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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Não há regimes perfeitos - parte 2


Melhoraram as previsões meteorológicas, sempre acompanhadas de ameaças de agravamento do estado do tempo. Incomodam-me estas alternâncias húmidas do tempo.
Já não chove no Braço de Prata, esboça-se uma espécie de claridade em Belém. A Junta de Freguesia faz a festa sozinha no paredão, o som é de Carnaval tardio.
Recordo-me do abandono e do desleixo perante (a exposição do) trabalho e a sofisticação perante a anarquia, quiçá a miséria.
E no soberbo espaço da central elétrica, manifestação de um confortável mecenato às artes de vanguarda, volta a desfilar a galeria de horrores, debaixo dos holofotes de luz precisa e de um enquadramento formidável.
A eletricidade como Santo Graal
Todos os anos a fila se repete e os premiados se esforçam por dar voz aos refugiados, às vítimas inocentes da guerra, aos deserdados da poluição e da fome, aos objetos de regimes abjetos.
Mas o silêncio é sempre maior, todos os anos que passam. Progressivamente, à medida que terminam as imagens de desporto e natureza, os transeuntes remetem-se à escuridão e ao isolamento perante a multidão que circunda as imagens da atualidade.
(e não consigo deixar de pensar, mesmo que apenas por um breve instante que não consigo agarrar, se a reportagem descreve, alerta ou forma a realidade)
E, mais uma vez, a anarquia é proporcional ao protagonismo, a violência das imagens contrasta com uma meditação à meia-luz, aquelas sombras que anestesiam os efeitos de um mundo descontrolado.
Imagens poderosas de um futuro inebriado por um novo ciclo de extremismos.
Porém, fotografar refugiados com água pela cintura (o fotógrafo) também poderá ser obsceno?
Especialmente porque se trata de uma competição, de um prémio e de múltiplas carreiras.
No espaço arejado da antiga central elétrica, alternância tem outro significado. Não deixo de pensar como o pós industrial pode ser mais sedutor do que a realidade.
Mas nem por isso desisto de um sofisticado café de máquina, de um olhar seduzido para o movimento no rio, para a ponte que liga as duas margens e para os aviões que se deslumbram na aproximação à cidade (na melhor aproximação à cidade, do mundo)



E o Sol luta contra as ameaças de agravamento do estado do tempo.
E eu refugio-me em paisagens interiores, e sobretudo nos interiores da História, especialmente depois deste cru confronto com a atualidade, agora que o tempo vai piorar e a Junta desiste da festa porque o vento Sul ameaça romper as bandeiras
E inverter a aproximação dos aviões à melhor aproximação de cidade do mundo.
E voltamos aos armazéns desolados das traseiras da avenida da índia, aos becos estreitos dos bairros esquecidos pela marginal, para encontrar as memórias – tal como o trabalho, para os lados do braço de prata.
Não posso deixar de me repetir que a sofisticação é um universo (cada vez mais) exclusivo ( de divulgação) da anarquia e da miséria humana
E que o outro nós se revê na simplicidade.



Desprovida
Deserta
(Levemente) Desolada.
Não havia filas nas paisagens interiores (de Maputo que já foi Lourenço Marques)
Ninguém.
Mas a imagem do cinema teatro de Lourenço Marques é demasiado familiar, mesmo para quem nunca esteve em África, como se já tivéssemos vivido tempo suficiente para fazermos parte dos últimos capítulos dos compêndios de História Moderna (e eventualmente Contemporânea)
…As paisagens levam-nos…a uma viagem interior…a banalidade da ação contrasta com um passado que evoca emoções por quem lá passou…contraste entre o distanciamento e a proximidade
Não será contraste, será dicotomia.
Nas paisagens interiores não havia pessoas, e isto era uma garantia, para já, de que não havia anarquia nem miséria, apenas esquecimento.
Na parede e na sala.
Na cronologia da história de que me recordo, o esquecimento precede a loucura.

Bom, em tese!

sábado, 12 de dezembro de 2015

Improvável


Olha, NZ, neo nazi – e soltou um riso alarve, apontando para a caravana estacionada no parque, do lado de fora do vidro.
E com o riso, soltou os dentes apodrecidos e despertou a atenção de quem se satisfaria apenas com um café, tomado tranquilamente ao balcão
Afinal NZ era provavelmente uma afirmação de identidade do proprietário da caravana, cuja matrícula bem podia ser oriunda da Nova Zelândia.
Mas o espécime com raízes jamaicanas e um sotaque de Alcântara pretendia certamente verbalizar a sua irreverência estética numa frase com o mesmo impacto visual.
Mas não conseguiu, acentuando apenas o aspeto de fora de época de Belém em vésperas de Natal.
Em frente, tão lá fora como cá dentro, jazia o terminal de barcos, vazio de fechado, que gemia de ruídos metálicos, provocados pelo batelão solitário que se contorcia de dores.
Nada convencional para um Sábado de manhã cheio de Sol e de temperatura amena.
O NZ e todos os outros caravanistas abriam as suas esplanadas próprias e almoçavam com vista para o rio.
E o batelão gemia contra os ferros.
E apenas alguns transeuntes se exercitavam pela beira-rio fora, procurando sem êxito manter as rotinas de um fim-de-semana de Sol junto à água.
E importante não esquecer um grupo de polacos que prolongavam hoje as preces de uma primavera em Varsóvia.
Se não fosse o silêncio e o vazio inesperado desta manhã, nunca teria reparado no barbudo de tranças frisadas que tresandava disparate, nem nos caravanistas que tinham aqui chegado da NZ e que almoçavam com os pés em cima do rio, nem nos pescadores de rio que, ao contrário do que seria convencional numa manhã de Inverno, pescavam ao Sol, sem impermeáveis que os protegessem dos, mais que prováveis, vento e chuva.
O rádio do bar de Verão, anunciava trânsito intenso no Martim Moniz, na Avenida da Liberdade, na Avenida Fontes Pereira de Melo, na…
Afinal de contas, não há nada de não convencional neste silêncio dos solitários.
Por convenção é Inverno, logo chove, logo ninguém passeia no rio.
Por convenção é Natal que, por convenção, desperta uma fúria de presentes, avassaladora.
Logo, a cidade virou-se para as avenidas e desprezou o rio.
Mesmo que o rio nos tenha brindado com um azul de alegria e primavera, mesmo que o céu tenha despejado sol sobre as margens
Afinal de contas, não podia ser mais convencional o silêncio dos inocentes.
Se eu tivesse perguntado ao barbudo – mas não perguntei – o que ele achava de menos convencional na paisagem da manhã, talvez ele me tivesse respondido que é a forma como nós, portugueses, procuramos contribuir para o aquecimento global, uma atitude verdadeiramente irreverente em fim-de-semana de convenção do clima.

O presidente francês, o novo mago do clima, teria certamente reprovado o barbudo jamaicano, por aquilo que ele disse e por que aquilo que ele podia ter pensado.