Os cães do Cáucaso têm direito à sua existência, mas não propriamente a uma existência feliz. Deambulam pelas ruas ou pelos campos, são geralmente alimentados por onde passam, mas não são objeto de grandes intimidades por parte dos humanos, nem de ter estatuto de animal doméstico, com pelo tratado e passeios higiénicos de trela em riste.
Tão livres como vadios, num trote desordenado e não treinado, mas normalmente com muito bom feitio e amigos de quem se ri para eles.
E, da mesma forma que não conhecemos nenhum cão doméstico, também não vimos nenhum cão chorar, dentro das fronteiras do Cáucaso.
Também em Borjoni eles por lá andavam, mas, nas termas que curaram os czares e os privilegiados da república soviética, até eles tinham um ar mais nobre, sempre de cauda levantada, uma espécie de radar para qualquer donut acabado de fritar que se pudesse escapulir nas mãos de uma criança.
Mas em Borjoni, uma Geórgia indolente passeia-se rua acima, rio abaixo, enchem-se garrafões de cinco litros de águas quentes e sulfurosas e divide-se o tempo entre as barracas de feira, os desafios com super-heróis, a roda gigante do parque de diversões e a palete oficial de souvenirs de pendor nacionalista, mas há também uma multidão de velhinhos sentados, à espera, no banco de jardim.
Este é o último oásis antes da grande planície georgiana e, nos grandes espaços, parecem querer libertar-se os fantasmas da história
Em Ergneti, a fronteira não reconhecida corta a estrada, mas, para lá do sinal stop, só há silêncio porque a Ossétia do Sul é um vulcão adormecido, e para lá do posto de controle vivem cinquenta mil ossetos protegidos [ou ocupados?] pelos russos, menos os trinta mil Georgios expulsos para o lado de cá, na guerra dos cinco dias, e já passaram dezoito anos de fronteiras fechadas e de terras proibidas
No Cáucaso, assim como nas ruínas do domínio soviético nos Balcãs, permanecem estas peças de puzzle por completar, de todos os povos que viveram e migraram no império dos sovietes e, tal como a quase ténue fronteira entre o ódio e a saudade, também nestas terras de ninguém e dos equívocos, há vontades de minorias que despertam anseios e provocam o desassossego, mas as minorias acabam sempre por ter de servir os velhos amos, a bem dos interesses da maioria [ou de quem manda]
Na casa de Lia, a duzentos metros da fronteira separatista, ela construiu o seu museu da [s suas memórias] onde expõe todos os estilhaços recuperados do conflito fronteiriço de 2018, e recebe-nos no seu quintal, de pijama e pantufas, sem filtros, tal como os bombardeamentos dos russos, o rapto dos familiares e um momento em que a história da Geórgia ia, mais uma vez, ser interrompida, tivessem os tanques avançado na planície para sul.
Ficaram às portas de Ergneti, mas lançaram a sombra sobre um país que ainda não sabe se pode ousar definir o seu destino e Lia foi acordando do seu torpor numa hora seguida de memórias em catadupa.
Claro que há sempre duas versões para qualquer conflito, e nem a história dos brincos de Elsa e do amor que sobreviveu às armas, consegue esconder o facto da Geórgia ter antes bombardeado o enclave e a convicção de Lia de que os ossetas são estrangeiros que emigraram da Pérsia para a Geórgia e, logo, isso não lhes dá direito a ter uma pátria.
Há assim quem insista que pode haver duas versões da mesma história, mas os ursos vivem, definitivamente, no Norte.
Regressamos à estrada de fronteira pelo caminho de terra e buracos do quintal da Lia, com vista para uma miragem, tal como os brincos de Elsa, um sinónimo da separação das pessoas.
Eventualmente para sempre.
Meia hora na direção do Sul, na planície da Geórgia vive Gori, a cidade de José Estaline e, no parque central da cidade, ainda vive a casa onde nasceu, o comboio blindado do grande líder e um palácio que cheira a glória decrepita que se espalha pelos salões da memória onde cada quadro, imagem, figura ou tapeçaria com a imagem de Stalin, ainda provoca arrepios [não sabemos se o devemos apelidar de líder porque nem verdadeiramente Lenine acreditava nisso] tal como a sombra de José ofusca qualquer vestígio de vontade própria desta urbe.
Porque que carga ainda há um museu de Estaline que sequestra uma cidade inteira, tantos anos depois do colapso do regime e muito tempo depois dele próprio ter sido prescrito?
Mas a mesma e imutável guia de sempre [segundo P, que a conhece bem] do museu, baixinha de cabelo muito preto escorrido em forma de colher e cara muito branca, será da base ou das origens caucásias, não concede muito espaço nem a sorrisos nem a perguntas e debita o que foi definido pela curadoria sobre cada linha cronológica da vida do homem e da sua tomada do poder deste soviético maquiavel e, sem inflexões nem tremores, recorda, na sala e na imagem exata da linha cronológica dos anos trinta, com a sua voz estridente e uma pronúncia exótica, uma enorme fotografia granulada de miséria camponesa, que José foi o responsável pela morte de fome de três milhões de ucranianos.
Afinal não é saudosismo, parece que os georgianos preferem deixar as memórias à flor da pele, no jardim central de Gori, apesar de nunca termos percebido se o aparatoso museu era uma lição de saudade ou de história.
Se calhar um vilão pop, e assim se moderniza o cheiro a mofo.
Foi com alívio que chegámos à beira do rio, em Mtskheta e, na capital espiritual e religiosa da ortodoxia da Geórgia, a cidade vestia-se de um fim de tarde ameno e, dentro da catedral da cidade, os crentes rezavam enquanto, dentro das muralhas os miúdos recuperavam o terreiro aos turistas fugidos da noite.
A menos de cinquenta quilómetros das feridas da história, e à volta da mesa com um copo de vinho na mão e uma brisa vinda do rio, até nos parece que a planície da Geórgia nasceu sempre de finais felizes.

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