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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

António, o último lobo da floresta


A noite já caíra sobre os contornos da vila e sobre os restos do pinhal que o temporal do Outono não destruira e, do outro lado da rua, só havia breu e até o gato do vizinho era negro, escapulindo-se para lá dos campos primeiro assustadiço depois, vencido pela fome, renascido das trevas e enroscado nas nossas pernas, afinal de contas os gatos não têm amores incondicionais, até se transfiguram em cão, por um pedaço de pão.
Do lado de cá da rua, sentados debaixo das estrelas de um céu de verão, há um rasto de fim de estação, pois estamos em setembro e, no Oeste, os nevoeiros e as chuvas costumam ser precoces.
Ontem as pessoas fugiram do Outono precoce, mas o Verão deixou-se enfeitiçar pelo cheiro a maresia.
E, sentados na esplanada do restaurante do António, já não hesitamos por não haver mais clientes, já não recuamos ao cheiro de creolina na sala de jantar e, diante do arroz de polvo fumegante e confecionado pela irmã dele, apenas com as pernas do animal, porque sem ventosas não há sabor pleno e o polvo tem cabeça dura, escolhemos comer o animal envolto em arroz malandro e disfrutar do privilégio de jantar sozinhos na rua, no calor da noite, porque já não me lembrava que podia haver lugares assim, de sabor intenso e longe da multidão.
E depois de dois copos de vinho branco da garrafa do António, pareceram-nos deveras  verosímeis as recordações dele, dos tempos em que, nas florestas em redor da vila, havia lobos e raposas que não fugiam dos humanos e que visitavam os putos no campo da bola e, afiançava o António, os  animais selvagens deitavam se debaixo das árvores, virados para o campo como adeptos [e não de costas como seguranças]  e assistam aos jogos de bola de forma ordeira e até com alguma admiração pelos putos.
Claro que hoje, para lá do outro lado da rua, nas trevas que demarcam os limites da vila e da antiga floresta, agora os restos de um pinhal destruído pelos temporais do Outono passado, os únicos animais, espécie de selvagens, que por lá andam são os gatos vadios, os tais que se tornam mansos e sonsos quando têm fome.
 As rugas do velho António são um decalque das  mudanças de muitas décadas e de um século que precederam a sua reforma  e, olhando nos seus olhos cansados, mas vivos, todos nós  compreendemos que o trajeto de um homem se divide entre a vida [aquela que se vive] e as recordações [aquela vida que se gostava de ter vivido] que constroem uma vida paralela em que os contornos da ficção se tornam mais difusos à medida que a memoria da vida real se desvanece.
Mas é tentador acreditar que o António foi a principal testemunha viva do passado esplendoroso da vila litoral, um local de refugio da elite e de ostentação da herança industrial do centro do país, cuidadosamente desenhado pelo arquiteto Jose de Lima Franco numa cuidadosa meia-lua de quarteirões de vivendas debruçadas sobre as arribas e sobre  o mar.
O velho António é um saudosista confesso da sua própria juventude, do seu raposo de estimação que passeava como se fosse um cão por entre as celebridades que visitavam a vila no fim de semana da prova de automobilismo, os fatos escuros e as poses altivas que respiravam dinheiro, família e orgulho industrial.
Nesse tempo, era uma cidade cuidada, ele afirmava, entre duas escapadelas ao gasto Citroen Saxo, estacionado do outro lado da rua, com o radio ligado para confirmar se o Sporting estava a ganhar, porque eu sou sobrinho de um fundador e uma ascendência dessas obriga o a sofrer mesmo quando o clube ganha e novos clientes se aproximam da esplanada.
Sim, e verdade que há uma nova vaga de locais, uma heterogénea convivência entre os novos estrangeiros que se apaixonam pela elegante decadência do local, pelo espaço livre e pelo mar aberto, os velhos nacionais que habitam o interior centro, e que abrem aqui a sua janela para o mar como que a arejar um ano inteiro de montes, vales e, por vezes, de floresta ardida, estendendo a roupa o bolor e pele ao vento, à areia e às ondas e uma certa juventude urbana e bronzeada que vive da herança industrial entretanto quase extinta.
Percebo que o velho António, um homem que se sente descendente da uma certa aristocracia que nunca terá existido, sinta saudades da forma como o mundo lhe parecia familiar em pequeno, um mundo pequeno e previsível, mas onde todos se conheciam, bebiam copos na taberna, lutavam por um parco triunfo e falavam uma só língua. 
E na noite, sem luz nem cor, o António regressa ao passado quase sem interferências.
Além disso, o Sporting ganhou, o gato jantou e nós entregamos as nossas crenças ao arroz de polvo, aos dois copos e vinho branco de Pegões, aos sorrisos da irmã  e às memorias do último lobo da floresta desaparecida.
S Pedro de Moel, imagens contadas a preto e branco, a partir dos longínquos anos sessenta



