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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Simbolos - CHRISTMAS’ EVE - Essência

Um dia, 09 de Dezembro, duas perspetivas, os símbolos e a essência, três elementos envolventes, o rio, o castelo e o casario ingreme e gasto, quatro bairros da cidade antiga, Graça Alfama Mouraria e Bairro Alto


Christmas `Eve é uma história de Natal, desenhada a dois ao longo de um mesmo percurso, partindo de visões individuais que, a cada momento, se transformam em dípticos que nos confrontam ou complementam na dicotomia entre a ideia de símbolos e da essência, duas palavras – e, mais do que isso, conceitos – que nos lembram o Natal.
Os símbolos são manifestações abstratas de uma ideia ou de um conceito, um elemento representativo que materializa numa realidade visível, algo não palpável, uma realidade invisível.
A essência é o que constitui o ser e a natureza das coisas, o caráter distintivo, puro, subtil e a ideia principal.
E quando, a pretexto do Natal, confrontamos os nossos diferentes olhares (afinal de contas partimos de duas ideias diferentes) descobrimos que as nossas imagens unidas por momentos, expandem a nossa visão individualista sobre o que nos rodeia, expressam a diversidade da nossa vivência e atenuam os significados das palavras.
A diversidade exprime-se na escolha dos objetos e das opções estéticas
O miúdo que olha para os símbolos com uma veia eclética, não há fronteiras estéticas ou morais entre o Pai Natal que procura subir à janela e as obras de arte urbana que lhe lembram épocas festivas, e as suas imagens adquirem vida própria especialmente através da vertigem dos prédios inclinados, das ruas ingremes, dos sinais ostensivos, tirando partido dos elementos, diria mais, submetendo (submissão dos) os símbolos aos elementos envolventes, o rio, o castelo e o casario, desafiando os observadores a encontrar as subtis singularidades que apelam a uma época especial, pois raramente uma época tão efémera se sobrepõe à paisagem do quotidiano que molda os seus habitantes, que ele prefere manter atrás das janelas do bairro.
O velho olha para a essência através de uma estética mais convencional, condicionando os elementos envolventes ao elemento principal, as figuras e as pessoas, enquadrando-as em cenários horizontais, planos e sem dinâmica própria (nem vertigem) percorrendo, um por um, os diversos imaginários de um Natal clássico, a árvore de natal, os sapatinhos das prendas, a presença dos avós e o sorriso das crianças, a religiosidade do momento e os reis magos, os cartões de boas festas, os heróis do fantástico e o circo. Sem se intrometer demasiado na modernidade da arte (a não ser na figura de Pessoa que, afinal de contas, bem podia ter sido o quarto rei mago) E até o bacalhau.
Mas o velho não consegue evitar a dualidade. É uma forma convencional de fazer frente às subtilezas do miúdo. E a dualidade, do ponto de vista do velho exprime-se, com algum desencanto, na solidão envolta em todos elementos principais da história, nos avós que arrastam as suas sombras, indiferentes aos sinais do meio envolvente, nas figuras que parecem sempre querer desaparecer na paisagem, nos movimentos apressados que parecem não ter tempo para prolongar a festa, para além de um momento efémero. Ou dos postais de natal que nunca chegamos a enviar.
É apenas uma forma de afirmar que o Natal também é a época dos esquecimentos perdoados.
E o velho concorda com o miúdo, que só se capta a essência quando isolamos aqueles nano segundos de felicidade efémera e os conseguimos congelar no tempo para, de seguida, os representarmos sob uma forma que nos permita disfrutá-los.
Quando conseguimos isolar, e depois perpetuar, as nossas mais profundas lembranças.
Que não é, de todo, diferente da ideia dos símbolos
Por isso mesmo, quando confrontamos as nossas visões, equilibramos os olhares entre as pessoas e a sua envolvente e reduzimos as diferenças entre o significado de símbolos e de essência.

