotografia e este pavão não passa de um pavão pagão e dai o desconsolo do cão pastor
Nada que nos desencoraje uma subida dentro de uma cabine fechada, monte acima até ao regaço da mãe.
Na encosta do monte Maricala, vislumbram-se as cúpulas da diversidade religiosa, igrejas ortodoxas, de uma igreja apostólica Arménia, uma sinagoga, uma mesquita e mesmo um templo Zaroastra e, no topo da colina Sololaki, Kartlis Deda é uma enorme estátua de alumínio apelidada de “Mãe da Geórgia”, a estátua enverga um traje típico da Geórgia e, nas mãos, segura um cálice de vinho e uma espada. Diz-se que simboliza o carácter nacional da Geórgia. O vinho representará a hospitalidade do povo, e a espada o amor georgiano pela liberdade (ou melhor, a força do povo caso alguém tentar infringir a sua liberdade).
A meio do dia, o céu turva-se encosta abaixo e a água do céu confunde-se com a corrente do rio e nós olhamo-nos ao espelho na esquina da rua Betlemi e gostamos do que vemos, esta cidade aumenta a nossa autoestima, mesmo molhados, subimos ao terraço do restaurante See 360 e, sentados numa mesa à janela, de copo de vinho branco na mão, sentimos o cheiro da chuva, disfrutamos os sabores surpreendentes da gastronomia da Geórgia, e deixamo-nos envolver pelos sons estranhos da musica popular e pelas conversas que vão crescendo de tom à medida que o terraço se enche de expatriados.
Eles chegam através da estrada militar e fogem das emoções fortes, ansiando pelos desfechos de um mundo normal, sem presságios nem dilemas, mas é indisfarçável a inquietação nos olhares de língua estrangeira que agora enchem o espaço e até em russo se percebe que há uma carga conspiratória que forma uma nuvem de fumo que sobrevoa o espaço.
(Mas não é possível, porque nem quando procuramos mudar o mundo é permitido neste século, fumar em recintos fechados)
Mas as vozes quase sussurradas, que agora se sobrepõem à música de fundo, convertida a um swing de origem indefinida, antecipam todas as premonições naquele terraço debruçado sobre a urbe que festeja a universalidade, a todas as horas do dia.
E, enquanto a chuva limpava o pó da História, nós decidimos voltar à rua e experimentar a cidade  





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