 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O da boa memória





Lembro-me bem da vista súbita, na curva à direita e na sinuosa descida até ao vale.
Lá em baixo, no limiar da dupla faixa de rodagem da nacional 1, permanecia o mosteiro, tons amarelos num decampado poeirento que bem poderia representar a vitória triunfal de D. Nuno sobre os intrometidos espanhóis.
Era uma imagem repetida, um marco das viagens rodoviárias ao Norte.
O mosteiro solitário, imponente, orgulhoso e desafiador.
Tal como os primeiros séculos da afirmação de um novo reino, de poder real e da autonomia de um país.
Tão importante que se afirmava na solidão da paisagem, como se fosse esta a forma de realçar as suas características únicas, o esforço despendido na sua construção, ao longo de mais de cento e cinquenta anos, e uma espécie de grandiosa Ermida em memória da dinastia de Avis.
Um projeto de legitimação.
Hoje, o mosteiro foi reduzido à sua própria dimensão, pela intrusiva malha urbana nascida da fama e do proveito da república.
Desvaneceu-se a auréola exterior e a singularidade do momento, na mesma proporção em que se partilhava a nossa memória coletiva com o mundo.
Porém, intocável na sua essência interior, cruzando a porta principal, virando a sul para a sala do capítulo, assegurando que o fundador da dinastia indicava o caminho do império ou atravessando a capela-mor para leste, desafiando os nossos truculentos vizinhos onde, ainda hoje permanece uma auréola mística de um claustro inacabado, inundado de um silêncio redentor.
Como se o mosteiro precisasse das capelas imperfeitas para se completar.
Como se houvesse uma qualquer conjugação de astros que explicasse a disposição dos claustros e uma abóboda feita de estrelas.
Lá fora, no antigo terreiro poeirento, renascia a nova feira medieval, como se não tivesse havido História depois de D. João I.
Assavam-se borregos ao luar, o David Carreira desafiava um público fácil e contorcia-se contra o som, um inimigo muito mais devastador que os espanhóis de Aljubarrota.
D. Duarte sorriu, olhou para D. Leonor e estendeu-lhe a mão.
E todos percebemos o significado das capelas imperfeitas.
E, apesar de também entendermos que os tesouros não podem ficar só para nós, não deixamos de ter saudades daquela visão intermitente e repetida do majestoso e solitário mosteiro amarelo que abarcava toda a paisagem e se nos deparava, pelo menos a cem à hora, sempre que nos preparávamos para ultrapassar um camião de mercadorias, no limiar da dupla faixa de rodagem da estrada nacional 1.

Eu e o da boa memória.
















domingo, 12 de fevereiro de 2017

A Guerra Santa


No silêncio dos claustros, ou na escuridão dos longos corredores que prolongam a solidão das celas, não há sinais dos Templários.
Diluíram-se em sete séculos de construção, na habilidade negocial dos lusitanos em subverter as ordens vindas do exterior, em proveito próprio, e nos desígnios da História de Portugal.



Sim, os Templários foram extintos, palavra adequada para descrever uma ação premeditada de quem construiu fronteiras na sua sombra.
Aparentemente porque perderam a batalha de Jerusalém, contra os muçulmanos.
(ou porque o seu poder ameaçava os reinos medievais)
(ou porque há sempre um momento na História que os heróis de sangue, se tornam incómodos)
(ou porque o Rei de França não pretendia pagar os avultados empréstimos que contraira junto da Ordem)
Filipe IV é o nome do exterminador e o desconforto provinha dos rituais secretos da Ordem.
(secretos, portanto desconhecidos)
1312 foi a data do fim decretado dos Templários, destinados a morrer nas fogueiras do Cristianismo.
(ironia, dos que sobreviveram ao limite oriental das Cruzadas)
Em Portugal, o Rei D Dinis, argumentou perante o Papa, evocou interesses nacionais pela vizinhança do Reino Andaluz, mudou-lhes os mantos e criou, sob o manto de Cristo, um exército religioso, tão precioso se revelou na expansão do novo império.
(perspetivas)