Atenuamos o significado das palavras e expandimos as nossas perceções.


domingo, 27 de dezembro de 2015

Sete bicas



Nas vésperas de Natal na curva das sete bicas havia uma fonte de luz rosa que insistia em atrasar a consoada, solitária fonte de arraial fora do seu tempo que procurava chamar a atenção para o facto do Natal ser quando o Homem quiser.
Não havia transeuntes nem pipocas, apenas uma luz desconcertante na curva das sete bicas.
Imaginei vultos apressados que passavam sem parar, mas a única imagem que prevaleceu era de uma casa de bonecas que tinha caído do trenó do Santa, uma curva apertada, ali para os lados da fonte das sete bicas.
E ela ali ficou, provavelmente toda a noite a anunciar a chegada de uma noite de magia.
Nas vésperas de Natal apeteceu-me uma fartura, mas não parei.
Provavelmente porque tinha pressa, ou porque duvidei da visão de uma casa de bonecas colorida e luminosa, tão surpreendente que só podia ser uma miragem, uma reminiscência tardia de conto de fadas.
Mas nessa noite sonhei com a churraria Nanda, com as pequenas luzes a brilhar e o fumo que saía pelas janelas e juro que até senti o cheiro, tão real que não podia deixar de ser verdade.
E até ouvi canções de Natal!
E quando acordei, lembrei-me dos tempos em que acreditei no Santa.
E depois da noite do Santa, voltei à fonte das sete bicas e a casa das bonecas estava lá, onde eu a tinha deixado.
A luz estava apagada, não havia fumo a sair da janela nem cheiro a farturas, mas a casa rosa era a prova de que o pai natal tinha por ali passado, apressado e descuidado, e por ali tinha deixado a prova da sua existência.
Por detrás da roulotte rosa, nascia uma árvore que, na noite de consoada, bem poderia ter sido a árvore de natal das sete bicas!

sábado, 26 de dezembro de 2015

O Sol de Inverno

O nosso Natal nunca foi feito de tons de branco, longas harmonias à volta da lareira ou de canções tradicionais.
Um imaginário nunca alcançável. 
Apenas intervalos na agitação das noites longas embrulhadas em grandes volumes de papel colorido e panelas estridentes e de um vai e vem nas autoestradas reflectidas pelas luzes frias espelhadas no azul das placas de sinalização.
Reflectoras da nossa vida em passo de corrida.
Apenas intervalos. 
Como o Sol de Inverno nas manhãs desertas do dia 25.
O Natal não seria o mesmo sem este fim de festa, em que o tempo pára e nós pairamos sobre o limbo do presente.
O que mais se aproxima do imaginário de paz. 
Que o digam as renas perdidas entre os espelhos do rio e os reflexos das margens!














sábado, 27 de dezembro de 2014

Irmandade




Subi logo de manhã à Torre da redescoberta Irmandade à procura de um lugar privilegiado entre os apóstolos do Natal, e sentei-me à espera.
Era hoje que iria confirmar se o Pai Natal afinal sempre atravessava os céus num trenó puxado por centenas de renas.
Por isso fui cedo. Assim poderia estudar as rotas de mais perto, com mais tempo, sem as agitações de última hora, acender as luzes da pista de aterragem e, quem sabe, afagar pelo menos uma haste de rena, passassem elas ao nível da torre.
E se Ele fosse apenas um ser vulgar, anónimo, e, quão vampiro, se transformava na noite mágica a ele e a todos os que persistissem em vaguear na rua após o anoitecer, uma espécie de legião de Cinderellas a fugir da meia-noite inundados de presentes, e se as renas fossem apenas uma mistificação?



Tornei-me assim mais atento aos seres normais, com a proteção da Irmandade e a segurança das alturas.
E as horas passaram, o Sol subiu sem vergonha e desceu escondido entre o cinzento das nuvens.
E eu cansei-me de esperar. Afinal de contas não queria correr o risco de me tornar vampiro quando o sino da torre tocasse as doze badaladas
Do meio-dia ou da meia-noite!

Desci a torre a correr , convencido que estava a ser vigiado por seres extraterrestres, sem conseguir distinguir o que era a magia do Natal e um filme de ficção cientifica!