Mas no interior da Charola, construída segundo o modelo do Santo Sepulcro de Jerusalém, revivemos, debaixo do eco da sua cúpula, as angústias da Guerra Santa e, agora, da cidade dividida, um dos limites orientais da Guerra Santa, dez séculos depois da primeira conquista sangrenta dos Templários.
(ou ocidental, conforme a perspetiva)
Mas no interior da Charola também se sente a fé, enquanto ato de introspeção e refúgio.
(consegue ser libertador)
Mas o Homem é incapaz de sentir para si próprio porque é, afinal de contas, uma espécie social e intrusiva.
Daí o sangue permanentemente derramado na disputa do mesmo Deus.
Lições de (a) História, numa (com uma)  perspetiva contemporânea.
No Convento de Cristo, enredado nos claustros labirínticos de uma obra com sete séculos de evolução.



segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O mundo é (está) plano


(primeiro plano)

A luz é ténue, filtrada pelas pipas de vinho, pelo calor que se escapa da cozinha queimada pelo tempo, pelas portadas de carvalho que rangem a cada raio de Sol que se intromete nas frinchas e no caruncho.
Os velhos arrastam os pratos em nome da tradição e, lá dentro, não se ouvem vozes enquanto os lugares vazios se impacientam com a lentidão dos passos e com a solenidade fúnebre dos empregados de mesa.
A mesma poeira que lhe cobre os rostos, que lhe eriça as barbas e que confere à garrafeira um subjetivismo quase romântico.
Na parede do fundo, uma imagem de Eça lança a incerteza de uma dedicatória irreconhecível sobre o ideário romântico que povoa a sala de jantar.
Longe dos ruídos do exterior como se, ao abrigo da tradição, fosse possível parar o mundo.

(plano intermédio)

No museu do neorrealismo procura-se recordar a história do século vinte à luz dos princípios do realismo socialista, defendendo uma arte útil, dedicada aos problemas reais da sociedade.
À parte dos equívocos que história nos causou, permanece viva a dialética entre forma e conteúdo que povoou as discussões de um século inquieto, rico em pensamento e sangrento na ação.
Na rua Alves Redol, já se dissiparam as poeiras do tempo, mas os visitantes são raros neste mausoléu de modernidade e arquitetura contemporânea, um legado de um novo século de políticos ambiciosos e de eleitores desinteressados.
Aproximamo-nos do rio e da linha férrea, uma espécie de meio-termo entre o romantismo positivista e o neorrealismo, mas os guardiões do templo partilham do bocejo dos que se atrevem a entrar e investem em direção aos portefólios fotográficos de difícil leitura que invadem o local sob o manto protetor da bienal.
Só, no auditório, predisponho-me a observar um qualquer pedaço do mundo que desfila no ecrã da esquerda para a direita.

(um mundo plano)

Visto de um comboio a andar, o mundo parece plano e, numa viagem de vinte minutos com o autor pelos caminhos do Oriente, sinto a visão a turvar perante a vertigem.
Porque a paisagem se atravessa depressa demais sob a nossa vista, porque, desta forma, nunca aceita uma segunda opinião.
Porque mistura visões de grandes angulares com a imprecisão dos grandes planos de vegetação distorcida
“ A exposição está aqui na biblioteca, tem um link, uma fotografia e uma série de livros e de separadores, e de…”
Não alcancei porque, depois de uma acalorada visita aos bastidores da dialética entre a forma e o conteúdo, declarei-me vencido pela última sobre a primeira.
Entre a linha férrea e o rio, entre o jardim e a paisagem vivia toda a cidade de domingo à tarde.
Uma multidão que enfrentava o resfriado pôr-do-sol, que corria atrás das crianças ou para o comboio que vinha de Tomar ou simplesmente corria  e, sem surpresa, reparei que os idiomas são, cada vez mais, tão diferentes quanto as fisionomias
Sem dúvidas sobre o predomínio do conteúdo sobre a forma, mas sem qualquer ambição de fazer renascer o neorrealismo ou qualquer outra forma de arte dedicada aos problemas reais da sociedade.

O comboio apitou com destino ao Oriente e um casal de chineses reencontrou-se sobre a passagem aérea da linha com um longo abraço, esfuziantes e indecifráveis saudações. 


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Palmela Jazz



Sombras e sons.
É assim que imagino os longos finais de tarde, debruçado sobre uma paisagem sem horizonte.
Propagando-se pelas ameias do castelo como as armaduras dos cavalos dos guerreiros do rei Afonso, assobiando em todas as reentrâncias, recompondo as pedras soltas de uma memória, construída sobre centenas de anos de solidão nas alturas.
O jazz alonga as sombras, não é o Sol que se põe é o saxofone que compõe as cores quentes, que reproduz o tilintar dos copos de vinho, a vinha do reinado.
A quatrocentos metros de uma altura propagada por sons fortes, todo o horizonte é de conquista.
São diferentes os nossos castelos de Portugal


domingo, 29 de maio de 2016

Espaço Memória


Rua 42, Parque Empresarial da Baía do Tejo.
Um eufemismo dos tempos modernos para localizar os despojos da Companhia União Fabril.
Como a ideia de transformar as ruínas em circuito industrial.
Impressiona o silêncio e o vento forte que vem do rio, porque a margem já não oferece resistência.
Impressionam os espaços vazios e os edifícios de cores vivas que submergem a ferrugem das instalações industriais que já não deitam fumo e que perdem com o tempo o encardido do enxofre que, há muito, desapareceu do ar.
Impressiona o ar puro que entra diretamente do mar, pelo rio adentro.
Não há praticamente espaços apertados, ruas cercadas de muros altos e sem céu.
Impressiona a imensidão do céu.





E na rua 42, abriu por uns dias a fábrica das tintas.
Mais um eufemismo dos tempos modernos para caraterizar mais um novo espaço de intervenção artística nas ruinas de um espaço industrial.
Uma nova liberdade, do género, está em ruinas disponham do espaço, como se autorizássemos os vizinhos a plantar no nosso quintal toda a anarquia que grassa nas nossas mentes
Under construction, referia conformado o agente do Bruno, o fotógrafo, devia ser o agente pois tinha um forte sotaque italiano, enquanto se debatia furiosamente com os plásticos negros que procurava fixar nas janelas sem vidro, enquanto o vento desfazia as instalações, que era pressuposto estarem instaladas.
A ideia de espetar pregos em cima de plásticos pretos é boa, porque realça a tolerância que um espaço em ruínas tem com o experimentalismo. Não há buraco que danifique um espaço como estes.
A hospitalidade neste espaço ( eu gosto da hospitalidade destes espaços e do experimentalismo desta malta) crescia à medida que a banca da cerveja se preparava para a noite da cena da margem com o dress code “a tua cena” e lá fora uma autocaravana que parecia ser do italiano, ele ainda não fotografou em Portugal, talvez agora ou depois e eu já estava a imaginar que era naquela caravana que o Bruno iria para a Rússia, fotografar ruinas de instalações industriais.
Palavra de agente de barba desalinhada, cabelo encaracolado e voz enrolada pelo sotaque e pela dificuldade em ler a mente do artista que, basicamente, andava por aí.
Pode ir ao primeiro andar mas cuidado, não pise muito o chão, porque está líquido.
E não era sentido figurado.
Tratava-se de um líquido lançado para o que restava do chão de tacos do primeiro andar que seria o escritório da fábrica das tintas e a instalação tinha todo o sentido porque pretendia evidenciar quão prematuros são os espaços e quão fluídos são os seus destinos.
Entre e veja o exercício de cor que o artista criou na fábrica de tintas.
Quando voltar do primeiro andar os diapositivos já estarão a funcionar e pode ver os diapositivos do Bruno.
E vi, sozinho, porque ninguém para aqui vem, para este espaço fantasmagórico a não ser para beber ou dançar ao som de um DJ underground e muita malta vestida de preto e de pelos ao vento.
E a noite era só mais logo. 
Exceto eu, o segurança que me introduziu no espaço pelo portão fechado das traseiras – bom, todas as entradas são traseiras – o condutor da autocaravana, o franchisado do bar de campanha em montagem, o puto dos folhetos (que tomava conta do Ipad que descrevia o making off da instalação numero um), o agente do Bruno e mais dois latinos, de nacionalidade variável, que espetavam os plásticos pretos nas ombreiras do que teriam sido janelas.
Portanto, exceto eu, e um espaço imenso para experiências e, o mais fantástico sem correr riscos de ser detido por intrusão em espaços sem dono.
Ao abrigo das contemporaneidades do espaço industrial