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O comboio fantasma



A imagem do comboio a cirandar no vale escuro do Mondego oeste na escura noite de natal, assaltou-me os sonhos.
Apareceu do escuro, só poderia ter aparecido da curva do rio, para lá da Figueira, a caminho das Caldas, duas carruagens sem locomotiva, entre o escuro e a berma, e o meu olhar fustigado pela vertigem da autoestrada reparou que vinha quase vazio, porque os vultos não sobressaiam da luz, aquela luz de fim de festa, amarelo sujo, sinónimo de melancolia de uma celebração que não sobreviveu ao regresso.
Na linha do Oeste, concorrendo com a autoestrada escura, esta árvore de natal rolante e de cores sóbrias percorria o vale a cumprir um horário absurdo, porque na noite de natal não é pressuposto vislumbrar o comboio fantasma, porque na noite de todas as estrelas, o pai natal deve sobrevoar o vale num trenó guiado por renas sábias e no velho trem do oeste só o revisor sobressaia, hirto como uma rocha cinzenta, e até de cima da vertigem da velocidade eu consegui perceber que ele furava bilhetes e não entregava presentes.

Tão fugaz foi a visão, que sonhei toda a noite com o comboio fantasma que não se cansava de apitar, ligando todas as imagens desfocadas que coleccionara no dia de Natal!


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Véspera de Natal




Choveu a potes na manhã cinzenta na escura cidade do granito, ao que consta impenetrável aos terramotos e aos voos picados das renas e do pai natal.
E as pessoas fugiram do centro, as ruas ficaram mais escuras e viraram as costas às luzes e às festas, numa humidade que fustiga o vento ameaçador e gelado de um Inverno que varre as calçadas rasantes com um brilho que realça a ausência de cores e luzes de natal.
Nas traseiras da prometida consoada, descobrimos os bairros étnicos de geografias invulgares e de crenças pouco fervorosas, habitantes que povoam os recantos e as ladeiras da cidade velha e que fecham as trancas dos bazares, sem companhia nem filas de cristãos à procura de lembranças fluorescentes, e procuram evitar as armadilhas dos buracos que se enchem de água e lama, praguejando em línguas estranhas contra os incompreensíveis desaforos dos locais.




À procura de um refúgio seco e incólume à adoração aos santinhos e às figuras de presépio que aguardam o nascimento do menino.
As tabernas destilam a jargão vernáculo, tão longe das cabanas de palhota e dos burrinhos e das vacas que adoram o nascimento de um mito, tão próximo do casario descrente e desolado, do bafo envelhecido dos que acreditam que a consoada é um copo de vinho tinto entornado no balcão comprido de pedra fria da tasca obscura da calçada que se inclina dos jardins até ao rio.
As pessoas fugiram do centro e as ruas ficaram mais escuras.
Quando a chuva regressa com o final de tarde, o céu de chumbo despeja impropérios e afugenta os últimos seres normais que procuram encontrar um beiral que os albergue
Para o outro lado do jardim, para longe da outra face da véspera de natal!



sábado, 24 de dezembro de 2011

O mago Havel

É revelador que seja nos períodos de profunda crise de contornos precisamente materialistas que as mentes inquietas evoquem a ideologia e os valores como os únicos elementos catalizadores da felicidade e do bem estar.


Relógio Astronómico Praga 2011



Havel é um Homem de valores: não é crente mas exorciza o ateísmo da nova civilização, a falta de crença em algo de superior e não explicável, a ausência de ligação à eternidade e ao infinito.Foi um revolucionário, fez questão de se assumir como o mais não político de todos os políticos de Estado.
Nunca abdicou de ser intelectual - os que prevêm as catástrofes morais - não se coibiu de exaltar à transcendência como a unica forma de preservar os valores da humanidade europeia, mas assumiu-se como um estadista que sabe que nada é evidente nem previsivel...
Como as antigas civilizações europeias assumiam!
Lutou por destruir o regime das certezas absolutas e incomodou-se com a tendencia ocidental para a certeza absoluta e para a  cega confiança no irredutivel poder da tecnologia.


Independentemente da topografia da crença, o espírito do Natal pode ser o de comunhão com o infinito e a eternidade
Ajuda-nos a recuperar a modéstia e a aceitar a imprevisibilidade do destino humano, relembra-nos o espiritual e a necessidade de nos transcendermos para garantir o nosso futuro
Obrigado mago Havel és um verdadeiro Pai Natal da esperança europeia.
Que sejamos capazes de te ouvir na eternidade - o que quer que seja que ela representa!