Adoro estas cenas!




segunda-feira, 25 de abril de 2016

Margem Sul



(Porque sou filho da margem sul)
(Porque, parece agora, que sempre vivi na outra margem)
Os regressos fortuitos despertam ambiguidades;
Primeiro, uma completa desorientação espacial
(os lugares conhecidos desaparecem da nossa planta visual)
e juramos que os lugares comuns da nossa memória se desvaneceram,
um túnel, um viaduto, que procuram camuflar a dependência da cidade pela ferrovia, a mesma linha férrea que sempre se intrometeu entre a cidade e o rio, agora despromovida a linha regional pelo comboio da ponte, um fórum comercial que entope a linha de fronteira entre a urbe e o complexo industrial que a fez crescer,entre as nuvens de enxofre,
(e nós que achámos que as pequenas mais giras do distrito, eram fruto do enxofre)
O lavradio, agora disputado entre os espaços comerciais e de lazer, as novas industrias de poluição controlada, os espaços de serviços de trabalho partilhado e uma ambição museológica que pretende abrir as vistas do rio, numa marginal devolvida a uma população.
Mas quando me aproximava do rio, das novas esplanadas das cidades históricas (aqui a industria foi a história) lembrei-me dos finos tubos que atravessam a apertada entre dois edifícios de um castanho entranhado, que só poderia ser no Barreiro.
Eram os mesmos tubos de um liquido qualquer, hoje transformados em estendal de todos os pássaros, mas que ali ficaram, para finalmente me situarem no espaço.
Eu conheço este lugar.
Sim, mais arejado pelos edifícios destruídos e pelo fumo, 
(sim lembro-me bem do fumo espesso de cheiro intenso)
Por debaixo das novas teias que a aranha (e a evolução dos povos) tece, estão os sinais de que a planta da cidade não foi rasurada.
E depois, fluíram todas as outras lembranças: o pavilhão da CUF, igual àquelas manhãs de Domingo em que competíamos de equipamentos amarelos à distância de duas tabelas de basquetebol, a paragem de autocarro junto à Câmara Municipal de onde saltávamos para a escurecida e decadente medicina desportiva, o estádio onde ainda me lembro de ver o Eusébio jogar, agora sem ter a certeza que é o mesmo, quase esventrado pelo final da via rápida, o cais dos barcos quando, a horas tardias esta era a única ponte para a outra margem.
E as lembranças não pararam de me relembrar as minhas origens...talvez por isso mesmo não me sinta estranho quando, de máquina fotográfica em punho, atravesso confiante a ombreira das portas das tabernas dos seres locais de copo de três e olhar oblíquo, na ostensiva esperança de me excluir de medo.
Mas eu sorrio para eles. 
Afinal sou da casa e já bebia imperial aos quinze.




terça-feira, 22 de março de 2016

domingo, 15 de novembro de 2015

Grand Submarine Canyon


O mar está flat no canhão da Nazaré.
Na Celeste almoça-se o McNamara Menu (apenas os distraídos)
O empregado é um caráter (hesitei muito entre o bruto e o rude) enigmático.
Depois chega o McNamara, ele próprio e o filho, rodeado de uma fauna de surfistas de meia idade e suas sereias latinas e o peixe grelhado renasce do prato.
Mas não almoça.
Aposto que a Celeste patrocina o passeio diário do americano. 
Aguardando pela próxima onda de trinta metros.
Hoje o mar está flat e o Mc desceu à vila.
Lá fora, a menina do cartaz alugo apartamento continua numa roda viva, clientes que procuram lençóis limpinhos e uma cama no bairro dos pescadores.
Há quem não confie na web.
O mar está flat para lá do farol
Na praia do Norte!
E adoramos o mar, e os cheiros do pinhal, da neblina e do por do sol.
Até que a noite nos cubra 







domingo, 8 de fevereiro de 2015

Lendas do Cabo




O Cabo Espichel é um posto fronteiriço para o mar de ninguém. Por isso, uma fronteira especial, porque não habitam povos de línguas estranhas do lado de lá, resta um mar de lendas, de ondas, de ventos, incerteza portanto.
Inóspito porque garante uma barreira entre o mar indómito e a terra dos homens, local onde construímos os nossos espaços de conforto.
As fronteiras são isso mesmo, locais perenes povoados de fantasmas daqueles que foram incapazes de passar para o aquém
Sombras e planos inclinados são o que melhor define a presença humana neste local!
Porque as lendas são apenas pretextos que não explicam a necessidade de salvação dos Homens



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Fé de Fátima



Cai a noite no vale
Santa Iria ganha uma inesperada áurea à medida que se desvanece a luz na rampa do horizonte, e as luzes traseiras dos autocarros abandonam a nossa memória, para lá do horizonte enquanto o céu reflete os símbolos de fé no esplendor de mármore
Cai a noite fria no Santuário, as vozes diluem-se no espaço imenso e os vultos arrastados tingem-se de contornos laranja
Um calor surpreendente emana da parede do templo, do espaço das promessas cumpridas através do fogo, um burburinho silencioso que deixa as almas a pairar no cheiro a velas queimadas ou na cera que arde, uma linguagem que apela aos diversos credos.
A fé ao anoitecer é um momento quase solene, capaz de converter um agnóstico a um qualquer credo íntimo e pessoal, longe das multidões e da crendice, dos santinhos e dos adereços de cera.

Especialmente longe da capela das aparições!



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Xira – A lezíria já não mora aqui




As memórias de Vila Franca espreitam das paredes, forram as calçadas do centro da cidade e procuram despertar em cada taberna ou casa de petiscos o Ribatejo das lezírias e dos campinos, dos touros e da festa brava.
Puro engano, traições da memória de uma idosa, que se prende aos detalhes de recordações longínquas e se abstrai dos montes que a não deixaram crescer, da autoestrada que a emparedou de encontro ao rio, esventrada por um caminho-de-ferro que não tinha mais por onde atravessar.
O rio Tejo, a sua verdadeira fronteira que a afasta da lezíria dos espaços amplos do (Ar) Ribatejo.
Apesar das tentativas de canonização terrena da tradição da terra, eternizada nos museus municipais, na praça de touros e na toponímica das ruas, largos e becos, o passado de aqui não sobrevive para além da festa do barrete verde.
Agora são os touros mecânicos de ferro e aço, de rodas e carris que irrompem pelas diversas latitudes da urbe que se habituou a ser entreposto e subúrbio, um corredor com vista para a miragem que transpira o suor dos viajantes.
Sob as árvores frondosas da língua de terra e paz, isola-se o jardim ribeirinho, que procura virar as costas ao burburinho, à descaracterização, aos comboios, e ao tráfego anárquico.
Os velhos nos bancos de jardim e os estudantes nas mesas da esplanada, escolhem os lugares virados para o rio pardacento e para a lama fértil das terras além rio, entre apitos das locomotivas e o miar lânguido dos gatos que se espreguiçam dentro dos botes ociosos, ao Sol e ao sabor das ondas.
Também eles sabem que as fragatas, os varinos e a faluas, são meros museus flutuantes de séculos de pesca no rio e já não saem ao rio nem desafiam nem o sável, nem as marés.
No silêncio do olhar vazio de uns e no burburinho incontido de outros, atravessa-se a ponte entre o passado e o presente, a lezíria e o subúrbio.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Coimbra A – O lado B da cidade



Todas as cidades têm o seu lado B.
Está na moda o lado B das cidades: alternativas, irreverentes, inconformadas, normalmente (propositadamente) abandonadas, mescladas de grafitis e edifícios em ruínas.
Menos visitadas e mais autóctones, restos da cidade que todos procuraram esquecer nas últimas décadas
Os diversos pedaços de cidade são como as modas, vão e veem, esquecem-se e idolatram-se e as últimas tendências do pensamento contemporâneo vão para além do tradicional revivalismo da arte: rendem-se ao passado, mas destruído, em estado puro, sem intenções de o reparar ou de o reconstruir à nossa imagem (do presente)
Puro e duro!
Por isso não há cidade que se preze que não tenha um novíssimo hábito de expor as entranhas ao Sol, e fazer delas, santuários vudus da história recente.
Antes que volte a fúria demolidora do império do betão.

Mas não é vulgar que o B seja o A.

Exceto em Coimbra,ao longo de uma obstinada linha férrea que procura aproximar a cidade histórica do eixo Norte Sul!


sábado, 19 de outubro de 2013

Oeste Menor II – Lourinhanosauros


Meio-dia e meia hora e o restaurante começa a encher-se de professores e alunos da escola vizinha, vendedores e empregados de escritório, e todos parecem conhecer-se, entre a sopa de grão com massa e o arroz de peixe que, por aqui, se serve ao prato “ porque me custa ver o desperdício” de quatro euros e meio.
Afinal de contas esta vila do Oeste profundo – sim, também há profundidade no litoral às portas de Lisboa – vive numa paz rural e poupada, entre a autoestrada e o mar, num descuidado visual, próprio de quem não tem tempo para os assuntos urbanos, nem património monumental para atrair multidões.
A Lourinhã é uma não zona, encravada entre os mosteiros e os castelos do norte e a grandeza absorvente da capital do império, onde mesmo as praias de areia branca e reputação aristocrática sofrem de uma súbita interrupção no mar encapelado mas feio e feroz do Porto da Barcas, local esburacado e entrincheirado pelo mar e pelo casario desordenado e nada reluzente.
O oeste por onde todos passam, sem parar.
Vimeiro a Sul, Praia da Areia Branca a Norte, mas não ali.
Excepto os dinossauros, milhões de anos atrás, segundo consta por vontade própria e os franceses napoleónicos que se terão enredado nas tortuosas geografias destes locais, esses por vontade dos ingleses (bom, e de alguns de nós também), também eles entrincheirados entre as Linhas de Torres e o regresso não desejado às origens.
(Aqui há alguma liberdade literária, porque não há referências aos franceses por aqui, e era no Sobral e em Torres – um pouco mais abaixo desta não zona – que se desencadearam as maiores e mais decisivas batalhas)
Consta contudo no assobio do vento que vem do mar em sopros largos e curvilíneos torneando os montes e penetrando no vale, que ainda deambulam almas penadas de uniforme napoleónico, nas perigosas e instáveis arribas da Lourinhã.
Pronto, e sem entender muito de escavações e bichos pré-históricos vejo-me na contingência de por aqui rondar sem destino nem companhia (não há gente na vila à hora do almoço, versão sesta ocidental e marítima, ou apenas a malta vai almoçar a casa?), esperando pacientemente (eu e os velhos do largo da igreja que me olham desconfiados, mas nada curiosos) a abertura do museu, que fechou para almoço das quatro entusiasmadas e orgulhosas colaboradoras e só abre as velhas portas depois das duas e meia.
Orgulhosas e de um brio profissional de quem sabe que nunca mais este local foi tão profícuo e famoso quanto há 100 milhões de anos!


E têm razão. Apesar de só e pouco impressionado com o espólio etnológico e com a sala das profissões, de dinossauros percebem eles.
E, apesar de só no pavilhão da paleontologia, rodeado de bichos enormes (e, ainda por cima carnívoros), não senti muito medo, porque de facto só restavam ossos e todos os placards me garantiam que já tinham morrido há uns largos milhões de anos.
E estes não são tão espectaculares quanto as réplicas de materiais sintéticos doutros lugares, mas são genuínos, ossos, ovos e a reconstrução do grande carnívoro que atravessa a sala e cujo nome se me eclipsou!
E as descobertas de ossos continuam!


Museu da Lourinhã descobre novo fóssil de dinossauro carnívoro e termina Agosto com uma mão cheia de novos achados de dinossauros.
Terminou na semana passada mais uma campanha de verão do GEAL – Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã – que tradicionalmente concentra as suas escavações nesta altura do ano, nos afloramentos do Jurássico Superior da Lourinhã, com cerca de 150 milhões de anos.
Este ano, os resultados incluíram pegadas e ossos, com destaque para um dinossauro carnívoro de pequeno porte, com menos de dois metros de comprimento. Este esqueleto de dinossauro não está completo, mas está muito bem conservado e articulado (com os ossos na posição anatómica, tal como em vida), o que é muito raro. A análise preliminar indica que poderá tratar-se de um representante de um grupo de dinossauros carnívoros raros em Portugal, os celurossauros.